10. Fora de Controle
Decidi esperar por Olga na sala, assistindo à minha novela favorita: Chove lá fora. Graças aos céus, os botões do controle remoto eram fáceis de serem pressionados. Acomodei-me na almofada de tricô, que tinha uma rosa no meio desenhada, e relaxei. Tudo parecia tranquilo até Celina descer as escadas completamente nervosa, falando de forma rápida, atropelando as palavras.
— Elas não chegaram ainda! Elas devem estar em perigo! Deve ter acontecido alguma coisa! Preciso salvá-las!
Três palavras vieram à minha mente: precisa de terapia.
Célazul não era um refúgio seguro e inviolável?
— A mamãe falou no sonho que as forças do mal podem entrar sorrateiramente nos portais... e se aquele barulho que ouvimos enquanto estávamos no telhados foi isso? Alguma sombra se esgueirando diretamente para cá. Precisamos ir atrás delas, Alfajor! Agora! Por serem mais novas, elas também são mais indefesas.
Não podia ser depois? Quer dizer, agora era a hora da minha novela. Não me entendam mal, mas era óbvio que elas estavam bem. Isso devia ser só mais uma das crises de superproteção da Celina, não era a primeira vez que acontecia.
— Vem, vamos!
Saímos de casa e, o que antes era uma plácida noite estrelada, tornou-se uma noite caótica. A ventania ligada à forte chuva impedia qualquer possibilidade de nos separarmos para procurar as garotas, então eu tive que me agarrar aos cabelos de Celina, para que não fosse carregado pelo vento.
A pior parte era que todo aquele temporal estava sendo causado pela própria Celina. Como a dimensão agora pertencia a ela, toda vez que seus sentimentos ficavam instáveis, o tempo ficava caótico. Mas eu nunca vi nada assim antes, ela literalmente deu início a uma tempestade.
— Primeiro, vamos atrás da Olga. Ela é mais nova, logo é a mais vulnerável.
Celina me arrastou floresta adentro, onde estava sutilmente mais calmo. As árvores nos protegiam dos ventos fortes e também da chuva, contudo, voar ainda não era uma opção agradável. Decidi continuar escondido nos cabelos dela.
— A aldeia dos gnomídeos não é tão longe. Chegaremos lá em uns quinze minutos se mantermos esse ritmo.
Alguém poderia, por favor, trazer um calmante para essa garota? Ela estava agindo como se a Olga não soubesse como se defender.
Seguimos caminhando floresta adentro pelas condições insalubres proporcionadas pela chuva. Adorei quando o chão enlameado começou a dificultar a passagem de Celina, pois a culpa de todo aquele estardalhaço era dela.
Finalmente, após muita dificuldade, chegamos à aldeia dos gnomídeos. Assim que nos aproximamos, conseguimos achar Olga, que estava sob um enorme cogumelo-guarda-chuva junto aos outros gnomídeos. A aldeia deles estava alagada, algumas casas nem eram mais visíveis.
— OLGA, VOCÊ ESTÁ BEM? — perguntou Celina, desesperada.
— ESTOU! FAZ PARAR DE CHOVER, CELINA — pediu Olga, irritada.
Olga irritada? Oba! Vinha coisa boa por aí.
— Que? Por que você está falando nesse tom comigo?
— Você inundou a aldeia dos gnomídeos, Celina! Estragou todo o trabalho que tivemos durante à tarde.
— Para de ser ingrata! Eu vim até aqui, no meio deste temporal, apenas para salvar você!
— Esse temporal nem existiria se não fosse por você. E eu não pedi para ser salva por ninguém, eu mesma posso me salvar, ou você esqueceu que eu também tenho poderes?
BRIGA! BRIGA! BRIGA!
— Olha aqui, sua mimada... — disse Celina, muito irritada, tendo sua pele acastanhada tomada por um tom arroxeado.
Viram? Eu falei que vinha coisa boa por aí. Ou talvez não... Quer dizer, eu já errei antes...
A tempestade começou a piorar. As árvores à nossa volta começaram a cair, causando um caos generalizado. Os gnomídeos corriam pela floresta aos gritos, desesperados.
