Anjo
Acordei no domingo pela manhã no meio da mata do Parque. Olhei para os lados e encontrei os meninos jogados por ali. Respirei fundo me sentando aos poucos. Minha cabeça rodava, a sensação era de ter bebido a noite toda.
Mordi meu lábio inferior, seria sempre assim? Nos transformaríamos na lua cheia e ficaríamos jogados pelas matas ao redor da cidade? Doeria sempre? Tremi com o pensamento e ouvi um barulho atrás de mim, alguém reclamando, me virei rapidamente para ver Diego se sentar na mata. Parecia tão acabado quanto eu.
"Será que ele está bem?" Pensei comigo mesma, então ele olhou para mim com os olhos arregalados.
"Estou quebrado." Prendi a respiração, isso queria dizer que podíamos ouvir claramente os pensamentos um do outro na forma humana... Isso seria uma merda. "Pode acreditar..." Olhei para Art e vi Diego fazer um barulho irritado. "Vamos tentar controlar os pensamentos, sim?"
- Desculpe... – Sussurrei, ele fez um movimento de tudo bem e foi se levantando aos poucos. Fiquei olhando para Guilherme e Arthur distraída, ouvi Diego rir.
- Você está achando que necessariamente tudo que Stephanie Meyer escreveu é verdade então? – Revirei os olhos fazendo-o rir, ele veio em minha direção para me ajudar a levantar.
- Só queria experimentar...
- Não, você só queria saber com o que o Art sonha. – Olhei para ele emburrada.
- E se quisesse?
- Isso é um tanto quanto intromissão na vida alheia, não? – Perguntou me fazendo bufar.
"Ele é meu namorado!" Resmunguei em pensamento e ele riu fazendo um não com a cabeça.
"Ninguém pediu ninguém ainda...".
"Pelos Deuses, pedir é mesmo necessário?" Olhei para ele irritada, parecia que eu era uma palhaça do tanto que ele estava rindo da minha cara, então suspirei pensativa. "Você acha que ela é uma guardiã? Digo... Stephanie..." Ele fez um não com a cabeça.
"Acho que talvez conheça um, seja casa dom um, ou... Não sei, você sabe que o mundo mítico é louco, há pessoas que tem insight de como as coisas realmente são." Concordei lembrando de todos os livros que já tinha lido em minha vida.
"Definitivamente o Tolkin é." Ouvi o tom de adoração nos pensamentos de Diego e revirei os olhos.
"Se fosse teria falado sobre niritus e não elfos! Lembra do que a Lils disse?" Ele ficou um tempo pensativo e, por fim concordou.
"Ele é um dos que têm insights, então! E pelos Deuses! Que insights!" Tive vontade de rir, apesar de concordar. Para Diego era Gaia e os Deuses no céu e Tolkin na terra.
Ouvimos mais um barulho e Arthur se sentou na grama, se perguntando onde estava, Diego respondeu mentalmente e a cara de decepção dele por estarmos ouvindo os pensamentos uns dos outros foi enorme. Guilherme não demorou muito para acordar depois dele, e também ficou preocupado.
Decidimos que teríamos que falar com minha Alice sobre como bloquear isso, se é que havia uma forma de bloquear.
Não demoramos a descobrir onde estávamos, e apesar do traje de Caio, estávamos cobertos de lama, terra e folha. Mas, ao menos deve para chegar à algum lugar e pedir para alguém nos buscar.
Alice não demorou muito para chegar na entrada do parque, e fomos cada um para a própria casa. Eu me sentia exausta, queria tomar um banho e dormir o dia inteiro, mas vovó e Alice não deixaram.
Os meninos apareceram depois do almoço e Alice disse como bloquear os pensamentos, era um trabalho árduo, mas no fim de tarde já havíamos tido algum sucesso.
Já de férias, eu e Dani passávamos o tempo todo juntas. Os meninos ainda não tinham tido férias na central, então só encontrávamos a noite. Sim, a central resolveu nos dar férias antes de entrarmos na academia. Era um pequeno presente de formatura.
