Capitulo 04 - Will

Acordei ao sentir uma leve sacudida em meu ombro e abri os olhos para ver Zach parado ao lado da minha cama. Tentei não pensar na forma como ele havia mudado comigo desde que tudo isso começou. Normalmente ele teria me puxado pelos pés, até me derrubar da cama para o chão. Agora, me tratava como se fosse feito de vidro. Levando em conta a merda que me sentia, provavelmente tinha razão.

- Ei pirralho, o almoço está pronto - Franzi a testa para o apelido mas não pude deixar de sorrir um pouco, pelo menos um pouco de normalidade.

- Eu disse que não precisava de uma babá, você deveria ter ido para o trabalho - Eu disse me sentando. Talvez devesse me sentir culpado pela forma como o havia tratado antes, mas odiava ver a forma como ele e a mamãe estavam deixando suas vidas de lado por minha causa.

- Eu pensei que havia ficado claro que o Sr. Carter me deu folga hoje - Ele jogou seu celular sobre minhas pernas - Mas se não acredita, ligue para ele.

- E arriscar ouvir ele ameaçar a encher meu rabo de sal grosso? Não, obrigado. - Lancei o celular de volta com menos força que pretendia, ainda assim Zach o pegou no ar.

Ele sacudiu a cabeça com um sorriso, mas sua expressão se tornou séria quando pareceu se lembrar de algo incômodo:

- Papai disse que vai trazer Maryon para o jantar - Ele contou e eu fiz uma careta involuntária.

Apesar de não ter a mesma aversão de Zach pela mulher de meu pai, eu também não gostava quando ele a trazia nos jantares. Mesmo com toda a coisa de "Sem ressentimentos" que era uma espécie de acordo em nossa família nos últimos tempos, o clima se tornava pesado.

- Será que Jack vem também? - Eu sempre gostei do meu meio irmão e meu afeto por ele havia se tornado maior nos últimos tempos, já que era a única pessoa que não havia passado a me tratar diferente, provavelmente porque meu pai e Maryon achavam que ele era muito jovem para entender e não haviam lhe contado.

- Provavelmente - Foi a resposta de Zach tentando soar indiferente.

- Espero que sim - Eu disse e meu irmão apertou os lábios parecendo irritado, não pude deixar de sorrir com isso - Calma cara, não precisa ter ciúmes, você ainda é meu irmão preferido - Provoquei

- Cala a boca, pirralho, eu não tenho ciúmes - Respondeu corando um pouco e soando como uma criança petulante.

- Aham - Lhe lancei um olhar descrente e ele me deu um soco leve no braço. Nunca achei que ia ficar feliz em levar um soco, por mais estranho que pareça, isso me fez sentir normal, mesmo que apenas por um momento.

- Vamos, pirralho - Zach andou na direção da porta. - A comida vai esfriar.

- O que você queimou dessa vez? - Perguntei me levantando com um pouco de dificuldade e o seguindo.

- Eu não cozinho tão mal assim - Ele se defendeu

- Sua comida tem gosto de papelão

- Só quando eu não sigo a receita

- Você nunca segue a receita

- Dessa vez eu segui

- E o que você fez?

- Miojo

Eu sorri e sacudi a cabeça enquanto o seguia para baixo, a tontura me alcançou de novo depois de poucos passos e me apoiei na parede. Felizmente, meu irmão estava de costas para mim e não viu.

- Will? - Zach me olhou preocupado dos pés da escada ao perceber que eu ainda não havia começado a descer.

- Está tudo bem - Menti começando descer atrás dele. Quando ele apenas continuou me olhando, reuni toda a força que me restava e consegui chegar até ele sem me segurar no corrimão.

Acho que herdei o orgulho do meu pai, e considerando minha situação, isso não foi uma coisa boa.

Ao entrar na cozinha senti o cheiro de comida, era um cheiro muito bom considerando os padrões de Zach, ainda assim não despertou apetite nenhum em mim. Segundo o médico isso era algo normal, perda de apetite, cansaço, tonturas, confusão e até mesmo a incontinência urinária, que eu havia escondido de minha família nas últimas semanas. Provavelmente eu tinha sorte de ainda estar precisando de analgésicos e não da morfina para controlar a dor.

- Mamãe? - Zach chamou.

- Achei que ela estivesse dormindo, - Lancei um olhar na direção da biblioteca enquanto me sentava em uma das cadeiras.

- Acordou há pouco tempo - Zach respondeu olhando ao redor, - Ela subiu para o banheiro, mas a porta estava aberta, achei que tivesse descido.

- Deve ter voltado para biblioteca - Eu disse, nunca fui um Sherlock Holmes, mas minha mãe estava praticamente morando lá nos últimos tempos. Quase a ponto de eu estar considerando a possibilidade de causar um incêndio "acidental" naquele lugar quando ela tivesse que sair para usar o banheiro.

