11. Irmãs, eu fiz algo ruim!

Eu nunca seria capaz de explicar a vocês como era a sensação de ir de um lugar a outro com os poderes de Celina, porém eu dia usar como exemplo o frio na barriga que era causado pelos brinquedos radicais do parque de diversões. Um piscar de olhos, um frio na barriga e voilá: você chegou ao seu destino.

Assim que cruzamos o portal, eu percebi que estávamos em casa. Ainda era madrugada, mas já era possível ver o nascer do sol ao longe. Olga estava desmaiada em um canto da sala e Rúbia tentava se levantar, ainda incrédula acerca de tudo que tinha acabado de acontecer.

— Olga! Olga, você está bem? Acorda, por favor... — disse Rúbia, balançando a irmã, que estava pálida. — Não, não, não... ALFAJOR, A RESPIRAÇÃO DELA ESTÁ FRACA.

Essa, não... O choque que ela tomou deve ter sido muito forte...

— Você sabe o que aconteceu?

Balancei com a cabeça, sinalizando que sim.

— O QUE? Me mostra.

Tudo bem, pelo menos ela me pediu para mostrar e não falar. Voei até a tomada mais próxima e parei.

— A tomada? O que tem a... choque! Ela tomou um choque?

Concordei com a cabeça novamente.

— Temos que ajudá-la. Eu vou tentar avisar a família do Hélio... ah, o Hélio...

É...

— Fica calma, Rúbia, uma preocupação de cada vez — disse a garota, respirando fundo. — Primeiro, Olga. Depois você pensa sobre o Hélio.

Ao tocar na maçaneta, um portal se abriu na porta, trazendo Celimonstro consigo.

— Indo a algum lugar, irmã?

— INDO BUSCAR AJUDA PARA OLGA, QUE ESTÁ MORRENDO! — retrucou Rúbia, irritada.

— Olga ficará bem. Assim como todas nós, já que ninguém nunca mais sairá desta casa.

As palavras chocaram Rúbia como um raio. Nunca imaginei que, no auge da minha jovialidade, eu seria feito de refém por um monstro.

— Espera, o que você disse?

— Isso mesmo que você ouviu. Ninguém sairá desta casa, nunca mais. O excesso de perigo lá fora é assustador, e precisamos ficar juntas todo o tempo. Como a mamãe disse, lembra?

— Para de surto, Celina! A Olga está morrendo. Precisamos buscar ajuda.

— NÃO! EU JÁ DISSE QUE NÃO!

Rúbia, por sua vez, não lhe deu ouvidos. Abriu a porta e, quando ia colocar os pés para fora, teve seu braço puxado com uma força imensa.

— QUAL PARTE DAS MINHAS PALAVRAS VOCÊ NÃO ENTENDEU? NINGUÉM VAI SAIR DESTA CASA!

Tentei assistir a tudo sem me envolver muito. Pelo visto, a minha presença ainda não havia sido notada pelo monstro, o que poderia me dar certa vantagem sobre ela.

— Olha o que você fez, Celina. Machucou o meu braço, está deixando a Olga morrer e... matou o Hélio...

— Eu te fiz um favor me livrando daquele palerma. Seu braço não será útil e com a Olga morta pelo menos nós vamos nos livrar daquela cantoria irritante.

— Essa não é você. Essa não é a Celina falando. VOCÊ NÃO É ASSIM!

— Bom, agora eu sou.

Precisava sair dali. Precisava buscar ajuda. A chaminé era, por ora, minha única forma de sair daquela prisão. Mas, para fugir, tinha de despistar a criatura, caso contrário, ela poderia me matar.

— Celina, por favor, pense sobre tudo que a mamãe queria para nós... ela nos mandou para este lugar por isso.

— Por que agora você quer falar sobre ela? Não é você que, a cada oportunidade que tem, fala que ela está morta?

— Eu faço isso porque me dói também, assim como dói na Olga e em você. Eu não gosto de falar sobre os nossos pais porque sempre que eu me lembro deles eu... eu fico triste...

— Rúbia, eu não sabia... — disse o monstro, levando as mãos à boca de modo comovente. — Quer dizer, eles tiveram muita sorte de ter morrido antes de conhecerem a insuportável que você é!

O que foi isso?

— Celina, eu sei que você está aí dentro. Por favor, para com isso! A Olga precisa de você! Eu preciso de você!

— NÃO! E nem tente me convencer com esse discurso batido sobre amor e união. Em breve, seremos só nós em Célazul. Graças aos nossos cristais e a mamãe, estaremos sempre seguras!

ESPEREM, É ISSO!

