Capítulo 36 - Nuances de uma tragédia
Abra seus olhos, assim como eu abri os meus
Esse é apenas o mundo real, você nunca saberá o que é uma vida
Deslocando seu peso pra se desfazer da sua dor
Bem, você pode até ignora-la, mas só por pouco tempo
(Careful - Paramore)
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Nunca pensei na forma que iria morrer, mas dar minha minha vida em troca da de quem eu amo me parece bastante digno e encorajador. Há minutos de entrar em confronto com o homem que acabou com minha inocência e a fantasia do principe encantado no cavalo branco, a minha única preocupação é a segurança de Sarah e Lizzie.
Sei que posso estar me precipitando, mas há alguma coisa em todo esse plano orquestrado por Anthony que me faz pensar que não posso simplesmente cruzar os braços e esperar.
Com a ajuda de Rosalie, uma antiga amiga, consegui encontrar o local e chegar até ele antes mesmo da polícia. Observei as viaturas paradas ao longe, conforme o combinado na delegacia e pude ver também uma ambulância com paramédicos prontos para entrar em ação, caso algo desse errado e alguém se ferisse em meio ao confronto.
Respirei fundo e pus em prática o que planejei. Conforme Rosalie havia me dito, a casa era antiga e seria muito provável que houvesse algum tipo de porão subterrâneo, daqueles com portinholas ao chão, trancados por correntes.
Esperei o sol se pôr, tentei me esconder entre os arbustos, evitando ser vista pelos policiais nos carros e principalmente por Anthony e sua parceira, consegui chegar até os fundos da residência e "bingo", lá estava a porta que eu almejava.
Saquei de dentro da minha mochila um pé de cabra e forcei a corrente frouxa, fazendo-a se partir com facilidade. Com auxílio de uma lanterna, desci as escadas de madeira e fui adentrando o local com cautela, para não correr o risco de ser pega.
Aquilo era uma verdadeira pocilga, não havia nenhum tipo de ventilação, as paredes, assim como os poucos móveis e o chão, estavam imundos. Ao centro se encontrava uma coluna de cimento e preso a ela, uma corrente com algemas. O cheiro de mofo e bolor me invadiu as narinas e teias de aranha se prenderam aos meus cabelos me causando repulsa só de pensar que minha irmã poderia ter sido mantida naquele lugar nojento.
Iluminei a porta de acesso a casa e subi seus pequenos degraus, tentando abrí-la, mas nem mesmo Shane seria tão estúpido a ponto de deixá-la destrancada, sabendo que esse seria o caminho mais fácil para alguém invadir o local.
Infelizmente, ou felizmente nesse caso, eu já cometi erros nessa vida, dos quais não me orgulho nenhum um pouco. Um deles foi ter andando com um pessoal bem barra pesada, antes de entrar para a faculdade.
Donnie Corbett era um bad boy conhecido por cometer alguns pequenos furtos à residências e condomínios da região. Eu o conheci em uma das muitas vezes em que entrei escondida na boate do melhor amigo dele, Aaron McQueen.
Foi Donnie quem me ensinou a abrir qualquer fechadura, usando apenas um grampo de cabelo ou clips de papel. Em poucos minutos consegui destravar a porta e invadir a casa como pretendia.
Eu tinha total conhecimento de que a casa deveria estar repleta de câmeras para todos os lados, então assim que deixei o cômodo bolorento, me abaixei e fui engatinhando pelo corredor extenso, driblando os objetos que poderiam entregar minha presença.
A luz baixa usada no lugar era bastante útil, já que me permitia ver sem a ajuda de lanterna, mas também me dava a chance de me esconder, caso fosse necessário.
Fui me arrastando, procurando o possível cativeiro. A casa era imensa, haviam inúmeros quartos e cômodos amplos sem móveis, evidenciando o fato de que ninguém vivia alí há anos.
Todas as portas se encontravam abertas, exceto a última, ao fundo da passagem. Era lá, eu tinha certeza que minha irmã e minha sobrinha estavam presas naquele quarto.
Ainda abaixada, cheguei até ela. Tentando fazer o menor barulho possível, abri a fechadura da mesma maneira que fiz para adentrar a casa e consegui finalmente ver aqueles dois pares de olhos azuis flutuando espantados sobre mim.
— Tia Emma! — Lizzie correu ao meu encontro, assim que deixei a porta se fechar atrás de mim.
— Shi! Shi! Shi! — a tomei em meus braços e lhe pedi silêncio — Fala baixo, meu amor!
Sarah ainda parecia não acreditar que eu estava mesmo alí — Como entrou aqui, sua maluquinha — seu abraço era tudo o que eu precisava para sentir que tudo ficaria bem, dali para frente — Shane é perigoso, está transtornado e fora de si.
