Capítulo 18 - Agora chega!

Rodovia para o inferno
Estou na rodovia para o inferno
...
Sem sinais de pare ou limites de velocidade
Ninguém vai me fazer ir mais devagar
Como uma roda, vou girar
Ninguém vai se meter comigo
(Highway To Hell - AC/DC)

🍂

- Anthony, acorda! - um barulho alto e aperreante me fez despertar desnorteada e minha primeira reação foi chamar pelo homem adormecido ao meu lado.

Seus olhos se abriram e mesmo desconfortáveis por causa da luz acesa do abajur em meu criado mudo, os dirigiu a mim, ergueu-se na cama e se esforçou para ver o motivo de meu alarde.

Através das persianas que protegiam as janelas de meu quarto, podia se ver a penumbra que se mantinha do lado de fora, o que me fazia pressupor que ainda era madrugada. Segundo o relógio despertador eram precisamente quatro e meia da manhã.

- Está ouvindo isso? - indaguei enquanto me levantava da cama e vestia um roupão - Parece o alarme de um carro.

Anthony também deixou o local onde repousava e pôs suas calças antes largadas sobre o tapete - Sarah, esse som está vindo do meu carro - ele abriu as corrediças e examinava a rua pouco iluminada por meio dos vidros ainda fechados.

Anthony deixou o quarto rapidamente e eu o segui, mas não sem antes notar as luzes piscando em frente a minha casa. Quando já me encontrava no corredor, pronta para descer as escadas e entender o que de fato estava acontecendo, ouvi Lizzie me chamar.

- Mamãe... - vestindo seu pijama, as tradicionais pantufas de coelho e segurando Bella em seus braços, minha filha se fez notar - Que barulho é esse?

Caminhei até ela e a levei de volta ao quarto - Não é nada, meu amor. Agora volte pra cama e não saia de lá, a menos que a mamãe te chame. Está bem?

Ela assentiu e eu saí novamente, trancando a porta com chave, pelo lado de fora. Me senti aprisionando minha própria filha, mas só assim poderia mantê-la segura, caso algo lá fora representasse algum perigo a ela.

O barulho já havia cessado, mesmo assim desci as escadas tão rápido que quase sofri uma queda nos primeiros degraus. Passei pela porta que se encontrava entreaberta devido a recente saída de Anthony e notei-o parado em frente ao veículo, com as mãos posicionadas sobre a cabeça e andando de um lado para o outro, como se não pudesse acreditar no que estava diante de seus olhos.

Assim que me aproximei dele, pude ver o motivo de sua incredulidade. Seu Honda Civic apresentava-se completamente destruído, com as janelas quebras e a lataria, bem como a pintura, quase que inteiramente esfacelada.

Toquei o ombro do homem que apenas afagou minha mão com carinho. Em sua outra mão ele segurava um pedaço de papel dobrado.

- Foi ele Sarah! - Anthony me entregou o bilhete - Foi seu Stalker. Precisamos acabar com isso, antes que essas ameças comecem a nós afetar não só de forma material, mas também física.

"Se afaste da minha mulher enquanto ainda há tempo. Hoje foi o carro, amanhã pode ser você, policial!" - Era o que dizia o rabisco naquele papel.

- Anthony, me desculpe! - o abracei como se fosse capaz de acordar daquele pesadelo maldito - É tudo culpa minha.

Ele segurou minha face com firmeza entre as mãos, forçando meus olhos completamente molhados a olhar dentro do seus, azuis e penetrante, como um oceano em fúria - Nunca mais repita isso. Está me ouvindo? Você é a vítima aqui, Sarah e eu vou pegar esse cara, nem que seja a última coisa que eu faça na vida.

Senti a sinceridade no tom de voz dele e a obstinação em me proteger do que quer que estivesse por vir. Quis beijá-lo, demonstrar que nem em meus mais ilógicos sonhos pude imaginar que alguém fosse se por em risco daquela forma por mim, mas meu instinto materno falou mais alto e corri de volta para dentro de casa. Anthony abandonou o automóvel danificado e me seguiu.

Após cuidar e ter certeza de que minha filha ficaria bem e de fazê-la dormir com uma canção ensinada por meu meu pai, a deixei descansando e me deparei com Anthony, parado em frente a porta do quarto, me aguardando com o olhar preocupado, mas com um sorriso terno nos lábios.

- O amor que dedica a ela me encanta - falou, esticando as mãos para pegar as minhas - Você é tão forte, Sarah!

