Missão
Os garotos já estavam nos aguardando quando descemos as escadas. Olhei Sabrina quando estávamos todos juntos e ela sorriu um tanto incerta. Arthur, que se encontrava do outro lado da sala, bufou impaciente. Dei um sorrisinho, gostando de vê-lo irritado. Ao meu lado, Dani me cutuco com o cotovelo, apertando os olhos para que eu parasse de implicar com ele. Como se ela conseguisse ler minha mente!
Sabrina gostava de se exibir quando era agraciada com a visão, até porque, por não ser o melhor dos dons que ela tinha, raramente a visão lhe alcançava.
Ficávamos a mercê de algo incerto e ninguém do grupo gostava muito. A não ser Alice, talvez... Alice não se irritava com esse tipo de coisa, só esperava a decisão do grupo. Fazia parte do treinamento tomarmos decisões sozinhos.
- Oi priminha! – Ivan fez um aceno para Alice e veio para meu lado feliz.
Sorri para ele e dei-lhe um forte abraço apertando-o. Soltei apenas quando ele reclamou que iria esmagá-lo. Era uma das nossas brincadeirinhas de família.
- Sabrina já pode começar. – Alice nos deu o comando para o inicio da reunião.
Essa era a tática que ela usava, esperava nos reunimos e ficarmos com a atenção focada nela para que nos indicasse o deveríamos fazer, quem deveria começar a falar, ou onde deveríamos ir.
- O que vocês receberam? – Sabrina começou com a pergunta que aumentaria o suspense. Revirei os olhos e sentei no sofá. Daniela e Arthur me acompanharam.
- Sabrina, você deve começar expondo o que sabe. Já conversamos que essas missões não são brincadeira. Não são exposições de um show. Sua visão de hoje foi importante e não me lembro de termos um caso destes há anos. – Sorri, internamente, Alice, na maioria das vezes, precisava fazer com que Sabrina focasse. Nosso trabalho não era uma brincadeira, Sabrina parecia se esquecer disso, às vezes.
- Desculpe... – Sussurrou com a cabeça baixa. Guilherme tomou à dianteira, ele costumava fazer isso quando Alice chamava nossa atenção.
- Nós recebemos um aviso para encontrarmos com "Desejo" no parque, às três horas.
Sabrina assentiu e respirou fundo, estava pensativa. Começou a andar de um lado para o outro da sala, ficamos olhando-a interessados. Como havia desconfiado, não era uma visão clara, ela deveria estar aflita tentando entender o que via.
Era uma visão verdadeira, afinal os meninos haviam recebido um recado. Essa fato poderia ajudá-la a traçar o caminho certo.
- Sabrina, respire, e conte-nos o que vê, você precisa dar um contorno para sua visão. – Alice aproximou-se de Sabrina, tentando guia-la. Ela parou por um momento de andar e respirou fundo duas vezes.
- Se você falar logo o que é ao invés de ficar tentando resolver sozinha, a gente vai poder te ajudar. Lembra? Somos um grupo, você não precisa ficar guardando tudo pra você. – Lembrou Dani, fazendo todos murmurarem concordando.
De repente, Sabrina levantou o rosto e pareceu perceber que estávamos ali, então sorriu.
- Não consigo saber o que ele quer. – Começou, mas ela finalmente tinha conseguido irritar Alice que a encarava.
- Sabrina, diga a eles o que você viu. - Sabrina piscou os olhos e pareceu focá-los finalmente, então seus ombros relaxaram e ela suspirou exausta.
Alice a sentou na poltrona e se acomodou, esperando que Sabrina reajustasse os pensamentos. Sem dúvidas tentava focar a visão. Não deveria saber exatamente quem era.
Os guardiões da América do Sul viviam com esse problema. A família de Sabrina não era a que tinha o dom da visão, eles eram treinados a forçar a visão.
Não é fácil lutar contra o folclore, alguns deles têm poderes que podem bloquear os poderes que nós temos, ainda mais quando é um poder um tanto quanto forçado, por isso os bloqueios ocorriam mais com a família de Sabrina do que com qualquer um dos outros.
- Olhem... – Disse, finalmente, para todos nós. - Eu só vi que é um adolescente, aparenta ter seus quinze anos, têm olhos pratas e cabelos pretos, pele clara, parece um albino, o que não faz muito sentido por conta do cabelo preto... Está esperando por nós em um parquinho no meio do Parque Municipal, não consigo entender exatamente o que quer, ele parece bloquear as intenções dele, mas não consegue bloquear que eu o veja.
