Capítulo XXXII

Ethan Hawkeye☀️

Quando Mikaela voltou para o quarto, a água da banheira já estava morna, mas o aroma do eucalipto ainda impregnava o banheiro como uma sauna.

Obedecendo às suas ordens, vesti uma calça e deitei na cama espaçosa, onde pude relaxar todos os meus músculos.

Alguma coisa naquele chá, naquela atmosfera, no silêncio daquele lugar ou no simples fato de ter ela nos meus braços, longe de tudo, me fez apagar e ter um sono restaurador.

Como bom soldado, acordei antes do sol despontar totalmente. Pensei em sair do quarto sem acordar a Mikaela, mas precisava agradecer seus cuidados que aliviaram minhas dores e lhe dar um beijo de bom dia.

Sentei ao seu lado, já pronto para um dia na lida do campo e toquei de leve seu rosto sereno. Foi o bastante para ela suspirar e abrir seu lindo sorriso.

- Já vai sair? Está escuro ainda.

A voz rouca era ainda mais sexy e lembrei que ela estava só com a minha camiseta, mas não havia tempo.

- Não quero atrasar o Alessandro. Já ouvi os passos dele no corredor.

- Vou sentir saudades.

- Eu também, amor. Volte a dormir.

Ela obedeceu, fechando os olhos e se encolheu sob o cobertor.

Antes de sair do quarto, peguei minha pistola dentro da sacola de viagem e guardei no coldre, ocultando sob a jaqueta impermeável. Mesmo que nada indicasse a necessidade, eu preferia estar pronto para defender a nossa tranquilidade.

Ainda no corredor, senti o cheiro do café forte e recém torrado, invadir meu olfato. O anfitrião estava preparando uma refeição matinal reforçada com ovos, presunto e queijo coalho em cubos, acompanhados de pão caseiro, uma vez que passaríamos toda manhã andando pelo haras. Eu queria conhecer e avaliar o quanto seria possível aumentar a segurança da propriedade. Não bastava ser distante da cidade, era preciso mapear o perímetro e estudar as possibilidades de invasão e fuga, se necessário.

- Bom dia. - o cumprimentei ao atravessar a sala.

- Bom dia. Senta e vamos comer que o dia vai ser puxado.

Ele falou animado, trazendo a frigideira até a mesa com o preparo fumegante e apetitoso, mas foi o café coado que ganhou minha atenção.

- Gosta de café assim? - apontou o bule sobre a bancada - Com açúcar mascavo pra ficar bem encorpado.

- Estou acostumado com esses sabores mais rústicos. Na verdade, puro é que me agrada mais.

- Sirva-se a vontade. Esse desjejum e só pra gente. Manu jamais comeria no seu atual estado. Ela enjoou de tudo, só faltou enjoar de mim.

Ele deu o sorriso largo de um homem feliz por sua vida e por estar prestes a ser pai. Eu sorri em resposta.

- Mikaela comeria numa boa. - falei com um certo orgulho por ter o que dizer sobre a minha mulher.

A troca de informações sobre as nossas mulheres deixou a conversa amistosa. Elas eram idênticas, porém as personalidades distintas fizeram de cada uma, a ideal para nós dois.

- A Mikah sempre foi diferenciada. É muito bom ter ela de volta nesse momento que a Manu tá vivendo. Ela é muito importante pra nós, entende?

- Pra mim também, pode ter certeza.

- Quando nos conhecemos elas estavam no colegial. Duas beldades fisicamente idênticas, mas a doçura da Manu me arrebatou desde o primeiro encontro. Começamos a namorar assim que o falecido Heitor, o pai das meninas, deu o ok. Casamos logo após o acidente. Você já deve saber da história, né?

- Sei sim e lamento.

A mudança no tom de voz do Alessandro foi nítida. O impacto daquele acontecimento trágico na vida dos três se revelava pela tristeza quando o episódio era lembrado.

- Foi muito traumático para elas e quando a Mikah decidiu partir, a Manu sofreu ainda mais. A gente sempre esperou que ela voltasse, mas quando se casou com o Árabe... Puts! Ele a levou para o outro lado do mundo. Eu tentei cuidar dela...

- Se você fez o seu melhor, fica tranquilo.

Ao dizer essas palavras, dei ao cunhado a segurança para entrar no assunto que o intrigava.

- Então, você era mesmo segurança da Mikah? Foi esse envolvimento que fez ela se separar?

Ele foi direto e decidi que também seria. Se eu queria garantir a segurança de todos, não poderia esconder essa informação.

