Rapto

Ouvi o barulho irritante do celular bem ao fundo e tive a sensação de que tinha acabado de encostar a cabeça no travesseiro. Estava  o estágio de sono em que você não sabe se está meio dormindo ou meio acordada quando senti alguém me sacudir. Abri os olhos e soltei um gemido reclamão, era Ivan quem estava me balançando.

- Pelos Deuses, Ivan! Quantas horas? – Resmunguei, tentando empurra-lo para longe, mas ele forçou o celular na minha mão.

- É a Mel, Ady! Acorda! – O tom desesperado da voz de meu primo me fez ficar um pouco mais alerta.

Levantei tronco, ainda deitada de bruços, e peguei o celular que ele tentava forçar em minhas mãos. Lancei-lhe um olhar irritado quando ele se aproximou para tentar ouvir junto comigo o que quer que a pessoa do outro lado falaria.

"Mel?" Perguntei incerta. Alguém bufou do outro lado.

"Não! Claro que não!! Ah Adelle! Pelos Deuses! Ela foi raptada!" Era a voz de Sabrina que estava estridente do outro lado.

Demorei um segundo para entender o que ela havia dito.

"Sabrina? Como é que é?" Sentei na cama alerta.

Ivan levantou como um raio e começou a catar uma roupa para vesti se vestir. Fui andando em direção a bolsa que havia levado para a casa dos meus tios, fucei nela, mas tinha apenas meus documentos lá dentro.

"Você ligou na sede? Avisou alguém? Ela estavaem casa! Como foi raptada e ninguém viu? Cadê o Arthur?" Perguntei olhando para os lados a procura de alguma coisa para me vestir, além do vestido da noite passada e os sapatos de salto.

"Minha avó teve a visão e depois eu tive, todos estão em alerta. Foi um Perpétuo! Ele entrou na casa, pegou ela e só depois nós a vimos na gruta."

"Gruta? Que gruta?" Olhei para Ivan um tanto quanto nervosa, sem as opções de roupas, ele acabou de se vestir e me jogou um short e uma blusa.

- Vou pegar um tênis da mamãe pra você, já volto. – Disse, saindo do quarto.

"Gruta do Maquiné, em Sete Lagoas." Respondeu Sabrina. Ela também estava se arrumando. Consegui ouvir os movimentos e a respiração afobada.

"Já mandaram um grupo de buscas atrás, é claro." Falei confiante. Obviamente Alice e Patrício não iriam deixar uma visão de Galia passar despercebida.

"Não Adelle!" A voz de Sabrina saiu mais estridente do outro lado. Ela parou de se mexer e segurou um soluço.  "Pelos Deuses, não! Alice acabou de chegar na sede e está surtando! Eu consigo ver claramente! É como se estivesse conectada a ela de alguma forma... Mas isso não importa! Patrício mandou ficarmos quietos, disse que nossos pais foram resolver o problema. Mas eles não foram, Ady! Não foram porque eu tive uma visão que vovó não teve! Mas ninguém confia em mim! Ninguém confia na fraca e incompleta Sabrina..."

"Sá, não é verdade..." comecei a falar, mas Sabrina me cortou.

Todos sabíamos dos problemas das visões incompletas e incertas. Mas, de uns tempos para cá, elas eram mais completas e, muitas vezes melhores até que as de Gália.

"Não Ady! Não! Isso não importa agora! O que importa é Mel e eu vi! Mas não me deixam falar com Alice! Aí Deuses são tantas imagens, tantas..." Sussurrou com a voz estremecida.

Eu não queria nem imaginar como estava a cabeça de Sabrina naquele exato momento. Lembrei vagamente das crises que ela tinha quando forçava a visão, ou quando elas lhe vinha em enxurradas.

"Sa, respira. Se apegue a apenas uma visão e deixe que ela venha." Falei calmamente pelo celular.

Do outro lado Sabrina respirou fundo, parando de se movimentar novamente. Ficamos um tempo em silêncio até que a respiração dela voltou ao normal.

"Consigo ver claramente pra onde levaram a Mel, Ady. A gente tem que ir logo! Não podemos perder tempo." Apesar da pressa, a voz dela saiu calma. Aos poucos, ouvi que ela voltava a se movimentar.

"A gente quem?"

"Eu pensei em eu, você, Dani e Ivan." Ela falou como se fosse o menos importante.

