Capítulo 14 - Meus pêsames, Sarah!

Você deu seu melhor, não deu?
Às vezes eu penso que odeio você
Me perdoe, pai, por sentir isso
Eu não acredito que estou dizendo isso
...
Eu sei que você era um homem problemático
Eu sei que você nunca teve a chance
De ser você, dar o seu melhor
Eu espero que o céu tenha te dado
Uma segunda chance
(Father - Demi Lovato)

🍂

Ouvir tantos pêsames das pessoas por conta da morte de um ser que eu desprezava de todo o meu coração era quase como um castigo para mim. Tyler Armstrong só me fez sofrer, desde que o conheci e mesmo que tenhamos tido alguns poucos momentos bons, no início de nossa relação, a mágoa sobrepunha todo o sentimento benévolo que um dia nutri por ele.

Tyler não tinha mãe, já que a mesma o havia abandonado antes mesmo de saber andar. O pai era um homem intransigente, inescrupuloso e muitas vezes violento, o que deve ter originado todo o desvio de caráter do filho.

Os únicos da família à comparecer foram o irmão mais novo Jake acompanhado de sua esposa Jenn e Larry, um tio com fama de desocupado, que mal conhecia, por conta das brigas envolvendo Arthur o pai de Tyler.

O caixão foi fechado. O motivo era bem claro, quem o matou queria puní-lo por algo, desfigurando sua face como o próprio
Leatherface faria. Eu não o vi, não fiz nenhuma questão disso, mas Anthony me confidenciou que a pele de seu rosto havia sido retirada, tal como a posta de seus dedos, o que levava a polícia à crer que aquela era uma forma de apagar as digitais, dificultando assim seu reconhecimento.

Eu não acreditava naquilo. Algo me dizia que aquele bilhete estava ligado diretamente ao assassinato de Tyler e que a forma como ele foi morto era unicamente para que soubéssemos com quem estávamos lidando.

Achei melhor que Lizzie não acompanhasse o velório nem o sepultamento do pai. Ela ainda é muito pequena para presenciar algo tão lúgubre. Foi um fardo enorme ter de explicar à ela que o pai havia partido, que coisas ruins assim acontecem durante nossa vida e precisamos ser fortes para suportar a dor da perda. No fundo ela tinha a percepção de que o pai não era o melhor dos homens, muito embora ainda o visse como um herói.

Durante o velório, muitos amigos da faculdade se fizeram presentes. Mesmo que Tyler não fosse um de nós, todos conviveram indiretamente com ele, por conta de nosso namoro. Confesso que senti saudades das aulas e o ódio que sentia por Tyler aumentou ainda mais. Deixá-lo me dizer o que fazer foi o primeiro estágio para o casamento abusivo que tivemos.

- Sarah, querida. Você deve estar arrasada, eu sinto muito.

Não, aquela voz não poderia ser real. A personificação de cobra, o demônio de saia, Lilith que levou Eva à tentação, não era possível - Natasha? - disse assim que me virei e pus os olhos na megera que pronunciou meu nome.

Natasha Sommers era o que de pior existia em meus tempos de high school. Uma líder de torcida fútil e esnobe, que tinha tudo o que desejava, menos o garoto dos sonhos. Será que conseguem adivinhar quem seria esse rapaz? Acertou quem disse Scott King. Ele mesmo, meu ex namorado e atual chefe.

Ele sempre à rejeitou, o que só corroborou para que eu me tornasse a pior de suas inimigas. Natasha sempre fez de tudo para nos separar, inclusive inventar mentiras sobre minha índole para os pais de Scott. Eles nunca acreditaram em nada saído da boca dela, por conta do carinho que nutriam por mim, mas as armações de Natasha não se limitavam a isso, ela espalhou boatos, acabou com minhas amizades e destruiu a reputação de Scott junto ao time de futebol. Nada disso o fez desistir de mim e o ressentimento de Natasha só deixou de nós afetar quando finalmente nos formamos e deixamos para trás toda essa bobagem de popularidade adolescente e o título de rei e rainha do baile que ela tanto almejava, mas que foi dado à mim.

