Capítulo 26 - A dor da perda
Como posso viver sem aqueles que eu amo?
O tempo ainda vira as páginas do livro queimado
Lugar e tempo sempre na minha cabeça
Tenho tanto pra dizer mas você está tão distante
Durma bem, eu não estou com medo
Aqueles que amamos estão aqui comigo
Guarde um lugar para mim
Porque quando eu acabar, eu estarei indo
Viver eternamente
(So Far Way — Avenged Sevenfold)
🍂
Pela primeira vez, desde que cresci e me tornei uma pessoa autossuficiente nunca me senti tão fraca, cansada, culpada, sozinha e totalmente perdida, como agora. Meu pai sempre foi meu pilar, ele era o que me mantinha firme e agora que ele se foi, a Emma soberana desfaleceu com ele.
Ainda sentada no chão frio da cozinha de Sarah, eu soluçava descontroladamente e por mais que me esforçasse, não conseguia parar de chorar. Sabia que era necessário me reerguer, procurar saber melhor o que havia acontecido e cuidar de minha mãe.
O homem ao telefone era um policial. Segundo ele, receberam um chamado na residência dos meus pais, por volta das duas e quarenta, feita por um vizinho que disse ter ouvido gritos e tiros vindos de lá.
Assim que chegaram, constataram a morte de meu pai, atingido por duas balas na altura do peito. Minha mãe se encontrava em estado de choque e não proferia sequer uma palavra desde então. Por sorte, o vizinho que fez o chamado era meu cliente no pet shop e a levou para sua casa.
Quando indaguei-o sobre Lizzie, ele disse que ela não estava na casa, supostamente havia sido levada por quem ocasionou o crime.
A dor era aguda, incessante e parecia corroer cada fibra do meu corpo. Por mais que eu tentasse, minhas pernas não seguiam meu comando, a cabeça doía e eu rezava para que aquilo fosse apenas um pesadelo.
Meu pai era um homem bom, respeitado pela comunidade e acima de tudo, um exemplo de patriarca. Sempre fez de tudo para que nossa família fosse unida e os filhos tivessem uma boa formação de caráter, como ele tinha.
Depois de quase uma hora inerte naquele mesmo lugar, me forcei a levantar, tinha que ir até o local do crime, dar suporte a minha mãe e descobrir o que de fato havia acontecido. Dona Griselda era a única que saberia informar, com detalhes.
Subi as escadas até o banheiro e troquei meu pijama por uma calça jeans, um suéter e uma jaqueta de couro, calcei minhas botas e desci novamente.
Meu rosto vermelho e os olhos encharcados em lágrimas eram apenas o reflexo de como eu me encontrava por dentro, completamente esfacelada.
A campainha tocou e o medo foi despontando em mim. Meu pai estava morto, minha mãe em estado de choque, Lizzie fora pega e eu? O que aconteceria comigo? Será que o homem que se dispôs à destruir minha família viria atrás de mim?
Eu não ligava, o ódio que sentia era maior do que o medo de perder minha própria vida. Aquele ser que se julgava intocável teria seu mundo arruinado, assim como fez com o meu e eu seria a portadora de sua queda. Aquilo era uma promessa.
Antes que eu corresse até a porta, imaginando ser meu algoz, ouvi uma voz conhecida me chamar — Emma, abra. Sou eu, Anthony.
Assim que girei a maçaneta e encontrei aqueles olhos azuis também marejados, desabei novamente. Anthony segurou-me em seus braços e me afagou a nuca, por entre os cabelos.
— Eu sinto muito — lamentou — Vim assim que soube. Queria dar a notícia eu mesmo e pessoalmente, você não merecia saber dessa forma.
O pranto me impedia de falar e tudo que eu queria era morrer também. Estar junto de meu pai e não precisar passar pelo sofrimento de vê-lo deitado dentro de um caixão, assassinado de uma forma covarde e cruel.
— Fique aqui — Anthony me levou até o sofá e ajoelhou-se em minha frente, tocando meu rosto com pesar — Telefonei pro Scott, ele já deve estar chegando e vai cuidar de você. Eu resolvo tudo.
— Não, eu vou com você — esfreguei o rosto com os punhos do suéter, secando as lágrimas que teimavam em cair — Preciso cuidar da minha mãe.
Anthony não discutiu, apenas sentou-se ao meu lado e me abraçou. Depositei minha cabeça em seu ombro e esperamos calados, até que Scott chegasse. Só se ouvia meu arfar e vez ou outra, Anthony limpava a garganta.