Acabei e passar a blusa, que Ivan havia me dado, pela cabeça, e a puxei para baixo, ainda absorvendo o que Sabrina havia dito.

"Surtou? Somos os mais novos! Nossos poderes ainda estão aparecendo! Cadê o Diego?!"

"Ele não dormiu aqui! Não da tempo de tentar mudar a cabeça dos meninos, Ady! Você sabe que o Gui é fiel ao Patrício!"

"Tá, mas agora eu sou a alfa e..."

"Adelle eles vão matar a Mel!" Gritou Sabrina, se despertando novamente.

Revirei os olhos, tentando manter a calma. Certo que Sabrina estava no meio denim fluxo complexo de visões, e visões desesperadoras, diga-se de passagem, mas, mesmo assim, ela costumava ser dramática.

"Sá, calma! Eles precisam de Adão para fazerem qualquer coisa contra a Mel...".

"Pelos Deuses, Ady! Você acha que eu estaria me descabelando se eles já não estivessem com Adão?! Se só a Mel tivesse sido capturado eu iria seguir as ordens de Patrício!".

Quando ela acabou de falar, aos berros, senti que meu sangue congelava lentamente por todo o corpo.

"Puta merda" Sussurrei. Meus olhos passearam lentamente pelo quarto de Ivan e pararam no relógio da parede. Eram duas e meia da manhã. "Arruma um jeito de ir pra minha casa, Sa! Agora. Eu e Ivan estamos descendo."

"Avisa a Dani!" Pediu em um fio de voz.

"Aviso. Te encontro lá daqui vinte minutos."

Desliguei o celular no momento em que Ivan entrou no quarto com o tênis. Não me dei ao trabalho de falar qualquer coisa que fosse, apenas os peguei das mãos de meu primo e os calcei, enquanto ligava para Dani.

"É bom que seja importante, Adelle." Ela atendeu com voz de sono.

"Me encontra lá em casa daqui no máximo, vinte minutos. Mel foi raptada, não posso perder tempo agora." Soltei depressa.

Eu sabia que Dani não iria questionar. Ela nunca questionava quando eu falava daquela forma. Ela sempre fazia. Esperava me encontrar pessoalmente para só então analisar a situação é questionar o que quer que fosse.

"Ok. Caio... Levanta..." desliguei o telefone.

Caio! Era óbvio! Caio iria ajudar!

Senti uma pontada de esperanças quando me virei para Ivan.

- Anda.

Meu primo pegou os documentos em cima da mesa, a arma que Caio tinha nos dado e as chaves de casa.

Apagamos a luz e saímos de fininho do apartamento.

– Tia Fabi?

- No último sono. – Sussurrou.

Nunca fizemos o caminho da casa dele para a minha tão rápido em toda a vida. Desejei já ter controle sobre a forma de Lycan e poder chegar o mais rápido em casa. Quando chegamos na esquina da casa de Ivan, resolvemos correr e descemos a rua da Bahia como se estivéssemos disputando uma corrida.

Ao chegar em casa, tropecei com Ivan pelo hall de entrada do prédio. Apenas acenei para o porteiro e corremos para o elevador. Seria vinte e seis andares correndo se decidíssemos ir de escada e precisaríamos de energia para uma possível luta na gruta de Maquiné. Não seria legal gastar toda energia agora, então Ivan chamou os dois elevadores.

Olhei para o relógio no pulso dele, ainda faltavam dez minutos para o tempo combinado. Entramos no elevador assim que ele chegou, apertei o vigésimo sexto andar e encostei na parede. O meu coração batia acelerado, me fazendo engolir em seco. Eu não gostava da ideia de estar perdendo tanto tempo ali, dentro de um elevador.

- Como a gente vai? Somos todos menor... – Perguntei de repente, Ivan me olhou confuso.

- Você e Sabrina são maior...

- Grande coisa, não tenho carteira!

- Mas tem um carro. – Olhei-o considerando.

Mordi o lábio quando o elevador chegou, ainda pensativa, corri para o quarto desenfreadamente. Não havia ninguém no apartamento, estavam todos em Lagoa Santa ou em trânsito pra BH.

Entrei em meu quarto como um raio e peguei as chaves do carro em uma gaveta na escrivaninha. Não pensei em trocar de roupa, ou comer alguma coisa. Apenas catei os documentos do carro, minha arma, as chaves de casa dentro da bolsinha que havia trazido da casa do Ivan e descemos para a garagem para encontrarmos com Dani e Sa.