— Eu sei disso, por isso precisamos sair daqui o mais depressa possível — segurei as mãos delas entre as minhas — Eu entrei pelo porão, mas é arriscado voltar por lá, ele pode nos encurralar — meus neurônios ferviam, tentando encontrar um modo de sairmos ilesas de tudo aquilo — Anthony e uma guarnição estão lá fora, só precisamos chegar até a porta da frente. Você sabe como ir até lá?
Ela negou com a cabeça — Ele me trouxe vendada até aqui, não faço ideia de como andar lá fora.
— Eu sei! — revelou Lizzie — Quando o homem mau machucou o vovô e me trouxe pra cá, eu vi tudo bem direitinho.
— Tem certeza, minha filha? — inquiriu Sarah, duvidosa.
A pequena anuiu, certa do que nos dizia — Tenho, mamãe.
— É nossa melhor chance — apertei firmemente a mão de minha irmã, tentando lhe transmitir confiança.
Ela concordou e seguimos os passos de Lizzie.
Nos protegendo das câmeras de vigilância, fomos nos esgueirando pela parede, pelo caminho em que a menina nos guiava. Era arriscado andar pela casa daquela maneira, principalmente por não sabermos onde Shane andava, aquela altura.
Quando já nos aproximávamos da saída, vendo o cair da noite pela janela cercada por grades, escutamos vozes vindas de longe, no interior da casa, em seguida uma arma foi disparada, causando um barulho seco e estrondoso em nossos ouvidos.
Mais alguns murmúrios e outra bala foi lançada. Nos seguramos uma a outra e corremos o mais depressa possível tentando chegar até a porta e aproveitar o possível momento de distração de Shane para fugirmos, mas quando girei a chave, que já se encontrava posta na fechadura, por um descuido incomum do facínora, ouvimos outro disparo, seguido da frase:
"Parece que não é tão bom com armas como era com bolas, não é capitão? Agora eu cansei dessa palhaçada!"
Claramente aquela voz pertencia a Shane e pelo teor de suas palavras, sabíamos quem estava com ele.
— Scott! — Sarah murmurou e sua face se contorceu em um estado de pânico surreal.
Enquanto eu abria a porta para enfim libertá-las daquele inferno, ela se desprendeu de meu enlace e tentou correr, seguindo o barulho, direto para o local de onde viam os tiros.
— Sarah, não! — gritei desesperada, ainda segurando Lizzie pela outra mão.
— Tenho que fazer alguma coisa, Emma! — seus olhos encontraram os meus, os dela carregados de culpa — Shane vai matá-lo.
Ela me deu as costas e não pude impedi-la, meu objetivo agora era tirar minha sobrinha daquele maldito lugar e pedir reforços a polícia. Quando finalmente senti o ar puro que vinha do lado de fora, fui pega de surpresa por Judith que adentrou o local, empunhando sua arma e pondo-a em contato com minha cabeça. Anthony veio em seguida e parecia persegui-la.
— Larga ela, Judith! — ordenou, apontando sua pistola na direção da mulher que segurava-me com o braço entorno do meu pescoço.
A porta continuava entreaberta, então minha única reação foi soltar a mão de Lizzie e gritar — Corre, querida!
Com a ajuda de Deus ela entendeu e correu para fora, sem que Judith pudesse detê-la. Eu sabia que uma vez que estivesse livre, algum policial na vigia a ajudaria e por consequência, eles invadiriam a casa.
— Sua vadia! — ela esbravejou — Eu devia te matar agora mesmo, mas não teria graça sem a presença da sonsa da sua irmã.
Me puxando pelos cabelos, Judith me guiou pelo caminho que Sarah havia feito, mantendo Anthony afastado com a ajuda da pistola em seu poder, quando mais um tiro foi ouvido.
Assim que nos aproximamos, pude ver Sarah ao chão, com Scott em seus braços, ele sangrava muito, atingido pela arma de fogo que Shane empunhava. Seus olhos foram se fechando e Sarah gritava para que ele não a abandonasse, numa cena comovente e difícil de digerir.
Ao olhar para Shane, notei nele uma expressão quase que de arrependimento, como se o que havia acabado de fazer não estivesse em seus planos. O braço despencou e ele abaixou a arma, parecendo estar submerso em pensamentos.
— Seu infeliz! — Sarah falou entredentes — Você o matou, seu assassino! — o choro se tornava mais alto e doloroso, a medida que as palavras saiam de seus lábios trêmulos — Você vai apodrecer atrás das grades, assassino!
