03. Sonho Lúcido
De repente, um solavanco me acordou. Uma sensação estranha, como se o quarto tivesse sido bruscamente invadido por uma energia negativa. Abri bem os olhos e reparei que, na cama ao lado da de Celina, havia uma menina dormindo. Era a Laurela? Mentira! Essa menina estava dormindo lá desde quando? Lembrei que de manhã ela estava dormindo, mas eu a vi entrando no banheiro, assim que Magnólia foi falar com Celina. Celina ainda estava lá, em sua soneca.
A menina começou a se mexer estranhamente. Bizarro! Parecia até que estava possuída por alguma coisa ruim. Não ousei mexer nem um músculo, pois não queria perder nenhum dos movimentos dados por ela. De repente, a garota se sentou de maneira robótica.
Tudo bem, eu estava começando a ficar assustado. Seus olhos não se mexiam, suas pupilas estavam fixas, olhando para frente. Sem que eu esperasse, ela direcionou o olhar a mim. Nem sabia se isso era biologicamente possível, mas senti meu corpo gelar, então me mantive imóvel e em completo silêncio, até que ela mudou o alvo. Agora, seu olhar estava voltado à Celina.
Minutos observando Celina assiduamente se passaram até que ela levantou e foi até o meio do quarto, onde havia um tapete redondo felpudo. Ela se postou sobre ele e começou a se contorcer inteira. Enquanto se contorcia e se debatia, a garotinha de cabelos cacheados loiros começou a assumir uma forma estranha. Uma criatura escura, fina, de pernas e braços largos e cabeça pontuda. Continuei sem me mexer, mas, desta vez, não era por opção. Estava em choque. Meus olhos enxergavam, mas não assimilavam. Que criatura medonha era aquela?
O monstro parecia querer fazer alguma coisa com Celina — devorá-la, pensei, mas parecia que algo o impedia. Ele tentava se aproximar, porém uma espécie de campo protetor invisível a protegia. Queria encontrar um jeito de avisar a alguém, talvez ainda desse tempo de alcançar Olga no caminho para a escola. Finalmente, diante daquela súbita dose de esperança, meu corpo descongelou, o que me permitiu alçar voo. Fuji às pressas, torcendo para que Celina continuasse a salvo.
Ponto de vista de Celina:
Eu estava caminhando em lugar estranho. Bonito, porém... confuso. Nunca estive nele antes. Parecia um paraíso. Havia diversos montes ao redor, florestas densas e principalmente flores por todos os lados. Conseguia ouvir o cantar dos pássaros, mas não os via. Devia ser mais um daqueles sonhos lúcidos que eu sempre tinha. Comentei uma vez com Magnólia que tinha esse tipo de sonho constantemente e ela me chamou de esquisita — de um jeito amigável. Disse também que não era comum alguém ter sonhos tão realistas o tempo todo. Bom, fazia sentido, já que eu era metade ninfa. Talvez fizesse parte do combo dos poderes mágicos.
No chão, vi a sutil dança das flores lilases. Depois, ouvi alguém sussurrar, chamando meu nome.
— As flores estão falando comigo? Espera... essa voz me é familiar... Mamãe? É você?
Ninguém respondeu. Continuei olhando ao redor, na tentativa de encontrar alguém, mas havia apenas a natureza. Sem que eu esperasse, senti uma mão tocar meu ombro, o que me fez virar de imediato.
— Mamãe?
— Olá, filha.
Eu tinha plena consciência de que era um sonho, contudo, o sentimento que me invadiu foi tão forte que eu não consegui conter a emoção ao abraçá-la.
— Como? Como você está aqui?
— Não. Não vamos perder tempo questionando isso. Venha, me dê sua mão. Vamos caminhar. Tenho pouco tempo para conversar com você.
Assenti, não racionando direito.
Não ousei questionar. Minha mãe nunca me faria mal. De mãos dadas, nós caminhamos lentamente, pisando sobre o caminho de flores à nossa frente. A parte mais incrível era que elas não se amassavam, continuavam intactas, seguindo a coreografia proposta pela natureza.