Minutos mais tarde, Scott adentrou a porta já aberta, vindo ao meu encontro, deixei os braços de Anthony e fui até o homem que sabia bem o que eu estava sentindo, pois parecia sofrer tanto quanto.
— Eu sinto muito, pirralha — sua voz saiu entrecortada — Ele era como meu segundo pai.
Por conta do namoro de Sarah e Scott, ele sempre frequentou nossa casa. Meu pai sempre foi presente em nossas vidas, sendo inevitável se afeiçoar a um homem tão justo e com um coração tão grande como o seu.
— Anthony, precisamos encontrar esse maldito infeliz que destruiu minha família — levantei o olhar e falei para o policial, por sobre os ombros de King — A vida da Sarah e agora também de Lizzie, dependem disso.
— Ainda acho melhor que você fique — insistiu ele — O corpo ainda não foi removido e é uma cena forte pra alguém tão próximo como você.
— Eu quero ir — bati o pé — Se vocês não me levarem, vou em meu carro mesmo.
— Nem pensar — Scott se pronunciou, mantendo uma postura de irmão mais velho — Vá com o Anthony, eu seguirei vocês.
Sem saída, o loiro foi obrigado a concordar e juntos deixamos a casa. Adentrei o carro de Anthony com a sensação de que aquele momento seria de verás aterrador, mas eu precisava enfrentar aquela provação.
Enquanto ele dirigia, eu pensava em tudo que aconteceu desde que Sarah foi levada e tentava juntar os fatos em minha mente, como naqueles painéis usados em séries policiais, onde os detetives usam fotos do suspeitos e conexões entre eles para desvendar os crimes. Mas infelizmente nada fazia sentido. Não havia ninguém que eu conhecesse obcecado por Sarah a ponto de sequestrá-la.
Assim que chegamos, pudemos ver o perímetro já protegido por uma fita de isolamento, para manter apenas as pessoas necessárias no local e prevenir a contaminação de evidências.
Haviam muitos carros de polícia, bem como o do IML. Curiosos se aglomeravam em torno da cena e os policiais tentavam conter os ânimos para que ninguém interferisse nas investigações que estavam sendo feitas no interior da casa.
O sangue espalhado na entrada da casa e as marcas de luta eram visíveis mesmo de onde estávamos. Imaginei como estariam as coisas lá dentro e meu estômago revirou automaticamente, me fazendo sair do carro as pressas e vomitar.
Anthony segurou meus cabelos e me apoiou, enquanto eu expelia líquidos gástricos em meio a um arbusto. O sentimento ainda era de negação e aquilo só passaria quando eu visse o corpo de meu amado pai.
Quando eu já não tinha mais o que por para fora, ergui um pouco a cabeça e por entre os braços de Anthony que me amparavam, tive a pior visão que uma pessoa pode ter, vi meu pai sendo carregado, envolto em um saco negro, para dentro do rabecão.
Desmoronei ao chão. Gritava com todas as forças de meu interior, não queria acreditar, mas dessa vez era real, estava vendo com meus próprios olhos e nada apagaria aquela cena da minha mente.
Os dois homens próximos a mim se entreolharam e baixaram a cabeça, não havia nada à ser feito, exceto aguardar calados e deixar que a visão daquilo me atingisse com um golpe forte de pura crueldade.
Levantei-me, ainda cambaleando e derrotada por dentro. Enxuguei os olhos com a manga da roupa novamente e caminhei para dentro da casa, mas fui parada por um dos policiais.
— A senhorita não pode entrar aí — disse-me ele — A casa está isolada até que se termine a perícia.
— Eu sou a filha — falei entredentes — Preciso ver minha mãe.
— A senhora McKay foi levada para o hospital, à cerca de uns vinte minutos — informou-me.
— Qual hospital? — indagou Anthony.
— Barton — respondeu.
— Vamos pra lá! — exclamou Scott.
— Vocês vão — Anthony decidiu — Eu vou ficar e ver se descubro algo sobre as evidências achadas.
Assentimos e deixamos o local. Scott dirigiu até o hospital que o policial nos informou e deu o nome de minha mãe na recepção. Após nos identificarmos, a secretária nos forneceu adesivos de visitantes e nos indicou o quarto em que ela se encontrava.
