Capítulo 4
EDWARD MINT
Eu havia acabado de abrir o pub e Max já se encontrava recostado no balcão, só trocando conversa fiada.
Seu cabelo avermelhado estava bagunçado e úmido, e um sorriso matreiro havia se instalado em seu rosto desde a primeira caneca de Guiness.
De repente, um indivíduo vestido em sobretudo abre a porta com um estrondo, deixando uma rajada de vento e chuva entrar. Ele se direcionou diretamente à uma mesa ao fundo e lá ficou tentando se secar como podia com a parcas vestimentas e esfregando os braços afim de se esquentar.
__Pelo visto, começou a chover finalmente, não é? __Disse Max, finalizando com sua risada brincalhona.
__Espero que não chova muito. Sabes bem como o pub fica uma bagunça quando chove. __Tentei responder de maneira descontraída, porém ainda soando um pouco preocupado.
"Quem é essa pessoa? Não parece ser da cidade. Deveria me preocupar e chamar o meu pai?"
Então logo vi que não precisava me preocupar, quando a cabeça encaracolado levantou seus olhos e me deparei com uma imensidão castanha atordoada e olhando para mim. Meu lábio inferior tremeu ao pulos que meu coração deu, e instintivamente minhas bochechas tornaram-se rubras.
__O que houve? __Max disse ao se deparar como minhas feição mudaram do vinho para a água. Se virando para atrás, o mesmo se deparou com a mesma figura que eu e soltou um suspiro de compreensão. __O que ele faz aqui de novo? Será que está te perseguindo de verdade?
"Não sei se está me perseguindo, mas que eu quero ser perseguido por ele eu quero..."
__É o que vamos descobrir! __Disse um tanto quanto animado, ao secar minhas mãos no avental e me encaminhar para a sua mesa.
__Ei! Se houver algum problema, estarei aqui, ok? __Max me puxou pelo braço bruscamente, me fazendo mergulhar em seus olhos azuis, e num instante vi preocupação neles.
Assenti discretamente, um pouco envergonhado por tal contato ter se dado.
Ao chegar perto da mesa, vejo que o Sr.Collins escrevia freneticamente eu seu pequeno caderno de capa de couro preto. Não quis atrapalhar, e me prostrei ali à sua frente, o observando silenciosamente e ao mesmo tempo sem saber ao certo o que fazer.
Em dado momento, ouvi um suspiro, seguido de um gemido de dor. O rosto atordoado levantou a cabeça, com os dedos aos lábios, e estes aparentando estarem sangrando, e enfim notando a minha presença. Seu olhar seus anuviou, e uma perplexidade tomou sua face, seguida de uma fervorosa raiva sem motivo.
__O que está olhando? __Rosnou o mesmo, desviando o rosto, ainda limpando com os dedos o sangue que escorria de sua boca.
__O-o senhor precisa de alguma aju-uda? Ve-ejo que está ferido. __Aproximo minhas mãos do seu rosto, instintivamente, tentando ajudá-lo a se limpar.
__Não preciso de ajuda alguma! __O próprio recua agressivamente do meu gesto, se levantando bruscamente e batendo as palmas contra à mesa.
Diante de sua fúria, me afastei receoso, com as mãos à frente do meu corpo, tentando o acalmar.
__Tudo bem, só fiquei preocupado...
__Olha, desculpa. Isso foi realmente rude da minha parte. __Sr.Collins tomou um ar um pouco mais calmo, procurando meus olhos com certo ternura. __Pode me trazer um lenço úmido e uma xícara de café, por favor?
__Claro! __Disse prontamente, me virando para ir à cozinha e trazer conforme pedido.
Passei pela minha mãe às escadas, pedi, com uma olhadela, para ela tomar conta do balcão por um instante. A mesma retribui com um sorriso contrariado.
Após algum tempo, ao descer, percebi que a algazarra dos clientes havia aumentado gradativamente. Um homem jazia ao enjoo no balcão, com vários homens ao seu redor às gargalhadas. Logo, o bêbado correu porta à fora, e pelos barulhos, estava vomitando.
Sorri de canto de lábio com a patética situação e fui ao encontro de Collins. O rapaz segurava a cabeça entre as mãos, aparentando estar com uma tremenda dor de cabeça.
Sentei ao seu lado, e logo o moço levantou o seu rosto. Delicadamente, posicionei o lenço úmido em seus lábios feridos e limpando o sangue seco que ali se formara, tomando-o de sobressalto. Com a outra mão, segurava seu rosto para perto. Seu rosto foi tomado por uma densa vermelhidão, e os olhos assustados, porém gradativamente foram se tornando mais calmos e os músculos menos tensos.
Naquele momento, comecei a admirar sua face, me deparando com sardas salpicando suas maçãs-do-rosto, aumentando o meu desejo de beijá-lo e tocá-lo. Ao perceber isso, me afastei e deixei de lado o lenço. Lhe entreguei o café e me sentei ao outro lado da mesa.
__Ahn, obrigado pela ajuda... __Collins disse, dando um sorriso meio encabulado. __E como vai indo as pinturas?
__De vento em poupa, como sempre. __Sorrio descontraídamente, me espantando com tal informação guardada. __Um dia, quem sabe, eu possa te mostrar minhas novas telas.