- O motivo foi bem mais grave. Não sei o quanto a Mikaela vai contar à irmã. Então vamos falar de homem pra homem. Eu não era segurança do Árabe. Eu o prendi por tráfico de armas e a Mikaela foi quem entregou a operação para a Agência onde eu trabalho. Monitorei o desgraçado por quase um ano, até ele vir pessoalmente negociar no Brasil. Então invadimos a mansão onde ele se instalou como um príncipe e o prendemos. Só não consegui fazer ele pagar pelo seu crime, dentro de um presídio. Você sabe como é, criminoso com as costas quentes tem tratamento especial.

A expressão de surpresa ficou estampada na face dele, enquanto eu fazia o relato sucinto e objetivo. Não precisava contar as minúcias dos acontecimentos na mansão e nem as implicações que seguiram. O cunhado ficou de boca aberta, até recuperar a voz.

- Pqp!!! - vociferou, fechando o punho sobre a mesa.

- Eu literalmente a tirei das garras daquele fdp. - falei sem conter a raiva.

- Você é militar? Policial?

- Ex Forças Especiais. Capitão de operações.

- Imaginei algo do tipo. Fico mais tranquilo dela ter trocado o Árabe por um cara como você.

- Tudo que eu quero agora é proteger a Mikaela, assim como você quer proteger a Manu.

- Concordo com você e acho que esse é o nosso propósito de vida.

Nós olhamos em silêncio por algum tempo, imersos no mesmo pensamento "segurança". Então ele se levantou, pegou a carabina que estava sobre a lareira da sala e que parecia fazer parte da decoração, mas pelo modo como a segurou, não era de enfeite.

- Essa Winchester era do pai das meninas. - explicou.

- É uma bela arma. Você sabe usar?

- Fui campeão de tiro na época da universidade.

Ele engatilhou a espingarda com destreza quase profissional, deixando-a pronta para ser usada.

- A Manu também sabe manusear uma arma. O pai as ensinou e eu continuei incentivando a treinar. Para se proteger de algum animal das matas próximas que resolva passar por aqui. Nunca se sabe, né.

- Tem razão, a autodefesa é imprescindível. Só tem essa arma em casa?

- Tenho um revólver calibre 38.

- Trouxe algo mais robusto, está no carro.

- Sei manusear uma pistola também.

- Tenho uma Glock extra. Na cidade podemos comprar mais munição pra essa carabina?

- Tenho licença de atirador e caçador.

- Beleza.

- Beleza.

Alessandro era prático e destemido, isso já era uma grande vantagem. Após nossa conversa franca, eu nem tentava disfarçar. Meu "modo soldado" estava ON, em alerta máximo.

- Quero ver os limites da propriedade.

- Ok. Vou alimentar meus cães e te espero lá fora.

- Lavo a louça e te encontro.

- Esse é o primeiro passo para ser um bom marido. - falou com humor renovado.

Ele saiu pela porta, enquanto eu cumpria a tarefa doméstica que me propus.

A manhã estava fria e a neblina sobre a campina se dissipava aos poucos para dar lugar a um dia ensolarado. Da varanda eu tinha uma boa visão da entrada, mesmo a distância.

No dia anterior, enquanto as irmãs se abraçavam para matar a saudade, aproveitei para observar a fachada da casa. As vigas de madeira, apoiadas nas estruturas de pedra, davam a impressão de que a casa era sólida. As janelas eram de madeira nobre e resistentes ao tempo, todavia a quantidade de vidro deixava por demais devassada.

Desci as escadas da varanda e vi Alessandro cercado pelos seus companheiros de lida. Os três labradores pulavam em torno dele que lhes dava petiscos. Parei a distância, evitando invadir o território dos animais e seu dono.

- Como se chamam?

Ao ouvir minha voz, os cães pararam de pular e ficaram em torno do rapaz me observando atentos, porém sem hostilidade. Me abaixei para ficar na altura deles. O de pelagem branca se aproximou e cheirou a mão que eu mantinha espalmada, lambendo em seguida. Após o reconhecimento positivo, me deixou acariciar sua orelha.

- Esse é o Thor. Ele ainda é um filhote e não tem medo de nada. O pai é o Odin.

Apontou o maior dos três de pelagem chocolate que se manteve a meia distância, protegendo o filho.

- E esse por acaso é o Loki? - perguntei sobre o cão negro que se enroscava entre suas pernas.

- Exatamente. Meu trio Asgardiano.

Odin finalmente se aproximou reclamando minha atenção, então o afaguei.

- Bom garoto.

- Bem, meus cães aprovaram você.

- Foi um caso de empatia imediata. Acontece. - respondi e voltei a afagar a pelagem curta e macia do Thor que afastou o Odin para ter exclusividade e dava ganidos de satisfação.

- Acho que ele me trocou por você.

- Me dou bem com animais.

- E os cavalos, será que cairão de amores por você também?

- Consigo me manter sobre um cavalo. - retruquei com um sorriso confiante.

Caminhamos poucos metros com os cães a nossa volta, enquanto ele apontava a geografia da propriedade.