Se é que eu poderia considerar ter férias com a transformação para Lycan, precisava ir a centra todos os dias. A única realmente de folga era Dani
Sabrina, como era deslocadora e sacerdotiza começou o treinamento assim que entrou de férias. Justificável, o posto dela era quase o de médica do Grupo.
Para Ivan os treinamentos diminuíram e ele passava grande parte do tempo comigo e com Dani, mas ainda tinha algumas aulas durante as férias.
Mel voltara para a casa, e eu sentia que minha casa ficara vazia sem Mel dormindo comigo todos os dias. Apesar disso, eu, Dani e Ivan fizemos algumas festas do pijama para tampar o buraco da ausência de Mel.
Apesar dos dias tranquilos, nos todos estávamos em alerta para qualquer missão.
Todos os dias, às quatro da tarde, eu e os meninos íamos para a central tentar fazer a transformação. Não tínhamos conseguido nada, até que na quarta feira Diego conseguiu pelos por todo o corpo e nós soubemos que era realmente possível.
No mesmo dia, havíamos conseguido bloquear as mentes por completo, agora só liamos os pensamentos que os outros permitissem que lêssemos. Nossa nova meta era conseguir a comunicação pelos pensamentos à distância.
Alice falou que nos transformaríamos toda primeira lua cheia do mês até que todos tivessem controle sobre a transformação, então aconteceria quando bem entendêssemos. E o melhor, não iria doer mais. Acho que, no fundo eu não tinha muito sucesso porque tinha medo da dor. Quando vi Diego conseguir os pelos sem dar um gemido de dor, fiquei mais aliviada.
Gui olhou pra gente com um sorriso malicioso compartilhando a analogia que havia feito com a última informação sobre a dor. Nos rimos até que Alice entendeu e chamou nossa atenção.
- Desculpe... – Respondeu se controlando para não rir mais.
Apesar de ser o mais velho, Gui era um bobo brincalhão!
Por fim, eu, Dani e Ivan resolvemos levar Mel para andar por ai todos os dias no fim da tarde., quando todos já havíamos voltado da central.
Ela já ficara presa de mais a vida inteira, e agora com as aulas na sede e o problema de ser Eva, ficamos preocupados pelo fato dela se sentir mais presa ainda. Alice havia gostado da ideia e avisou Patrício, ele ficou um tanto quanto receoso, mas acabou cedendo, depois de garantir que teríamos o apoio necessário para protege-lá.
Patricio insistia em dizer que o perigo não era apenas pra Mel, mas para todos os guardiões jovens, porque éramos inexperientes. Alice apenas ria e o desconsiderava.
Impulsivos, concordo! Mas inexperientes? Aos sete anos eu e Dani chutamos a bunda de um orc que tava aterrorizando o parquinho que a gente brincava! A gente já fazia missão desde os onze anos. Não éramos tão inexperientes assim!
Nesses dias, eu, Dani, Ivan e Mel tomávamos um açaí no Café Cultura Bar na rua da Bahia, mas as vezes ficávamos na praça aproveitando o fim do dia. Eu sempre detestei o horário de verão, pelo fato de bagunçar completamente o dia, mas se fosse olhar pelo lado das férias, tínhamos mais tempo com o sol.
Sexta à tarde, antes da colação, pedi folga para Alice dos treinos com os meninos na sede e como presente de colação ela conseguiu cqie liberassem Mel e Ivan para passarmos o dia juntos.
Os meninos não gostaram muito da ideia por que isso faria com que eles passassem mais um dia sem controlar a transformação e eles já estavam cansados de se transformar toda lua cheia desde pequenos, a ideia de ser um Lycan quando bem entendessem era boa demais para deixar passar um dia sequer. Tive que prometer que ficaria o domingo inteiro trabalhando com eles para conseguirmos nos transformar logo.