- Ou não quer bloquear. É um Perpétuo. – Alice respirou fundo e se levantou da poltrona. – Precisamos resolver isso logo. - Franzi o cenho, Alice nunca apressava as reuniões, sempre deixava que chegássemos as nossas conclusões, sozinhos, levássemos o tempo que fosse.
Diego foi até o lado de Sabrina e pousou a mão levemente em seu ombro, ele sempre ficava um tanto inquieto quando ela forçava demais a visão. Daniela olhou a cena e deu um sorrisinho travesso.
- Foco. – Sussurrou Guilherme, cutucando as costelas de Daniela. Ela o lançou um olhar irritado e voltou a prestar atenção em Sabrina.
- Sa, para de tentar forçar, Alice disse que ele está bloqueando porque quer, não tente ver mais do que pode. – Diego a acariciou fazendo-a levantar o rosto e assentir para ele.
Os dois podiam tentar não demonstrar, mas depois que começaram a namorar a preocupação que tinham um com o outro, às vezes, extrapolava o normal, o que tornava um tanto quanto chato vê-los com essas demonstrações de carinhos... A verdade era que eu simplesmente tinha inveja.
Em todo caso, era melhor ter Diego por perto para acalmar Sabrina do que a deixar ficar louca. Já a vi pirar por conta das visões forçadas em seus treinamentos com a Alice, não era algo legal.
- Vocês disseram que ele mandou um bilhete, posso ver? – Alice andou até Guilherme que lhe entregou o papel que tinha em mãos. Ela leu por um tempo e assentiu. – É... Esse caso não é missão para vocês, mas ele diz especificamente que quer falar com o grupo júnior. Um Perpétuo não se comporta dessa forma. – Ela entregou a carta para Guilherme. – O pretende fazer?
- Quero usar a tática de sempre. – Começou Guilherme, mas Daniela fez um muxoxo e balançou a cabeça.
- As chances de você, Diego e Arthur se transformarem, agora durante o dia no meio do Parque Municipal são zero. Será extremamente estranho três lobos que parecem ursos andando por aí, vai chamar muita atenção. – Concluiu, Guilherme balançou a cabeça considerando.
Alice se virou para todos nós, tomara a dianteira novamente.
– Vamos fazer da forma que o Perpétuo pediu. Vou avisar à central sobre isso, continuem planejando como vão encontrar com ele, volto em um instante.
Mordi os lábios, não estava gostando muito desse primeiro trabalho com Perpétuos. Papai disse que iria odiar quando precisasse trabalhar com eles, e eu tinha que concordar. Alice nunca nos deixava para avisar algo para central. Nenhuma missão vinha diretamente para o grupo júnior, passava primeiro pela central, depois vinha para nós.
Não podíamos fazer o que sempre fazíamos, e não agir da forma normal nos deixaria vulneráveis. A única que podia se transformar ali era Daniela, o seu poder era o da metamorfose, assim, ela se transformava em qualquer animal ou coisa que bem entendesse.
- Todo mundo concorda que a Dani vai à frente? – Perguntei por fim, era a única que poderia ver se o Perpétuo queria ou não conversar com a gente em paz.
- Hey! Isso é golpe baixo, me usar de isca é muito pouco amigo da sua parte Ady! – Reclamou Daniela, mordi os lábios e lancei lhe meu melhor olhar de desculpas, ela era a única que podia aparecer no meio da cidade à luz do dia e ninguém reconheceria.
- É melhor esperarmos Alice chegar para resolver isso, Ady, realmente mandar Dani sozinha não é a melhor ideia. – Concordou Guilherme fazendo-a bufar.
- Vocês são loucos? Eu? Sozinha? Vocês querem me matar? O cara é um Perpétuo! Acham que ele não vai perceber, não? A única coisa que posso fazer sem vocês e na minha forma de... Gato, por exemplo, é arranhar o rosto do cara e tentar furar seus olhos, ou me transformar em pássaro e sair por ai bicando a cabeça dele! O que não vai ser nada útil, diga-se de passagem! – explodiu esganiçada. Eu não era a única que estava preocupada ali.
Olhamos uns para os outros por um tempo, esperando Alice voltar e pensando no que poderíamos fazer. Ela não demorou muito, Guilherme falou que queria mandar Dani, e Alice descartou a ideia.
Guilherme balançou a cabeça sem saber o que fazer, Alice fez um movimento para ele com um leve sorriso para demonstrar que, naquele caso, não teria problema ele não ter uma solução.
- Vou tomar a dianteira dessa missão, meninos. Não deveria ser assunto para vocês. Vocês só deveriam trabalhar com os Perpétuos depois de anos como agentes seniores, mas como Desejo foi específico, decidimos deixá-los se envolverem... Com cautela. – Alice se virou Daniela. - Ligue para Caio, precisaremos dele nessa missão.
