Futuro

Olhei para o banco de trás para ver uma Melissa um tanto desapontada, e fiquei confusa. Depois de tudo que passamos, era para ela estar no mínimo histérica! Art me lançou um olhar do volante e indicou o som para que ligasse, na tentativa de amenizar o clima. Respirei fundo e liguei na rádio, mas o silêncio continuou no carro.

Dani e Ivan, haviam resolvido voltar conosco. Queríamos que Sa também viesse no mesmo carro, mas não teria espaço, já que Arthur disse que voltaria dirigindo, e, bem, ele era o único que tinha carteira de motorista de qualquer forma.

Estávamos cansados, é verdade, mas senti alívio em perceber que estavam todos bem. Mel estava bem, sentada ao lado deles no carro enquanto voltávamos para casa depois de uma luta em que achamos que morreríamos. Dani parecia chateada, mas eu não a julgava. Ela tentava deixar o cansaço tomar conta, mas sua expressão era a de alguém que queria sumir da face da terra por um tempo.

Mordi o lábio inferior e olhei Mel de novo, ela estava... Emburrada?

- Tá bem, Mel, que foi? Esperaria que você estivesse com medo, estressada, até aliviada! Agora... Emburrada? – Todos olharam para mim um tanto quanto espantados, o que me fez morder o lábio inferior outra vez, minha curiosidade tinha sido maior do que deveria. Mas ao invés dela ficar chateada com algo, ela bufou.

- Detesto ser Eva... – Dani e Ivan se entreolharam e Art me lançou um olhar compreendendo, achei que ela ficaria por ai mesmo, mas tinha mais a dizer. – Quero dizer, é foi legal sentir tanto poder nas mãos e saber como usá-los, e poder salvar todos vocês... Mas de alguma forma me mudou... Quer dizer, vocês viram que algo mudou!

- Você acha que está dividindo seu espírito com alguém...? – Perguntou Ivan, Melissa sorriu para ele e balançou a cabeça negativamente.

- Sei que sou eu, de alguma forma, mudei porque, meu poder revelou. Mas não há outro ser aqui dentro. - Mel indicou para o si mesma, então riu. - Não são duas pessoas diferentes. – Olhei para Ivan como se dissesse "te disse", ele revirou os olhos.

- Anm... Olhe pelo lado bom, você tem mais poder que quase o departamento todo de Guardiões juntos. – Comentou e deu uma cotovelada em Mel, fazendo-a rir.

- Mel, você está magnifica. – Falei para ela e sorri. – Mudar faz parte de cresce, de aprender. Todo mundo passa por isso. Não se sinta triste ou esquisita, apenas abrace esse novo poder. Você é a mais forte de todos nos.

- Depois de Alice. – Respondeu com um meio sorriso.

- E Caio, e talvez Gustavo. - Completou Ivan, olhando-a de esguelha.

- Falando em Gustavo, alguém falou com o garoto? - Perguntou Mel, curiosa. Ivan suspirou, o olhar correu para paisagem fora do carro.

- Ele foi pra central. Vai mudar aqui pra BH com os pais. - Respondeu Arthur, fazendo-a assentir.

- De qualquer forma, acredite, você se acostuma com todo esse poder. – Mudei rapidamente de assunto. Ivan sorriu para mim pelo retrovisor, agradecido. Eu conhecia meu primo muito bem.


De repente, ele entrou no vão entre os bancos da frente, entre eu e Art, e olhou para o relógio do carro, marcava dez e cinquenta da manhã, voltei a atenção para ele:

- Que foi? – Questionei-o. Ele virou para mim, meio incerto, mas resolveu responder mesmo assim.

- O seu baile e de Dani. – Respondeu.

Arregalei os olhos lembrando do baile. Seria inesquecível, sem dúvidas. Eu e Dani tínhamos ficado tão ansiosas para isso! Mas com tudo que havia acontecido com Mel, duvidava que nossos pais fossem querer ir ou algo assim.

- Anm... Acho que não vai ser uma boa ideia... – Comecei a falar para ele, que me olhou um tanto quanto chateado, suspirei. Mel foi mais rápida.

- Tá brincando? Semana passada vocês ficaram me enchendo sobre essa formatura! Nós vamos sim! Claro que vamos! Só preciso de um vestido pra mim, mas eu arrumo com a Alice, ou com você Ady... Não! Com a Dani, agora que diminui de tamanho... A gente pode comprar um vestido pra mim, né Art? Nos Shoppings as lojas estão abertas! – Ela cutucou Art, reclamando para ele ir mais rápido. Ele revirou os olhos, rindo para a irmã. No fundo estava aliviado, faria o que ela pedisse, qualquer coisa que a deixasse feliz. Só queria vê-la viva, saber que estava bem.