- A parte mais plana do terreno foi aproveitada para o cercado, onde se exercitam os cavalos. - indicou a área por onde passamos de carro no dia anterior. - Atrás da casa fica o pomar e a horta da Manu. As terras compradas são à esquerda da casa, onde ergui as baias e o celeiro.

As duas construções ficavam lado a lado. Eram como grandes chalés coloniais de madeira de cedro avermelhado e com portas de correr.

Entramos primeiro no celeiro que era destinado para guardar o maquinário e ferramentas usadas no trabalho diário.

Ele indicou minha Hilux estacionada atrás da picape vinho com frisos cromados e cabine dupla que o casal usava para ir à cidade. A Hyundai era quase nova e tão possante quanto o meu SUV.

- Tomei a liberdade de dirigir seu Toyota ontem.

- Sem problema. Obrigado.

- Para ir até a cidade, vamos na minha Tucson. Esse modelo de SUV é raro por aqui e chamaria muita atenção.

- Tudo bem.

Abri a porta do meu carro para pegar a Glock que estava sob o banco do motorista e entreguei a ele. Alessandro destravou a pistola e examinou a mira, depois o pente, como deve ser feito por um atirador.

- Essa é uma das melhores armas fabricadas.

- Prefiro a Taurus. - afastei a jaqueta e mostrei a que estava nas minhas costas, dentro do coldre - As caixas de munição estão no porta malas.

Ao meu lado, ele observou quando abri o compartimento onde estavam a sacola com as munições, a calibre 12 e meu rifle sniper. Peguei o rifle e entreguei para que ele o testasse.

- Um pequeno arsenal. - comentou.

- A estrada poderia estar perigosa.

- É bem leve e a mira é excelente.

- Vou deixar esse com você também.

- Desconfia que o Árabe virá atrás da Mikah?

- Tentamos não atrair a atenção dele pra cá, mas ficarei mais tranquilo sabendo que você está preparado para proteger a sua casa de qualquer eventualidade.

O veterinário assentiu e concordamos ser precavidos, porém discretos no que se referia a Manu, devido ao seu estado. Para minha mulher, eu contaria toda a conversa que tivemos naquela manhã.

Deixamos as armas no carro, exceto as pistolas e seguimos para as baias, junto com os cães que pareciam ansiosos por ganhar o campo aberto.

Antes de deslizar as portas, Alessandro deu a ordem e os labradores ficaram sentados na entrada brincando entre si, parecendo saber que ali era outro território.

O espaço foi dividido em dez baias e cinco estavam ocupadas. O pé direito alto e o teto forrado também de madeira, permitia uma boa circulação do ar para proteger seus moradores do calor e isolar das baixas temperaturas.

O veterinário caminhou até a primeira baia, abriu a portinhola e entrou. Eu o segui e parei na entrada, dando tempo para o animal perceber que havia outro humano no recinto. No interior havia uma égua de beleza magnífica, com sua cria que também era fêmea.

A potranca possuía uma cor branca como porcelana e a filhote tinha a mesma tonalidade, porém ainda não estava definida, como o veterinário explicou. A pelagem poderia se igualar a da mãe ou do pai, mas somente após dois anos.

- Nasceu faz poucos dias e eu a ajudei. Na verdade, assisti o parto porque ela foi guerreira. - ele acariciou a mãe. - Hela é ciumenta.

- Ela tem nome?

- Hela.

- Aahh. Hela, a deusa.

- As irmãs tem essa preferência por nomes de deuses nórdicos, não me pergunte porquê.

- A referência faz todo sentido pra mim.

- Ahh, claro. Você é um tipo bem nórdico. Algum parentesco?

Alessandro riu da própria piada e seu bom humor me lembrou o Brian, imaginei que seria bem fácil sermos amigos. Ele voltou a examinar a égua que bufava agitada.

- Calma, garota. É um animal muito dócil, mas a maternidade a deixou sensível.

- Primeira cria?

- Sim. Hela é jovem e foi a nossa primeira aquisição de raça premium. E aí menina? - a filhote não se opôs a sua aproximação.

Ele examinou atentamente a recém nascida que já ficava de pé e as pernas longas mostravam certa firmeza. Depois afagou a potranca novamente em agradecimento, por deixar tocar sua cria. Após inspecionar mãe e filha, o veterinário atestou que estavam ótimas.

- Essa égua foi presente da Mikaela para a irmã que ama cavalgar. Depois adquirimos o macho para começar nossa linhagem nobre.

- Vocês já tinham a intenção de ter um haras?

- Tudo começou com o amor da Manu por cavalos. Ela era exímia amazona e queria ser profissional, mas não teve condições na idade certa.

- É um esporte muito caro.