Vi Sabrina assim que cheguei perto do meu carro. Ela veio aflita para perto de mim, estava sozinha, como disse que estaria na ligação. Usava com um short velho, uma blusa larga e tênis. Assentiu assim que me viu desarmar o alarme do carro e jogar as chaves para Ivan, ele era o único que sabia dirigir ali. Entrei no banco do passageiro, quando ele deu partida e ajeitou o carro para sair da garagem.

Antes que pudéssemos sair, Dani desceu correndo a rampa da garagem, com uma roupa de ginástica, os cabelos presos, segurando uma foice na mão? Franzi a testa tentando identificar o objeto.

Ivan parou o carro deixando-a entrar no banco de trás, ao lado de Sabrina.

- Cadê Caio? - Sabrina perguntou no momento em que Dani entrou no carro. Ela a olhou com ia cara de poucos amigos.

- Achei que você soubesse... - Sabrina revirou os olhos e olhou para fora do carro, irritada.

- Você sabe como meus poderes de funcionam! - Dani respirou fundo, se acomodando do lado de Sabrina com a foice em no próprio colo.

- Eu sei, desculpe. Ele disse que vai pra central pra tentar mandar alguém pra nos ajudar mais rápido. Disse que vai avisar Alice.

- O que diabos é esse trem ai? – Perguntei olhando para a foice, Dani revirou os olhos.

- Caio terminou a arma da Mel, disse para trazê-la e entregar a ela se conseguirmos.

- Uma foice? O que uma foice tem a ver com Eva?! – Perguntou Sabrina, Dani deu um sorriso nervoso.

- Essa é justamente a questão são, não é? A doce Eva é o oposto de Lilith. Enfim, Caio consegue ser engraçadinho às vezes. – Dani revirou os olhos, sem jeito.

- Você sabe usar isso? – Perguntou Ivan enquanto manobrava o carro.

Um arrepio passou pelo corpo no instante que meu primo deu ré e manobrou na garagem. Meu carro era novinho e eu estava deixando Ivan, que tinha acabo de fazer dezesseis anos e outubro, dirigi-lo!

- Só a Mel pode ativa-lá. A "arma" é a foice, o objeto mágico é um cajado para que os poderes de maga de Eva sejam canalizador e fiquem mais fortes. – Explicou.

Não prestei atenção alguma ao que Dani falava.  Meus olhos estavam pregador no caminho a nossa frente, minhas mãos grudadas ao banco do passageiro ao lado de Ivan.

- Se você arranhar um pouco que seja esse carro... – Sussurrei para ele, com a voz tremida. Ivan riu.

- Relaxa.

- E se tiver blits? – Era Dani quem entrava na conversa, Sabrina balançou a cabeça.

- Se eu não conseguir despistar uma blits, posso desistir dos meus poderes. – Olhei para trás e Sabrina tinha um sorrisinho no rosto.

Eu e Dani nos entreolharmos. Para nós, fazer algo ao contrário do que a central tinha mandado expressamente era uma coisa, para Sabrina era outra completamente diferente.

Ivan acelerou o carro o máximo que pode quando entramos na estrada. A verdade é que mesmo sendo guardiã, eu nunca tinha ido à gruta, nunca havíamos precisado fazer missões lá. Normalmente fazíamos missões no local em que estávamos, os adultos que faziam as que tinham que viajar. O caso é que, agora, eles haviam mexido com um de nós. Um dos jovens. Independentemente da idade ou do estágio que estávamos com nossos poderes d em nossos treinamentos, tínhamos que ir atrás dela.

Ao entrarmos em Cordisburgo, Ivan diminuiu a velocidade e olhou de relance para mim, virei para trás e olhei para Sabrina, onde pararíamos? Será que já tinham mandado fechar a gruta?

- E agora? – perguntei insegura. Sabrina respirou fundo para se concentrar.

- Vá seguindo as placas, vou ver onde podemos parar. – Sussurrou.

Ivan fez um aceno com a cabeça para sinalizar que havia entendido. Foi subindo a serra para chegarmos à gruta.

O ar, enquanto subíamos, foi mudando, ficando mais frio. A mata ficava mais densa. Estava muito escuro ainda, o dia nem começara a amanhecer. Olhei ansiosa para Sabrina quando começamos a descer na estrada, parecia que nunca iriamos chegar, então ela abriu os olhos.