Eu, Dani e Ivan resolvemos levar Mel ao jardim japonês naquele dia durante a tarde. O passeio foi gostoso e aproveitamos o sol por um bom tempo. Rimos e nos deixamos largadas na grama quase toda à tarde.
Elas tentaram falar sobre Arthur, mas eu as cortei, não queria falar sobre ele. Até porque meu primo estava ali! Pos mais que ele desse bons conselhos, ainda era um garoto de quinze ano! E eu me sentia sem graça.
A verdade é que eu e Arthur ainda não tínhamos conversado exatamente sobre o domingo que encontramos com a Morte. Eu estava confusa, não sabia o que tínhamos, e a sensação era a de que ele estava me evitando. E eu queria evitar a conversa porque estava com algum medo idiota.
Quando estávamos juntos eu sabia que ele queria vir para perto de mim, conversar, passar o tempo juntos. Eu sabia também que ele estava me evitando por que tínhamos assuntos mais importantes para tratar no momento, como as transformações, bloquear os pensamentos, Mel.
Ele simplesmente não pensava em nos dois, focava. Resolvi fazer o mesmo. Quando finalmente conseguimos bloquear os pensamentos uns dos outros, os pensamentos de Art sobre esse assunto foram os primeiros que ele bloqueou.
- Vocês têm conversado? – Dani entrou no assunto quanto sentamos em um quiosque.
Suspirei e olhei para Ivan sem graça. Não iria adiantar, nos teríamos a conversa sobre Art eu querendo ou não. Percebi que não queria falar com elas sobre isso, porque eu estava triste. Era para nos dois estarmos juntos de uma vez, não?
- Anm... – Comecei sem saber o que dizer.
Não havíamos conversada, mas eu ouvira os pensamentos dele, sem ele querer, por cinco dias e eu sabia que ele evitava.
Dani balançou a cabeça e colocou a mão levemente sobre meu ombro, fazendo um leve carinho. Mel me olhou se desculpando.
- Ele... Não é assim, você sabe... Eu sei... Ady, se eu soubesse por que ele está assim eu te falaria. – Sorri tristemente para Mel e dei de ombros.
- Eu sei, eu ouço os pensamentos dele, ele está focado. Ele está preocupado com você e com o bando, é isso. Ele não quer se desviar...
- Pelos Deuses! Arthur nunca quer se desviar quando o assunto é você! – Estourou Ivan, Dani, Mel e eu a olhamos assustadas para ele que simplesmente balançou a cabeça irritado. – Vocês não perceberam até agora, não? Ele é um medroso! Tem medo de se envolver e de ver que vai dar certo! E você, Ady, como uma verdadeira dama fica esperando ele tomar a atitude, deixa eu te falar uma coisa? Ele não vai. É melhor você agir logo se não ele vai te enrolar por mais dez anos!
Ivan cruzou os braços emburrado e nos três nos entreolharmos de novo, até que caímos na gargalhada. Era tão fofo ver ele todo protetor daquele jeito pra cima de mim! Como um verdadeiro irmão mais novo preocupado com a irmã mais velha!
- Podem rir! Vocês sabem que estou falando a verdade! - Resmungou, emburrado. O que me fez abraçá-lo com força.
As meninas se recuperaram até que Dani respirou fundo, depois de pensar por um tempo, então concordou com ele.
- Eu te disse isso, lembra Ady? Que ele ia usar qualquer coisa comi desculpa pra te dar um "tempo sozinha". É o Art. Ele tá preocupado com você, com a Mel, com tudo que vem acontecendo.
- Mas se vai dar certo... Digo, se a Ady e o Art vai dar certo, por que meu irmão não resolve isso logo? Ele tem medo de que afinal? - Perguntou Mel confusa, acho que ela também tinha desistido de tentar entender o irmão por conta própria.
- Porque ele acha que não pode se distrair já que tem que cuidar de você e dar um tempo pra Ady. - Meu primo respondeu com simplicidade.
- Cabeça de homem é outro nível né? Olha que beleza! Sem dramas, sem besteiras! - Elogiou Dani, indicando Ivan com um riso.