- Eu estava em Paris, à trabalho. Não sei se sabe, mas me tornei modelo - a face dela, exaltando toda sua futilidade e arrogância - Que pergunta minha, lógico que você sabe, já deve ter me visto em alguma revista.

- Na verdade não - rebati - Não sou muito ligada nessas coisas superficiais, como você bem deve lembrar.

Seu olhar me examinou dos pés à cabeça - Percebe-se que moda continua à não ser um dos seus fortes. Mas como eu ia dizendo, quando soube do falecimento de seu marido, não pude deixar de vir prestar-lhe minhas condolências.

Meu sangue ferveu com a soberania que ela julgava ter sobre mim - Tyler não era mais meu marido - abracei Anthony, parado ao meu lado, apenas ouvindo aquela verdadeira luta verbal - Já faz um ano que nos divorciamos.

Ela deu um leve toque em meu ombro, olhando para Anthony e umedecendo os lábios com a ponta da língua - Vejo que não perdeu tempo. Quem é o bonitão? Não vai me apresentar, Sarinha?

- Não vou correr o risco de você ficar obcecada por ele também, Nat! - me surpreendi com o sarcasmo presente em meu tom de voz.

- Você ainda trabalha pro King. Não é mesmo? - inquiriu ela.

Franzi a testa - O que tem isso haver?

Ela me lançou o sorriso torto - Agora sabemos quem aqui é obcecado por quem - deu as costas e caminhou, com seus saltos barulhentos, para fora da capela.

O ódio despontou em meu rosto e precisei juntar todas as minhas forças para não puxá-la por aquelas crinas falsas e fazê-la engolir cada palavra dita - Vadia presunçosa! - murmurei alto demais.

Anthony não fez-me nenhuma pergunta, mas no fundo eu sabia que ele havia ficado aborrecido com o que Natasha disse sobre mim e Scott. Não fiz questão de explicar-lhe nada, pois o cansaço físico e psicológico me deixava sem poder de reação, sem vontade de desenvolver qualquer diálogo. Não sei nem ao menos de onde tirei forças para responder as provocações de Natasha.

Voltamos para junto do caixão, onde haviam alguns amigos e familiares de Tyler. Eles rogavam à Deus pela alma do falecido, embora eu achasse mais lógico que rezassem para Satã. Já até podia ver as portas do inferno se abrindo para recepcioná-lo.

Enquanto tentava me concentrar em algo que não o alívio que sentia em não ter mais de lidar com meu ex marido possessivo, senti um toque em meu ombro e uma voz rouca sussurrando em meu ouvido - Meus pêsames, Sarah!

Virei-me rapidamente, dando de cara com um par de olhos azuis incrivelmente luminosos. Meu antigo amigo Shane Rhee.

Anthony envolveu minha cintura com o braço e puxou-me para mais perto de si. Havia alguma coisa errada entre aqueles dois e eu não fazia idéia do que poderia ser.

- Fiquei sabendo da tragédia e quis lhe prestar minhas sinceras condolências - Shane afagou meu rosto - Como está sua filha?

- Bem...

- É muito gentil, Shane - Anthony me cortou - Mas você não tem uma mulher grávida para cuidar?

Estreitei os olhos indignada com a forma grotesca de meu namorado agir, mas preferi me manter calma e não demonstrar meu desagrado na frente de todos - Ela está inconsolável, mas estou fazendo de tudo pra que consiga superar esse
desfortúnio.

- Entendo - Shane sorriu sem humor - Espero que fique tudo bem. Mas agora eu preciso ir, só vim ver como você estava, tenho que voltar para o Kentucky amanhã à noite e cuidar de minha mulher grávida - sorriu sarcástico.

- Oh, obrigada por vir! - agradeci.

