Capítulo 10

Verona, Itália
2017

Depois da revelação de Perseus me senti pra baixo, era como se algo tivesse quebrado dentro de mim. Eu sabia que não podia ter sentimentos a mais que amizade por Perseus, mas acho que isso não ocorreu. Minha mãe gritaria tanto comigo por saber disso, por saber que estou gostando de um garoto.

Meu destino é ser freira e pra isso não posso ter sentimentos por algum menino. Mas por Perseus foi inevitável, acho que tive apaixonada por ele todo esse tempo e não percebi. Mas isso iria passar, treze anos é só um começo de uma vida, esse sentimento desapareceria com o tempo e eu ficaria feliz em conhecer a garota no qual ele se apaixonou.

Olho para o retrato que ele fez de mim , tão detalhado e lindo. Será que ele fez um assim pra ela? Certamente ela é daqui, uma das meninas desse internado, tem tantas. Mas que horas ele se encontra com ela? Já que de noite ele tá comigo? Talvez eu estou roubando o tempo que ele deveria ter com ela.

E as ruínas? Ele já a levou lá ou é um lugar só nosso? Talvez não, talvez não seja mais tão nosso, talvez agora seja dela também, seja quem for. Talvez eu devesse me afastar um pouco, será que ela sabe de mim? Será que ele contou sobre sermos melhores amigos? E se ela odiar isso? Odiar o fato de passar o tempo com o garoto dela?

Pensar demais está me dando dor de cabeça, é angustiante e não consigo segurar as lágrimas. Perseus vai acabar se afastando de mim, tenho certeza disso. E isso parte meu coração, me sinto sozinha agora. Ele é meu único melhor amigo, minha metade e perde-lo será doloroso.

Nunca tive sentimentos por nenhum garoto e agora não sei lidar com eles e também não sou correspondida. E ele nunca saberá disso, nunca. Guardei o papel dentro do livro e pus na gaveta. Eu olharia para Perseus diferente agora, o veria apenas como apenas mais um amigo, não queria me machucar. Ele sairia daqui assim como eu e nossos caminhos iriam para lados diferentes, eu sabia que esse dia chegaria e não demoraria.

Ele com certeza casaria com alguém, iria constituir uma família, enquanto eu iria viver num monastério como freira até meus últimos dias. Nunca daria certo mesmo.

— Ei, vamos para aula — Sam me chamou.

Peguei minhas coisas e a segui. Como Maximiliano morreu fui posta com outra garota, eu não tinha muito assunto com ela, fazíamos nossas atividades, nos ajudavamos, mas apenas isso.

A aula de artes era minha preferida, eles sempre colocavam coisas para desenharmos, não era lá uma artista de mão cheia, mas fazia alguns rabiscos. Sam estava ao meu lado e ela sorria para Raphael que fazia o mesmo. Eles pareciam ter a mesma sincronia e conexão.

Os olhos dele brilhavam toda vez que a olhava e eu sabia que ele realmente gostava dela, apenas pelo seu jeito. Me pegando encarando os dois e a imagem de Perseus veio a minha mente. E logo tratei de desviar o olhar e me concentrar no desenho.

— Vamos estudar um pouco na biblioteca, que tal? — Sam sugeriu — Raphael pode ir também.

— Adoraria — sorrir.

— Melhor deixarmos nossas coisas nos armários — Raphael disse e concordamos.

— Ei — parei quando Perseus me parou discretamente.

Enquanto Sam e Raphael andavam na frente, estavam tão entretidos um no outro que nem perceberam nada.

— Oi — respondi.

— Quer ir nas ruínas agora? — sorriu.

— Eu não posso, combinei de estudar na biblioteca com a Sam e o Raphael, vamos depois, ok? — nem esperei ele dizer nada.

Sai apressada e nem olhei para trás. Não que eu estivesse fugindo, eu só não queria ter que olhar para ele e saber que ele gosta de outra.

A noite passada eu não subi, fiquei olhando para o teto com uma guerra dentro de mim, uma vontade imensa de subir, mas não subi. Me contentei ficar deitada na cama esperando o sono chegar. Ele devia estar lá me esperando, tentando arranjar alguma explicação pela minha ausência. Nunca deixei de subir nesses últimos dois anos.