Na porta havia um guarda, fazendo a segurança do local e dentro do quarto duas enfermeiras e uma psicóloga cuidavam da saúde dela. Dona Griselda não se mexia e nem falava, estava pálida, com a pele fria, respiração lenta, olhos fixos e pupilas dilatadas.
Era horrível vê-la daquele jeito, mas também compreensível diante da tragédia que vivenciou. Sarah também ficara daquela forma quando o bastardo que a sequestrou, lhe enviou o pacote com as partes humanas de Tyler.
— Sua mãe está em um estado semiconsciente, devido ao trauma que sofreu, mas isso deve passar em alguns dias, na pior das hipóteses, semanas — explicou a médica — Mas necessita de cuidados e descanso, ficando em observação aqui no hospital, até que se recupere totalmente.
Era duro ouvir que minha mãe provavelmente não teria a chance de se despedir do marido, que aquela cena mórbida seria o seu último momento ao lado dele e que depois que saísse desse estado lastimável, teria de se acostumar a viver longe daquele com quem dividiu a vida por mais de trinta anos.
— Vamos, Emma — Scott pôs a mão em minhas costas e me guiou para fora do quarto — Ela precisa de repouso, não adianta nada ficar aqui.
— Mas, Scott...
No fundo eu sabia que ele tinha razão, eu precisava tomar decisões importantes quanto ao funeral e principalmente ficar à par de cada momento da investigação.
— Mas nada — ele me cortou — Vou te levar pra casa, você também está precisando descansar e se alimentar, não comeu nada até agora.
Deixamos o hospital e seguimos até o estacionamento. Deixei que Scott me empurrasse, pois minhas pernas pareciam blocos de cimento, difíceis de mover.
— Não sinto fome — retruquei, adentrando o carro — Muito menos sono, eu só quero encontrar minha irmã e minha sobrinha, dar um enterro justo ao meu pai e cuidar pra que minha mãe se recupere o mais rápido possível.
Scott revirou os olhos, dando ré no carro e saindo da vaga, em direção à estrada — Deixe de ser cabeça dura, Anthony e eu cuidaremos de tudo e você se concentre em ficar bem primeiro.
— Eu estou bem! — exclamei, inconformada com aquela fala ridícula de Scott — E desde quando você e Anthony são amiguinhos.
— Você está uma pilha de nervos, Emma. Sei que não é fácil lidar com tudo isso sozinha, mas Sarah e Lizzie precisam de você — seus olhos fixos se mantinham na estrada, mas uma mão repousou sobre meu joelho e o afagou gentilmente — E respondendo sua pergunta, não somos amiguinhos, mas desde que ele percebeu que eu quero o bem de Sarah e eu percebi que ele está interessado em você — me lançou um meio sorriso — Estamos tentando conviver.
Franzi o cenho — Do que você está falando?
— Nada — ele voltou-se para a direção outra vez — Você ainda vai perceber.
Aquilo não fazia sentido algum, mas preferi não dar sequência ao diálogo. Já em casa, Scott me forçou a comer um sanduíche e beber um copo de suco, foi difícil, mas depois de muita luta, consegui me alimentar. Deitei sobre o sofá e sem conseguir segurar o sono, acabei por cochilar. Acordei ouvindo uma discussão vinda da cozinha.
Scott, Anthony e um rapaz que eu ainda não conhecia conversavam fervorosamente e não pude deixar de ouvir quando o homem desconhecido deixou claro que não havia nenhuma forma de rastrear o sequestrador por meio do laptop de Sarah.
Foi como sentir um balde de água fria ser jogado sobre minha cabeça. Era nossa maior chance, talvez o mais perto que chegamos de pegar o infeliz e agora só nos restava o depoimento de minha mãe, mas isso só seria possível quando ela acordasse do transe e não havia nenhuma garantia de que ela houvesse visto a cara do sujeito ou até mesmo que suas memórias não tivessem sido prejudicadas por conta do choque.
— Bem, levarei o computador como prova, existem alguns vídeos salvos que merecem uma análise mais apurada — falou o rapaz — Sinto não ter podido ajudar mais.
— Sem problemas — respondeu Anthony, acompanhando-o até a saída.
Ao passar por mim, seus olhos encontraram os meus e vi um pedido de desculpas estampado neles. Eu sabia que ele estava fazendo o possível, mas o desgraçado que levara minha irmã havia tramado tudo com extrema atenção, não haviam erros em seu plano e a cada hora que se passava, as chances de encontrá-la se tornavam menores e mais improváveis.
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