— Esperem, não vão. Vocês vão se machucar — gritou Olga, preocupada, enquanto assistia à histeria das criaturas.
Celina não tinha mais uma forma humana. Após muito se debater, ela tinha assumido a forma de um monstro gigante, semelhante a um lobisomem, só que sem o focinho, o fedor e os pelos. Era alta, seus braços e pernas eram longos, sua pele era roxa, suas garras eram salientes e assustadoras. Como eu não era bobo, assim que a vi, voei para perto de Olga, que estava tão chocada quanto eu.
— Alfajor, o que minha irmã se tornou?
Um monstro, ué. Não estava óbvio?
O monstro, que eu apelidei carinhosamente de Celimonstro, rugiu ferozmente em direção a Olga.
— Agora você vai me obedecer, sua pirralha petulante — urrou Celimonstro de forma assustadora. — Afinal, eu sou a responsável aqui!
OLGA, CORRE!
Olga me entendeu, pois a primeira coisa que ela fez ao fim das palavras do monstro foi correr. Por ser pequena, tinha ao seu favor a possibilidade de passar pelas brechas criadas pelos amontados de árvores. Entretanto, o monstro também era rápido, o que complicava bastante a situação.
— Vem cá, sua pirralha. Eu vou levar você para casa!
Eu precisava dar um jeito de distrair aquela criatura, para que Olga conseguisse ganhar vantagem. Voei para uma direção contrária a de Olga, indo para o alto, na tentativa de enxergar o cenário como um todo. Detestava voar na chuva, mas o que eu não fazia por essas garotas. Olhei para os lados e não encontrei nada que servisse para usar como distração. O jeito seria enfrentar a fera.
Enchi o peito, respirei fundo e busquei coragem. Saí em disparada em direção a Celimonstro e dei bruscas voltas ao seu redor.
— Sai daqui, seu inseto irritante!
EU SOU UMA AVE, SUA IGNORANTE!
Continuei confundindo Celina enquanto Olga corria. Ela tentava de todas as formas me acertar, disparando murros com suas longas garras afiadas em minha direção. Mal sabia ela que eu era uma das aves com o voo mais rápido do mundo, era quase impossível me acer-
...
Acordei não sei quanto tempo depois caído sobre uma poça d'água que havia se formado em uma folha. Sentia meu corpo inteiro doer, parecia que alguém tinha pisado em mim, o que tinha acontecido? CÉUS, A OLGA!
Sequer esperei meus sentidos estarem cem por cento recobrados e já voei em busca de Olga. Ouvi rosnados e decidi segui-los. Voei fugazmente com a vista embaçada até que localizei a mais nova correndo nas proximidades da Floresta das Tabebuias.
A floresta das tabebuias era única. Os ipês inundavam a região com suas cores vibrantes e causavam espanto pelo espaçamento entre as árvores, que era bem acentuado. Naquela noite, entretanto, os ipês estavam opacos. Suas cores não chamavam atenção e pareciam todas terem assumido um tom obscuro. Talvez fosse pela tempestade.
Consegui flagrar o momento em que a criatura alcançou Olga, ambas já haviam entrado na floresta.
— Celina, por favor, para com isso! — gritou a mais nova com pavor em sua voz.
— Eu só vou parar quando tiver certeza que você está segura, irmãzinha.
— Mas eu estou, olha para mim. Eu estou bem!
— NÃO, NÃO ESTÁ! — disse Celina, avançando em cima de Olga, que se esquivou correndo em direção a uma pedra. — VOCÊ AINDA ESTÁ AQUI FORA! VULNERÁVEL!
Olga correu para se esconder atrás de uma das tabebuias, mas, ao tocar em seu tronco, ela foi bruscamente arremessada pelo ar.
— OLGA!
OLGA, NÃO!
Caída sobre o chão, tentei me aproximar, mas Celimonstro foi mais rápida. Eu não acreditei! Como a Olga pôde se esquecer que as tabebuias eram um tipo de para-raios mágico que atraíam e guardavam energia? Ela devia estar muito ferida. Eu precisava fazer alguém coisa, choque era coisa séria!