- Vá bem devagar agora, Ivan, não vamos chegar no estacionamento da gruta, vão nos ver, tem uma entrada na estrada, você vai poder parar o carro. – Ele assentiu e continuamos andando, tentando enxergar no escuro a entrada.

– Ali em frente. – Dani apontou para um pequeno vazio no meio da mata, Ivan parou o carro bem devagar.

Pegamos nossas armas para sairmos do carro, assim que meu primo estacionou. A viagem tinha sido longa, e ainda estávamos cansados do dia anterior, da noite sem dormir.

Olhei para meu carro por um tempo. Por mais que ele fosse preto, não tão grande, e, por ainda estivesse escuro, um carro no meio da estrada que ia para a gruta era um tanto quanto chamativo.

Me virei para Sabrina e ela balançou a cabeça. Novamente se concentrou fazendo o carro desaparecer. Eu sorri.

- Você tá ficando boa na coisa, hein? – Comentou Dani, Sabrina sorriu dando de ombros.

- Todos estamos, nossos poderes evoluíram mais rápido depois que os poderes de Mel apareceram, segundo minha mãe, isso tem ligação. – Respondeu.

- Tem a ver com a estabilização, não? - Perguntei diretamente para Sabrina. Ela se virou para mim um tanto confusa.

- Estabilização?

- Da magia. - Respondi, decepcionado. - Imaginei que você soubesse e finalmente fosse me explicar.

- Não faço ideia do que seja! Onde você ouviu falar de estabilização da Magia? - Perguntou curiosa.

Ivan deu um long suspiro, nos interrompendo.

- Assunto longo Sa, será que podemos deixar para quando a Mel estiver salva? - Sabrina concordo no mesmo instante, se afastando de mim.

Apesar da estabilização da magia, o que Sabrina havia dito sobre nossos poderes terem evoluído agora que Mel apareceu havia algum sentido. A primeira vez que os menino se transformaram, até aprenderem a esconder seus pensamentos foi preciso meses de treinamentos, dessa vez, havíamos tido muito mais avançados em menos de um mês!

- Adelle, avisa ao Arthur que estamos aqui. Tente tranquiliza-lo e fale para ele avisar aos outros e para que Alice venha o mais rápido possível para cá... Sei que Caio disse que faria isso,  mas, oficialize. Quando ela chegar já vamos ter a localização de Melissa e já estaremos tentando negociar. – Falou Sabrina. Ela pegou a própria arma e cutucou Dani. – Vem, vou te mostrar a entrada, se transforme em  um animal qualquer que passe despercebido, entre lá dentro e dê uma olhada no tamanho do local para entrarmos, depois o Ivan abre caminho com as esferas.

- Anm... Sabrina, estamos um pouco longe dos outros... Não sei se vou conseguir contatar com eles... – Comecei a falar, mas Sabrina sorriu levemente para mim.

- Adelle, você e eles são um só, relaxe e tateie, você vai conseguir. Ivan, fica com sua prima. Assim que conseguirem, venham encontrar com a gente. A entrada que vi não é muito longe daqui. – Revirei os olhos, mas assenti para ela.

Quem a havia feito líder se o Gui não estivesse presente? Não tive tempo de reclamar, até porque a situação não pedia reclamações, e os planos que Sabrina havia elaborado eram bons. Quando dei por mim, Sabrina e Dani já haviam entrado na mata.

Sentei ali perto de onde o carro deveria estar e abri os bloqueios, tateei por pouco tempo até que os três entraram na minha cabeça, desesperados.

"Adelle, você é louca? Eu perco minha irmã e depois minha namorada no mesmo dia? ONDE VOCÊ PENSA que está? Quer que eu morra de preocupação..."

Os pensamentos de Art apareceram primeiro. A preocupação que ele sentia era quase palpável, o desespero parecia querer me engolir. Respirei fundo para não confundir meus sentimentos com os dele. "Calma, eu sei! Sabrina teve uma visão e disse que deveríamos agir logo."

"Menina, vocês não ouviram o que meu avô disse sobre não bancarem o herói? É a vida de EVA que está em jogo! PIOR, é Melissa! Ela é uma de nós... Vocês são imprudentes e loucos! Como líder dos mais jovens eu exijo que você me diga onde está! Adelle, como você pode levar o Ivan junto? Ele é o mais novo..." Era Guilherme que estava basicamente gritando na minha cabaça. Respirei fundo novamente, tentado não ficar irritada com ele.