- Acho que somos só nós então - Zach sorriu. Todos esses anos de convivência e ele ainda achava que poderia me enganar com esses sorrisos. Idiota. Eu podia ver através dos sorrisos falsos dele tanto quanto ele podia ver através dos meus.

- Vou falar com ela - Me levantei

- Will, não - Ele pediu, quase implorou com o olhar. Talvez estivesse pensando que eu acabaria discutindo com mamãe da mesma forma que discuti com ele mais cedo. Queria poder prometer que não ia acontecer, mas não podia.

Ignorando o pedido, caminhei até a biblioteca. Vi minha mãe sentada em frente o maldito computador, eu não precisava ver a tela para saber que havia várias abas de sites médicos nele.

- Oi mãe - Disse o mais naturalmente que consegui, ela levantou os olhos da tela e sorriu para mim.

- Ei, Will, como está se sentindo hoje?

- O mesmo - Tentei sorrir de volta mas o cansaço em seu rosto me fez franzir um pouco a testa - Você é quem não parece muito...

- Eu estou bem - Ela declarou antes de eu terminar de falar.

- OK... - Respondi hesitante, Não querendo começar uma discussão com o tema "Estou morrendo e você não pode mudar isso" pela segunda vez no dia. - Eu só vim te chamar para o almoço.

- Eu estou sem fome.

- Eu também, mas a comida está com um cheiro ótimo, - Dessa vez eu consegui sorrir, mas meu sorriso se apagou quando seu olhar voltou para a tela do computador. Eu sabia que ela ia recusar.

- Seria uma pena perder o momento histórico em que seu irmão finalmente cozinhou algo comestível. - Disse, me surpreendendo.

- Eu ouvi isso - Veio a voz de fora do cômodo. Pela primeira vez que me lembrava em muito tempo mamãe e eu rimos juntos.

O almoço correu na maior parte bem. Parecíamos uma daquelas famílias de comercial de margarina, conversando e rindo. Mesmo sem termos falado nada era como se tivéssemos concordado em agir como se nada estivesse errado durante a refeição. Infelizmente meu estômago não pareceu não gostar do acordo.

Eu não sei explicar direito o que aconteceu, mas em um momento eu estava rindo de uma piada de Zach e no seguinte estava de joelhos no chão da cozinha me livrando de todo o conteúdo do meu estômago sobre o piso marrom.

Quando não havia nada mais para vomitar Zach me ajudou a levantar. Ele e mamãe me olhavam assustados, pela expressão deles parecia que tinha vomitado sangue ou algo assim. Quando o pensamento me atingiu olhei para o chão, pensando que esse era o caso e fiquei aliviado ao ver que estava enganado.

- Você está bem? - Perguntou Zach. Eu teria dado um retorno sarcástico se não estivesse me sentindo uma merda completa, mas tudo o que fui capaz de fazer foi negar com a cabeça.

Ele me guiou até a pia e minha mãe entregou um copo com água, após lavar minha boca ela encheu o copo novamente e eu bebi alguns goles tentando diminuir a dor da garganta com o líquido gelado.

- Melhor? - Ela Perguntou ainda parecendo assustada enquanto passava a mão por meus cabelos. Concordei com a cabeça e ela continuou - É melhor você voltar para cama, eu vou...

- Pode deixar, mãe - Disse Zach me guiando para fora da cozinha, com a forma como eu me apoiava, ele certamente estava carregando a maior parte do meu peso. - Vamos, cara, vou te levar para o quarto.

- Desculpa, mano - Eu respondi com a voz um pouco rouca - Você não faz o meu tipo.

- Ah, claro, teria que ser a Rachel, não? - Me senti aliviado quando um sorriso apagou um pouco os traços da preocupação de seu rosto.

- Você não sabe brincar.

Ele me ajudou a subir as escadas, minhas pernas pareciam geleia e eu realmente fiquei surpreso quando cheguei a meu quarto arrastando os pés ao invés de carregado.

Zach pegou uma camiseta e uma calça no meu armário e me entregou, fiquei grato por isso. Apesar de precisar de uma troca de roupa, provavelmente não teria energia para me manter em pé o suficiente para achar a roupa por mim mesmo. Mesmo contra todos os meus princípios permiti que Zach ajudasse a me trocar. Ele saiu com as roupas sujas empacotadas para levar à lavanderia.

- Descanse um pouco, maninho - Disse antes de fechar a porta e eu assenti com a cabeça.

