c a p í t u l o - 🇮 🇽
Naveguei nos mais diversos sonhos até a hora que senti meu corpo acordar. Dolorido e ardido, com dificuldade para respirar, senti uma mão acariciar a minha. Abri os olhos devagar, me adaptando à claridade que estava no cômodo. Bucky estava sentado em uma cadeira ao lado da cama hospitalar, com os cotovelos sobre os joelhos, enquanto sua mão esquerda descansava sobre a minha.
Ele olhava para baixo, respirando fundo. Não parecia estar prestando atenção em mim. Estava pensativo, sério.
— James — o chamei pelo primeiro nome. Gostava de como soava em meus lábios.
Ele levantou a cabeça, me olhando com alívio em seus límpidos olhos azuis. Estava com uma cara péssima, como se não tivesse dormido direito nos últimos dias. Algumas olheiras escuras apareciam embaixo dos olhos, reafirmando o que eu pensava.
— Oi — disse ele, de forma rouca, com um pequeno sorriso. — Que bom que acordou. Faz um bom tempo que não faz isso. Estava ficando bem preocupado...
— Quando tempo eu dormi? — perguntei, franzindo as sobrancelhas por conta da dificuldade em falar. Percebi que grande parte do meu braço direito estava enfaixado, principalmente na mão. Em volta do meu tronco também haviam muitos curativos.
— 68 horas desde que trouxe você para cá — respondeu ele, estranhamente específico.
— O que... aconteceu? — questionei-o.
Ele soltou minha mão, como se percebesse que estava me tocando e senti o lugar formigar por um tempo sem a presença do toque. Sua pele era quente, calejada, forte. Eu percebi o quanto gostei daquela sensação.
— Você o incapacitou. Deixou o cara completamente perdido — Bucky contou. — Quando o tocou, as sombras se espalharam e ele caiu.
Ele fez uma pausa como se lembrasse de cada detalhe do acontecido. Parecia extremamente frustrado com alguma coisa.
— Eu... só me preocupei com você — continuou ele. — Caída. Estava com tanto medo que estivesse... morta.
Bucky balançou a cabeça, franzindo as sobrancelhas, espantando o sentimento que parecia invadi-lo. Seus olhos pareciam estar como o oceano naquele momento: selvagens, brilhantes e perigosos, apesar de serem a coisa mais linda que observava.
— Eu o vi levantar do chão. Queria quebrá-lo no meio — disse ele, bravo. — Mas ele não parecia se lembrar de nada. Quero dizer, bem pelo contrário, ele conseguia se lembrar de tudo sobre si mesmo.
— Como assim?
— Ele se lembrava de quem era, de quem eu era — respondeu ele, deixando um porém no ar. — Me reconheceu como sargento.
— Mas?
— Mas não se lembrava de nada atual, como chegou lá, por que vestia o que vestia ou se ele havia feito aquilo com a sala.
Ele se manteve em silêncio alguns segundos. Eu percebia o quanto ele estava tenso pela forma como sua mandíbula estava extremamente apertada. Se fosse possível quebrar os próprios dentes assim, não duvidava que ele pudesse fazer isso.
— E então?
— Você estava sangrando, toda cortada, jogada no chão... Precisava trazer você para um lugar seguro. Agora, o soldado vermelho está em uma das nossas celas, para interrogatório — continuou. Ele estava bravo, mais consigo mesmo do que com as pessoas ao redor. — Você não tem ideia de como me preocupou, ainda não sei se acho você corajosa ou apenas burra.
— Obrigada? — respondi ironicamente.
— Como você lutou com ele? — ele respirou fundo e questionou-me. — É muito difícil combater um soldado como aquele, ainda mais com o soro.
— Eu não pareço muito bem, não é? — perguntei ironicamente. — Não sei se lutar com ele e ter metade do meu corpo quebrado é realmente um grande feito.
— Você não está morta. Esse é o ponto. Ninguém luta com um super soldado em missão e sai vivo.
— Como assim? — perguntei, curiosa. Apesar de ter lido a suas sombras daquela vez, sentia que havia muito mais coisa que não percebi ou não prestei atenção, principalmente sobre esse passado que ele tanto odiava.