Shane balançava a cabeça aturdido, suas mãos tremiam e lágrimas brotavam de seus olhos avermelhados — Não diga isso, meu amor. Eu te amo!
Do lado de fora, a voz do coronel Donald's soou em um mega fone — Shane Rhee, você está cercado. Renda-se agora ou seremos obrigados a invadir.
— Vocês ouviram? — Anthony falou autoritariamente — Fim da linha pra você, Rhee e o mesmo vale pra você, Judith. Entreguem as armas agora!
— Não sem antes fazer o que eu planejei quando pedi pra fazer parte dessa equipe — os olhos flamejantes da mulher eram carregados pelo mais genuíno ódio — Você acabou com o meu casamento — direcionou seu olhar para Sarah — E quando eu achei que finalmente havia me livrado de você, apareceu essa vadia aqui, pra tomar ele de mim outra vez.
— Para com isso, Judith! — pediu Anthony — você sabe muito bem que nosso casamento já havia acabando antes mesmo de Sarah entrar na minha vida. Agora solta a Emma e vamos conversar como pessoas civilizadas.
— Só depois que eu acabar com a raça dessa vagabunda! — ela desviou o revólver da minha cabeça e apontou na direção de Sarah.
— Deixe ela em paz! — Saindo de seu transe hipnótico, Shane ergueu a arma e sem que alguém pudesse impedi-lo, disparou contra Judith, a atingindo no ombro e fazendo-a cair ao chão.
Anthony me puxou para trás de si, chutando a arma de Judith para o outro lado do cômodo, enquanto ela se arrastava sangrando para junto da parede, cobrindo a ferimento da bala com uma das mãos, completamente rendida.
Sarah soluçava, abraçada ao corpo inerte de Scott. Diante daquela cena, Shane pareceu não entender o que estava acontecendo, pois na mente doentia dele, Sarah o correspondia e vê-la daquele modo, chorando por outro que não ele, o fez ter uma espécie de choque de realidade.
— Acabou, Rhee! — Anthony pediu novamente — Largue a arma!
— Foi tudo por você, Sarah! — seus olhos nadavam em lágrimas, num choro desesperador — O mundo real foi mau comigo, mas não esqueça que eu sempre te amei.
Essas foram as últimas palavras de Shane Rhee antes de atirar em sua própria cabeça, bem diante de nossos olhos, nos fazendo gritar apavoradas perante a loucura que aquele homem acabava de cometer contra si mesmo.
Em segundos a polícia invadiu o local, mas já não havia mais nada à ser feito. O coronel Donald's boquiaberto, pareceu apavorado diante de Judith ferida ao chão.
— Coloquem algemas e podem levá-la — ordenou Anthony, correndo imediatamente até Scott e Sarah, tomando o pulso do homem em busca de batimentos — Está fraco, mas ainda tem pulsação. Pessam para os paramédicos entrarem agora mesmo.
— Sim, senhor! — acatou um dos policiais, segurando Judith pelo braço que não estava ferido.
— Mas espere um pouco, o que foi que aconteceu aqui — quis saber o coronel a respeito de sua pupila — O que ela fez?
— Longa história, coronel — Anthony ergueu-se e caminhou até mim, envolvendo meus ombros e me puxando para um abraço, suspirando aliviado depois de tudo finalmente ter chegado ao fim.
Os enfermeiros prestaram os primeiros socorros a Scott, o estabilizando para que fosse levado até o hospital mais próximo. Seu estado aparentava ser grave e se não tivesse sido socorrido a tempo poderia ter morrido ali mesmo, tamanha a quantidade de sangue perdida.
— Cadê a minha filha, Emma? — Sarah olhou-me com o semblante ainda mais apavorado.
— Fique calma, senhorita McKay! — tranquilizou o coronel — Ela está bem, recebendo alguns cuidados médicos lá fora, cercada por policiais.
— Alguém vai acompanhá-lo? — inquiriu o paramédicos que atendia Scott.
— Pode ir com ele — falei — Eu levo Lizzie pra casa e coloco ela na cama.
— Mas eu não posso abandonar minha filha num momento como esse — ela replicou — Ela vai precisar de...
— Ficarei com elas — Anthony a cortou, envolvendo minha cintura de forma protetora — Se isso for te deixar mais tranquila.
Sarah juntou as sobrancelhas em uma expressão duvidosa — Está acontecendo alguma coisa entre vocês dois que eu não estou sabendo?
Ficamos sem jeito com a pergunta, sem saber bem como lidar com aquela situação. Sarah e Anthony eram namorados e embora a relação já tivesse chegado ao afim antes mesmo do sequestro dela, era complicado saber qual seria a reação de minha irmã quando soubesse sobre nós.
