Capítulo 34 - Segredos e promessas

Eu não confio em ninguém
Isso é um hábito
Eu não vejo a necessidade de entrar em pânico
Eu vejo o final antes mesmo de começar
Eu não preciso de ninguém
Porque tudo que você trás é tristeza
Mas quando eu estou perto de você, eu sinto chamas
Eu toco o fogo e me queimo
Eu sinto esse pressa nos meus pés
É como se eu estivesse caindo
Isso é amor
Oh, isso é amor
(Tedy - Flames)

🍂

- O que é esse lugar? - questionou Anthony.

- A antiga casa dos avós - respondeu Natasha, sem mais resistência - Pelo que sei, ficou pra ele quando os velhotes morreram.

- E porque ele acha que está tão seguro lá? - Scott inquiriu - Se é uma residência familiar, seria fácil pra polícia localizar.

- É uma casa velha, ninguém vai lá, ficou pra ele justamente pela falta de interesse do restante da família - esclareceu a mulher - Além disso, o lugar é ermo e duvido que consigam chegar com auxílio de GPS.

O policial deu de ombros e saiu da sala, voltando logo em seguida, trazendo consigo uma folha de papel e um lápis, os pondo sobre a mesa à frente de Natasha.

- Faça um mapa - ordenou ele.

Ela mordeu o lábio inferior - Não posso negar que você é uma delícia, policial e seu jeito mandão até que me excita - jogou as costas sobre o encosto da cadeira - Mas não tenho talento pra desenhar, sempre mandei os nerds fazerem isso por mim.

- Acho que a senhorita ainda não entendeu a gravidade do que está acontecendo aqui - se aproximou ainda mais, murmurando as palavras calmamente - Não somos seus seguidores e você não está em condições de negar nada - arqueou uma sobrancelha, sem se deixar intimidar pela soberba dela - Então pare com as gracinhas e faça a porra do mapa - gritou rudemente, batendo a mão em soco sobre a mesa.

Natasha assustou-se, encolhendo os ombros, finalmente entendendo que Anthony não estava mesmo para brincadeiras e sem dizer mais nada, começou a rabiscar o papel.

Assim que terminou, ela lhe alcançou o papel. Suas mãos tremiam e eu não pude deixar de sorrir diante de uma Natasha amedrontada e totalmente indefesa. Era o troco, pela forma que minha irmã deveria estar se sentindo por culpa dela.

Saímos da sala e o coronel ordenou que a levassem para uma das celas temporária da delegacia, até que pudesse ser transferida para a penitenciária feminina.

- Policial Ricci, preciso que venha até minha sala - Judith apareceu em meio a confusão - É um assunto de seu interesse.

Anthony me lançou um olhar cúmplice, como se me pedisse permissão para fazer o que a ex mulher lhe pedia. Eu apenas assenti, sem saber bem o porquê de ele ter feito aquilo, mas também confesso que gostei.

Alguns minutos se passaram e ele regressou, com Judith à tiracolo - Ela quer nos ajudar - anunciou ele - Mas só pedirei a permissão do coronel caso isso seja de seu agrado, Emma - deu-me a escolha - Afinal, Judith foi afastada do caso por má conduta e você tem todo o direito de não confiar nela.

A bomba havia sido jogada em meu colo e era difícil saber qual a forma correta de agir. Que ela era uma policial compete, isso estava mais do que claro, só analisando o cargo importante que tinha, mas será que a raiva por ter sido rejeitada a faria agir de má fé?

- Olha, eu nem sei o que dizer...

- Escute, Emma - ela me interrompeu - Sei que tivemos nossas desavenças e quero que me desculpe - parecia constrangida - Deixe eu me redimir ajudando a salvar sua irmã desse inconsequente.

