Capítulo 2


                          EDWARD MINT

  O sol já havia nascido quando acordei, um raio de sua luz transpassando os vidros da janela diretamente para o meu rosto.

Meu cobertor se repousava ao pés da cama, por motivo desconhecido, e um arrepio passeou pelo meu corpo ao sentir a fria brisa de novembro que já noticiava a chegada do inverno.

  Levantei-me depressa com medo de me atrasar para um dos meus outros "hobbys", entregar jornal para os vizinhos, e olhei ao redor do meu quarto tentando encontrar onde deixará minhas roupas na noite anterior.

O meu quarto era bem simples, porém grande. O piso era de madeira, e a vigas que sustentava o telhado eram aparentes e se posicionavam estrategicamente no meio do quarto.

As janelas grandes e sem cortinas estavam do lado norte do quarto, bem de frente para a minha cama, me acordando naturalmente em cada amanhecer. Isso também me proporcionava uma boa luz para os meus estudos de luz e para as minhas pinturas.

Logo, cavaletes vazios ou com telas se espalhavam em torno dos grandes vidros. Um grande e velho armário de madeira encontrava-se a esquerda da minha cama e um baú estatelava-se aos pés da minha cama, ao lado de um grande tapete peludo amarelo, à direita da minha cama.

  Me remexo na cama, observando tudo cuidadosamente até encontrar minhas roupas jogadas sobre o baú de couro (baú este que ia contra todos os meus preceitos de não usurpar um animal), uma calça curta de linho e uma camisa do mesmo material. Meti-me nas roupas e cacei um casaco dentro do guarda-roupa.

  Desci as escadas, pulando os degraus de dois em dois, de maneira que minha mãe me repreendeu ao chegar ao sopé, pois odiava essa minha mania quando eu estava atrasado. Minha mãe já estava ao redor da mesa servindo café em uma caneca e me entregando quando me aproximei.

  __Ainda bem que acordou, já estava quase indo te acordar. O Sr. Andersen já está para chegar aqui. __Falou minha mãe, enquanto preparava mingau, uma refeição extremamente nutritiva pela manhã (palavras da minha mãe).

  __Então já se passam das 05:30, certo? Ainda estou com tempo. __Respondi, recusando o fundo prato de mingau que ela me serviu do outro lado da mesa.

Para contradizer totalmente a minha noção de tempo, a campainha da frente tocou, sinalizando que o Sr. Andersen acabará de chegar, como sempre às exatas 06:00, certificando-se de sua pontualidade britânica.

  Me encaminhei para o hall, vesti um suéter de lã que minha mãe havia feito há muito tempo, beijei o cada bochecha rosada da mesma e sai. Em frente à porta estava estacionado uma velha carroça sendo puxada pelo forte Alexander, o cavalo moreno da família Andersen.

Dentro da carroça encontravam-se a própria família Andersen, ou quase, com o alto Sr.Andersen e e o meu ruivo favorito, Max.
Max é um garoto alto, tanto quanto o pai, de cabeleira de uma cor de cobre intensa e de olhos azuis igualmente intensos.

Seu rosto é coberto por estrelas, e suas costas são tão cobertas pelas sardas quanto, tendo eu a estranha mania de admira-las quando este não está observando. Um dia meu sonho forá contá-las e beijar uma por uma, isso quando eu ainda era apaixonado pelo belo garoto lá pelos meus 15 anos.

Agora ele já está como 22 anos, sendo um ano mais velho que eu, e está noivado com Laurie Thompson, uma simples garota camponesa, e cursando Medicina na universidade da cidade. Costumávamos fazer tudo junto, éramos melhores amigos desde os 6 anos, quando começamos a compartilhar o mesmo tutor. Mas então ele conheceu Laurie, e logo começou a estudar em Oxford, e logicamente nos afastamos bastante.

Ainda assim, às vezes ele ajuda o pai a entregar os galões de leite, e então conversarmos sobre a nova vida que ele está tendo enquanto eu entrego os jornais.

  Subo rapidamente na carroça, me sentando ao lado de Max e acenando freneticamente para Clare, minha mãe, ansioso para mais um dia de trabalho.

  __E como vai Oxford? O professor de anatomia já parou de pegar no seu pai com seus esboços "explícitos"? __Perguntei, desenhando aspas no ar e com um meio sorriso no rosto, relembrando-me do último verão juntos e de nossas piadas internas.

  __Ah, eu já terminei a matéria dele, finalmente. Mas os esboços continuam explícitos tanto quanto Oxford continua velha. __Ele respondeu, quando a roda da carroça passa por cima de um buraco de uma pedra faltante da rua e ele apoia a sua mão encima da minha coxa, perigosamente perto da minha virilha, para se equilibrar, me deixando terrivelmente rubro. __Opa, pelo jeito continua com seus pudores.

Ele volta seu olhar para a estrada, dessa vez rindo da minha reação, e largando meu corpo morto de vergonha para o lado. Ele é assim, se entedia facilmente de brinquedos velhos.