Sempre foi um hábito sagrado pra mim, ele sempre estava lá me esperando, todas as noites. E pela primeira vez eu quebro esse hábito me escondendo como uma covarde, sem coragem de olha-lo. No dia seguinte era como se o quarto estivesse pesado, como se algo tivesse nele a noite passada, era estranho.

A rotina percorreu normalmente, missa, café da manhã, aulas, atividades, lazer. Aproveitei para ir a biblioteca ler um pouco. Levei um susto ao ver Perseus no fim de uma fila de livros, entre duas prateleiras de braços cruzados. Seus olhos fixaram em mim e ele estava sério.

— Oi? — eu disse soando o mais natural possível.

— Oi, Coelhinha — sua voz saiu grave — Que bom te ver, não é? Se eu não te conhecesse, diria que está fugindo de mim.

Se aproximou e sua altura foi dobrando de tamanho. Para um adolescente ele era bastante alto.

— Não estou — senti a prateleira atrás de mim.

— Por que não apareceu na varanda ontem? — apoiou um braço ao alto da minha cabeça.

— Eu dormir demais, estava com muito sono — menti.

Que mentira descabida é essa? Nunca tive tanto sono ao ponto de não vê-lo.

— Será? — seus olhos tinham um brilho diferente — Esses últimos anos não teve desculpa o suficiente para você não me ver e agora tem?.

Engoli seco.

— Estou dizendo a verdade, Perseus. Pare de me intimidar dessa forma — cruzei os braços.

— Não é o que estou tentando fazer. Estou tentando entender porque me evitou ontem. Primeiro quando te chamei para as ruínas, segundo não foi me encontrar na varanda e hoje mal me olhou —ele tinha chateação em sua voz — Diga a verdade, Giulietta.

Meu nome saiu como uma repreensão em sua voz. Ele quase nunca me chamava pelo nome.

— Estou dizendo a verdade — insisti, olhando em seus olhos — Não fui as ruínas porque tinha que estudar e não fui a varanda porque dormi demais, é a única explicação que irá ter de mim.

Ele me analisou calado, como se estivesse procurando a mentira nos meus olhos.

— Ok — endireitou a postura — Se você está dizendo, eu acredito.

Se afastou um pouco sem tirar os olhos de mim. Voltei a respirar normalmente.

— Você vai subir hoje a noite? Ou vai dormir demais de novo? — cruzou os braços.

— Eu vou subir — cocei a nuca.

— Bom, se você não fosse eu te buscaria — cerrou os olhos.

Abri a boca e a fechei novamente.

— Eu vou — dei uma leve tossida.

— Até a noite, Coelhinha — sorriu e foi embora.

Respirei fundo me sentindo trêmula. Eu não era boa em mentir e nem gostava disso, mas não iria falar sobre o fato dele gostar de outra.

Toquei na maçaneta entrando na varanda, olhando envolta procurando por Perseus.

— Perseus? — o chamei caminhando para o centro.

— Coelhinha — sua voz soou atrás de mim.

Virei o vendo se aproximar. Seus olhos estavam cravados nos meus e senti minhas pernas fraquejarem. Ele chegou perto o suficiente para vê-lo nitidamente. Ele estava perto demais e meu coração batia desesperadamente.

— Que bom que veio — sorriu — Espero que você continue subindo, sem faltas — exigiu.

— Exigente — arqueei a sobrancelha.

— Com você — deu de ombros — Não gosto de vir aqui e não te ver.

Passou por mim, carregando minha mão junto. O que a garota que ele gosta acharia disso? O ouvindo dizer essas coisas?

— Não deveria dizer coisas assim — soltei minha mão da dele.

Seu olhar virou para mim questionado.

— A garota que você gosta, iria ficar desconfortável com isso...

— Ela entende — ele me corta e eu pisco várias vezes.

— Entende? — franzi a testa.

— Sim — sorriu — Sabe você é muito bobinha, Coelhinha — riu.

— Por que?

— Você não vê? Tá com ciúmes — mordeu o lábio.

— Eu não! — nego rapidamente — Por que eu teria ciúmes? Que ideia mais sem sentido! — cruzo os braços.