Analisei suas palavras mentalmente, uma à uma, mas ainda assim não sabia o que pensar, muito menos o que dizer diante daquilo. Eu não podia mais negar meus sentimentos por Anthony e era evidente que ela também os tinha, mas o fato daquela mulher ser uma boa Policial e minha família estar correndo um enorme risco nas mãos de Shane me fazia pensar no quão egoísta eu poderia estar sendo se lhe dissesse não.

- Você precisa decidir, Emma - Anthony me alertou - Tenho que montar uma equipe pra invadir o local o mais rápido possível.

- Está bem - concordei - Ela pode se juntar a nós - a fitei, sem esboçar contentamento algum - Mas ficarei de olho em você o tempo todo.

- Creio que isso não será possível - o policial se impôs - Porque você não vai! - me deu as costas e seguiu até sua sala.

Eu o segui - Você não tá falando sério, não é? Isso só pode ser brincadeira - bati a porta para impedir que ouvissem nossa discussão - Ela é minha irmã, sem falar na Lizzie e no fato de eu conhecer bem o Shane - expliquei, tentando convencê-lo.

Ele deixou a cadeira, onde recém havia se acomodado, deu a volta em sua mesa de trabalho e se pôs à minha frente, com seus vívido olhos azuis flutuando sobre os meus em chamas.

- Você não vai! - repetiu sua imposição.

- E posso saber o porquê? - bati o pé inconformada.

Ele se aproximou ainda mais de mim, seus olhos agora evidenciavam uma fúria antes contida, como se minha teimosia, por fim, o estivesse tirando do sério.

- Porque eu não aguento sequer pensar na hipótese de você próxima daquele infeliz, de dar a ele a chance de te ferir outra vez, de dar brecha a qualquer pessoa que possa te machucar - seu tom ia aumentando a cada palavra dita - Porque eu te amo, Emma e mesmo que não acredite, mesmo que ache que brinquei com sua irmã e que estou fazendo o mesmo com você agora, não me importo, só tenho um medo insano de te perder.

A essa altura, meus olhos banhados em lágrimas não eram capazes de ocultar a verdade, eu também estava completamente apaixonada por aquele homem à minha frente e mesmo com receio de que fosse um erro, não pude mais me manter impassível.

Sem dizer nenhuma única palavra, juntei meus lábios aos dele e o beijei com todo o fervor que guardei em mim nesse tempo. Seus dedos afundaram em meus cabelos gentilmente, enquanto a mão em minha cintura me puxava para mais perto, quase fazendo nossos corpos fundirem em apenas um.

Era surreal, mágico, magistral. Em toda minha vida nunca senti algo tão sublime e verdadeiro, um frenesi intenso de sentimentos correspondidos que não deixavam que restasse nenhuma dúvida quanto ao que nutríamos um pelo outro.

Senti um frio correndo por minha espinha, pânico de estar me entregando por inteiro, me jogando de cabeça em um mar profundo de coisas que eu nem ao menos sabia como lidar, mas não existia outra opção se não aquela, pois além de meu corpo, o coração implorava pelo amor dele.

Sua boca sedenta tomava a minha com paixão e por um momento, o mundo desacelerou, nos fazendo esquecer completamente onde estávamos e a única coisa que nos importava era desfrutar do prazer que nossos lábios unidos proporcionavam.

Abri meus olhos e busquei os dele, brilhantes e carregados de desejo. Como uma câmera fotográfica, meu cérebro pulsava, registrando cada instante daquele beijo capaz de mudar conceitos, de acabar com resistências e me mostrar que a vida inteira eu fugi do amor, mas agora ele havia me pego de jeito e não havia mais como escapar de suas presas.

Uma breve batida na porta e o som da maçaneta girando nos tirou do transe, e nos fez desviar a atenção um do outro.

- Ricci, precisamos de você aqui fora - Scott fez-se ouvir - Você mesmo disse que temos que agir rápido.

- Só um minuto, já estou indo - replicou.

A porta voltou a se fechar e nos afastamos. Anthony bateu as mãos sobre a farda e ajeitou os cabelos, voltando a me olhar de forma doce.