"Ninfas ficam mais fortes perto de cristais".

Talvez, no momento em que a Celina entregou seu cristal à Magnólia, algum daqueles espíritos malignos tenha entrado em seu corpo, ou até mesmo se esgueirado para cá e possuído ela depois. Foi por isso que ela se tornou uma aberração. Eu tinha que achar mais cristais...

Essa era a minha deixa. Aproveitei que elas estavam conversando para ir sorrateiramente até a lareira. Enquanto eu me esgueirava pelos móveis, entendi quando Rúbia me encarou com um olhar de incentivo.

— Celina, por favor!

— CHEGA, RÚBIA. Nossa conversa acaba aqui.

— PRECISAMOS AJUDAR A OLGA. VOCÊ É A IRMÃ MAIS VELHA, FAÇA ALGO!

— Eu não me importo mais.

— Pensei que tinha nos capturado justamente para nos manter protegidas e agora isso? Você vai deixá-la morrer?

— NÃOOOOOOOOO! — berrou o monstro, debatendo-se logo em seguida.

O monstro caiu de joelhos enquanto berrava. Seu corpo oscilava entre o corpo de um terrível monstro e o corpo de uma jovem humana.

— CORRE, ALFAJOR, AGORA! VAI BUSCAR AJUDA!

Fiz o que Rúbia mandou e voei lareira acima, mas confesso que nem mesmo eu sabia o que estava fazendo. O nível de adrenalina na minha corrente sanguínea estava alterado, sem dúvidas.

Assim que alcancei a liberdade, meus olhos flagraram, do alto, Sal e Hélio caminhando lentamente em direção à casa das irmãs. Sem pensar duas vezes, fui até o seu encontro. Nem acreditei quando os vi vivos.

— Alfajor, você está bem! — exclamou Hélio, assim que me viu chegar.

Ele tinha um corte longo no rosto que ia de sua testa até sua bochecha. Seu olho era a parte da sua face que mais chamava atenção, pois estava ensanguentado. O ferimento estava muito feio.

— É... infelizmente eu estou cego desse olho... Uma pedra pontiaguda fez esse estrago no meu rosto quando eu caí...

Ó, Celina, o que você fez...

— Sal, você conhece tudo nessa bela dimensão, então preciso que me leve a um lugar onde eu possa encontrar cristais em abundância.

Sal também tinha longos arranhões ao longo do seu corpo. Provavelmente ele tentou lutar contra o monstro, na tentativa de se defender. Assim que ouviu minhas palavras, relinchou e começou a correr em disparada, assustando até mesmo seu dono.

— EI, ME ESPERA!

O equino cavalgava em uma velocidade tão alta que era quase impossível de acompanhar. Passou por vários lugares que eu não conhecia e em nenhum momento pareceu perdido. Conhecia Célazul como a palma da sua mão. Ou seria melhor como a palma do seu casco? Ah, tanto faz, vocês entenderam.

Um longo tempo depois, estávamos em uma área da floresta, onde a luz do sol não entrava com facilidade. Toda a região era meio escura. Ao longe, as entradas de várias cavernas eram visíveis, será que havia mesmo cristais ali dentro?

— Por que nós estamos aqui, pessoal? — disse Hélio, confuso, olhando com desconfiança aos arredores silenciosos.

Sal entrou sem temer em uma caverna e pediu que eu o seguisse — ainda bem que eu o escutei. O interior estava tomado por uma esplendorosa luz roxa.

— Ah, sim. A caverna dos cristais. O papai deu um dos cristais daqui a mamãe como presente de casamento uma vez — disse Hélio, mais à vontade com o ambiente à sua volta.

Me aproximei da parede de cristais e tentei tirar um exemplar para levarmos, mas não consegui. Estava preso à parede.

— Alfajor, não dá para tirar cristais de suas paredes assim — disse Hélio, com uma risada. — Precisamos de materiais específicos.

Cara, isso era sério? Estávamos em um mundo mágico. Havia magia em todo lugar e eu precisava de materiais pesados e difíceis de achar e manusear apenas para conseguir uma ametista?

Meu descontentamento foi notável, assustou até o Hélio. Resmunguei e reclamei, sim, pareci até a Olga quando não conseguia o que queria. Talvez não fôssemos tão diferentes um do outro.

— Calma, amiguinho. Vamos dar um jeito.

Contudo, Sal foi mais rápido do que ele. Olhou à parede, ergueu seu chifre e magicamente fez várias ametistas se desprenderem e flutuarem até nós. Graças aos céus, Hélio pegou todas, colocando-as em seus braços, pois elas eram pesadas, e eu não conseguiria carregá-las.