"Adelle, pelos Deuses, Sabrina está bem? Ela disse que tinha que fazer alguma coisa, alguma visão que a avó não teve..." Ao menos Diego parecia entender. Tentei ignorar um pouco o desespero deles e me concentrar na mensagem que precisava passar, minha cabeça ia doer mais tarde.

"Certo, Guilherme, estamos bem, estamos na gruta, acabamos de chegar. Viemos Ivan, eu, Dani e Sabrina. Não sei porque estão tão desesperados, Caio sabia que viríamos. Se ele achasse loucura teria impedido. Além do mais, estamos treinando para esse tipo de coisa a vida toda, não?" Deixei que eles absorvessem o que eu tinha falado, mas logo minha cabeça já estava com um turbilhão de pensamentos revoltados de Gui e Art, Diego parecia um pouco mais desesperado que antes, também.

Suspirei. Se eles não parassem, eu teria que bloquear a mente e deixá-los falando sozinhos.

"NÃO BLOQUEIA A MENTE, ADY!" Era Gui. Ele parou de me dar bronca e pareceu se acalmar. "Não bloqueia pra gente saber como vocês estão."

"Olhem, Sabrina teve uma visão e me ligou de madrugada, Por favor, tentem entender que ela disse que se não viessemos agora Mel morreria. Para terem pego a Mel, vocês sabem, já encontraram Adão, então... Sabrina pediu para que tentassem fazer Alice vir o mais rápido possível. Vamos tentar ganhar tempo aqui com os Perpétuos...".

"Eles vão rir na cara de vocês! Vão fazer o que? Jogar as armas neles?" Gritou Arthur.

Respirei fundo, ouvi Ivan bufar só meu lado. Meu primo havia percebido que os meninos estavam brigando comigo.

"Olha, se fossemos esperar não conseguiríamos ganhar tempo aqui. Segundo Sabrina era a única chance de Mel..."

"Vocês sabem muito bem que as visões da Sabrina são falhas e deturpadas, Adelle!" Guilherme soltou irritado. "Como podem se dispor a esse tipo de risco, depois da palavra de alguém que não consegue dar certeza??"

"As visões dela tem mudado, Guilherme. Estão mais certas, mais reais. A própria Alice disse que poderíamos começar a confiar. Desde que Mel apareceu, as visões de Sabrina são melhores, mais frequentes e mais certas até que as de Galia." Retrucou Diego, pacientemente.

"De qualquer forma," me meti antes que eles começassem a brigar entre si. "se falássemos o que pretendíamos fazer, iriam nos mandar ter paciência. E pelo que Sa viu, esperar não seria uma opção. Galia não viu Mel morrer, mas Sabrina viu! Estamos aqui para impedir que isso aconteça! Ou, ao menos, para ganhar tempo até Alice chegar, então, ao invés de ficarem ai brigando com a gente, mandem logo uma equipe de resgate com Alice!"

Guilherme e Art ficaram quietos, mas eu ainda podia sentir a aflição deles, de todos os três para ser verdadeira. Apesar da situação, os pensamentos de Diego estavam mais tranquilos, ele pareceu entender o que fizemos.

"Caio também sabia e ele mandou logo Dani, como a Ady disse. Se Caio, que é um chato com a segurança de Dani, a liberou para essa missão, está claro que era o melhor a fazer. Vou procurar por Alice e apressar as coisas aqui, Ady. Segurem a barra ai, já estamos chegando." Respirei aliviada.

"Obrigada, Diego, vou deixar minha mente aberta para podermos conversar, mas, por favor, não me apavorem. Devo precisar lutar, então não fiquem mandando pensamentos desesperados ou coisas assim."

"Boa sorte, Adelle, vá fazer seu trabalho." Era Guilherme agora. Ele tinha concordado, ainda achava loucura, mas estava preocupado em resolver o problema com Alice o mais rápido possível. Apenas Art era o relutante.

"Se eu te perder, se perder vocês duas... Eu..." A aflição que Arthur estava sentindo, parecia se sobrepor a minha própria pele.

Fiquei um tanto incomodada com a sensação. Eu também não tinha certeza do que estava fazendo, só sabia que estava porque era a única chance de Melissa. Também achava loucura, mas era melhor agir de uma vez do que ficar esperando. Mel poderia morrer se não fizéssemos nada.

"Art, você não vai perder nos duas. Prometo."