  __E como está Laurie? __Pergunto para disfarçar o que havia acontecido, meio sem graça ainda.

  __Tudo ótimo, como sempre. Sabes que estamos noivos, não é? Vamos nos casar na primavera, aqui mesmo em Oxford, quando eu me formar na universidade. __Mordi minha própria língua ao ouvir tal informação, não esperando que eles estavam nesse nível de relacionamento e me lembrando da minha antiga paixonite por ele.

  __E como está Clare? Continua a mesma protetora e temerosa de sempre? E o Moby Dick? Aposto que continua indo de vento em poupa, agora com esses novos estudantes portugueses. Ontem estava cheio pelo menos. __Rapidamente ele muda de assunto, mudando o rumo de sua bala.

  __Mamãe continua a mesma, e o mesmo com o pub. Um novo estranhou começou a frequenta-lo para escrever. __Respondi com um tom de quem não quer nada, mas no fundo me sentindo um pouco nervoso de estar falando sobre o interessante misterioso.

Não queria que ele notasse o meu nítido interesse por ele, como sempre acontecia quando eu falava sobre alguém que eu estava interessado, e principalmente se esse alguém era um garoto.

__Ah, um rapaz de cabelos castanhos ondulados? Eu acho que o vi nos encarando ontem à noite, enquanto conversávamos perto do balcão. Ele falou contigo sobre o que queria? __Continuou Max no seu tom casual.

__Não realmente... E como vai o trabalho no necrotério? __Dispersei facilmente a conversa, já estava ficando desconfortável com o rumo que estava tomando.

Eu achei que era o único que havia percebido o olhar de Harry ontem, mas vi que não fui o único. "Então não foi tudo da minha cabeça? Ele de fato me encarava ontem à noite, mas o que significam todos aqueles sinais?"

  Continuamos conversando sobre trivialidades enquanto percorríamos nosso pequeno bairro, Max entregando as garrafas de leite e eu entregando o jornal diário.

O Sr.Andersen se manifestava de vez em quando, pontuando um ou outro comentário que fazíamos. Quando terminamos e fui deixado na porta de casa já passava das 8 horas da manhã.

Adentrei pela porta da frente, que por sinal estava aberta, e encontrei minha mãe limpando o salão do pub.

__Mãe, cheguei! __Exclamei para não assusta-la com a minha presença. __Tu vistes a Loren? Não vejo ela desde ontem __Disse me encaminhando para as escadas para o segundo andar.

  __Ah, ela está na cozinha dormindo, depois de eu tê-la alimentado. Tu esquecestes de novo de dar comida à ela? Sabes o perigo que corre deixando essa gata por aí, sabendo dos boatos que cercam a Sra. Minerva e as suas tortas de carne de gato. __Respondeu Clare, ainda agachada limpando o piso de madeira de uma mancha do que parecia vinho.

Minha mãe era uma mulher bonita, de cabelos já grisalhos, mas ainda longos, sempre presos em um coque, mesmo sendo só até a altura dos ombros. Puxei a sua parte da família seus belos olhos claros, porém azuis, diferentemente dos meus verdes.

Meu pai, por outro lado, destoava de todas as formas, sendo um homem baixinho de cabelos e olhos castanhos, e um pouco gordinho devido a sua bebedeira constante sendo dono de um pub.

  __Mãe, Loren é um animal, ela sabe se defender. Quer uma ajuda aí para limpar o salão? Tenho a certeza de que já deve estar morta de cansaço. 

Meu rosto se contorcia de dó ao vê-la envelhecendo tão rapidamente pelos trabalhos domésticos que fazia sozinha, mesmo que eu a ajudasse, uma atitude que meu pai ferrenhamente se opunha com o discurso de "filho meu não nasceu para fazer trabalho de mulher".

Eu havia muito aprendido com os escritores iluministas que essa frase já não fazia muito sentido, depois de as mulheres estarem conquistando cada vez mais espaço após o surgimento das fábricas.

  __Deixe disso, eu dou conta. Suba e prepare o almoço se quer ajudar. Não precisa preparar a carne, sei bem como tu odeia isso. __Disse isso e se levantou, pegando o balde e indo até os fundos buscar mais água do nosso poço artesiano.

Subi as escadas até o segundo andar, onde é a cozinha e a sala de jantar. O prédio em que eu moro é simples, com apenas 3 andares, sendo o último para o quarto dos meus pais e o meu próprio quarto. Ao chegar na cozinha, me deparo com Loren dormindo dentro de uma caçarola encima da mesa.

  __Oh, meu Lorde, tu precisas a aprender a parar de dormir dentro dos utensílios de cozinha. Isso é falta de higiene! __Gritei, um pouco estressado por isso estar acontecendo novamente, enquanto pegava o angorá branco pelos bracinhos e o tirava de dentro da caçarola.

  Comecei lavando novamente a caçarola com a água que já havia pegado do poço e terminei por fazer um cozido simples de legumes, que mais parecia uma sopa.

  __Sopa de novo? Não foi por isso que negociei com os mercadores por temperos indianos. __Aí estava o meu pai, descendo as escadas, sonolento.