Ele riu também e deu de ombros. Então Dani se virou para Mel.
- Além disso que o Iv disse. Que possivelmente é a desculpa que o Art usa. - garantiu olhando significativamente pra mim e pra Mel. - Ainda tem uma questão Melzinha, não me julgue, mas... Há pessoas no mundo que ficam preocupadas quando encontram o caminho certo, elas ficam incertas se é ou não o certo, entende? – Dani suspirou e olhou para nossas caras de não entendimento. – A verdade é que seu irmão é louco, Mel, não me leve a mal. Ele é completamente desvairado! Tem medo do futuro e do certo, de perder algo na vida. E não percebe que tá perdendo a mulher da vida dele, esse é o problema, eu sei, eu convivi com esses dois a infância inteira.
Ivan foi e estalou a língua com um movimentos de braço, como se afastasse a ideia.
- Raciocínio complexo. Ele simplesmente quer proteger as duas! - Retrucou, convicto.
Dani e Ivan se entreolharam por um tempo e pude sentir um duelo entre os olhares que trocavam. Por fim, Dani deu de ombros.
- Tá, pode ser. Mesmo assim, ainda acho Art dramático.
Ficamos em silêncio por um tempo, como se absorvendo as teorias de Iv e Dani. Tentei acessar os pensamentos de Art, mas ele estava longe e os bloqueava de uma forma ferrenha. Além disso, eu precisava me lembrar que era uma quebra de privacidades invadir a cabeça do meu bando.
- Que você vai fazer? – Mel virou-se para mim, levantei a sobrancelha para ela.
- Como assim o que eu vou fazer?
- Ué, se meu irmão é um palerma, você tem que fazer alguma coisa, não? Deixemos de lado todas as coisas míticas envolvidas na relação de vocês, falemos de vocês. Você ama ele, não ama?
- Amo.
- E vai deixar sair por seus dedos? Digo, não é como se ele não te amasse, nos sabemos que ele te ama... Vai lá e obrigue ele a aceitar isso. Digo, seja firme. "Arthur, estamos namorando, eu sou sua namorada, ponto. Me trate como tal!" Não nessas palavras, claro. – Olhei para Dani e Ivan procurando apoio e eles concordaram.
Revirei os olhos. Arthur, Arthur, sempre a última palavra seria a minha?
- Quer saber? Vou falar com ele. Vocês estão certos, estou cansada de deixar ele tomar a iniciativa! Ele nunca toma! Não é como se fosse algo não retribuído.
- Não! Não é! Ele que é um medroso! Já disse! – Dani veio ao meu apoio, e Ivan riu de novo.
- Racional.
- Que seja! - Retrucou Dani com um gesto de mão, espantando Ivan pro lado.
Balancei a cabeça um pouco irritada. Se Arthur queria assim, então seria assim.
Ficamos mais um tempo no quiosque até dar cinco horas, eu e Dani tínhamos que nos arrumar para a colação. Começamos a andar para fora do parque quando ouvi meu telefone tocar. Abri a bolsa, era Sabrina, franzi a testa, confusa, ela raramente me ligava, teria acontecido alguma coisa?
"Oi, Sá?"
"Mel está com vocês?" Que pergunta, todos sabiam que ela estava conosco!
"Está..."
"Não Adelle, agora!"
"Sim ela está do meu la..."
- Ady? Cadê a Mel? – Ouvi Ivan perguntar, parando de andar.
Olhei para meu lado e não tinha ninguém ali. Senti uma falta de ar súbita, como ela podia ter sumido do meu lado? Nos tínhamos parado de conversar por dois minutos!
"Deuses! Eu sabia! Procure ela no parque! Ela está no parque!"
Nos três começamos a voltar pelo caminho que havíamos feito.
"Calma, Sá, é só ligar para o celular dela..." Comecei, mas Sabrina me cortou.
"Adelle! Você acha que já não tentei? Ele dá que está desligado! Se te liguei é por que estou desesperada!" Engoli em seco, como Mel podia ter sumido bem de baixo do meu nariz?
