Capítulo 2 - A aproximação do inimigo

Olá
O anjo do meu pesadelo
A sombra no fundo do necrotério
A vítima insuspeita da escuridão no vale
Nós podemos viver como Jack e Sally, se quisermos
Onde você pode sempre me encontrar
E teremos Halloween no Natal
E de noite desejaremos que isso nunca acabe
Desejaremos que isso nunca acabe
(I Miss You - Blink-182)

🍂


Assim que entramos na Village Club, pude ver muita gente jovem demais para estar alí, adolescentes que provavelmente haviam entrado sem o consentimento dos pais e então notei o quanto eu estava ficando velha e ranzinza.

O andar de baixo do local era escuro e com luzes coloridas piscando freneticamente, o que me deixava um pouco tonta e irritada, então pedi que Emma nos mostrasse a parte superior, onde havia um canto reservado aos meus convidados, dos quais eu não fazia ideia de quem eram.

O lugar estava a meia luz, com mesas e pufs para que as pessoas pudessem sentar e conversar, mas alguns casais usavam para outros fins, se é que vocês me entendem. De todas as pessoas alí presentes, eu conhecia apenas três, todos amigos de minha irmã.

Estava começando a me sentir desconfortável, com uma vontade imensa de voltar para casa, junto de Lizzie, me aninhar com ela sobre a cama e lhe contar uma história para dormir. Essa era minha vida e eu estava bastante realizada com essa forma de vivê-la.

Afastei os pensamentos e assim que me dei conta, Emma já desaparecera no meio da multidão. Henry também havia se afastado de nós, sobrando apenas Hannah e eu. Na certa deveriam ter ido até o andar inferior, já que lá estava bem mais animado.

- Bem, parece que estamos sobrando, amiga - disse-me Hannah, também notando o sumiço dos dois - o que acha de bebermos algo?

Assenti e segui em direção ao bar, segurando-a pela mão, na intenção de não perdê-la de vista.

- Me vê duas taças de champanhe, por favor.

O barman olhou-me de tal forma, que parecia me despir com os olhos. Serviu-me o que pedi, mas não quis anotar o pedido, alegando ser por conta da casa. Era um rapaz bonito, olhos e cabelos claros, barba por fazer. Confesso que me senti lisonjeada, já que nem ao menos lembrava como era ser desejada daquele jeito.

Pegamos nossas bebidas e fomos nos sentar em um dos muitos puffs espalhados pelo salão. Aquele local parecia ser frequentando apenas por pessoas maduras e de classe média alta. Isso levando em conta as vestimentas de todos ao nosso redor e o bar com bebidas refinadas. Era incômodo estar alí, mas preferível a estar no meio daquela música alta e luzes infernais.

Um rapaz aproximou-se de nós, sorridente e amistoso - Hannah?

- Ah, meu Deus! Steve? - ela levantou-se para cumprimentá-lo - O que faz na cidade? Pensei que estivesse morando no Kansas.

- E estou. Estou na cidade apenas por alguns dias, vim visitar meus pais.

- Fico feliz em vê-lo - Hannah sorriu e algo me dizia que havia sentimento entre eles - Essa é minha amiga Sarah - disse ela, ao nos apresentar - Sarah, esse é Steve, um... amigo da faculdade.

Levantei-me, ainda saboreando meu champanhe e o cumprimentei com um aperto de mão leve. Era um rapaz esguio, moreno e com olhos negros como a noite. Não pude deixar de notar o quanto Hannah e ele formavam um bonito casal.

- Você quer dançar, Han? - convidou ele - Pra relembrar nossos velhos tempos.

Ela me olhou como se pedisse autorização para me deixar sozinha. Era notório o fato de eu não estar me divertindo, mas nunca impediria minha amiga de fazê-lo. Principalmente vendo em seus olhos o brilho de quem estava diante de uma antiga paixão.

- Vai lá e divirta-se! - incentivei.