— Quando... Quando temos uma missão... — ele disse, lembrando-se. Uma nuvem de raiva, medo e angústia pairavam em seus olhos. — Não tem nada que nos impede de terminar.
— Eu aprendi a lutar com meu pai — falei. — Ele era do exército, antes de morrer. Capitão Kira Robert Prigget. Me ensinou grande parte do que sei. E também faço parte do treinamento militar.
— A arma era dele — Bucky afirmou.
— Sim. Era. Ele me deu alguns dias antes de morrer — resmunguei, ficando um pouco emocionada com aquilo. Meus pais haviam morrido e me deixado sozinha há cinco anos.
— O que aconteceu? — Bucky perguntou, apertando as mãos com força de um jeito estranho.
— Eles estavam em um teatro, assistindo uma peça que havia sido lançada — contei. — Houve um tiroteio e tudo simplesmente explodiu.
— Seu pai e sua mãe morreram lá? — Bucky perguntou quase em um sussurro. Eu assenti.
— Sim. Fiquei sozinha, mas como já era maior de idade, pude ficar com a casa e uma boa compensação, além desse trabalho.
— Eu... sinto muito — disse ele, sincero, doloroso. — Sinto muito mesmo.
— Está tudo bem.
Bucky fitou o nada por alguns segundos. Fiquei curiosa sobre o que ele estava pensando, mas não ousei tocá-lo para saber. Algumas vezes, sabia que era melhor esses poderes ficarem fora do caminho.
— O que viu, quando tocou o soldado? — ele perguntou, mudando totalmente de assunto.
— Eu... não consigo me lembrar muito bem do que absorvi... Apenas o vi com outros vários outros soldados de vermelho, com a cobra. A mesma cobra da capa do caderno. Mas não haviam muitas memórias na mente dele...
Precisei dar várias pausas por não conseguir respirar direito. Coloquei a mão na cabeça, também dolorida. Bucky se levantou.
— Tudo bem. Por favor, descanse. Vou trazer algo para você comer e chamar alguém para tirar todas as sondas de você — disse ele com um sorriso de canto — Está quase mais biônica que eu.
Antes de sair, deu um beijo na minha testa. Aquilo me deixou chocada. Foi tão natural, tão simples e carinhoso. Senti o local formigar e me peguei pensando nele um bom tempo depois que saiu. Alguns minutos depois, uma mulher, ruiva, alta e muito bonita chegou para cuidar de mim. A reconheci de primeira: a garçonete da lanchonete que Bucky gostava de ir.
— Sam! Não esperava vê-la tão cedo, ainda mais dessa forma — disse Renata.
— Nem me fala — retruquei, sorrindo, piscando lentamente.
— Vai levar um tempo para você se recuperar, mas vai ficar bem — ela continuou, tirando alguns fios do meu corpo. — Aqui, sou a Dra. Paletto, mas pode continuar a me chamar de Rê.
— Ok, Doutora — brinquei com ela.
— Você deu o maior susto em geral — disse ela, sincera. — Chegou aqui em frangalhos, sorte a sua que estou aqui.
— Obrigada... — agradeci. — Por cuidar de mim.
— Não agradeça a mim, agradeça ao Bucky — disse ela. — Eu ajudo com a parte médica, mas foi ele que cuidou de você durante esse tempo. Ele não saiu do seu lado.
Fiquei em silêncio, absorvendo suas palavras.
— Mais algumas horas e você já vai poder andar — disse Renata, quebrando o clima gelado. — Mais algumas semanas e estará como nova para se quebrar de novo.
— Uhul — resmunguei em uma falsa animação.
— Parece que você tem um ímã para o perigo, garota — ela brincou.
Ela riu, terminou algumas ataduras e então saiu.
Depois de umas duas a três horas deitada, sentada e já exausta de não fazer nada, eu podia ficar em pé e caminhar de um lado para o outro, apesar da dor. Sentia cada célula se colando no meu corpo e, apesar da dor, gostava de como estava me recuperando. A pior parte com certeza eram as costelas, doloridas, não havia muito o que eu pudesse fazer para diminuir a dor ou evitá-la.
— Já pode correr de novo — Bucky chegou quatro horas depois, vestido todo de preto. Percebi que o seu braço estava consertado, refletindo e brilhando como veias douradas.