- Eu preciso estar lá! - voltei ao nosso ponto de partida - Nem que seja pra vê-lo sair algemado.

- Por favor, meu bem - seu tom de voz ameno parecia forçado, apenas para me convencer - É muito arriscado pra civis.

Fechei o cenho irritada - Por acaso pensa que o King vai aceitar numa boa essa sua imposição? - cruzei os braços, jogando o peso do corpo para a perna esquerda - Ou sou só eu, a frágil e indefesa Emma que estou proibida de participar?

- Vale pra qualquer um que não use farda - ele riu por um instante, parecendo se divertir as minhas custas - Você fica ainda mais linda com essa teimosice.

O sangue fervia em minhas veias, mas precisava manter minha dignidade, demonstrar descontrole só o faria ter mais certeza de que era melhor me manter afastada do plano.

- Eu fico quieta em uma viatura, eu juro - tentei outra abordagem - Só quero estar perto pra quando ela for libertada.

- Emma, não! - negou novamente - Não sou burro pra cair nesse seu papo de ficar longe aguardando, sei bem o quanto é impulsiva e não vou correr o risco de você ser pega por aquele desgraçado - aproximou-se e beijou minha testa - Não me obrigue a matá-lo, está bem?

Concordei rendida. Ele jamais cederia, não importava o quanto eu implorasse, Anthony não me deixaria ir, sua missão era me proteger e mesmo zangada, era reconfortante sentir que alguém se importava tanto assim comigo.

- Vamos! - ele pegou minha mão entre a suas, pronto para me conduzir para fora de sua sala - Estão nos aguardando pra que eu dê as coordenadas.

- Só um minuto - fingi secar os olhos e arrumar os cabelos - Preciso me recompor, não quero que Judith note o que houve aqui, justamente agora que está colaborando conosco de boa vontade.

Ele sorriu, beijou o dorso de minha mão e saiu, me deixando só em seu escritório. Vasculhei as coisas dele, em busca do que realmente queria e encontrei, sobre a mesa, em cima de algumas pastas, preso por um clip, estava o desenho que Natasha havia feito, o caminho até Sarah.

Saquei meu celular do bolso da jaqueta e fotografei o papel rapidamente, temendo ser pega no ato e ver minha missão ir por água abaixo.

Guardei o aparelho e saí da sala, me juntando a eles, bem em tempo de ouvir Scott questionar Anthony sobre como as coisas funcionariam.

- Como pensa montar a guarnição?

- Vamos fazer uma vigilância conjunta com os policiais de Apple Hill, durante o dia, pra tentar prendê-lo sem maiores incidentes - revelou ele - O coronel Donald's já está cuidando disso - esclareceu - Ele terá que sair em algum momento, vamos cercar todas as saídas e forçar uma rendição.

- E se isso não for possível? - foi a vez de Judith perguntar - Esse cara não está pra brincadeiras, Anthony. Ele deve andar armado e com certeza usou de seus conhecimentos informáticos pra garantir a vigilância do local 24h por dia.

- Ela está certa! - concordei - Se ele notar qualquer movimentação estranha ao redor da casa, pode por tudo à perder.

- Por isso não vamos chegar tão perto com as viaturas - argumentou Anthony - Eu vou aproveitar a noite e tentar me infiltrar na casa - desviou o olhar para a ex mulher - E você vem comigo, Geller! Vamos nos esconder e tentar pegá-lo fora da casa, pra manter a segurança de Sarah e Lizzie.

Ela assentiu, meneando a cabeça positivamente.

- Bom, então seremos doze pessoas no total - prosseguiu Anthony - Cinco polícias em cada viatura e a superintendente Geller e eu à frente do cerco.

- Eu também irei! - afirmou Scott, dando um passo a frente como se quisesse chamar a atenção para sí - Ficarei fora do caminho, eu prometo. Só quero estar por perto quando a tirarem de lá.