Alguém iria pelo menos.
Voltei a me sentar naquele puff vermelho como o meu vestido e minha cara, de vergonha por estar alí sentada, sozinha e perdida.

Sei que devo estar parecendo uma dessas pessoas negativas que só fazem reclamar de tudo e não dão a mínima chance para as coisas novas chegarem, mas em minha defesa, posso dizer que meu relacionamento passado foi ladeado por ciúmes e pressão psicológica para que eu fosse apenas uma mulher servindo ao seu senhor.

Minha família e Lizzie foram os motivos dessa prisão, que eu chamava de casamento, ter durado por tanto tempo. Meus pais não sabiam pelo quê eu vinha passando e o fato de eu não ter emprego e nem formas viáveis para sustentar à mim e minha filha, fizeram com que eu fosse empurrando a situação com a barriga, com medo de perder a guarda de Lizzie. Quando, por acaso, encontrei com Scott em uma livraria local e ele me ofereceu um emprego. Sou grata, mesmo ele me tratando tão mal.

Peguei o celular na bolsa para ver que horas eram e já passava de uma da manhã. Já não podia mais avistar Hannah e Steve, o que me fez pensar que eles haviam descido para junto de Emma e Henry. Decidi fazer o mesmo.

Tudo estava como antes. Música, fumaça e luzes piscantes, o inferno na terra para mim. Fui até o bar, pedi uma Margarita e fiquei saboreando enquanto corria os olhos pelo local, procurando pelos rostos que eu conhecia.

A noite parecia estar sendo boa para Hannah que pude ver aos beijos com Steve, próximo ao palco onde algumas moças dançavam com pouquíssimas roupas. Ela logo veio despedir-se, dizendo que iria passar a noite com quem ela gostava de chamar de " velho amigo". Fiquei extremamente feliz por ela, Hannah é uma ótima pessoa e merece alguém tão bom quanto.

Henry havia desaparecido desde a hora que chegamos. Mesmo no andar de baixo, eu continuava sem saber onde ele estava e acabei por desistir de procurar, afinal ele é livre pra se divertir e é o que eu deveria estar fazendo também.

Emma havia me pedido as chaves do carro para buscar uma amiga e desde então não pude vê-la mais. Nem ao menos podia saber se ela havia retornado para o clube ou não e isso já estava me deixando preocupada.

Queria estar em minha cama, dormindo juntinho de Lizzie e não ali, recostada sobre um bar, bebendo sozinha e me sentindo a mulher mais fracassada da face da terra.

Foi quando eu já me preparava para procurar Emma, que ele aproximou-se de mim. Um rapaz alto, esguio, barba cuidadosamente aparada e cabelos loiro-escuros que brilhavam a luz da boate.

Seus olhos também eram azuis, mas não como os meus, os dele eram claros e cintilantes. Os olhos azuis mais bonitos que eu já havia visto na vida.

Vestia uma camisa azul escuro de mangas longas dobradas até o cotovelo, ressaltando seu porte atlético, calças pretas e sapatos marrons. Era um homem muito bonito. Para ser franca, era uma delícia de homem.

- Agora que vim convidá-la para dançar, me parece estar de saída? - sua voz rouca e atraente me fez vibrar.

- Bem, eu não danço - as palavras escaparam de minha boca e eu queria poder pegá-las de volta naquele momento.

- Eu também não. Foi só uma maneira de puxar assunto - ele sorriu, mostrando-me um conjunto de dentes brancos e perfeitamente alinhados - Que indelicadeza a minha, eu me chamo Anthony. E você, como se chama?

- Você não me parece muito bom nisso também, Anthony - droga, não queria ter dito aquilo também, mas eu já não sabia como paquerar e nem se ainda falavam dessa maneira - Sou Sarah.

- Sou bom em muitas outras coisas, senhorita Sarah.

- Tipo o quê?

- Tome uma bebida comigo e eu conto - ele tocou minha mão com a palma da sua e instintivamente, eu me afastei.

