06. Célazul

Eu sabia que a vida de um beija-flor costumava ser efêmera, mas, ao lado dessas garotas, eu tinha certeza de que partiria dessa para melhor antes do tempo. Acordei, desnorteado, em meio a uma relva quente, onde estava? Não fazia ideia. A única coisa que eu sabia era que estava vivo, o que, mediante aos últimos acontecimentos, já era uma vitória e tanto.

Abri minhas asas e, enquanto buscava alguma referência do lugar em que eu estava, chequei meu corpo e vi que estava tudo em seu devido lugar. Ufa! Contudo, meus olhos rapidamente se voltaram às três jovens desmaiadas sobre a grama, logo à minha frente, e foi aí que eu me lembrei de tudo que havia acontecido.

Eu estava dormindo tranquilamente em minha gazânia quando a diretora Matilda entrou no quarto, apressada, pedindo que Rúbia e Olga acordassem e se arrumassem, pois o casal interessado em adotá-las estava a caminho.

Pensei em acordar Celina para ajudá-las, mas a diretora não saiu de cena nem um minuto, o que me impossibilitou de fazer o meu trabalho. Com as meninas prontas, Matilda as levou para fora do quarto, o que me intrigou. Voei até Celina e tentei acordá-la de todos os jeitos possíveis, porém ela parecia estar longe. Se não estivesse respirando, eu teria dito que ela estava morta.

Cansei de tentar acordá-la e decidi eu mesmo ajudar as meninas. Graças aos céus, a tal diretora tinha aberto a janela, o que me possibilitou sair e ir atrás de Rúbia e Olga. Consegui vislumbrá-las indo em direção às escadas e as segui. Voei até Olga, que, quando me viu, me aninhou em suas delicadas mãos.

As meninas estavam quietas, caminhando uma ao lado da outra enquanto Matilda dizia como elas deviam se comportar diante do casal. Não consegui conter o riso ao ver Rúbia revirando os olhos quando Matilda falou que ela deveria maneirar nas grosserias.

Entramos em uma sala nunca vista antes por mim. Na porta estava escrito "Sala de Música", mas eu nem sabia que essa sala existia. Havia um casal dentro, que se animou quase de imediato quando as irmãs entraram. Brenda e Marcelo foram como eles se apresentaram. Aparentemente simpáticos.

— Então essas são as famosas Rúbia e Olga — disse Brenda, aproximando-se das garotas e abraçando-as fortemente.

— É um prazer conhecê-las, meninas. Estamos ansiosos para conhecer vocês melhor — falou Marcelo, cumprimentando ao longe.

Rúbia e Olga pareciam congeladas. Acenaram hesitantes e sequer proferiram duas palavras. Ainda em sua mão, senti Olga tremer. Ela estava tão ansiosa assim para ser adotada?

— Se apresentem, meninas — disse Matilda com um largo sorriso no rosto. — Não sejam tímidas.

— O-oi... eu sou Olga...

— E eu sou... Rúbia... eu acho...

Confesso que não estava acostumado a ver a Rúbia sendo tão introspectiva. Olga tudo bem, ela sempre ficava mais tímida diante de pessoas novas, mas a Rúbia, não.

Percebi que havia uma energia errada no ambiente quando vislumbrei o tique nervoso no olho do casal. Eles começaram a ficar inquietos, como se estivessem tentando disfarçar que algo os estava incomodando.

— Bem... a nossa Olga aqui é muito boa com instrumentos. Vou pegar uma flauta doce para que ela possa mostrar a vocês quão talentosa ela é.

Só que o que veio depois foi bizarro. O olho de Marcelo se esticou, como um chiclete, acertando Matilda e fazendo com que ela perdesse o equilíbrio e batesse a cabeça na quina do móvel. Ela desmaiou rapidamente. Porém o mais bizarro foi Rúbia e Olga sequer se mexeram. Elas estavam paralisadas. Brenda e Marcelo passaram a se debater — assim como a Laurela fez no dia anterior — até que sombras saíram de dentro deles. Os corpos esfarelaram à minha frente como um daqueles biscoitos vagabundos cheios de açúcar.

Desvencilhei-me das mãos de Olga e tentei chamar sua atenção voando ao seu redor e dando sutis bicadas em seu rosto, porém isso foi em vão. Ambas nem se mexiam. Quando tentei fazer o mesmo com Rúbia, senti algo me acertar com força, me lançando pelo ar até bater com força na parede e cair sobre algo muito macio.

Quando acordei, tudo estava uma loucura. Celina e Magnólia estavam na sala junto ao corpo da desmaiada Matilda, e Rúbia e Olga flutuando sobre o controle dos espíritos. Percebi que caí em cima de cobertores levemente empoeirados, o que me deu uma ideia. Agarrei um dos cobertores e o arrastei comigo pelo ar até as assombrações. Joguei-o em cima deles e comemorei quando a poeira os dispersou pela sala.