— Então não se importa dela começar a vim aqui, certo? Enquanto estamos abraçados e você apenas nos olhando, afinal você é minha melhor amiga — sorriu de lado.

Isso era uma espécie de provocação ou o que?

— Você pode trazer quem você quiser — revirei os olhos — Não me importo, afinal esse lugar é seu.

Ele arqueou a sobrancelha e sorriu. O típico sorriso de quem está aprontando.

— Interessante — afastou os cabelos da testa — Você não se importa, mas eu me importaria se você trouxesse alguém aqui.

— O que?

— Eu me importaria — ele se aproximou e eu fui para trás, até me encostar na coluna — Esse lugar é nosso, não é só meu, é seu. E eu odiaria o fato de outras pessoas virem aqui com você.

— Mas você pode trazer a sua garota? — disse irritada.

— Você é cega? — ele pousou os braços ao lado da minha cabeça — Não há outra garota, só tem você.

Meu coração disparou e senti meu corpo entrar em colapso.

— Você que é minha garota, Coelhinha — disse em um tom mais baixo e rouco.

— Você não tá falando sério, está? — minha respiração estava ofegante.

Ele gostava de mim? Eu era a garota que tinha seus sentimentos? Isso era muita loucura, uma parte de mim amava isso e a outra desprezava.

— Pareço está brincando? — disse sério — Você não entende o nível de sentimentos que eu tenho por você, não é? Mas um dia vai entender — ele leva os dedos para minha bochecha.

— Desde quando gosta de mim? — perguntei curiosa.

Eu deveria afasta-lo, mas invés disso eu questiono seus sentimentos.

— Um dia eu te conto, mas tem bastante tempo — sua respiração quente batia contra meu rosto — Eu sei que gosta de mim também, Coelhinha. Eu vejo, eu sinto como você reage comigo é tão único.

— Eu... Eu não posso, vou ser freira — gaguejei.

— Não vai, sabemos que você não quer isso de verdade. Apenas foi manipulada para querer isso — ele leva uma mecha dos meus cabelos ao seu nariz e cheira — Nós dois sabemos que é tarde e que você já tem sentimentos por mim.

— Tá tão convicto assim? — arqueei a sobrancelha — Não pode saber se realmente gosto de você.

— Acredite, eu sei. Te conheço o suficiente para saber como está aí dentro — sorriu — Você não precisa esconder você e seus sentimentos o tempo todo, pelo menos não de mim.

— Eu... — suspirei forte — Eu gosto de você Perseus, mas somos novos demais.

— Não estou exigindo nada você agora, Coelhinha. Sei que somos novos, mas quero deixar claro que não vai se livrar de mim — segurou meu rosto — Eu sempre estarei com você, não importa aonde for.

Era a primeira vez que eu via Perseus dessa forma, se declarando para mim dessa forma, com uma certa força, como uma promessa. Eu sabia que tinha um destino a cumprir, mas vê-lo dessa forma, ver que ele me queria, fazia minha cabeça mudar de rumo. Eu gostava dele meu coração palpitava mais forte na sua presença.

— Quero você comigo sempre — eu disse sem medo — Não sei o que irá acontecer...

— Nada vai mudar — disse ofegante — Não vou fazer nada agora, quero você pronta para tudo.

— Para tudo? — disse confusa.

Ele sorriu de lado.

— Você vai entender — beijou meu rosto — Mas não agora, Coelhinha.

Ele tocou a curva do meu pescoço e senti formigamento. Eu estava perdida, totalmente perdida. O que minha mãe diria se soubesse que eu estava cedendo ao um garoto? Que estava pensando em renunciar o meu destino? Ela ficaria louca, mas essa sempre foi mais a vontade dela do que a minha, eu sempre quis agrada-la de alguma forma.

Mas agora aqui com o Perseus, é como se tudo fosse sobre ele. Desde o primeiro dia que e vi, eu sentia que poderia estar ferrada. Mas não fugi.

Depois dessa declaração, até me retirei kkkk

Agora será a próxima fase, tem muita coisa para acontecer nessa fase. Depois dessa terá a última fase, que será atualmente.

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