A Mulher Estranha
— Coisas muito ruins. Nada saiu como planejado e isso me custou tudo.
— Sinto muito.
— Agora estou morando em uma casa próxima a Models Baby. Estou sozinha, faço pouco barulho e quase não saio. Então não tenho problemas com os infectados.
— Aqui também é a mesma coisa — Disse Tom, cruzando os braços — só saímos para repor alguns mantimentos, roupas e etc.
— Tenho medo daquelas coisas.
— Todos nós temos. Mas agora precisamos aprender a conviver com elas.
— É triste saber que algum dia aquelas coisas foram pessoas normais — falou Alexis — tinham família, filhos, mulheres e esposos.
— Agora só o que resta é sobreviver e rezar para que as coisas se estabilizem — disse Patrick enquanto olhava para uma das janelas.
— Bom. Eu não pretendo tomar todo o tempo de vocês. Então... — Ester parecia calma, mas por dentro estava impaciente.
— Vou buscar suas coisas — Patrick se retirou da sala.
— Se precisar de mais alguma coisa é só vir aqui que iremos te ajudar. Não temos muito mas o que temos podemos dividir. — Alexis se sentia desconfortável e comovida ao mesmo tempo.
— Eu agradeço. Mas não irei perturba-los, prometo. Aceitei a ajuda de Patrick por que realmente não me alimento de algo decente a algum tempo.
— Aqui esta — Patrick veio da cozinha carregando duas sacolas cheias — estão um pouco pesadas por causa dos pacotes de arroz.
— Eu ajudo ela a levar — disse Alexis deduzindo de cara que Ester não conseguiria levar as duas sacolas sozinha.
— Tem certeza? — perguntou Ester — eu não quero mais tomar o tempo de vocês.
— Não tem problemas. Eu posso ajudar nisso. Pelo que você nos disse sua casa não me parece ficar muito longe daqui.
— E não fica. Mas...
— Sem mas. Vou ajuda-la.
— Obrigada.
— Disponha. Só não tente levar meu filho outra vez. Ou vou ter que por uma bala na sua cabeça.
— Justo.
— Vou pegar algo que nos sirva como arma, caso apareça alguma daquelas coisas.
Alexis seguiu para a cozinha e Patrick a seguiu.
— Vou com vocês.
— Não vai não.
— Por que?
— Porque eu disse que não vai — ela começou a revirar as gavetas.
— É perigoso.
— Buscar o berço sozinho também era. E você foi mesmo assim. Agora pare de me encher e me ajude a escolher uma boa faca.
— Então é isso, tudo charme por que eu não levei você.
— Não sei do que esta falando.
— Sim você sabe.
— Já falei para não me encher. Você vai ficar aqui com o Ben e meus pais. Ninguém mandou você ir buscar o berço e voltar com uma mulher.
— E o que eu devia ter feito? Deixa-la morrer de fome?
— Não. Você fez a coisa certa e agora é a minha vez. Vou ajuda-la a levar a comida e sem a sua ajuda.
Patrick suspirou, inconformado com a decisão de sua esposa teimosa. Sabia que não conseguiria a fazer mudar de opinião e o jeito foi ajuda-la a se armar.
Minutos depois voltaram a sala e de lá seguiram para fora da casa.
— Eu volto logo — disse Alexis segurando uma das sacolas ao lado de Ester.
— Não se preocupe, vamos ficar bem sem você — Patrick riu.
— Assim como nós ficamos sem você, se lembra? — ela o desafiou.
— Isso doeu, devo lembra-la de quem a salvou?
— Não enche — ela deu as costas.
— Você me ama que eu sei.
— Fico agradecida com a ajuda — disse Ester, também dando as costas para a casa.
Ambas seguiram lado a lado.
— Posso te fazer uma pergunta? — Ester quebrou o silêncio que pairava entre as duas.
— Claro.
— O seu filho. Como foi o parto? Creio que não foi em um hospital.
— E realmente não foi. Minha mãe fez o parto do Ben com ajuda de um manual de grávida.
— Deve ter sido apavorante para você.
— Sim. Fiquei com medo de perder meu filho. Mas também fiquei com medo de te-lo nesse novo mundo apocalíptico. No fim tudo deu certo.
— Será que deu?
— Por que acha que não?
— Eu não acho, mas sei lá. São tempos estranhos para criar uma criança.
— Ainda tenho esperança de que tudo volte ao normal.
— E faz bem. Não podemos perder a esperança. É só o que nos resta agora. Principalmente para vocês que ainda possuem motivos para lutar.
— Todos possuem algum motivo para lutar.
— Eu não. Perdi tudo o que tinha para perder. Não me resta mais nada.
Elas passaram próximo a Models Baby e aquilo causou uma certa nostalgia do segundo encontro de ambas.
— Estamos perto?
— Sim, graças a Deus. Essa sacola está pesada demais. Nunca fui fã de pegar peso. Esse trabalho ficava com meu marido, era ele que sempre resolvia esse tipo de coisa.
— As ruas estão silenciosas demais — Alexis olhou em todas as direções.
— Sim. No inicio tudo era bem barulhento. Desde os gritos das pessoas até os urros das criaturas. Agora não se ouve quase nada, pelo menos não nessa cidade.
Continuaram a andar até que chegaram em um novo quarteirão.
— É ali, naquela casa com as janelas cobertas por papelão — Ester apontou para a terceira casa da rua a direita.
— Por que colocou papelão nas janelas?
— Para que a luz das velas não atraia nenhuma daquelas coisas. Mas agora com o sumiço delas estou pensando em retirar todos esses papelões.
— É um belo quarteirão.
Elas pararam de frente para a porta.
— Mais uma vez obrigada — disse Ester colocando a sacola no chão.
— Disponha — Alexis fez o mesmo.
— Vou levar as coisas para dentro e em seguida vou preparar algo para comer. Estou faminta.
— Nos visite sempre que quiser.
— Pode deixar.
— Se cuide ai.
— Você também. Tome cuidado.
Alexis deu as costas e começou a caminhar de volta.
— Alexis — Ester a chamou.
— O que? — ela se virou e nesse momento um objeto sólido colidiu com seu rosto. A fazendo cair desmaiada sobre o chão frio da calçada.
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