- Tenha uma boa vida, Shane! - Anthony falou, da forma mais rude que lhe cabia.

Shane deixou o local e eu fechei a cara. Aquele não era um local propício para se discutir a relação, mas não podia fingir que o que havia acontecido alí não tinha me incomodado profundamente. Ignorei todos os toques e comentários de Anthony pelo resto do velório e também no sepultamento e me mantive em silêncio durante todo o percurso até em casa.

- O que você tem? Indagou ele, depositando as chaves do carro sobre a mesa de centro e acomodando-se no sofá em minha sala - Está tão quieta.

- Sério, Anthony? - minha face fechou-se dura - Porque tratou Shane daquela maneira?

- Me desculpe, Sarah! - ele baixou o olhar envergonhado - Não sei o que deu em mim, só tenho medo de te perder.

Sentei-me ao seu lado, retirando meus sapatos e jogando os pés sobre a mesa - Isso não é justificativa. Shane é meu amigo de longa data, nunca nos envolvemos romanticamente e mesmo que tivéssemos, ele é casado.

- Não gosto da forma que ele te olha - confessou - O desejo que ele sente por você transborda de uma maneira quase palpável e se quer saber, acho que Scott tinha razão em sentir ciúmes.

Aquilo que Anthony dizia não fazia o menor sentido. Seria eu tão desligada ao ponto de não notar que meu melhor amigo nutria sentimentos amorosos por mim? Não, nós éramos apenas bons amigos e o que Anthony dizia era loucura, ele e Scott eram dois babacas que não saber diferenciar os tipos de afeições.

- Não seja ridículo - toquei seus cabelos com as pontas dos dedos de maneira carinhosa. Tudo que eu menos queria era que aquela briga se estendesse noite à dentro, pois precisava muito dos afagos dele - Nós estamos juntos e ninguém vai poder mudar o que sinto por você, seu bobo.

- Desculpe-me, Sarah - ele tocou meu rosto com delicadeza - Prometo que essa atitude não vai mais se repetir.

Terminamos a noite envoltos de muito companheirismo e ao lado de minha pequena que precisava da companhia de todos que a amam.

🍂🍂🍂

O Natal havia enfim chegado e as coisas não andavam da maneira que eu gostaria. A morte de Tyler deixou um vazio imenso no coração de Lizzie, como já era de se esperar, além disso, as investigações pareciam estagnadas tanto no âmbito do assassinato, como no que dizia respeito ao meu stalker e o bilhete ameaçador. Como nada do que ele fez até agora configura um crime, a polícia diz que nada pode fazer para pará-lo, ou seja, eu preciso ser ferida ou morrer para que façam algo por mim.

Lizzie andava bastante distante de mim, com problemas na escola e seguidamente à encontrava chorando em seu quarto. A falta que sentia do pai me afetava diretamente, já que estava de mãos atadas e nada podia fazer para amenizar a angustia que ela vivia.

Anthony estava sempre presente, me ajudando no que podia, mas até mesmo com ele, Lizzie andava arredia. A única pessoa com quem ela se abria era sua tia Emma. Minha irmã tem sido essencial, pra ser franca, pois tem deixado sua própria vida de lado para me amparar nos cuidados com minha filha.

Havíamos combinado que a ceia deste ano seria em minha casa, para evitar deixar o local vazio, já que todos agora estavam sabendo sobre o stalker. Meu pai insistiu em contratarmos um segurança particular, mas óbvio que recusei. Não quero um desconhecido sempre por perto cada vez que saio de casa e nem posso pagar por um, muito menos aceitar que meu pai o faça, sem falar que Anthony tem ficado conosco e perto dele me sinto segura.

Estava no trabalho e o dia avançava rápido. Por ser uma data festiva, Scott nós prometeu alguns regalos, o que envolvia uma tarde de expediente mais curta. Por volta das três horas, ele reuniu à todos em sua sala e o tão famigerado brinde aconteceu.