Observei Mel por um tempo, querendo ou não, seus atos haviam mudado um pouco também, a menina um tanto frágil e meiga havia se transformado. Agora era alguém que tinha certeza do que queria, por mais nova que fosse. Ela tinha a idade de Ivan, mas não tinha dúvidas do que queria, ou se deixariam ou não que fizesse algo, ela sabia que estava certa, sabia que se não estivesse nós tentaríamos mostrar outro caminho. Iria correr atrás dos seus sonhos, seus desejos, ninguém a impediria disso.

Suspirei, talvez, com todos os acontecimentos, Mel reparara que era uma menina forte, decidida, uma menina diferente daquela que os pais haviam trancado em casa, longe do mundo e de todos por tanto tempo.

Dani deu um meio sorriso para a animação de Mel. Ela e Ivan começaram a fazer planos sobre o baile, e por fim, assustei quando Mel disse que ele seria o acompanhante dela. Dei um leve riso de lado para Art que fez uma carranca para mim, sussurrando um: "tô de olho no seu primo.".

- E eu em sua irmã! – Sussurrei de volta, risonha.

Franzi a testa quando eles começaram a discutir se Mel deveria ou não cortar os cabelos. Ela ia dizendo que se era para mudar, que fosse drasticamente então. Olhei para os longos cabelos loiros dela. Seria muita coragem.

Coloquei a mão para trás do banco, senti Dani apertá-la, fui para o lado direito do banco e a chamei, ela se aproximou.

- O que você acha...? – Perguntei, ela me deu um suspiro desanimado.

- Que vou passar em casa, pegar minhas coisas do baile e me mudar para a sua casa por, ao menos, esse fim de semana. – Sussurrou de volta, olhei para o rosto dela o tanto que o banco do carro e o sinto permitiam, dava para ver uma tristeza profunda em seu olhar, mordi levemente meu lábio inferior.

- Dani, acho que descobrimos coisas que nem nossos pais sabiam... Tente ficar calma, tente... Relevar. – Ela bufou. - A conversa com sua mãe foi tão ruim assim? – Perguntei, ela soltou o ar aos poucos e colocou as mãos sobre meu banco.

- Um pouco pior. – Levantei as sobrancelhas e acariciei sua mão.

- Pode ficar lá em casa o quanto quiser, Dani, você sabe disso, né? – Ela assentiu, sorriu para mim.

- Sua casa está virando hotel Ady. – Ri de leve, dando de ombros.

- Acha uma boa ideia irmos nesse baile? – Dani deu um meio sorriso.

- Mel ficaria chateada se não fossemos... E é o nosso baile, Ady, a conclusão de uma fase de nossas vidas. Acho que nossos pais fariam questão que fossemos, por mais que tudo isso tenha acontecido.

- É bom que você se distrai. – Comentei, ela soltou um riso triste.

- Eles vão estar lá, Ady. – Respondeu chateada, a cutuquei de leve sorrindo.

- É, e eu vou também! E Ivan e Mel e Art e todos os outros, e o povo da escola... Vamos estar todos lá, Dani. Querendo ou não, você não vai estar sozinha.

- Nunca vou. – Comentou, assentindo para mim. – Obrigada Ady.

- Amiga é pra essas coisas. – Respondi, Dani olhou para o rádio quando começou uma das músicas de John DeLorean, pareceu animá-la um pouco.

- Ady, aumenta ai! Essa é boa! "Just a city boy! Born and raised in South Detroit!..." – Eu e Ivan rimos e cantamos junto com ela, não faltava muito para chegar a Belo Horizonte agora.



Art nos deixou em casa e pegou um taxi com Mel para irem para casa deles. Dani tentou fazer o que disse que faria, mas Caio e Clarissa pediram para conversar com ela, quando a deixamos em casa, então ela apenas me ligou dizendo que me encontrava no baile.

Quando chegamos em casa, vi Alice deitada no sofá. Eu e Ivan fomos direto para junto dela, a abraçamos, a beijamos, ela sorriu para nós, retribuiu o carinho.

- Sei que estão com muitas perguntas, e acreditem, vou responde-las, mas quando for a hora certa, agora não é. Só queria pedir para que não contem para ninguém sobre o que ouviram na gruta... Vocês conseguem viver com isso? – Sorri e a abracei novamente.

- Desde que você nunca suma das nossas vidas, Lils. – Sussurrei.

- Você sempre será nossa família, Lils, não importa o que aconteça, ou qual seja seu passado. Você é nossa família, hoje e sempre. – Ivan concordou, abraçando nos duas.

Não era só o sentimento de Ivan, apesar de ele ter conseguido coloca-lo em palavras, mas era o de todos nós. Meu tio, minha avó, meus pais... Alice era nossa família, e nada iria mudar o fato.

Mamãe me mimou o resto do dia inteiro. Depois do almoço ela me passou o horário do salão que havia marcado para mim e para Alice, disse que iria comigo e que não passaria um segundo sequer longe de mim. No fundo ela estava preocupada e se sentindo impotente, não podia proibir que eu fosse o que era.