"Não quero perder nenhuma."

"Não vai, promessa. Agora, me ajude."

"Por favor, nos avise qualquer coisa."

"Eu irei."

Eles saiam da minha mente, deixando os pensamentos distantes.

Deixei-os ali, alerta, mas afastados. Abri novamente os olhos e me deparei com Ivan me encarando. Ele estava encostado em algo que não pude ver e deduzir ser o carro, os braços cruzados e uma sobrancelha levantada como se me questionasse o que havia acontecido na minha cabeça. Sorri de leve para que ficasse tranquilo.

- Eles entenderam?? – Concordei. Ivan desencostou do carro e respirou fundo, assentindo.- Vamos logo, então.

Não andamos por muito tempo até encontrarmos com Sabrina. Ela estava segurando a própria alma e a de Mel.

Dani saiu do buraco que havia entrado na forma de um lagarto para logo em seguida se transformar em humana.

- A entrada é estreita, mas dá para passar. Ivan vai ter que abrir só aqui na frente mesmo. Acho que dá no Salão da Fadas, é o sexto salão da gruta. – Sabrina sorriu, gostando da notícia.

Ela deu espaço para Ivan abrir a passagem. Meu primo invocou as esferas e começou a fazer o trabalho dele.

- Eles devem estar no Salão dos Cemitérios, lá é um local ideal para fazerem o ritual. – Comentou Sabrina, olhei para ela em dúvida.

- O que vamos barganhar? – Perguntei de repente.

Sabrina e Dani me olharam pensativas, Ivan não parou de fazer o que estava fazendo, mas pude perceber que estava aflito.

- Um milagre. – Sussurrou Sabrina, vi Dani engolir em seco. Tínhamos que pensar em alguma coisa, rápido.

- Consegue se transformar em Lycan? – Sussurrou Dani e eu mordi o lábio inferior, com força. Senti o gosto metálico de sangue se espalhar pela minha boca.

- Se fosse em qualquer outra situação eu falaria que não, mas... Vou tentar. – Respondi.

- Vamos ter que blefar. – Ouvi Sabrina dizer, mas estava preocupada com a transformação.

Tentei me concentrar, tocando a mente dos meninos. Eles entenderam o meu propósito e tentaram me ajudar.

Meu corpo começou a transpirar mas nada mudou. Os ossos e os músculos permaneciam os mesmo, intactos como se eu não houvesse tentado mudar. Ouvi Ivan falar que tinha conseguido abrir a passagem e Sabrina tocou meu ombro levemente.

- Tudo bem Adelle, vamos logo. – Sussurrou.

Aos poucos fui deixando minha conexão com os meninos de lado, mas então Guilherme me chamou.

"Adelle! Estamos indo! Conseguimos algo para barganharem! Alice está com um deles! Ela conseguiu um Perpétuo! Avise a todos! Eu e os meninos estamos indo na forma de lobo a frente."

Acho que meu olhar para os outros foi de um alívio tão grande que não foi à toa que Dani me sacudiu para que falasse logo o que estava acontecendo. Não consegui conter o sorriso para eles, mas antes que eu pudesse falar, vi o olhar de Sabrina sair de foco por um segundo. Então ela se virou para nós com um enorme sorriso nos lábios.

- Estão a caminho, Alice conseguiu capturar um dos Perpétuos e o está mantendo como refém. – Falei, Ivan franziu a testa.

- E como isso pode nos ajudar? – Perguntou, mas Sabrina estava ansiosa para chegar na gruta logo.

- Eles vão começar o ritual, entra logo ai! – Disse, empurrando Ivan, como ele não se mexeu, esperando que alguém explicasse alguma coisa, ela começou a falar. - Se matarmos um Perpétuo vai ser uma confusão enorme, porque outro terá que ser treinado no lugar e até conseguirem fazê-lo, o que ele coordena ficará um caos. – Então Sabrina riu, balançando a cabeça, vinha seguindo atrás de nós pelo túnel. – Alice é esperta, ela capturou o Delírio.

Dani parou de repente, olhou para trás, para Sabrina.

- Tá louca? Isso vai ser um caos mesmo! Vai haver guerra! – Mas Sabrina balançou a cabeça.

- Vai ser um caos tanto no mundo humano quanto no místico, Daniela! Eles não seriam tão burros! Por mais louco que alguns dos Perpétuos estão, eles vão escolher o caminho certo. – Falou.