- Estou lhe incomodando? Quer que eu vá embora? - ele questionou, erguendo a sobrancelha.

"Ahh, como é lindo!" Pensei. Diante daquele homem, eu não conseguia agir de maneira tranquila, mas em minha mente já o imaginava sem roupa alguma e fazendo coisas que meu eu conservador jamais permitiria.

Apertei os olhos, tentando afastar os pensamentos obscenos e busquei uma maneira de demonstrar que ele era a melhor coisa daquela noite horrenda, a única coisa boa na verdade.

Resolvi então flertar um pouco - Quer mesmo saber o que eu quero?

Ele balançou a cabeça afirmativamente - Isso se você quiser dividir seus desejos comigo.

- Bem, quero mais uma Margarita e saber no que você é bom, afinal.

Ele curvou os lábios e um sorriso sacana se formou em sua face, enquanto me conduzia de volta ao bar. O garçom que havia me secado no andar superior, agora nós servia no inferior também. Notei olhares bem insistentes dele e que me pareceram familiares. "Devo estar ficando louca!" Pensei.

Anthony e eu bebemos muito e conversamos por algum tempo. Mesmo em meio a todo aquele barulho e pessoas indo e vindo, pela primeira vez naquela noite, eu me sentia confortável alí.

Quando eu já estava completamente entregue aquela fala mansa e de certa forma sedutora, Anthony me trouxe para seus braços e nossos lábios se tocaram, me fazendo sentir todo o calor que emanava dele.

Céus, que beijo era aquele. Sua língua se enroscava na minha, enquanto me puxava cada vez para mais perto de si, segurando minha cintura com firmeza e me fazendo ofegar. O sabor de seus lábios era um deleite de sensações indescritíveis, de prazeres acondicionados no íntimo quase desfalecido de mim.

Quando ele afastou seus lábios dos meus, tive a sensação de voltar para a terra, como se estivesse flutuando todo aquele tempo. Foi então que eu soube que apenas um beijo seria pouco para saciar meus desejos adormecidos.

Eu queria mais. Não poderia deixar a noite terminar daquela forma. Há tempos não sentia um magnetismo tão grande próximo a alguém e mesmo que aquilo fosse um impulso, eu queria sentí-lo por inteiro, sem restrições.

Ao contrário de Emma, eu nunca havia tido uma noite de sexo casual, sempre fui conservadora e me envolvi com Tyler muito cedo, ainda na adolescência, o que fez com que eu nunca tivesse oportunidades como essa, mas aquele homem bem na minha frente seria o primeiro com quem eu experimentaria essa sensação.

- Já posso receber presentes de aniversário. Você sabia? - falei tentando soar o mais sexy possível, mas depois das palavras ditas, percebi o quão inexperta soei - São mais de duas horas da manhã.

- Porque escolheu justo esse lugar para comemorar seu dia? - questionou ele - Você me pareceu pouco à vontade aqui.

Encolhi os ombros e me mantive quieta, esperando ter alguma ideia do que dizer. Algo que não fosse tão estúpido quanto "minha irmã mais nova me obrigou!".

- Enfim - continuou ele - Com o quê você quer que eu lhe presenteie?

Dessa vez eu seria direta, precisava ser se quisesse tê-lo naquela noite.
Encostei meus lábios em sua orelha e em meio aquela música alta, sussurrei - Quero que sacie esse desejo maluco que estou sentido por você agora.

Ele sorriu maliciosamente - Aqui?

- Aqui, ou em qualquer lugar que você queira me levar.

Eu não estava acostumava a fazer aquilo, poderia estar me metendo em uma baita encrenca, não sabia onde estava minha irmã com meu carro, mas naquele momento, o desejo insano de ter aquele homem, falou mais alto e eu ignorei meus medos e meu instinto racional.
A resposta dele me fez temer estar errada.

- Você tem certeza de que quer mesmo ficar a sós comigo, Sarah?

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