Havia me esquecido que ele ainda não tinha visto as aulas de história sobre todos os seres místicos. Eu e Dani havíamos acabado essa parte do treinamento no ano anterior. Os Perpétuos eram uns dos últimos que estudávamos. Claro, que já havíamos ouvido falar deles antes quando nos contam como o mundo surgiu e tudo mais, mas estudamos eles mais a fundo mais no fim do treinamento sobre a história dos místicos.
Arthur pegou o telefone fixo da minha casa, que estava em seu lado e jogou para Daniela, ela começou a discar o número de casa enquanto rumava para a sala de jantar.
Caio era um cara prodígio. Nós não sabíamos muito dele, apenas que tinha poderes parecidos com os de Dani. Ele veio para Belo Horizonte há dois anos, quando eu, Dani e Sá tínhamos quinze anos.
O que falaram era que ele veio para treinar diretamente com Alice na central. E era toda informação que acharam necessário nos contar.
Caio não gostava de fazer parte das missões, nunca treinava com a gente. Pelo que eu sabia, por Dani, ele gostava da área de tecnologia mágica, e, enquanto estávamos por aí lutando, ele ficava enfurnado em laboratórios tentando construir novas armas para nós.
Morava sozinho em um apartamento quarto e sala perto da central e, sempre que precisávamos, ele aparecia para ajudar.
Por algum motivo, que o nosso grupo júnior de guardiões não sabe explicar, Caio sempre foi mais forte e mais poderoso, sua metamorfose é mais completa que a de qualquer um que tenha esse poder. Nossos professores insistem que é sorte, mas no mundo em que vivemos, sabemos que não é assim.
Em algum ponto do ano passado, ele e Dani começaram a "se entender" e a sair. Não sei explicar como tudo aconteceu, mas aconteceu rápido o bastante e eles estavam juntos.
Eu ainda ficava indignada com a tranquilidade que Dani levava todo o relacionamento e a história de Caio. Ela não perguntava nada sobre o passado dele, ou de onde ele veio, ou sobre os familiares. Para ela, quando Caio estivesse com vontade, contaria. Muito madura Daniela, porque eu não conseguiria viver com um relacionamento assim nunca!
Me espreguicei no sofá, tentando relaxar. Quem quer que fosse não iria nos atacar agora, em pleno dia. Ao menos, era o que eu esperava.
- Perpétuo? – Ivan perguntou confuso, olhando diretamente para Alice.
- Perpétuos, ou Sem Fim, Ivan, são seres que controlam o nosso universo, deixando-o e ordem. São sete irmãos: Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio. – Explicou Alice, olhando atentamente para Ivan.
Meu primo franziu o rosto, assentindo, pensativo.
- Os não-místicos...
- Os humanos normais falam deles. – Concordei, me lembrando das aulas e que tinha lido um livro dos humanos sobre os Perpétuos. – Acho que o Neil Gaiman...
- É uma série de quadrinhos do Sandman do Neil, bem legal inclusive. – Intrometeu Guilherme, assentindo.
- Se ao menos os não-místicos soubessem que quase tudo que eles acham que inventam existem... – Comentou Ivan, me fazendo rir um pouco.
Olhei para o lado, e lá estava Arthur, sentado a uma distância significativa de mim, insistia em passar a mão pelos cabelos, grandes e encaracolados, parecia pensativo. Não conseguia mais negar, ele era realmente lindo, mas o que tinha de lindo tinha de decepcionante para mim.
Daniela parou de falar no telefone e todos se viraram para ela.
- Ele vem. – Afirmou.
Alice assentiu e fez um gesto para que saíssemos. Iríamos esperar por Caio na portaria do prédio. Alice foi à frente com Guilherme, Sabrina e Diego e eu fiquei para pegar o segundo elevador com Arthur, Ivan e Daniela.
- É impressionante como o Arthur sempre sobra pra ficar com a gente. – Resmunguei, e virei o rosto para o outro lado para não ver a expressão de Arthur, que eu sabia, era de mágoa. Daniela revirou os olhos e me deu um cutucão. Era uma atitude infantil falar isso, e dessa forma. Claro que Arthur iria ouvir, ele era um lobisomem, afinal.
- Criança. – Daniela disparou para mim, fiz uma careta para o comentário dela e resolvi ignorá-lo apesar de me sentir culpada.
Sai no hall do elevador à frente dos três, apertei o botão para chama-lo. Seria apenas mais um dia cheio e anormal.
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