Além das bebidas, haviam alguns canapés, música e risadas para todos os lados. Realmente, o Scott que conheci quando jovem parecia estar renascendo e isso me deixava extasiada. Nós éramos bons amigos, antes de tudo e vê-lo feliz era mesmo reconfortante.

Hannah não parava de falar no quanto esse Natal seria incrível e levando em consideração a presença de Steve na cidade, já era de se esperar que a alegria à tomasse novamente. Os dois haviam conversado e decidido tentar um namoro à distância, o que para mim parecia loucura, mas para Han era a melhor notícia que poderia receber.

A forma com que Henry me olhava durante todo o tempo em que estive falando sobre Anthony e o Natal que passaríamos juntos estava me deixando inquieta. Ele nem mesmo o conhece, não entendo o porquê de toda essa implicância. Deve ser por que não dei ouvidos à ele quanto a desconfiança em Anthony ser meu stalker.

Aos poucos o pessoal foi deixando o escritório rumo à suas casas, afim de preparar a ceia e ficarem ao lado de suas respectivas famílias. Ficamos apenas Scott e eu, como ele havia requerido.

- Pedi que ficasse por que quero lhe dar isso - puxou um embrulho de trás da mesa - É um presente pra Lizzie. Espero que alegre um pouco o seu Natal, diante do infortúnio que tem vivido.

Sorri, encantada com o cuidado que ele teve para com minha filha - Obrigada, Scott. Tenho certeza de que ela irá gostar, mas agora preciso ir, preciso passar no trabalho de Emma e pegar o meu presente para Lizzie.

Ele organizava os papéis espalhados sobre a mesa - Finalmente decidiu lhe dar um mascote?

Alonguei ainda mais os lábios. Scott sabe o quanto Lizzie ama os animais e que só não tem nenhum de estimação por conta de Tyler - Um gatinho! - esclareci.

- Eu adoro gatos, são tão espertos e independentes.

- Eu sei - assenti - Ainda me lembro bem do Senhor Gato.

Esse era o nome do bichano que adotamos, quando ainda estávamos no colegial. Nós o escondemos no sótão, para que os pais dele não soubessem de nada e o pequeno felino não fosse expulso, mas com o tempo, a fofura e o jeito doce do bichinho acabou por conquistar o coração de todos e ele virou o xodó da família.

Scott caminhou até mim, sorrindo com a lembrança aprazível - Sabia que meus pais ainda o tem?

- Mentira?!

- Não é não - ele procurou por seu aparelho celular nos bolsos da calça - Veja! - mostrou-me fotos do rechonchudo gato negro, peludo e de olhos âmbar. O animal estava velho, mas com certeza era o mesmo.

- Não acredito nisso. Esse gato me trás uma nostalgia tão boa - sorri comigo mesma, sem notar Scott se aproximando ainda mais.

- Eu sei... - disse, tocando minha bochecha com seu polegar - Ah, Sarah. Sinto tanto por não ter lhe tido antes o que sinto aqui - pôs a mão sobre o peito, no local do coração.

Dei um passo atrás, afastando-me um pouco de seu talhe - Não estou entendendo onde quer chegar com isso.

Seu corpo tensionou, passou os dedos por entre os cabelos castanhos e como estrelas, seus olhos de mesmo tom, brilhavam em direção à mim - Se você não o tivesse conhecido...

- Tyler está morto, Scott - o travei - Melhor não remoer mais esse assunto.

- Não me refiro à ele - Scott se achegou novamente. Tão próximo dessa vez, que as batidas aceleradas de seu coração quase se tornavam audíveis e a respiração ofegante entregava o quão ansioso ele estava por aquele momento - Falo do policial.

- Scott - dei de ombros - Você precisa entender que...

Num ágil movimento, ele puxou-me pelo braço, colando nossos corpos um ao outro, suas mãos envolveram minha cintura e sem que eu ao menos esperasse, seus lábios tocaram os meus, aflitos para que fossem correspondidos.

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