Tio Rick mandou Ivan subir e os outros ligaram para confirmar o horário do baile. Eu não estava muito animada para ir a baile nenhum, mas todos achavam que era uma oportunidade boa para encarar o que havia acontecido como uma vitória. Seria uma comemoração.

Dormi até o horário do salão e só acordei quando Arthur me ligou, disse que Mel havia o expulsado de casa esse fim de semana e perguntou se podíamos ir para a casa de Lagoa Santa, que os pais dele tinham, depois do baile.

"Art, você vai tá cansado, nem dormiu essa noite.".

"Ady, Mel quer ficar esse fim de semana com meus pais, quer resolver os problemas com eles, me pediu para sair, e eu... Gostaria de passar esse primeiro fim de semana de namoro com você. Se você disser que sim, juro que deito na cama agora e durmo até a hora do baile só pra ir ai na sua casa te buscar e te levar pra Lagoa Santa comigo depois.".

"Anm... Tenho que ver com meus pais primeiro... Minha mãe está meio super protetora comigo neste momento...".

"Eu já olhei com eles, Ady, eles deixaram." Ri com isso, Arthur havia preparado tudo.

"E se a Dani precisar de mim...?"

"Certo, se ela precisar, a gente a leva e o Ivan juntos." Ele havia procurado uma saída para tudo. "Prometo que deixo vocês duas ficarem conversando o tanto que for, até a Dani cair no sono, não vou atrapalhar... Mas fica comigo."

"Tá bem Art. Eu vou." Ele estava sorrindo, percebi pela pausa que fez antes de agradecer no telefone e o desligar. Balancei a cabeça, olhando para a porta aberta da varanda.

Deuses, eu pensando que ser uma guardiã e uma estudante do ensino médio era difícil... Minha vida estava para ficar mais corrida ainda agora que havia Mel, "faculdade do exército", responsabilidades a mais. Mas mesmo assim... A vida era perfeita! Havia todas aquelas pessoas que eu amava mais que qualquer coisa no mundo. Tantas dificuldades e felicidades que passamos juntos! E ainda tínhamos uma vida inteira pela frente!

Agora eu sabia o porquê havia me sentido incompleta antes, por que me sentira estranha. Era a sensação de sair de uma parte da minha vida e entrar em outra. Deixar à pequena Adelle para trás, a menina, a brincalhona, a sonhadora para entrar em um mundo novo, um mundo que iriam exigir mais de mim, um mundo que apenas os sonhos não bastariam, precisariam de ações para realiza-los e ninguém, a não ser eu mesma poderia fazer isso.

Lembrei-me dos momentos de brincadeira na escola, de quando os professores brigavam comigo e com Dani por que estávamos conversando, ou quando Dani foi mandada para fora de sala por que se distraíra com um colega que estava brincando com uma borracha em cima da mesa e começara a gritar. Brincadeiras que haviam ficado para trás, mas que estavam guardadas em minhas memórias e em meu coração, com carinho, com amor.

Momentos com os guardiões, o começo dos nossos treinamentos, as aulas com Sabrina e Dani, as pequenas missões com Alice, tudo, estavam vividos em minha mente, em minha alma. Hoje as missões seriam mais pesadas, poderiam significar nossas vidas, mas isso não era importante por que estávamos juntos.

O tempo passava, mas eu sabia que estava vivendo cada momento dele da forma mais plena que podia. Agradecia a todo o momento por ter as pessoas mais especiais possíveis junto a mim.

Olhava para o passado com saudades, mas também conseguia olhar para o futuro com expectativa, o que quer que estivesse por vir, que viesse! Nada iria me derrubar, nada derrubaria essa nova geração de Guardiões! Estávamos juntos, nos amávamos! Isso faria toda a diferença.

Crescer doía, assim como mudar, mas ao mesmo tempo em que era assustador era excitante!

- Ady, o Arthur está te esperando. – Alice apareceu na porta do meu quarto, dei mais uma olhada no espelho e me virei para ela. Pela primeira vez em minha vida, observei-a enquanto prendia a respiração ao me ver. – Você está... Magnifica.

- Obrigada. – Sorri e ela me deu passagem pela porta.

Rumei para as escadas sem pressa, Arthur me esperava ao pé dela. Ficara sem ar quando me vira descer. Sorriu para mim, segurou minha mão e a beijou.

- Você está encantadora, Adelle. – Sussurrou em meu ouvido. – Obrigado por tudo que tem feito por mim e por minha família... Eu te amo.

Não precisava de mais nada naquele momento, me sentia completa. Então soube o que antes estava faltando, não era bem faltando, mas mudando. Havia mudança no ar, alguma coisa me dizia que, a partir de agora, tudo seria diferente, não apenas para mim, mas para todos nós, para todos os guardiões. E eu realmente não importava, desde que estivéssemos todos juntos.


Espero que meus relatos, apesar de serem memórias de minha adolescência, tenha lhe permitido compreender, ao menos um poucos, sobre os Guardiões e como a Magia começou a se estabilizar.

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