— Sal, agora podemos voltar para a casa das meninas. Vamos.

E ele assim o fez.

Na mesma velocidade em que chegamos, saímos. Assim que voltamos à casa das irmãs, fiz um pedido ousado. Pedi a Sal que fizesse toda a casa desaparecer, assim como ele fez aquelas rochas enormes que ocupavam o espaço antes de construirmos a casa.

Pensei que ele diria não ser capaz de realizar tal pedido, mas, para a minha surpresa, ele apenas se inclinou e fez.

Quando a casa sumiu, conseguimos enxergar com nitidez que Rúbia ainda estava amarrada, Olga continuava desacordada e Celimonstro ainda estava se sentindo a dona de tudo. Foi ótimo assistir à feição de surpresa e raiva dela quando a casa desapareceu em um passe de mágica.

— Alfajor, como-essas-ametistas-vão-nos-ajudar? — perguntou Hélio entredentes, tremendo-se inteiro.

Pior que eu também não sabia. Mas, se a magia de proteção das ninfas ficava mais forte quando elas estavam próximas de cristais, então isso devia fortalecer a verdadeira Celina, aniquilando o monstro que estava possuindo seu corpo. Quem disse que beija-flores não eram bons fazendo planos?

— Sal, tenta criar um círculo de cristais ao redor do monstro assim que ele se aproximar. Eu preciso ajudar as garotas!

— Entendido!

Celimonstro ainda continuava imóvel, nos observando com bastante atenção. Provavelmente estava estudando nossos passos para dar início ao massacre. Minutos de quietude foram interrompidos de forma brusca com uma risada maquiavélica.

— Acham mesmo que um trio formado por um beija-flor, um unicórnio e um magricela vão me derrotar? Esqueceram que eu sou a dona deste lugar e, que se eu quiser, posso bani-los daqui agora mesmo?

Ninguém ousou dizer uma palavra.

— RESPONDAM!

E então Sal atirou um raio em sua direção. O monstro esquivou e correu em sua direção.

— AGORA, SAL!

O unicórnio controlou as ametistas que dançaram no ar, indo em direção ao monstro. Enquanto isso, eu tomei voo em direção às meninas que ainda precisavam de ajuda.

— Alfajor, socorro! — disse Rúbia, tentando se mover. — Ela apertou essas cordas com muita força.

Eu não tinha mãos para desfazer o forte nó e nem utensílios caseiros à vista, já que a casa toda havia desaparecido com o raio do Sal.

— Está muito apertado, não estou conseguindo respirar direito.

Tentei chamar a atenção de Hélio e, por sorte, ele me viu voando em círculos. Correu em meio ao confronto do monstro e do unicórnio a toda velocidade.

— Rúbia, não se preocupa, eu vim ajudar.

— Hélio, você está bem? Seu olho...

— Não se preocupa com isso agora, eu sei que o ferimento está feio, mas estou bem. Agora me deixa libertar você dessas cordas.

Enquanto isso, vislumbrei quando o monstro arranhou o rosto de Sal, fazendo sangue vir à tona. O equino, que ainda se mantinha calmo e preciso, lançou um raio que fez a assustadora criatura cair.

— Qual é o plano? — perguntou Rúbia.

— Não faço ideia, mas o Alfajor nos levou até uma caverna de ametistas.

— Ametistas... Alfajor, por acaso a Celina foi a algum lugar sem a pedra protetora dela?

Balancei a cabeça, sinalizando que sim.

— É por isso que tudo isso está acontecendo. Ela estava desprotegida, na verdade, ela ainda está... Precisamos fazer os cristais tocarem sua pele.

— Mas como? Ela é imbatível!

— Não é, não. Cuida da Olga, eu tive uma ideia.

Rúbia correu depressa em direção ao monstro, aproveitando sua distração com o unicórnio. Enquanto corria, ela tirou seu colar de rubi e, com um salto, agarrou a criatura por trás.

— TOMA ESSA! — falou a garota, colocando o colar na criatura desatenta.

O monstro soltou um rugido alto e começou a brilhar, como se estivesse se desfazendo. Todos assistiram à cena, espantados. Ficaram ainda mais surpreendidos quando Celina caiu desmaiada e uma sombra obscura se postou sobre o ar diante de todos.

— Podem ter conseguido me expulsar da minha hospedeira, mas ainda irei destruir esse lugar. Anotem o que estou dizendo!

Ao finalizar, voou rumo ao céu, fazendo uma gargalhada macabra ecoar pelo bosque e mudando a tonalidade do céu. Antes azul claro, agora estava roxo. O som dos trovões também era audível, cortante.

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