Voei até Celina na tentativa de fazê-la nos tirar daquele ambiente caótico. Eu sabia que ela conseguiria, já que a vi abrir um portal no laguinho ontem à tarde. Acho que ela entendeu, porque antes mesmo de eu pensar em outra solução, nós quatro fomos rapidamente sugados portal adentro. E agora nós estávamos aqui... Mas onde era exatamente "aqui"?

Chequei a respiração delas e constatei que estavam vivas. Ótimo. Deviam estar apenas exaustas. Será que eu deveria explorar o lugar? E se fosse perigoso? Olhei ao redor e havia majestosas flores-de-maio espalhadas perto das pedras. Também havia altas árvores e um pouco de névoa sobre elas, o que fazia sentido, pois estava um pouco frio. Para onde Celina nos trouxe? ESPEREM, ela estava acordando. Fui até ela, sinalizar para mostrá-la que eu estava acordado.

— Alfajor? Oi, amiguinho — cumprimentou-me Celina, esticando o dedo para eu pousar. — Você veio também.

Era óbvio, né. Você achou mesmo que eu iria abandonar a Olga?

— Não acredito! Eu consegui... Consegui nos trazer sãos e salvos a Célazul.

Célazul? Que lugar era esse?

— A mamãe tinha razão. Meus sonhos estavam certos, esse lugar existe! — falou Celina em voz alta, rodopiando entusiasmada pelo ar. — Estaremos seguros aqui, Alfajor.

Tudo bem, então. Mas e a Olga? E a Rúbia? Por que elas ainda não tinha acordado e por que elas ficaram paralisadas diante daqueles monstros? Bufei, irritado, porque sabia que ela não conseguia me entender, então voei em círculos em volta das duas mais novas, a fim de chamar sua atenção.

— Não se preocupe, Alfajor — disse Celina. — Elas estão bem, apenas estão exaustas. Acho que aquelas criaturas tentaram absorver os poderes delas.

Decidi dar esse voto de confiança a Celina, mas prometi a mim mesmo que se elas não acordassem ainda naquele dia, eu ia... ESPEREM, ELA ESTAVA ACORDANDO! Voei ao redor de Olga e fiquei eufórico quando presenciei seu sorriso.

— Alfajor! — exclamou a caçula, abrindo um largo sorriso. — Estou tão feliz por te ver.

— Ol, como é bom te ver bem — exclamou Celina, aproximando-se e dando um forte abraço na irmã. — Me desculpem, eu jamais deveria ter deixado vocês irem ver aquele casal.

— Mas não tinha como você saber que eles eram aqueles monstros, Celina — rebateu Olga, sorridente. — O que importa é que estamos bem.

— Sim... — disse Rúbia com dificuldade —, e nós meio que deveríamos ter confiado em você quando nos disse sobre o sonho com a mamãe...

Graças aos céus, todas estavam acordadas e bem. Torci para que seus poderes não tivessem sofrido nenhum dano decorrente do ataque sofrido.

— Meninas, eu menti... — revelou Celina, cabisbaixa.

FINALMENTE ELA IA FALAR A VERDADE.

— Sobre o quê? — perguntou Rúbia, tentando se sentar.

— Sobre a Laurela e... sobre a mamãe... Assim que eu fui conversar com a diretora Matilda, ela disse que não havia ninguém com esse nome lá... eu quis contar a verdade a vocês, mas fiquei confusa com as coisas que a mamãe me contou em sonho.

— Por que mentiu para nós? — indagou Olga.

— Não queria deixar vocês mais preocupadas do que já estavam e tive medo de termos outra briga... Além disso, pensei que, se vocês fossem adotadas, ficariam seguras... mas, não.

— O que esses monstros-espíritos-fantasmas querem com a gente? Nossos poderes? — quis saber Rúbia.

— A mamãe disse que as "forças do mal" querem nossos poderes e que iam tentar tirá-los de nós, por isso deveríamos sempre usar os cristais e ficarmos juntas, para que assim nossa magia sempre esteja forte.

— Isso é tudo tão confuso... — externou Rúbia, olhando ao redor com desconfiança.

— Eu... preciso contar uma outra coisa a vocês também...

As mais novas direcionaram o olhar à irmã, sérias.

— A mamãe era uma ninfa. É por isso que temos poderes.

— Nós já sabíamos — respondeu Rúbia.

— Que? Como?

COMO ELAS DESCOBRIRAM ISSO?

— O Alfajor às vezes fala enquanto dorme. Uma vez ele disse que nós três éramos metade ninfas e que ele tinha lido em seu diário — explicou Olga, rindo.

Opa... Acho que meu lado fofoqueiro acabou de ser revelado.