- De acordo - Anthony não se opôs.

- Por que nele você acredita quando diz que não vai se meter e em mim não? - perguntei.

Anthony olhou-me com um meio sorriso, como se o que eu estivesse acabado de dizer fosse ligeiramente cômico, ou apenas por apreciar minha persistência.

- Porque ao contrário do King, esses seus lindos olhos verdes não te deixam mentir, minha querida!

Nem bem as palavras deixaram seus lábios e pude notar o arrependimento despontando em seu semblante e o motivo era mais do que evidente. Judith nos olhava, nitidamente incomodada com a forma que Anthony se referia a mim.

O coronel Donald's regressou, quebrando o clima tenso e dispersando os olhares que antes pairavam sobre nós três, mas ainda assim, eu podia sentir que os olhos da mulher vagavam entre mim e o ex marido, procurando algo mais.

- Cinco homens da polícia de Apple Hill estão se direcionando para o local nesse exato momento - anunciou o homem - Vão vigiar de longe, conforme suas ordens, policial Ricci.

- Obrigado, coronel - Anthony pigarreou, levou as mãos a cintura e voltou a falar, se dirigindo aos demais colegas - Evans, Lee, Carter, Smith e Parker nós sairemos por volta das duas horas da tarde - ordenou - Vocês e o senhor King ficarão a espreita, em duas viaturas, no lado oposto aos policiais locais, enquanto Geller e eu vamos nos aproximar da casa, cautelosamente, assim que entardecer. Entendido?

Todos concordaram, se deslocando para outros locais da delegacia, à espera de novas ordens, seguidos pelo coronel que voltou a sua sala. Judith continuava parada, como se algo a estivesse incomodando.

- Vem, Emma - Scott tocou meu braço, chamando minha atenção - Vou te levar pra casa, não está segura sozinha.

- Eu posso muito bem voltar sozinha - rebati, ainda irrita por não poder estar presente no momento que mais desejava estar - Dispenso sua preocupação, cunhado!

Judith franziu o cenho confusa - Cunhado?

- Longa história, bonitinha - zombou - Não se faça de rogada, Emma.

Anthony, visivelmente sem graça, se manteve quieto, mas aquela situação o afetava de tal modo que seria difícil saber se conseguiria falar o que quer que fosse sem gaguejar.

- Devia aceitar - aconselhou a mulher - Nunca se sabe quando um louco pode atacar. Não é mesmo, Anthony?

O clima estava desconfortável, então resolvi sair pela tangente - Sei muito bem me cuidar, sou como
Frankenstein, ninguém me vence em uma corrida - todos me olhavam sem entender a referência - Ah, qual é? Death Race, Jason Statham, vão me dizer que nunca assistiram - ergui as sobrancelhas e estalei os dedos à frente deles - Vocês são mesmo uma decepção!

- Emma, você tem gosto peculiares para uma mulher - Scott comentou com certo sarcasmo.

Anthony riu - Acho que o King prefere uma comédia romântica - zombou, devolvendo a ironia.

Judith deu de ombros - Acho que deviam parar com essa baboseira e focar no trabalho.

O rancor dela só aumentava e intimamente me perguntei se seria apropriado ter ela no caso, mas agora não havia mais nada a se fazer, eu concordei com isso e devia arcar com as consequências.

Saí da delegacia e dei uma rápida olhada no mapa que havia fotografado, dirigi para casa de Sarah, tramando em minha mente como faria para encontrar o cativeiro.

Eu não conhecia muito bem a área, mas já havia visitado o rancho dos pais de uma amiga que ficava nas redondezas, com sorte, ela me ajudaria a encontrar a tal casa de Shane.

Sabia que o que eu estava prestes a fazer era arriscado, que poria minha vida em risco e por consequência tudo que conquistamos até aqui, mas o plano de Anthony não era infalível, e mesmo que ele não soubesse disso, teríamos um plano B, a carta na manga seria eu.

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