— Filha, eu já soube da sua decisão. Em relação às suas irmãs.
— Como você soube?
— Não tem importância. O ponto é que você não pode deixá-las ir. Vocês precisam ficar juntas, só assim estarão completamente protegidas.
— Mas... protegidas de quê?
— Sem perguntas difíceis agora. Não há tempo a perder.
— Mas, mãe, como você quer que eu haja de acordo sem que eu entenda o que está acontecendo?
— Apenas fiquem juntas. Não importa onde ou quando. Fiquem juntas.
— Tudo bem, vou tentar fazer a diretora Matilda voltar atrás.
— Ótimo. Outra coisa: não hesite em usar seus poderes. A prática leva à perfeição.
— Mãe... eu não me sinto confiante em usá-los...
— Tudo bem ter medo. Ainda mais sem a minha presença para ajudá-la a entender sua magia e mostrar o quanto você é forte.
Encarei-a em silêncio. Não sabia o que dizer.
— Você é capaz de fazer tantas maravilhas com seu poder. Por favor, não se limite a produzir simples terrários em seu quarto.
— Mas por que eles são tão importantes? Quer dizer, que diferença faz se eu os uso ou não?
— Chegará um momento em que só você poderá salvar a si e as suas irmãs. E você não conseguirá realizar tal feito se continuar a fugir da sua natureza mágica. Somos ninfas, Celina. Seres mágicos de altíssima intimidade com a natureza. Seus poderes são uma dádiva, não tema em usá-los.
— Tudo bem. Prometo que, a partir de hoje, vou usá-los como nunca.
— Faça como a Rúbia que os usa o tempo todo. Apenas seja mais cautelosa.
— Como sabe de todas essas coisas?
— Eu sei de tudo, pois eu estou sempre com vocês, filha. Eu nunca as abandonei — disse mamãe, tocando em meu colar.
— O colar? O que tem meu colar?
— Nós, ninfas, costumamos aumentar nossa magia protetora quando nos rodeamos de cristais. Cristais são obras de artes esculpidas pela natureza que possuem um intenso poder de proteção.
— E-eu não sabia... Então minha ametista vem me protegendo todo esse tempo?
— Não só lhe protegendo, mas também sendo meus olhos. São pelos cristais que eu consigo sentir vocês.
— Bom saber disso. Nunca mais me sentirei sozinha.
— Você nunca estará sozinha, meu amor. Com ou sem cristal, suas irmãs sempre farão companhia a você.
— Sim... eu sei.
Estranhamente, mamãe começou a falhar, até cair. Parecia estar perdendo as forças.
— Mãe, calma — falei, segurando-a. — Calma, se apoia em mim.
— Filha, eu preciso ir, mas prometo que eu volto para conversar com você outra vez. Não se esqueça, nunca tire seu cristal, o mesmo se aplica às suas irmãs. Não tirem os cristais e fiquem juntas, só assim ficarão protegidas dos...
E, então, ela desapareceu. Assim... do nada... sem conseguir concluir sua fala...
Olhei para o chão na tentativa de me conectar com ela outra vez, mas tudo que meus olhos enxergaram foram as belas flores lilases apodrecendo velozmente. Desesperada, olhei para os lados e assisti à triste destruição da beleza outrora criada por mim. Tudo estava apodrecendo. Destruindo-se. Desaparecendo. Minha cabeça começou a doer muito forte e os gritos das minhas irmãs foram tudo que eu ouvi antes de despertar.
Assim que voltei à realidade, me deparei com uma criatura horrorosa à minha frente, tentando me pegar, porém algo a impedia. Ele tentava, mas um tipo de barreira me protegia. Olhei para a porta e enxerguei Rúbia e Olga completamente em choque olhando para o monstro. Corri em direção à porta, fechando-a.