Sua barriga entrou na cozinha primeiramente, e então o seu nariz e enfim a sua cabeça. Procurou-me com os olhos, e quando encontrou-me uma linha de expressão tomou a sua testa.

__Fazendo a comida de novo? Quantas vezes já te disse que...

__"Filho seu não faz trabalho de mulher", eu sei, eu sei. Só estou tentando ajudar a mãe, ela está abarrotada de tarefas. __O interrompi, dando de ombros para suas estapafúrdias. Independente do que ele dissesse, eu não pararia de cozinhar, uma das minhas paixões.

  __Ela dá conta sozinha, sempre deu. Mas bem que podia fazer uma carninha, pelo menos, né? __Terminou de passar seu corpanzil pela porta e veio provar do caldo do cozido com a mesma colher de madeira que eu estava cozinhando.

  __Ei, que nojo! Eu estava cozinhando com ela. __ Exclamei, pegando de sua mão a colher furiosamente. __E segundamente, se quer comer carne, que a prepare. Eu não vou incentivar ninguém a comer isso, e nem vou pôr as minhas mãos num pedaço de animal morto.

__Que seja, será mais um trabalho para a sua mãe. __Respondeu meu pai, cantarolando enquanto saía da cozinha, balançando sua bunda gorda.

  Não é como se eu não gostasse do meu pai, pois, de qualquer forma, ele era o meu pai. Mas eu odiava esse jeito de lidar com tudo com uma masculinidade tóxica. Se não fosse pela minha mãe, eu provavelmente já teria fugido com algum grupo de ciganos.

Após o almoço, que foi infelizmente contribuído com um pedaço de frango assado que minha mãe teve que preparar às pressas e saciar a fome carnívora de Gregory, me tranquei em meu quarto/estúdio para pintar.

A Sra.Catherine havia me encomendado um quadro de suas tulipas alaranjadas, e eu estava aproveitando o bom tempo para capturar toda a luz necessária para o contraste de cores. Como eu gostaria de poder ganhar a minha vida assim, somente pintando, lidando com arte ao invés de homens bêbados. Quando me dei conta, já se passavam das 15 horas, ou seja, já se aproximava da minha hora sagrada preferida. Era o horário do chá, é claro.

  Desci correndo as escadas, largando a minha coleção de tinta amarela para trás, no piso de linóleo. Ao chegar na cozinha, Clare já estava trazendo um balde de maçãs recém colhidas do nosso pomar. Arregacei as mangas, já prevendo o que estava por vir.

  __O que teremos para hoje? __Cantarolou ela, uma velha piada nossa, já que obviamente a única alternativa era...

  __Torta de maçã, é claro! __Completei a "canção", trazendo o balde de maçãs para a mesa e indo buscar a faca para fazê-las em pedaços.

  Tive que preparar rapidamente a maçã e o recheio, após meus devaneios amarelos de tinta. Ao final, o cheiro de canela e açúcar já se espalhava no ar orgulhosamente, bem no instante que a Sra. Catherine e sua filha batiam na porta, como sempre compareciam para o chá das 5.

Dessa vez o chá se recorreu fortuitamente rápido, com a Sra.Catherine comentando novamente sobre as tortas duvidosas da Sra.Minerva e sua confeitaria, e os olhares inquisitivos de sua filha, como se quisesse que eu tomasse uma iniciativa. Ela sempre buscou ser conquistada por mim, e eu realmente sinto que seria isso o certo a ser feito. Mas seus dentes tortos e bochechas salientes nunca me atraíram mais do que os belos olhos azuis e os cabelos avermelhados de Max.

  Afinal, já chegavam às 18 horas, horário de abrir o pub. Desci nervosamente as escadas, esperando reencontrar meu já embriagado pai, contando piadas sujas para seus tão embriagados clientes. Previsivelmente, isso foi exatamente o que aconteceu, com o próprio recostado em uma mesa do lado direito, bridando seu caneco com outros três homens.

  Lá vamos nós em outra tão imperdível noite, com as mesmas pessoas de sempre, as mesmas cervejas derramadas, os mesmo copos quebrados, com as mesmas velhas e sujas piadas seguidas de gargalhadas roucas.

Não que eu odiasse o Moby Dick, mas ainda eu queria algo mais, e eu esperava por isso tanto quanto esperava pelo ponteiro maior chegar ao número 6, significando o início de sua bebedeira. Por isso esperei Harry Collins por aquela noite inteira, na esperança de algo mais.

Eu queria tudo que aquele garoto de profundos olhos castanhos e enrolados fios de cabelos poderia me proporcionar. Sentia como se o ar que ele respirava eu também necessitava compartilhar, querendo instintivamente sua presença para mim.

  E, a princípio, calor foi o que eu senti, de ansiedade enquanto a noite passava e ele não vinha. E depois frio, do suor que percorreu meu corpo quando chegou 22 horas e eu fechei o salão sem ele ter pisado no chão de madeira recém limpo da mancha de vinho.

Como eu queria que ao invés de suor fossem as sua mãos a percorrem meu corpo.

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