__Ah, eu adoraria! __Disse, com mais euforia do que eu esperava. __Sabe, eu andei conversando com o meu pai, e ele gostaria de te conhecer. Saber um pouco mais sobre a sua vontade de estudar na faculdade de Belas Artes.
Não pude conter o sorriso que se formou e meu pulo de alegria. "Oh Lord, como eu poderia recompensar esse homem por tamanha bondade?"
Dei a volta na mesa, e ele assustado se levantou. Ao se levantar, dei-lhe um abraço apertado, com lágrimas aos olhos.
__Como eu poderia o recompensar? Diga, por favor! Posso lhe dar o que quiser!
__Não, está tudo bem. __Soltou uma gargalha, e sua fala estava mais divertida e um tanto quanto espantada com tal demonstração de afeto repentina. Ele retribui o abraço, mas logo se afastou de novo.
__Bom, deixe ao menos eu servi-lo um jantar decente! Poderia esperar o pub fechar?__E enquanto ele tentava formular alguma resposta, um pouco atordoado, eu o interrompo.__Ótimo que tenha achado uma boa ideia!
Sorri divertidamente, dando-lhe as costas e voltando para as minhas funções.
O pub havia virado uma verdadeira zona nesse meio tempo, e comecei por limpar o balcão que estava imundo de cerveja Guiness derramada. Collins continuou em sua mesa, escrevendo em seu pequeno caderno.
Após ter terminado de limpar o balcão, servido mais algumas canecas da cerveja preta, ter retirado a minha mãe do salão e a recolhido para seus aposentos, limpado outra vez o balcão, senti a falta de Max.
O belo e alto ruivo já não se encontrava mais no pub, e desde que horas isso já se dera eu não sabia ao certo. Fiquei um pouco confuso, e com um certo temor de que estivesse com ciúmes, apesar de saber que isso não fazia sentido algum. Afinal, se havia alguém que tinha o direito de estar com ciúmes, esse alguém era eu.
"Por Deus, ele vai se casar na primavera! Não há porquê ter uma atitude infantil dessas."
Aos poucos, o pub foi esvaziando, as mesas sendo deixadas, canecas sujas descartadas, e toda aquela efervescência do início da noite se fora. O único que não se fora foi Collins.
Agora, sem pessoas circulando, o mesmo rodeava o salão, admirando a decoração do pub. Instintivamente, caminhei de encontro à ele, quando este chegou perto do piano. Sua grande e rude mão acariciava as teclas amareladas e entalhos feitos na madeira do piano.
Ao ver suas mãos pousadas ali, desejei tomá-las e levá-las de encontro ao meu rosto, para que também acariciasse a minha face.
Toquei descontraidamente algumas teclas, sem formar uma melodia ao certo. Collins me encarou, admirado, e sentou-se no banco ao piano. Logo, começou a tocar Prelúdio em C maior, de Bach, e de início não reconheci. Ao reconhecer, sentei-me ao seu lado, ajudando-o a tocar o segundo tom da música.
Minha pele formigava, como se uma onda de eletricidade percorresse o meu corpo, quando nossos braços e cotovelos se encostavam e quando seus dedos chegavam perto dos meus ao tocar uma escala muito alta.
Ao término, senti um suspiro solto de seus lábios, e o olhei curioso. Collins, ainda olhava para as teclas, sorrindo tão bobo quanto uma criança, e então levantando os olhos e dirigindo à mim aquele sorriso.
Rugas se formavam ao lado de seus olhos, tamanho era o seu sorriso. Aquilo era tão belo, que desesperadamente fechei os olhos à espera de um beijo daqueles lindos lábios. Comece se ele pudesse ler os meus pensamentos, senti uma pressão se formar na minha boca, como se algo macio a pressionasse. Percebi então, que Collins estava me beijando.
Segurei seu rosto entre as minhas mãos, quando o mesmo correspondeu segurando com uma mão a minha nuca e a outra pousada na minha cintura, como se me puxasse mais para ele, para nos fundirmos e virarmos um só. E era bem isso que eu queria, que nunca mais nos separássemos e que aquele momento durasse para sempre. Deus poderia me matar naquele instante, e eu ainda morreria feliz.
Seu beijo era lento e delicado, e sua língua nunca ia muito fundo ou fazia movimentos muito rápidos. Ele era calmo e cavalheiro. Ao irmos nos acalmando e nos esvaziando um sobre o outro, ele foi se afastando de mim.
Ao nos separarmos, seus olhos brilhavam pousados sobre os meus.
__Por favor, jante comigo e passe à noite aqui. __Falei quase implorando, com minhas mãos pousadas sobre os seus ombros.
Ao ouvir isso, ele desviou os olhos e tirou minhas mãos de seu corpo.
__Eu não posso. Já é tarde e eu preciso voltar para casa.
Em seguida, Collins se levantou e começou a ir em direção à saída, apressado. Fui atrás de si, um pouco decepcionado. Quando o mesmo abriu a porta para sair, pousou seus olhos sobre os meus uma última vez, e soltei a pergunta que entalava a minha garganta.
__Vou vê-lo de novo? __Falei baixinho, como uma confissão ou uma oração.
__Claro. __Um sorriso transpareceu no seu rosto por meio segundo antes dele virar-se e sair porta afora.
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