Fiquei um tempo com a cabeça apoiada contra a guarda da cama, eu não queria dormir novamente, então, assim que senti que poderia ficar em pé sem cair, fui até meu guarda-roupa e abri a gaveta onde guardava meus cadernos de desenho. Debaixo deles havia um caderno antigo da escola onde costumava escrever poemas. Eu tinha um pouco de vergonha, mas escrever sempre me ajudou quando estava triste.

Sentei de volta na cama com o caderno e uma caneta. Enquanto escrevia, meus pensamentos tomavam formas de frases sombrias, pensamentos que eu tentava esconder até de mim mesmo:

A sombra do dia se propaga
Como pássaros negros cobrindo o sol
Estou mergulhado na escuridão
Na escuridão que vem de dentro
No fim tudo o que resta são espaços vazios
E as profundas cicatrizes da vida
Que ficaram nas lembranças
Meu sono é apenas um desmaio
Mas não a morte
E ela estará aqui uma noite
O fim não é mais tão distante
Estou um passo mais perto da borda
Eu sempre disse a mim mesmo
Que pertenço a algum lugar
E talvez esse buraco seja o lugar a que pertenço
Quando minha mente disse "Não lembre"
Eu tentei esquecer tudo
Mas fui o único esquecido
Quando minha mente disse "Não fique"
Eu sabia que era mais fácil fugir
Mas fiquei e fui deixado
Deixado em pedaços
Talvez um dia, todas as minhas feridas
Tenham sido cortes de papel
Mas eles infeccionaram
E agora terei que carrega-las até o fim
Eu desisti de esperar pela luz
A luz que nunca chega
Então deixe-me apenas afundar no blecaute
Em que minha alma se tornou
Me tornarei invisível na minha própria escuridão
Essa será minha fuga
Meu último disfarce
E eu o manterei até o fim
Eu o manterei até a morte
Então olhe para meu rosto vazio de emoções
Diga que sou insensível
Me despreze por meu sarcasmo
Continue me repelindo
Me trate como um homem de ferro
Ou como um boneco de porcelana
Se esqueça de que eu ainda sangro
Ou não me toque por medo que eu quebre
Com minhas lágrimas construirei meu castelo de gelo
E suas palavras serão os pedaços de vidro quebrado
Pelos quais seguirei rastejando
Há muito tempo eu sou uma casa quebrada
Eu tentei dizer, quando o primeiro pedaço desabou
Mas ninguém estava ouvindo
Agora é muito tarde
Ninguém pode me salvar
Por uma vez estou quebrando o hábito
De dizer que estou bem
Por uma vez estou quebrando o hábito
De sorrir falsamente
Por uma vez estou chorando como sempre precisei
Eu sempre quis um lugar para minha cabeça
E aqui eu o encontro
Não em um travesseiro, mas em um laço
A voz da minha mente sussurra:
"Esqueça todo o resto"
E pela primeira vez eu estou ouvindo
Quando ela me promete um mundo novo
De estradas não viajadas
Onde não me sentirei tão impotente
Não há um epílogo dessa vez meu amigo
É adeus para sempre
Olhe para cima e talvez me veja ardendo nos céus
Ou talvez através da linha entre mundos
Possa ouvir minha voz uma última vez
Antes que meu grito esteja perdido no eco.

Quando terminei de escrever olhei para as palavras, elas pareciam gritar apenas uma coisa "suicídio". Eu estaria mentindo se dissesse que nunca pensei nisso. Afinal se a morte é inevitável, por que deveria apenas prolongar meu sofrimento e o de minha família?

Mas nunca passou disso, considerações sobre algo que eu nunca faria e quando me perguntava o motivo pelo qual eu não deveria fazer isso, os versos de uma música ecoavam em minha mente:

" Maybe I have nothing else.
No reason to live.
But I don't really know.
I haven't died yet.
The world is full of surprises.
And until death decides to take me.
I will stay alive
"

Como todas as outras vezes que essa palavras vieram a minha mente, eu ganhei uma força que não sabia que tinha. Me levantei, guardei o caderno de poemas e peguei um de desenho em seu lugar. Mesmo contra minha vontade acabei adormecendo antes de chegar sequer a metade do desenho.

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ALGUMAS EXPLICAÇÕES

Como todo mundo sabe, Chester Bennington morreu na semana passada, ele era vocalista de uma banda de que eu gostava muito, Linkin Park, e o poema de Will nesse capítulo foi minha homenagem a ele, as palavras em negrito são títulos das músicas dele, traduzidas.

A letra de Música que o Will se lembra não é uma letra de Música, só um poeminha que fiz pra dar sentido a história, a tradução é:

"Eu posso não ter mais nada
Nenhum motivo para viver
Mas eu realmente não sei
Eu ainda não morri
O mundo é cheio de surpresas
E até que a morte decida me levar
Eu ainda estarei vivo"

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