"É algum místico?"
"É um anjo! Ela está com um anjo-da-guarda!" A voz de Sabrina era estridente do outro lado da linha.
De repente a conversa com a Morte me veio a cabeça. Alguns estão do nosso lado, outros não.
Como diabos íamos achar um anjo-da-guarda? Só podíamos vê-los quando eles queriam que os víssemos!
- Deuses... – Sussurrei baixinho, e ouvi Sabrina bufar pelo telefone. "Sabrina, vamos encontra-la, já te ligamos." E desliguei.
- Ela disse alguma coisa? – Perguntou Ivan com a voz tremida. Fiz um sim leve com a cabeça, na primeira encruzilhada do parque.
- Ela está no parque com um anjo. – respondi. Dani começou a se sentir aliviada, mas eu fiz um não com a cabeça. – Gente, eu e Art encontramos com a Morte...
- Como é que é?
- Que?!
Ivan e Dani pararam de andar e perguntaram ao mesmo tempo. Senti um arrependimento repentino tomar conta do meu corpo. Eu e Art devíamos ter contato pra todo mundo na última reunião.
- Olha, depois conto tudo! Prometo! Vamos focar agora, sim? A Morte disse que tem anjos que estão do nosso lado, mas tem anjos que não estão...
- Deuses, ela pode estar com um anjo que não está do nosso lado... – Desesperou Ivan.
- Calma! Calma calma calma! Respirem fundo e vamos procurá-la com calma! Se não, não vai adiantar nada! - Dani se postará entre eu e meu primo e nos olhava com preocupação.
Nos três respiramos fundo e assentimos um para o outro, buscando foco.
olhei para as placas, se nos dividíssemos a acharíamos mais rápido.
- Muito específico da Sabrina! Como vamos achar um anjo-da-guarda? - Resmungou Dani, irritada.
- Dani vai pelo caminho que estávamos, procura pela Mel, esquece o anjo. Ivan, pega a trilha de bike! – Falei pegando o caminho oposto.
Ouvi-a Dani gritar que não era fácil esquecer sobre o anjo, mas a ignorei, correndo pela trilha. Ivan já estava longe pela trilha que as pessoas de bikes usavam.
Eu precisava acha-la. Alice confiara em mim! Art, todas as pessoas da sede, e principalmente ela! Ela confiara que eu a manteria segura! Queria correr mais rápido, pensei em me transformar para ir mais rápido, mas estávamos no meio do dia e eu não tinha controle sobre a transformação ainda. Tentei m controlar, afinal eu precisava estar bem quando encontrasse com Mel. Se ela precisasse de ajuda, eu tinha que estar apta a lutar.
Corri pela trilha e cheguei perto de um lago encontrando Melissa sentada em um banco da margem, ela parecia estar falando com o nada ao seu lado. Franzi a testa, devia ser o anjo-da-guarda. Corri para perto dela e encostei levemente em seu ombro.
- Mel? – Ela virou-se para mim confusa. – Você está bem?
- Ady? – Fiz um sim com a cabeça, e ela voltou a olhar para o lado, ficou mais confusa ainda. – O que... O que eu estou fazendo aqui? Cadê o menino que estava falando comigo?
- Mel? Meu bem... – Sussurrei baixinho ela me olhou assustada e me abraçou, retribui o abraço levemente. – Calma, está tudo bem.
Senti-a tremer em meus braços, subi a mão e alisei levemente seus cabelos sussurrando baixinho que tudo estava bem agora, peguei o celular e ainda abraçada à ela liguei para Dani e depois para Ivan.
Os dois ficaram aliviados de saberem que eu havia a encontrado. Combinei de nos encontrarmos na portaria e voltarmos para casa.
- Quem era o menino? – Mel questionou quando encontramos com os outros.
Todos olharam para mim, esperando.
- Mel, você estava conversando com um anjo-da-guarda. – Falei para ela e sorri, só então tinha parado para pensar na situação.