Eu não era forte. As circunstâncias da vida que me obrigaram a ser e eu agradeceria pelo resto de minha vida, pois cada adversidade que passei me trouxeram para cá, junto do anjo mais belo já criado por Deus. Minha filha será sempre um motivo para continuar existindo.

- Já reportou o vandalismo que ocorreu com seu carro?

Ele assentiu - Mas você precisa me acompanhar até a delegacia mais tarde. Já está passando da hora de você dar um depoimento completo sobre a noite em que isso tudo começou.

- Não entendo - franzi o cenho - Já contei tudo que lembro.

- Contou a mim, não na delegacia, como numa queixa formal - ele explicou onde queria chegar - Sarah, a morte do Tyler está sendo investigada já a algum tempo e nada foi resolvido, mas depois dos acontecimentos dos últimos dias, temos evidências mais do que concretas para exigir proteção 24h para você e Lizzie, sem falar no fato de que está claro como água que precisamos ligar os dois crimes.

Dei de ombros - Mas o inspetor responsável pelo caso disse que...

- Não importa o que ele disse, não vou deixar que nada aconteça com vocês para só então ser feito algo à respeito - chamas brotavam em seus olhos - Vamos falar com a superintendente Geller e fazer com que você seja ouvida.

- Superintendente Geller? Você está falando da sua...

- Sim - ele me cortou - Me refiro a minha ex mulher. Eu disse que ela era minha superior. Não disse?

Não poderia ficar pior. A mulher que me tratou feito uma menina mimada na noite de Natal não só era uma colega de trabalho, como também dava ordens ao meu namorado por estar acima dele na hierarquia policial.

Ri nervosamente - Sim mas não que era a responsável por todo o departamento.

- Não se preocupe com isso - ele me envolveu em seus braços e apertou-me contra seu peito - Pedirei que ela me deixe assumir seu caso e se ela negar, falarei pessoalmente com o tenente coronel Donald's.

Agradeci e me sentindo um pouco melhor com os contratempos que a noite havia nos reservado, convidei Anthony para o café da manhã, já que passava das cinco e meia e nenhum de nós dois conseguiria pregar os olhos novamente.

Preparei algumas guloseimas e Anthony me ajudou com a arrumação da mesa. Quando tudo se encontrava pronto, subi e acordei Lizzie.

Levar ela para a escola, com tudo que estava acontecendo, me deixava um pouco temerosa, já que não sabíamos bem com quem estávamos lidando, mas não podia privá-la dos estudos por conta disso, embora sentisse que comigo ela estaria mais segura.

Eu precisava tirar um tempo para falar com Scott também. As coisas andavam estremecidas entre nós e eu havia prometido que iria passar no escritório para conversarmos. Anthony não havia gostado muito do fato de eu permanecer ao lado de meu ex namorado no trabalho, depois da declaração que ele havia me feito, mas eu não tinha outra opção, precisava do emprego e mesmo a contragosto, ele me apoiou na decisão de continuar.

Deixamos Lizzie na escola e seguimos, em meu carro, para a delegacia, já que o veículo de Anthony havia sido levado logo cedo para a oficina. Assim que entramos um senhor alto, careca e de cavanhaque veio ao nosso encontro.

- Ricci! - sorriu ele, apertando a mão do homem ao meu lado - Quem é essa linda moça?

Anthony retribuiu o cumprimento - Essa é minha namorada, Sarah - seu olhar voltou-se para mim - Sarah, esse é o tenente coronel Hank Donald's.

- Essa é a viúva do caso Armstrong? - indagou ele, estendendo a mão em minha direção.

- Apesar da indiscrição na sua pergunta, era onde eu queria chegar - Anthony sorriu sarcástico - Eu trouxe Sarah pra prestar um depoimento. Como eu lhe disse por telefone, meu carro foi totalmente destruído e temos todas as razões pra crer que o autor é o assassino de Tyler Armstrong.

O homem esguio e de semblante tranquilo, pediu que o acompanhássemos até sua sala e nos indicou cadeiras para que pudéssemos nos acomodar à sua frente.

- Inspetor Ricci, preciso que entenda que não posso passar por cima das ordens da superintendente Geller, já que ela é a responsável pela delegacia - explicou ele.

Anthony bufou - Você sabe bem o porquê do meu pedido, Donald's - ele apertou minha mão, como se quisesse me dizer algo mas não podia - A minha relação com Judith anda péssima e ela está usando o caso para me afetar indiretamente.