— Seu beija-flor fofoqueiro e abelhudo — esbravejou Celina, apontando o dedo em minha direção.

Ei, você não pode me julgar. Ninguém pode me julgar. Aquele orfanato era um tédio na maior parte do tempo, minha única diversão, quando eu não estava no jardim, era ler o seu diário. E não me chame de abelhudo, eu odeio abelhas. Beijaflorzudo soa muito melhor!

— Tudo bem, Celina — disse Rúbia. — Não estamos magoadas de você ter nos escondido essa parte importante da vida da mamãe.

— É, nós entendemos que você só queria nos proteger. E agora, vamos ficar todas juntas, bem aqui! — disse Olga. — Mas, espera... onde estamos?

— Célazul. Um tipo de dimensão criada pela mamãe para abrigar todos os seus pertences — respondeu Celina.

— É tipo o sótão dela? — disse Rúbia, confusa.

— Eu não usaria essa palavra, mas meio que sim.

— Vamos morar aqui no meio da floresta? Não podemos ter uma casa? — perguntou Olga, levantando-se e analisando seu arredor.

— Eu poderia desenhar uma casa, mas deixei meu caderno de desenhos no orfanato — falou Rúbia, cruzando os braços.

— Calma, meninas — disse Celina. — Vamos dar um jeito. Aos poucos vamos deixar esse lugar com a nossa cara.

— JÁ SEI! — exclamou Rúbia. — Lama. Precisamos de lama... e gravetos.

— Onde vamos achar isso? — disse Olga.

— Choveu recentemente aqui — lembrou Celina. — Não vai ser difícil encontrar algum terreno barroso.

— Então vamos procurar. Assim eu posso desenhar tudo aquilo que nós precisarmos, inclusive um caderno de desenhos novo — falou Rúbia.

— Você pode desenhar unicórnios também, Rúbia? — indagou Olga, dando pulinhos de empolgação.

— Foi mal, maninha, mas você sabe que eu não consigo dar vida a desenhos de seres vivos tão complexos. Insetos são fáceis, mas unicórnios? Impossível!

— Ah, é verdade. Eu sempre me esqueço.

— Vamos procurar essa lama logo antes que ela seque — falou Celina, caminhado em direção à vasta floresta.

Bom, eu não tinha planejado passar o meu dia dentro de uma floresta cheia de perigos, mas eu também não tinha planejado ver as meninas sendo atacadas, também ser atacado e, de quebra, vim parar em outra dimensão, então vamos, né.

Para a minha surpresa, a floresta não era um local hostil. Era um pouco abafada, mas as plantas até saíam do meio para abrir passagem para nós. Eu estava me sentindo um rei em meio àquela vastidão de gentileza.

— Vou pegar algumas dessas frutinhas para comermos mais tarde, nunca se sabe o que pode acontecer — disse Celina, colocando as frutas nos bolsos do seu vestido.

Majestosas borboletas eram visíveis ao longo do caminho. Não gostava muito delas, elas eram sempre tão convencidas, sempre tão exibidas com aquelas asas coloridas.

Alguns minutos, que mais pareceram horas de caminhada depois, chegamos a uma cachoeira isolada no meio da floresta. As irmãs, sem demora, aproveitaram para molhar o rosto e se hidratar enquanto eu tentava fugir das gotículas de água que a queda d'água jogava no ar.

— Ali — apontou Rúbia, correndo até uma parte lamacenta da queda d'água. — Me arrumem um graveto.

— Eu guardei aquele que achamos na floresta — disse Olga, entregando o achado à sua irmã.

Rúbia desenhou, com um pouco de dificuldade, um caderno de desenhos, assim como vários tipos de lápis. Ela não estava acostumada a desenhar na lama. Ergueu as mãos sobre o desenho e, como em um passe de mágica, eles se materializaram.

— Prontinho. Agora podemos ter tudo que precisamos.

— Precisamos erguer nossa casa em um lugar aberto, sabe, para que o vento se faça presente — disse Celina.

— E precisa ser em um lugar que não agrida a natureza. Não podemos machucar nenhuma árvore ou flor — completou Olga.

— Ainda está claro, então temos tempo para procurar. Se o tempo aqui funcionar como na terra, ainda está de manhã — reparou Rúbia, protegendo seus novos feitos em seus braços para que a água não os danificasse.

Após deixarmos a cachoeira, seguimos por uma trilha localizada ao lado do lugar. Tive a estranha sensação de estarmos sendo vigiados, mas talvez fosse só algum animal de passagem.

As irmãs seguiram pela trilha, cantarolando alegremente. Nem parecia que momentos antes elas estavam sendo atacadas por criaturas das sombras. Contudo, tamanha descontração foi interrompida por um estranho barulho vindo da floresta. Pelo visto, eu não estava tão louco quando pensei que estávamos sendo observados.

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