- Um anjo? – Vi que ela estava insegura, fiz um sim com a cabeça.
Eu já tinha mandado uma mensagem para Alice nos buscar e estávamos na porta esperando. Eu e Dani, cada uma de um lado de Mel. E Ivan atrás, de nos três, como um guarda costas.
Não entendi como o pessoal da central havia permitido que fôssemos pra o Jardim ecológico sem reforços! Acho que por não ter havido problemas ao longo da semana, Alice havia ficado confiante. Confiante demais.
- Ady, não é por nada não... – E Dani me lançou um olhar significativo do tipo: "Temos muito o que conversar". – Mas... Alguém já parou para pensar na possibilidade do anjo da guarda dela ser um dos anjos que está contra nós?
Fiquei olhando para Dani por um tempo sem saber muito o que responder. Mel se virou ansiosa para nós perguntando se tinham anjos a favor dos míticos que queriam ela, pensei um no assunto e fiz um não, ignorando um pouco Mel.
- Acho que se fosse o caso, já teria acontecido algo com ela... Digo, algo perigoso, as coisas bobas que os anjos guardam, sabe? Avisar ao atravessar a rua, tomar cuidado com escadas, coisas assim. E nós saímos com ela todos os dias essa semana, se fosse algo desse tipo, era para Mel estar mais que machucada já. E nós nunca precisamos protege-la das coisas do dia a dia... Mas tá aí. Pode ser que o anjo que falou com você Mel, seja o seu anjo da guarda.
- Mas isso é meio óbvio! Outro anjo da guarda teria falado com ela?? Não faz sentido algum! Teria que ser o dela! - Comentou Ivan e eu revirei os olhos, ignorando-o, mas Dani o respondeu.
- Lembra que tem varios místicos que são contra, Iv? Que querem matar a Mel? Pode ser qualquer anjo da guarda! Além do mais, quando que o mundo místico e a magia fez cem por cento de lógica?!
Era algo a se considerar.
- Tá então... Por que só agora e dando esse susto em todas nós? - Perguntou Melissa com a voz esganiçada - Se fosse meu anjo da guarda, poderia muito bem conversar comigo quando estou sozinha em meu quarto ou algo do gênero. – Fiz um sim concordando com ela.
- Talvez, Mel, ele quisesse nos mostrar justamente isso, que ele existe. Você mesma não percebeu que antes de falar com ele estava com a gente, talvez... Talvez ele fale com você sempre, só que você não lembra. – Comentou Dani.
Mel considerou o que Dani disse, pensativa.
- Estranho, por que agora eu lembro que falei com ele... Digo... Eu tive essa sensação de normalidade, sabe? Como se fosse uma pessoa com quem eu conversei a vida toda.
- Talvez, - Eu disse, pensando nisso. – Ele queira justamente conversar conosco. Quer dizer, talvez ele não tenha poder suficiente para conversar diretamente conosco e a forma que achou foi tirando Mel de perto de nós, Sabrina iria ter uma visão dela sozinha e nos avisar sobre isso.
- Certo... – Ivan me olhou meio de lado, como se duvidasse do meu raciocínio. – Então vamos ter que conversar com Alice e ver se nossa Wikipédia ambulante sabe de alguma forma que Mel possa se lembrar das conversas que tem com o anjo dela.
Ao entrarmos no carro de Alice quando ela veio nos buscar, a bombardeamos com o que havia acontecido. Acho que foram pelos anos que ela viveu que a permitiram ficar tão tranquila quando dissemos que Mel tinha sumido por uns instantes. Ela ouviu atentamente o que dissemos e sorriu levemente para nós. Eu sabia que ela tinha uma resposta fácil para a questão.
- Gente, é muito comum isso acontecer com guardiões, fiquem tranquilas. – Olhamos pasmas para ela, que riu. – Adelle, o anjo da guarda da sua avó vivia falando com ela. Inclusive eu acho que ele tinha uma queda por ela. – Ela sussurrou a última parte e só eu e Ivan pudéssemos ouvir, o que nos fez rir.
