c a p í t u l o - 🇽 🇻 🇮


— Samantha... — a chamei, segurando sua mão e olhando em seus olhos.

— Por favor, me deixe sozinha, só um pouco — disse ela, quando chegamos ao complexo, sumindo pelo corredor escuro.

Ela já estava incomodada na limusine, quando arrancou os sapatos de saltos altos e se sentou ereta, olhando para o nada janela afora, mexendo nos próprios dedos numa sensação de nervosismo. Ela não havia dito nada para Renata, Josi e Samuel.

— Sam... — tentei chamá-la, sem sucesso. Ela simplesmente desapareceu.

Samuel havia chegado por último no carro, correndo com armas em punho e parte da armadura do soldado à vista. Mas os homens não apareceram para continuar o ataque. Eles poderiam muito bem surgir e continuar a luta que estávamos tendo, mas não. Desde o momento que aquele homem entrou na sala, eu sabia que ninguém mais seria morto.

E, às vezes, ser morto é bem melhor do que viver. Falo isso como alguém que já pensou centenas de vezes o que teria acontecido se quando eu tivesse caído daquele penhasco, eu tivesse morrido. Talvez dezenas de outras pessoas estivessem vivas. Talvez guerras não tenham começado. E esse monte de "talvez" me consumia todos os dias.

Porém ali, era real. Não tinha talvez. Samantha parecia ter certeza daquilo que havia visto e ouvido. Eu sentia minha mente rodando enquanto tentava entender o que aquilo significava. Como aquele homem poderia estar vivo? Como ele sabia o que eu buscava? Ou até mais: será que era ele o responsável pelos poderes de Sam?

Toquei o pequeno frasco em meu bolso, ainda estava ali, seguro e protegido. Entreguei-o a Renata para que ela o levasse ao laboratório e descobrisse mais coisas sobre a composição daquela substância. Ela e Josi provavelmente trabalhariam nisso nos próximos dias com maior atenção. Com seu talento e qualidade, poderíamos seguir para outros passos dessa guerra.

— Finalmente alguma coisa deu certo nessa missão — Samuel chegou, sentando-se ao meu lado no balcão do nosso espaço de bar. — Com o soro em mãos já estamos bem mais acelerados. A escuta do prédio conseguiu captar algumas vozes que também já estão para análise.

Eu não falei nada. Apenas virei a dose de whiskey em minha frente, observando o reflexo do meu rosto no espelho que havia na estante de garrafas.

— O que aconteceu, Bucky? — Sam me questionou. — Você está emburrado desde que entrou na limusine. O que aconteceu lá dentro? A Samantha brigou com você? Vocês discutiram? Ela te deu um pé na bunda?

— Samuel... — falei, tentando apenas cortar a conversa. Estava muito cansado daquela noite.

— Ah, Bucky, pelo amor de Deus, vê se cresce — retrucou ele. — Me conta logo, cara.

— Ela me perdoou — falei.

— Tá, mas isso é uma coisa boa. Não era isso que você queria? — ele encheu um copo com vodka e suco de limão para si e repôs o whiskey no meu. Ele me olhava com seus grandes olhos escuros extremamente desconfiado e curioso.

— O problema aconteceu depois, na sala, quando fomos cercados... — comecei. — O capitão Infernal apareceu.

— O capitão infernal, tipo, O Capitão? — Sam me perguntou.

— Não, era minha mãe — retruquei revirando os olhos. — Óbvio que era ele. Mesma máscara, mesma roupa.

— E qual é o problema? Estamos atrás desse cara há meses, sabemos que ele é uma das nossas únicas pontes para o General — Sam estava certo.

Tínhamos fotos, curtas gravações e mínimas aparições, mas o seu nome ecoava naquele inferno sombrio da cidade. O homem era conhecido por ações cruéis, guiados por seu superior. Tortura e morte eram apenas algumas ações diárias para ele.

— Samantha acha que ele é seu pai — falei, franzindo os lábios. — Ela o reconheceu quando ele a chamou pelo nome.

Pela primeira vez em muito tempo, consegui deixar Samuel boquiaberto e (talvez o mais incrível) calado. Ele apenas recostou-se no balcão e ficou pensativo, as sobrancelhas apresentando sua curiosidade.

— Aquele que deveria estar supostamente morto? — disse ele após um tempo.

— Pois bem, parece que não está, não é? — retruquei. — E isso me faz lembrar daquele maldito pirralho informante.

— Por quê?