— Viu, irmãzinha? Eu disse que aqui fora era perigoso.
E foi aí que a coisa mais bizarra que eu já vi aconteceu. O monstro abriu sua boca enorme, criando um portal e fazendo Olga desaparecer. Eu não sabia explicar nem mesmo a mim o misto de sentimentos que passou pelo meu corpo naquele momento. Não sabia o que fazer diante daquele cenário amedrontador. Seguia o monstro? Procurava Olga? Tentava achar Rúbia? Paralisei.
Minutos parados teriam se tornado horas se um raio não tivesse quase me acertado. Olhei para frente e vislumbrei o monstro subindo a montanha. RÚBIA! Eu precisava tentar alertá-la.
Eis aqui um dos benefícios de ser um beija-flor: as asas velozes. Cheguei, com dificuldade, à montanha, antes mesmo de Celina. Por sorte, localizei Sal sob a chuva comendo um pouco de grama, aparentemente tranquilo.
— Sal, onde está a Rúbia?
— A senhorita Rúbia e o senhor Hélio estão situados alguns rochedos abaixo, abrigados da chuva em uma caverna.
— Tá bom. Obrigado.
Procurei, mas só enxerguei pedras. Até que uma gargalhada espalhafatosa me guiou até quem eu procurava.
— É sério, eu sou muito azarado. Eu preparei um piquenique noturno inteiro para nós, até pedi ajuda à minha mãe, e, do nada, caiu uma tempestade — falou Hélio.
Rúbia gargalhava como nunca antes vi.
— Sai para lá com esse seu azar. Eu sempre fui uma garota muito sortuda — disse Rúbia, percebendo-me logo depois. — Alfajor? O que está fazendo aqui?
Tentei fazer mímica para explicá-la o perigo que estava a caminho — por mais que eu só fosse bom em mímica na minha cabeça.
— Eu não estou entendendo, Alfajor. Minhas irmãs estão bem? Aconteceu alguma coisa?
— Será que ele não está sentindo dor?
NÃO, SEU IDIOTA! Ah, sim... um pouco de dor, talvez. MAS NÃO É ISSO QUE EU ESTOU TENTANDO DIZER. TEM UM MONSTRO VIOLENTO VINDO ATRÁS DE VOCÊ, RÚBIA.
De repente, um alto relincho de Sal foi ouvido. Parecia que ele tinha se deparado com alguma criatura muito assustadora. Ah, não... Era tarde demais...
— Sal! — exclamou Hélio, preocupado. — Eu vou ver o que aconteceu com ele. Rúbia, fica aqui e tenta entender o que o Alfajor quer dizer.
— Não, eu vou com você.
NÃO VAI, NÃO!
Coloquei-me à frente de Rúbia, fazendo uma careta, na tentativa de impedi-la de sair. Não deu certo.
— Com licença, Alfajor — disse Rúbia, levantando-se.
— Rú-Rú-RÚBIAAA! — berrou Hélio, assustado com o que seus olhos viam.
— O QUE É ISSO?
ISSO ERA O QUE EU ESTAVA TENTANDO DIZER.
O monstro rosnou, e entrou na caverna com calma, se aproximando de Rúbia com um olhar penetrante.
— Vim buscar você, irmã.
— Ce-Celina?
— Já está tarde. É hora de ir para casa.
Celina agarrou o braço de Rúbia de forma violenta, sem que a garota esperasse. Sem que o monstro percebesse, me agarrei a parte traseira da blusa de Rúbia.
— Larga ela! — gritou Hélio, empurrando o monstro, que tombou para o lado.
Celimonstro, com toda a agressividade presente em seu ser, segurou a camiseta de Hélio e o lançou montanha abaixo.
— HÉLIO, NÃO! — disse Rúbia, apavorada.
— Hora de ir para casa!
Assim como fez com Olga, Celina abriu sua boca monstruosa, criando um portal que fez Rúbia e eu desaparecer.
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