Chegamos ao Salão das Fadas e a visão do lugar me fez prender a respiração. Eu nunca havia visto nada tão belo em toda a vida. Mesmo com todos os lugares que fui, a natureza, ou deveria dizer Gaia, continuava a me surpreender.

Vi Sabrina parar por um segundo, respirar fundo, e encostar as mãos na parede da gruta. Ficamos esperando por um momento, então ela abriu novamente os olhos e apontou para o lugar que deveríamos seguir.

- Cuidado. – Sussurrou.

Apenas assentimos. Ivan ia na frente com as esferas de luz para iluminar o caminho, depois vinha Dani, eu e Sabrina por último.

Ivan esperou um pouco antes de entrar no salão em que os míticos estavam, apagou a esfera de luz. Quando entrássemos, daríamos de cara com os místicos, estaríamos expostos. Sabrina sussurrou um feitiço para que ninguém ouvisse nossa conversa.

- Certo, acho que devemos fazer o seguinte. – Sussurrou Dani. – Vamos os quatro entrar de uma vez, sem medo, como se tivessem nos chamado. Eles vão parar o que estão fazendo, então poderemos conversar... Eles... Não vão atacar, não é? – Perguntou para Sabrina, ela balançou a cabeça e sorriu.

- Não, estão preocupados, pararam as preparações para o ritual, inclusive, já sabem que Alice está com um Perpétuo. Na verdade, eles querem negociar. – Falou, Ivan virou o rosto para Sabrina um pouco confuso.

- Como se mata um Perpétuo? É simples?

- Nós os transformamos em humanos. Eles são frio, apáticos ao que o homem trás ou a vida na terra, quando começam a sentir e a se misturar, eles se humanizam, então podemos mata-los. – Respondi, fiquei observando enquanto ele absorvia minhas palavras, então ele olhou para nós.

- Delírio é um dos Perpétuos que quer poder, certo?

- Sem dúvidas, Alice não pegaria um deles ao acaso. – Dani quem disse dessa vez. Ela respirou fundo, arrumou as armas, deixando a da Mel escondida em uma pequena cratera ali. – Bem... Prontos? – Perguntou.

Nós três concordamos, Sabrina tirou o feitiço de silêncio e nos postamos um ao lado do outro.

– Então... Boa sorte. – Sussurrou Ivan, por fim.

Entramos na sala calmamente, da forma que tínhamos combinado, ficamos expostos no momento em que passamos pela porta fazendo os míticos que ali estavam olharam para nós.

Melissa estava amarrada à um canto da parede da gruta, o rosto marcado pelas lágrimas. A boca estava tampada e, ao seu lado, havia um garoto. Ele era mais alto que ela, tinha os cabelos ruivos e os olhos pareciam castanhos. A pele, ao contrário da de Mel, que era morena, era bem clara. Perto dos dois, haviam dos anões de guarda.

Um pouco mais à frente de onde eles estavam amarrados, se encontrava Desejo, todo imponente. Perto dele haviam ainda dois vampiros, a caipora e um boto - ao menos eu achava que era o boto (era um homem muito bem vestido e extremamente bonito, os olhos e cabelos pretos, um sorriso encantador) - haviam ainda alguns anjos e demônios. Estávamos em desvantagem.

Desejo sorriu para nós e veio andando em nossa direção. Segurei mais firmemente meu punhal.

- Então, vocês querem trocar Eva pelo meu irmão. Não acham que estão um pouco em desvantagem numérica não? Ah sim... Sem dizer que vocês não podem matar um místico, é contra as regras.

- Ah, sim e é a favor das regras o sacrifício de Adão e Eva? Melhor dizendo, sacrifícios de humanos são legais? – Era Ivan que estava falando.

Eu não sabia o que dizer, nem achei errado o que ele disse. Não iria pará-lo ou mandar que tomasse cuidado com o que estava fosse dizer. Virei para Dani e ela retribuiu o meu olhar, sabia que pensava da mesma forma que eu.

Desejo apenas fez um gesto para nós.

- Acontece que às vezes os humanos, principalmente os humanos místicos, são enxeridos, ou simplesmente estão em lugares errados em horas erradas.

Ver um Perpétuo agindo de forma tão humana era esquisito. Perpétuos não julgavam ou falavam nada sobre a forma do homem ser e viver.

- Ah sim, então Melissa estar em casa, em seu próprio quarto, era o lugar errado? – Continuou Ivan, Desejo revirou os olhos. Pude ver a impaciência em seu olhar.