— QUE COISA HORROROSA É ESSA? — perguntou Rúbia, colocando-se à frente de Olga, que chorava sem parar. — Calma, Ol, não vamos deixar nada de mal te acontecer.
O monstro tentou direcionar um ataque contra nós mais uma vez, mas o tal escudo protetor continuava lá.
— JÁ ENTENDI! Nossos colares, os cristais estão nos protegendo — avisei. — Não precisam ter medo, nossos colares e a mamãe vão nos proteger.
Alfajor, que voava desesperado pelo quarto, aconchegou-se nas mãos de Olga, que se tremia inteira.
— Mesmo protegidas, qualquer um pode vir aqui e dar de cara com esse monstro. Temos que nos livrar dele, Celina — disse Rúbia, encarando a criatura com nojo.
— Acho que sei um jeito, mas preciso de tempo e privacidade. Desenha uma chave e tranca a porta para que ninguém entre aqui e veja essa criatura. Vou tentar mandá-lo para outro lugar — falei.
Rúbia correu até sua cabeceira, pegou seu caderno de desenhos e ficou em completo silêncio, concentrada. Olga e Alfajor ainda continuavam em frente à porta acalmando um ao outro.
— EI, MONSTRO. AQUI, VEM CÁ! — falei, tentando chamar a atenção dele para que ele destruísse o mínimo possível do quarto.
Tentei usar meu poder para mandá-lo para algum outro ambiente. Um pouco ousado vindo de uma pessoa que até algumas horas não queria explorar sua magia, mas o que eu podia fazer? Era o que me restava. Eu sentia que a magia queria vir, mas algo a impedia.
— CONSEGUI FAZER A CHAVE — falou Rúbia, correndo para trancar a porta. — Calma, Olga. Esse monstro não pode nos fazer mal.
O monstro se irritou por não conseguir nos atingir, então começou a destruir os objetos do quarto. Em uma tentativa de socar a parede, ele acabou destruindo todos os meus terrários, o que me deixou extremamente irritada.
— AGORA VOCÊ FOI LONGE DEMAIS! — falei, imaginando um lugar extremamente caótico e longe.
Quando abri meus olhos, percebi que havia aberto um portal com as minhas mãos. Fiquei boquiaberta e paralisada por alguns instantes até reagir.
— TÁ ESPERANDO O QUE, CELINA? JOGA ESSE BICHO DENTRO, DEPRESSA! — falou Rúbia.
Sem demora, fiz o que ela pediu. O monstro, que hesitou quando viu o portal, não teve para onde fugir. Joguei o portal em cima dele e, em um piscar de olhos, ele desapareceu.
Por um momento, todos no quarto ficaram imóveis, em completo silêncio. Apenas o som da nossa respiração era audível no momento.
— Aquele... monstro... era... a Laurela... — sussurrou Olga, hesitante.
— Como você sabe? — perguntei.
— O Alfajor contou. Foi ele quem nos trouxe aqui — retrucou Rúbia, quase que de forma automática.
— Esperem... como vocês chegaram aqui? Pensei que estivessem na escola.
— O Alfajor encontrou a Olga durante a aula e falou que você estava em perigo. Falou que a Laurela tinha se tornado um monstro e que estava tentando te pegar — respondeu Rúbia. — Depois, falamos que estávamos passando mal e então a diretora nos buscou.
— Esse beija-flor sabe falar?
— Não, né. Mas, às vezes, a Olga consegue se comunicar com ele através da mente. É um poder novo que ela ainda está aprendendo a controlar.
— Eu consigo entender todas as criaturas com quem me conecto por meio da minha voz... — explicou Olga, ainda em choque, sentada no chão.
— Ok, eu não sabia disso. Isso é incrível, Ol.
— Obrigada...
— Rúbia, desenhe todos os móveis quebrados, não podemos deixar nenhum vestígio disso que aconteceu. Olga, vigie a porta. Eu vou arrumar essa bagunça e, quando terminarmos, preciso contar a vocês sobre a conversa que tive com a mamãe.
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