- O que? – Perguntou Dani curiosa, revirei os olhos.
- O anjo da vovó tinha uma queda por ela... – Ela deu uma leve risada e balançou a cabeça.
- Típico da sua avó, Ady. – Disse fazendo a gente rir mais.
- Tá, mas como eu faço para lembrar o que eu falo com ele? – Perguntou Mel, Alice riu.
- Peça para ele para lembrar. – Olhei para olha sem acreditar, só isso? Simples assim? – O problema é você lembrar de pedir isso para ele. Você fica hipnotizada quando fala com seu anjo, você tem que pedir para vê-lo, mas como se fosse uma pessoa normal. Eu recomendo escrever pelo quarto recados para se lembrar. Qualquer recadinho que te lembre. Ou colocar lembrete no seu celular nos horários que estiver sozinha no quarto, talvez ajude. Ele vai te ajudar. Se fez o que fez, vocês estão certos, ele quer falar conosco, então vai ajudar a Mel a se lembrar.
Deixamos Mel em casa, Arthur estava esperando na porta. Olhei para ele, sabe do que ele podia ouvir meus pensamentos, porque fiz questão de baixar os bloqueios.
"Quero falar com você depois da colação."
"Ady..."
"Arthur, vou reformular a frase, nos vamos conversar depois da colação." Ele olhou para mim sem graça e fez um sim com a cabeça. Fiz um leve assentimento e virei para Mel, despedindo dela.
- Encontra a gente na porta do Imaculada. – Disse Dani, Mel concordou.
Ivan saiu do carro e deu um abraço em Mel. Mandei um beijinho para ela, sem sair do carro e Alice se despediu, dando uma buzinada.
Quando Ivan entrou novamente no carro Alice deu partida e me contorci para olhá-lo atrás de mim.
- Eu vi! - lancei-lhe um sorriso malicioso. Ivan franziu o cenho.
- O que?! - Perguntou fazendo Dani e Alice gargalharem.
- Que isso! Nada, primo! Nada! - Comentei rindo e ele bufou.
- Ah me deixem, vocês três! - Resmungou olhando pra fora do carro.
Depois de deixarmos Ivan em casa, nos três seguimos diretamente para o salão de belezas.
Dani me cutucou na barriga com um sorriso maroto.
- Eu vi você e Arthur conversando... – Fiz cara de impaciência para ela.
- É, sabe? É uma mão na roda esse coisa de ouvir pensamentos às vezes... Não tem como as pessoas ficarem fofocando, sabe? – Virei para trás e apertei os olhos levemente para Dani, ela e Alice riram.
- Ady, eu ia me meter nessa situação de vocês dois, ainda bem que Dani se meteu, esperava que ela fizesse isso... Mas que bom que você finalmente resolveu tomar uma iniciativa! – Virei para Alice. Não sabia de minha expressão era de assombro ou gratidão.
Quer dizer, Alice nunca se metia em nada! Para ela, nossas relações amorosas chegavam a ser entediantes e repetitivas. Ela explicou que eram cíclicas. De tempos em tempos, repetíamos e fazíamos as mesmas coisas que nossos pais, avós, bisavós.
- Você? Se metendo? Lil's, conta outra... – Desconversei, ela riu.
- É sério! Já tive que me manter em muitas situações da sua família. Graças à mim seu pai está com sua mãe hoje! Pergunta ele. Nunca vi uma família tão complicada com relacionamento que nem a de vocês, Adelle! Que Gaia me proteja!
- Ahh então quer dizer que você dá de cupido nos momentos vagos? – Perguntei pra Alice, Dani riu.
- No seu caso não é só cupido não, Ady... Arthur é um frouxo! Eu sou mais macho que ele! – Disse Dani fazendo com que todas ríssemos.
- Daniela, disso eu não tenho dúvidas! – Alice parou o carro na entrada da galeria do Oton, o salão era lá dentro – Andem logo, vocês vão perder o horário.
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