- Não vou discutir sobre isso. – Falou por fim. – Levem-nos para mesa! Segurem os guardiões! Vamos começar o ritual. – Ordenou.

Antes que pudéssemos pensar em fazer alguma coisa, senti alguém segurar firmemente meu braço. Era um dos vampiros, ele estava comigo e com Dani e era milhões de vezes mais forte que nós duas.

- E sobre Delírio? Estamos com ele! – Falei um tanto quanto desesperada.

Eu não queria lutar, Ivan, Dani e Sá não queriam lutar. Eu, particularmente, nem sabia como lutar contra os vampiros! Ivan teria que dar um jeito neles com as esferas de luz.

- Ah sim! Posso senti-lo! Mas Apsaras não fará nada com ele! Ela não é louca de fazer alguma coisa. Vocês ai. – Desejo virou-se para alguns dos seres que estava em um canto da caverna, não eram os anjos, deviam ser gnomos ou Orcs, não consegui ver direito. – Acabem de arrumar o ritual.

- Ivan, anda logo. – Ouvi Sabrina e a próxima coisa que senti foi que o aperto que o Vampiro estava fazendo em meu braço afrouxou.

Ivan tinha o acertado com uma das esferas. Dani também estava livre ao meu lado. Apertei o botão em baixo do meu punhal fazendo-o se transformar na arma de fogo.

Não sabia direito o que Caio tinha feito ali, mas rezava para que funcionasse contra demônios porque eles estavam vindo em nossa direção. Eu só tinha seis balas na arma. Me xinguei internamente por não ter trazido mais. Teria que usar o punhal depois.

Atirei no primeiro que se aproximou e quando o vi se desfazer na minha frente, olhei assustada para Dani, mas ela estava com problemas com um dos anjos.

Ouvi um grito no fundo da sala. Estavam tentando deixar Mel e o garoto em uma espécie de altar. O garoto tentou se defender, se moveu para frente de Mel, mas um dos orcs o desacordou. Vi seu corpo tombar para o lado no momento que um dos vampiros o segurou nos braços. Mel gritou de novo. Ela estava chorando agora.

Transformei minha arma em punhal novamente e fui para frente dos seres que vinham contra mim. Eu precisava chegar até ela.

Ivan pareceu pensar o mesmo porque me acompanhou. Conseguimos alcançar os próximos místico que estavam a nossa frente. O meu era um anjo. Cortei-lhe o pescoço. Havia tido sorte, apesar de que, se sobrevivêssemos iria agradecer Caio pelas armas.

- Adelle cuidado! – Ouvi alguém gritar.

Olhei para trás no momento em que uma das esferas de Ivan havia acertado em cheio um dos Orcs que estavam atrás de mim. Na mesma rapidez que olhei para trás, voltei a prestar atenção à minha frente. Eu e Ivan havíamos conseguido chegar mais perto de Mel e do garoto, mas parecia que eles já estavam começando o ritual.

Os místicos deitaram Mel e o garoto no altar. Ela se remexia, mas estava pressa o suficiente para não conseguir escapar.

Foi então que ouvi Guilherme, na minha cabeça, falar para Ivan moldar um escudo de luz em cima de Mel. Me xinguei internamente por esquecer que Ivan conseguia criar escudos. Ele teria que se concentrar, mas daria tempo para Alice e os outros chegarem.

- Dani, Sabrina, formação em Ivan! – Gritei e fui para perto dele.

As duas demoraram um pouco para conseguir se livrar de quem as atacavam, mas acabamos conseguindo fazer um círculo a volta do meu primo.

- Ady, a gente tem que chegar perto da Mel. – Falou Ivan sem entender nada do que estávamos fazendo.

Enterrei o punhal na garganta de um dos Orcs no momento em que ele arranhou meu rosto, bufei.

- Cala a boca e joga um escudo na Mel e no Adão antes que eles façam mais alguma coisa. – Ele demorou um pouco para entender o que estávamos querendo, mas então sentou no chão e canalizou toda sua energia para Mel e o garoto.

O escudo os alcançou obrigando os míticos a pararem o ritual, nada que fizessem funcionaria agora.

Dani olhou de esguelha para Desejo, que só então percebeu o que estava acontecendo e mandou todos para cima de nos.

- Oks, Ady, agora reza para os outros chegarem logo.

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