- À tarde vou levá-las para o cercado para se exercitarem. Manu tá esperando a Mikah dar o nome à recém nascida.

Ele fechou a portinhola e seguimos para a baia seguinte. Paramos de frente para o animal imponente que nos encarou altivo e sem medo algum, ciente da sua força e tamanho.

- Esse é o Storm. Ele cobriu a Hela.

- O garanhão faz jus ao nome.

Eu não tinha palavras para descrever a beleza daquele animal.

A crina e a cauda possuíam um tom acobreado reluzente que contrastava com a pelagem muito clara que eu descreveria como perolada e lustrosa. Os olhos azuis pálidos nos fitavam atentos e curiosos. Ele relinchou impaciente querendo sair do espaço que não era apertado, porém era o tipo de animal que merecia a liberdade dos campos para exercitar seus músculos e mostrar seu garbo.

- Storm é um Quarto de Milha e essa cor rara se chama Perlino, resultado da combinação genética de pai e mãe. Ele é filho de um campeão e será também.

- Foi uma bela aquisição. - elogiei.

Ele falava com entusiasmo de cada cavalo, conhecedor de suas particularidades.

O ocupante do próximo cercado parecia não tomar conhecimento do movimento no corredor e esperava pacífico sua vez de ser cuidado.

- Esse é o Pão de Mel, ele servia pra tudo no sítio. Agora está aposentado e pasta livre pela propriedade.

- Esse vai aproveitar bem a aposentadoria.

- Mas antes nos deu um herdeiro.

Alessandro abriu a baia e o veterano saiu preguiçoso em direção a porta, passando pelos cães, sem se importar com seus latidos.

Demos alguns passos adiante e paramos na frente da próxima portinhola. Ele guiou para fora a égua castanha que reconheci ser a que ele montava no dia anterior.

- Vem garota. - chamou e a potranca obedeceu dócil. - Chocolate é minha companheira na lida.

Ele pegou a sela e os arreios, entre os vários que ficavam organizados em um nicho da parede e colocou sobre a égua que iria montar. Em seguida, foi buscar a outra montaria destinada a mim.

- Esse é o Capuccino, filho da Chocolate e do Pão de Mel. Pode se aproximar, ele é manso e obediente.

Afaguei o focinho do cavalo de cor escura como café que bufou e sacudiu a crina. Eu mesmo prendi a sela e os arreios para ganhar a confiança do animal que montaria.

- Minha cunhada disse para eu não pegar pesado com você.

- Mikaela se preocupa demais.

Montados e acompanhados pelo trio asgardiano, iniciamos nosso passeio pela propriedade.

Alessandro apontava cada melhoria que realizou, orgulhoso por ter feito as terras compradas e anexadas ao sítio das irmãs, valorizarem a olhos vistos. Era nítido seu entusiasmo por tudo que planejou e executou.

- É uma propriedade formidável. Parabéns.

- A Manu sempre teve esperanças de que a irmã voltasse para casa definitivamente e cuidamos de tudo para quando isso finalmente acontecesse.

Chegamos no limite da propriedade que se estendia até onde começava uma formação montanhosa. A vegetação era nativa e não havia sinal de trilha.

- Apesar do rio passar aqui, quase ninguém atravessa porque depois da mata é um desfiladeiro bem íngreme. Desse lado não temos com o que nos preocupar. Seria muito difícil a descida até aqui.

- A não ser que venham de helicóptero. - avaliei que não seria de todo impossível - E descessem a encosta de rapel.

- Não creio. O barulho nos alertaria. - comentou e deu de ombros, como se fosse algo improvável.

O veterinário percebeu que eu estava avaliando as possibilidades daquilo acontecer.

- Só alguém obcecado pela paixão ou pela vingança para realizar uma empreitada dessas. - refletiu.

- Kassian é do tipo que manda fazer. Ele não conhece limites e não é alguém que possamos subestimar.

Lembrei do perfil que a Sarah fez do Al-Maghrabi. Um herdeiro bilionário com tendências tirânicas. O mundo era seu parque de diversões e as pessoas, peões nas suas tramoias. Com dinheiro e poder de persuasão para corromper um delegado federal, capaz de recrutar um grupo de delinquentes para sequestrar e matar o Brian.

- Um fdp covarde? Esses são os piores. Espero não ter o desgosto de conhecer esse Árabe.

- Se eu tiver o desprazer de reencontrá-lo, será a última vez. - assegurei.

- Ele fez por merecer, mas eu não queria estar na pele dele. - concordou mesmo sem saber metade do que o Árabe já havia aprontado.

- É como dizem. Cada um colhe aquilo que planta.

- Vamos voltar. Já está na hora do almoço e nossas mulheres devem estar nos esperando.

Galopamos de volta para a casa, onde as irmãs haviam preparado mais uma especialidade da culinária rural.

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