Sem que falássemos uma só palavra, ela sorriu de forma doce, mesmo em meio a tristeza visível em seu olhar e nos tranquilizou — Não precisam me explicar nada, fico feliz pelos dois — seus olhos pairavam sobre mim — Principalmente por você, irmã — Esticou suas mãos para pegar as minhas — Você é a pessoa que mais merece ser feliz nessa vida.
As palavras e o apoio dela eram reconfortantes naquele momento e só pude abraça-la em meio a um misto de felicidade e tristeza.
— Agora vá, fique ao lado do Scott e não deixe de nos dar notícias.
Ela assentiu e saiu pela porta, seguindo os enfermeiros e adentrando a ambulância à caminho do hospital. Anthony e eu também deixamos aquela residência horripilante e fomos até os companheiros de farda dele, para buscar Lizzie e enfim regressar para o lar de onde ela nunca deveria ter sido arrancada, ainda mais daquela forma tão trágica.
No caminho ela nos fez muitas perguntas, todas devidamente respondidas em conjunto, por mim e Anthony. Ela ainda parecia não compreender a real gravidade do que havia acontecido com ela e a mãe, mas a morte do avô tinha deixado marcas que seriam definitivas.
Assim que chegamos, deixei Anthony na sala e subi com Lizzie para o quarto. Ajudei-a com o banho, a pus na cama, e lhe contei uma história, para que pudesse esquecer ao menos um pouco toda a loucura vivida nos últimos dias. Embora ela tenha lutado contra o sono de todas as maneiras possíveis, consegui fazê-la adormecer.
Fui até o quarto de Sarah, despi minhas roupas e também tomei um banho rápido. Queria mais tempo em baixo do chuveiro, mas Anthony estava à minha espera e nada era mais importante do que ficar ao seu lado, depois de tudo que havíamos passado naquela noite, ser acarinhada por ele era tudo o que eu almejava.
Vesti uma lingerie e um roupão, calcei chinelos e voltei para a sala, quando ouvi meu telefone celular tocar sobre o móvel que eu o havia deixado. Era minha irmã. Um arrepio percorreu minha espinha e troquei um breve olhar preocupado com Anthony, antes de atender.
— Sarah? — escutei atentamente tudo o que ela me dizia — Oh, graças a Deus! — suspirei aliviada ao fim de suas palavras — Lizzie está bem e dormindo, pode ficar sossegada — a tranquilizei — Boa noite, mana!
Ao desligar, notei o olhar curioso de Anthony sobre mim — O quê aconteceu?
— Scott está bem, por sorte a bala não atingiu nenhuma artéria e ele não corre nenhum risco de vida — enquanto eu falava, um peso parecia sair de sobre meus ombros. Sarah não aguentaria mais uma perda como aquela — Só vai precisar ficar em observação por mais alguns dias. Sarah vai passar a noite com ele no hospital.
— O King é mesmo duro na queda — ele sorriu, satisfeito com a notícia.
Me aproximei, envolvi seu pescoço com os braços e beijei sua bochecha delicadamente — Vocês andam bem amiguinhos de uns tempos pra cá. Não é mesmo?
Anthony selou nossos lábios me provocando um arrepio incomum — Ele até que não é tão ruim como eu pensava — riu de forma irônica — Mas ainda não concordamos em uma coisa!
— O quê? — questionei.
— Quem namora a irmã mais linda!
Franzi o cenho, fingindo estar confusa — E desde quando nós estamos namorando? Não lembro de você ter feito o pedido! — zombei.
— Achei que fosse moderna demais pra esse tipo de coisa. Aliás, não é você que odeia rótulos — suas palavras soaram sarcásticas, mas também divertidas.
— Bem lembrado — sorri e me afastei um pouco — Pedido de namoro é tão anos cinquenta, com toda aquela cafonice de bilhetinhos e fotos.
— Como sabe disso se nunca viveu essa época? — ele puxou-me pela mão, me fazendo girar em seus braços, esbarrar em seu peito rígido e me prendendo em um firme enlace — Eu já te disse uma vez e volto a repetir, eu amo você e meu único pedido é pra poder finalmente te amar por inteiro.
Diante daquelas palavras, eu não era mais capaz de responder por mim. Desatei o laço do hobby que vestia, me despindo em meio a sala de estar de minha irmã e colei meu corpo ao dele novamente — Eu também amo você!
Nossos lábios se uniram num beijo sem igual, nossos corpos pertenciam um ao outro e naquele momento tive a sensação de que havia despertado de um terrível pesadelo, para acordar em um presente sublime e verdadeiro, como uma tarde de verão em meio ao crepúsculo de um novo ciclo que se iniciava. Enfim, nosso final feliz!
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