— Está querendo brigar comigo, soldado? — perguntei, fingindo uma posição de luta. Dei um gemido fraco de dor, aquela posição doía.
— Vamos precisar de você inteira — disse ele. — Voltamos no instituto para buscar o nosso arquivo e ele não estava mais lá. Teremos trabalho pela frente.
— Ele não estaria lá mesmo — falei, simplesmente. Ele levantou suas sobrancelhas. Eu continuei. — O quê? Achou que as fotos eram para posteridade? Além disso, o resto do arquivo não está no cofre e sim, abaixo dele. Tem uma... passagem interna escondida embaixo da estante.
— Então, grande parte ainda está lá? — perguntou Bucky, quase inaudível.
— Sim. Deve estar. Eu imaginei que alguma coisa estranha estava acontecendo e... pareceu ser importante para você. Então deixei a capa original com outros papéis internos.
— Você falsificou documentos que o governo está procurando? — perguntou ele.
— Isso quem diz é você — repliquei, erguendo as mãos em rendição.
— A cada dia você me surpreende mais — disse ele.
— Mas só vou ajudá-lo depois que me explicar para quê você precisa disso. Eu estou ajudando você a decodificar esse documento há um tempo e sempre vejo você mandando mensagens. Para quem e por quê? — o questionei, agora um pouco mais séria.
— Os nomes do caderno fazem parte de outro experimento da HYDRA — explicou Bucky. Eu realmente não esperava que ele me contasse. Esperava que me desse uma desculpa aleatória e ignorasse. Mas não. Ele contou. — Tem nomes e datas de quando cada um dos experimentos foi capturado. A cobra, PHYTON, na capa, é o símbolo desse novo exército que está se formando. Quem atacou você foi apenas um deles, mas imagino que se lembre da quantidade de nomes e números que achamos naquele código, não é mesmo?
— Então eles estão criando um novo exército de super soldados?
— Sim. Um que eu não estou perto. Mas aquele cara, aquele soldado, foi tão forte quanto eu. Não posso imaginar o que vem por aí, mas não é coisa boa.
— Então precisamos buscar aqueles documentos, antes que alguém ache.
— Nós sim. Você não. Pelo menos não agora — retrucou ele. — Não consegue nem caminhar sem dor. E olha que nós aceleramos o seu processo de cura. Não temos tanta pressa com essas informações.
— Então vai demorar. A porta de entrada só abre com a minha íris. A não ser que você arranque um olho meu, precisará de mim — disse a ele, ficando em sua frente.
O que era verdade. E sim, talvez eu tenha esquecido de mencionar isso antes, mas a minha sala é cheia de segredos. Existem vários espaços secretos onde eu guardava os itens. Afinal, se tratava do governo e do mundo em segurança. Não podia deixar essas coisas jogadas por aí.
— Então descanse. Isso ajuda no processo — disse ele, tocando em meus braços. — Você está com um novo formato de soro que ajuda na aceleração da cura, mas precisa descansar.
— Você vai embora? — perguntei, indo até a cama e me deitando. Estava com medo e ele era a única pessoa que eu conhecia ali. Na verdade, nem sabia onde era "ali".
Ele caminhou até a cadeira e se sentou nela.
— Não — disse ele, me olhando intensamente, recostando-se.
E então, fechei os olhos e me permiti dormir.
Me senti flutuar em mais sonhos, sentindo cada pedaço do meu corpo se unindo e consertando a si mesmo. Não sei se aquilo era uma droga, se era um remédio, se era bom ou ruim... Mas eu me sentia melhor a cada inspiração.
Minha cabeça estava cheia: Bucky estava ali ao meu lado, cuidando de mim. Mesmo de olhos fechados, eu sentia que ele me encarava e eu gostava daquela sensação, mas não sabia o que isso podia significar para nós. Ele confiou em mim a ponto de contar o que aquele caderno misterioso significava. Nomes e mais nomes de soldados assassinos? Era uma completa loucura, mas depois de tanto tempo estudando as estratégias de guerra e os experimentos realizados, nada mais me abalava.
Não nego, estava apavorada com o que o meu futuro reservava, mas ao mesmo tempo, me sentia bem o suficiente para não desabar. Deixei as ondas do sono me levarem para a dormência, para uma escuridão sem sonhos.
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