— Ele disse "Pri". O pai de Samantha se chamava, ou se chama, Kira Prigget — expliquei, relembrando de tudo aquilo.

— Não tínhamos o que fazer. Você acha que eu consigo adivinhar um nome que nunca ouvi antes só por uma sílaba? — Sam retrucou. — E mais, que porra você está fazendo aqui? Se tudo isso aconteceu com Samantha, por que não está com ela?

Eu o fitei.

— Não sei. Ela pediu para ficar sozinha — falei. — E eu...

— Você o quê?

— Eu tenho medo, Sam — falei. Aquilo estava me consumindo. — Eu tenho medo do que posso sentir por ela. Tenho medo dela se machucar também. Como todos.

Eu não estava com Samantha naquele momento por puro e simples medo. Vergonha. Depois do que ela me fez sentir, com tanta intensidade, só pensava nela e só queria ela. Mas não podia. Todos que se aproximaram de mim morreram. Todas as mulheres que conheci também se foram.

— Qualquer pessoa que eu mostro o mínimo de interesse parece simplesmente evaporar, morrer, sumir ou explodir — continuei falando, franzindo os lábios enquanto balançava o líquido dourado no copo.

— Mas você só vai saber se tiver coragem o suficiente para enfrentar isso — Samuel falou. — Você acha que ela também não tem receio? Cara, ela pode apagar uma pessoa, controlar uma mente até, eu acredito. Acha que ela também não tem medo do que pode fazer com você?

— Não é questão de coragem, Sam...

— É sim. Você tem mais medo de amar alguém do que se eu apontar uma arma pra sua cabeça agora e ameaçar explodir seus miolos — ele me cortou. — Está na hora de você se abrir para aquilo que o mundo está te oferecendo. Não seja idiota a ponto de perder essa chance. Vá atrás dela. Agora.

Fiquei olhando para ele por alguns segundos. Ele falava sério.


╰─────╮•╭─────╯


Procurei Samantha por todos os lugares. Renata me disse que ela havia estado ali há um tempo, buscando por arquivos e informações. Tinha certeza que eram sobre seu pai.

— Não a vejo há umas duas horas — disse Re.

A procurei em seu quarto e na sala de treinamento, no refeitório e no laboratório. Comecei a ficar preocupado quando não a encontrei em nenhum desses lugares, então lembrei de uma última opção: o terraço do prédio. Era o último lugar que procuraria antes de seguir para 

Subi através das escadas largas do corredor e a encontrei lá, encostada no parapeito, olhando a brilhante cidade. Ela já havia trocado de roupa e agora vestia uma calça caqui marrom e uma regata preta. Estava descalça e seus cabelos voavam soltos com a brisa quente da estação. O céu estava simplesmente lindo naquela noite, em uma onda brilhante de estrelas cintilantes. A lua crescente estava no alto e apesar da iluminação da cidade, ainda conseguíamos aproveitar a vista.

Caminhei lentamente até ela e coloquei meus cotovelos no parapeito ao lado dela, da mesma forma que ela estava, tocando meu braço nu no seu, pele com pele.

— Sam... — comecei. Ela olhou para mim.

— Como pode ser, James? — me questionou ela. — Como ele pode estar vivo... e nunca me procurou.

— Eu não sei — respondi, sincero. — Realmente não sei.

— Estive vivendo em um looping de sofrimento, de luto... de dor — retrucou ela, observando o horizonte. — Por nada. Já que ele está vivíssimo.

— Sam. Se ele for mesmo seu pai... — continuei. — Ele é o nosso inimigo.

— Eu sei... — disse ela. — E acho que isso é o que mais me apavora.

— Por quê?

— Será que esse não era o caminho que eu fui feita pra seguir? Eu tenho as sombras. Eu controlo e eu machuco. Será mesmo que sou uma pessoa boa? Que defendo as coisas certas?

Ela parecia mergulhada em uma sensação de dúvida sobre si mesma e eu... bem, eu só podia confirmar. Aquilo era uma coisa que todos nós tínhamos em mente há todo instante. Será que estávamos mesmo ajudando o mundo ou estávamos sendo apenas marionetes manipuladas para determinado fim?

— Isso é uma coisa que não podemos saber... Samantha — falei. — Nunca vamos saber se aquilo é o certo. Apenas... sentimos.

— Você sentia que era o certo como Soldado Invernal? — ela olhou em meus olhos e trinquei o maxilar. Aquele era o tema que eu menos gostava de falar sobre.