Desviei o olhar do coronel para Anthony e então tudo clareou em minha mente. A forma como a tal Judith me tratou ao atender o celular dele fazia todo o sentido agora, ela já sabia de minha existência e estava fazendo de tudo para me prejudicar, já que seu casamento com Anthony não havia terminado bem.

O coronel Donald's aspirou o ar profundamente e o soltou com pesar - Está bem. Em nome do respeito e a amizade de longa data que tive com seu pai, deixarei que assuma a frente nesse caso - os olhos bonitos do jovem senhor tomaram um brilho diferente ao falar do amigo já falecido - Tome o depoimento da moça, enquanto isso eu irei falar com a Geller.

Sorri aliviada. Temi ficar nas mãos da mulher que nem ao menos conheço e tanto me odeia, mas com tudo, agora eu poderia ficar tranquila por Anthony ser quem cuidaria das coisas de hoje em diante.

Anthony pediu que eu contasse tudo o que havia acontecido no dia em que meu aparelho celular fora levado e eu iniciei o mesmo relato que já tinha feito várias e várias vezes a ele.

Com seus olhos azuis me encarando atentamente e a testa plissada, ele não parecia estar satisfeitos com o que eu dizia. O tamborilar de dedos sobre a mesa demonstrava o tamanho de seu inconformismo.

- Pense melhor, Sarah. Deve ter alguém que passou despercebido por você, mas que esteve por perto naquela noite e pode muito bem ser o nosso cara.

- Não adianta, Anthony - arqueei as costas e soltei o ar, exausta com tudo aquilo - Só me recordo de estar com Emma e meus amigos Hannah e Henry. Ah e o Steve, namorado da Hannah, mas ele logo se afastou de mim e levou ela consigo. Fiquei sozinha quase todo o tempo, até Finalmente encontrar com você no bar.

- Precisamos de pistas pra seguir com as investigações e você é a única que pode nos fornecê-las - ele abriu uma gaveta em sua mesa, tirando dela um pedaço de papel em branco e uma caneta esferográfica azul - Sei que não é fácil, mas tente lembrar.

Cruzei as pernas e me acomodei de forma confortável sobre a cadeira de escritório - Já disse, isso é tudo o que me lembro.

- Sarah, eu preciso que pense - seus olhos compenetrados no rascunho sobre a mesa - Com quem mais você teve contato naquela noite na boate?

- Já disse, além dos meus amigos, troquei algumas palavras com o garçom, aliás, ele me cantou e Scott também esteve lá, mas não nos vimos, então não conta.

- O quê? Quando pensou em me contar que o seu amor de infância esteve na boate? Ele pode muito bem ser o cara que estamos procurando.

- Ele foi até lá à convite de Emma. Minha irmã sempre gostou muito dele e pensou que se nós nos víssemos fora do escritório poderíamos reatar - para mim tudo aquilo fazia muito sentido, até porquê a história de Scott fora confirmada por Emma - Mas quando me viu com você ele foi embora. Scott nunca machucaria ninguém, Anthony.

- Como pode ter tanta certeza?

- Assassinato? Conheço ele a bastante tempo pra saber que não seria capaz de nada tão macabro - me senti mal por em algum momento ter sequer cogitado a hipótese dele estar envolvido na morte de Tyler.

Anthony apoiou o cotovelo no braço da cadeira e levou o dedo indicador aos lábios - Devia saber que não se pode confiar cegamente em alguém, nem quando o conhece a vida inteira.

Mal as palavras saíram por entre seus lábios e eu as rebati - Muito menos quando se conhece a alguns semanas, como é o nosso caso. Não acha?

Okay! - homem à minha frente, visivelmente inconformado com minha fala, apenas levantou-se da cadeira estofada e caminhou até o arquivo, pegando algumas pastas de dentro da primeira gaveta.

Ao voltar para seu lugar, jogou o material sobre a mesa e entrelaçou os dedos apoiando a cabeça sobre as mãos, sustentando meu olhar - E o tal barman?

- Não o conheço, já disse! - joguei o corpo para trás, recostando novamente sobre o encosto da cadeira e cruzando os braços à frente do corpo.

- Mas conseguiria reconhecê-lo?

A imagem do homem loiro, de olhos verdes e barba por fazer veio à minha mente em segundos. Jamais esqueceria de alguém tão bonito como ele - Acho que sim.

- Então venha - Anthony caminhou até mim, esticando a mão para que me erguesse da cadeira - Vamos até a Village Club agora!

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