— Não — respondi. — Eu não sentia nada. Absolutamente nada. Não era nem eu, Sam. Eu era controlado, apagado, reprogramado, ordenado, congelado... Todos os "ados" que você possa imaginar.

Ela me encarou por alguns segundos, os olhos escuros refletindo a luz das estrelas, emoldurados por longos cílios escuros. 

— E como conseguiu quebrar isso?

— Meu amigo, Steve — respondi, sério. — Ele, de alguma forma, ativou alguma parte da minha memória. Um pequeno fio no qual me segurei.

— E depois disso...

— Eu mergulhei para muito além do fundo do poço. Mas com ajuda, pude finalmente encontrar o mínimo de liberdade. O mínimo necessário para conseguir seguir em frente.

Ela se manteve em silêncio, olhando para baixo. Eu me aproximei dela e a puxei pela cintura com o braço biônico, suavemente. Com a outra mão, tirei uma pequena mecha de cabelo escuro que caía sobre seu rosto. Observava seus olhos brilhando com o meu toque, o que fazia meu coração dar um pulo suave. 

— E então encontrei você... — falei, quase em um sussurro, segurando seu rosto com delicadeza. — Depois de muito tempo, senti que poderia ser feliz de verdade.

— Mas como, Bucky? — questionou ela. — Como eu posso fazer você feliz?

— Eu me apaixonei por você, Samantha — falei, suavemente. — Desde a primeira vez que a vi. Desde a nossa primeira conversa. A sua coragem, a sua paixão pela vida, a sua alegria, mesmo com as sombras... Cada pequeno detalhe me fez gostar ainda mais de você.

Ela piscou lentamente. Fiquei com medo da resposta que poderia receber daquilo. E se ela não gostasse de mim da mesma forma? E se Samuel tivesse se enganado? Provavelmente o mataria. Minha mente rodou milhares de pensamentos em um segundo, todos inseguros e curiosos da resposta que eu poderia receber. Foi então que Samantha colocou uma de suas mãos macias em meu peito, sob o meu coração levemente acelerado. A outra mão foi até meu rosto, acariciando minha face com cuidado. 

— Eu também gosto de você, James... — disse ela, expandindo a tensão entre nós. — Mas tenho medo de algum dia machucá-lo. Não me perdoaria se isso acontecesse.

— Assim como eu tenho medo de ferir você — retruquei. — Somos o que somos, Samantha. Dois malucos com tendências fatais. Mas estou cansado de fingir que não me importo tanto com você. Por que eu me importo.

Ela deu um pequeno sorriso. Então se aproximou de mim e tocou seus lábios nos meus, selando tudo o que falamos um um beijo. A puxei mais forte contra mim, intensificando nosso contato, enquanto firmava minha mão em seu pescoço e retribuía o beijo com tudo aquilo que eu desejada. Nossas línguas dançaram carinhosamente, em uma disputa, enquanto eu sentia suas mãos passeando lentamente pelo meu corpo, passando por meu peito, abdômen e parando na barra da camiseta polo que usava.

Mergulhei meus dedos em seu cabelo enquanto ela passava a mão por dentro da minha camiseta, me fazendo arrepiar com o toque gelado. Sob a luz da lua e das estrelas, ficamos alguns minutos nos beijando intensamente, esquecendo de toda a desgraça que parecia nos cercar. Ali, não era teatro nem uma tentativa de escapar.

Deixei a mão metálica passear por seu corpo, apertando a sua cintura e deslizando para baixo. Segurei seu pescoço suavemente, apertando-o enquanto afastava nossos lábios para beijar a extensão abaixo da orelha até a clavícula, arfando, enquanto via seu rosto de olhos fechados aproveitando. A tensão entre nós estava tornando-se ainda maior, sexy, intensa. Sentia o meu corpo e o dela respondendo àquilo e não aguentaria ficar assim por muito tempo. Então, me distanciei alguns centímetros dela.

— Vamos descer, boneca? — a questionei, sem conseguir disfarçar a malícia em minha voz.

— Estava esperando me perguntar isso — respondeu ela.

Dei um sorriso de canto antes de pegar sua mão, tão pequena em comparação com a minha, e a puxar pela porta de saída da escadaria, caminhando em direção ao quarto que pertencia a ela. Depois de tantas lutas, tanto tempo e tanto desejo, aquela noite estava longe de acabar.

╰─────╮•╭─────╯

NA: Já posso chamar o carrinho de emergência pra você? Por favor não enfarte!

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top