Capítulo XXVII
Mikaela Evans⭐
Eu andava pela sala e já não falava tão baixo quanto deveria. Devido ao sono que a medicação normalmente provocava, calculei que teria tempo para me entender com meu interlocutor.
Todavia, ao contrário do que eu esperava, Ethan saiu do quarto e veio até onde eu estava. Seu instinto pareceu avisá-lo e ele despertou antes do que previ. Tarde demais percebi sua presença pela minha visão periférica, encostado de braços cruzados, no arco entre o corredor e a sala. O quanto ele ouviu era menos importante do que a interpretação que faria das minhas palavras, ditas ao Comandante.
- Ethan...
- Me dá o celular, por favor.
Estiquei o braço na sua direção e após dar alguns passos, ele pegou o aparelho,
- Santoro...
Ele ficou em silêncio com os olhos fixos em mim, enquanto escutava o que o outro dizia. Eu mal respirava, paralisada como uma gazela pega na armadilha e a espera do próximo ato do seu captor. Tentando em vão ordenar minhas idéias e ter uma boa explicação para dar a ele.
- A decisão da Corregedoria não foi a nosso favor. - ele repetia as palavras que ouvia para poder acreditar - Então o bandido será solto em breve. Inacreditável!
Minha apreensão crescia a cada minuto daquele diálogo interminável que confirmava meu receio.
- Nos falamos na Agência, Comandante. - ele desligou o aparelho e o jogou sobre o sofá.
Ethan passou a mão pelo rosto e cabelo, sinalizando que precisava se acalmar antes de falar comigo, enquanto eu permaneci a distância na expectativa da sua reação.
- Me explica que poha foi essa que eu ouvi você dizer ao Santoro.
- Eu atendi... era o Comandante... - tentei ganhar tempo e descobrir o quanto ele tinha ouvido da nossa conversa.
- A verdade, Mikaela. Só a verdade.
Ele me encarava com seus olhos de predador dos quais ninguém conseguia escapar. Respirei fundo algumas vezes antes de falar.
- Eu já sabia quem era você antes de contatar o Santoro. Minha única exigência era que fosse você a invadir a casa e pegar o Kassian. - revelei sem rodeios.
- Por que? - inquiriu surpreso.
- Eu ouvi seu nome inúmeras vezes, depois que o Faizel voltou irado da emboscada que não deu certo. Ele repetia que você foi o único soldado que ousou enfrentá-lo no seu próprio território.
- Ouviu o meu nome? Como assim?
- Eu estava lá. Quando o Faizel atacou a caravana que você liderava no deserto, com a esposa do pai do Kassian. Eu estava em Baraki.
Sua expressão era de total incredulidade ao ouvir minha revelação. Ele tentava fazer a conexão entre os acontecimentos.
- Senta e me conta tudo. Sem esconder nada. - falou com a voz imperiosa.
Obedeci e me sentei no sofá mais próximo, o que foi um alívio, pois o nervosismo deixou minhas pernas trêmulas. Ethan se acomodou do outro lado de frente para mim com o propósito de estudar minhas reações enquanto eu falava. Ele era perito em observar seus interlocutores e detectar qualquer mentira.
Quando falei, minha voz soou mais vacilante do que eu esperava, porém era a hora de ser sincera.
- Baraki é um lugar terrível, uma cidadela no meio do deserto. Onde Faizel reina e é o senhor da vida e da morte das pessoas que vivem lá.
- Todo esse tempo você sabia onde o desgraçado estava e fez esse jogo?
- Faizel não fazia parte do meu acordo e não é fácil encontrá-lo, você sabe.
- Eu sei?
- Ele pode estar em qualquer lugar e mesmo no próprio território, não fica exposto.
- E você esteve lá? Onde fica?
- Eu não saberia precisar em um mapa. É no meio do deserto. Onde ele mantém o seu exército e domina a população com mão de ferro.
Eu teria que contar toda verdade. Lembrar de um tempo que eu preferia esquecer e nunca mais reviver. No entanto, não podia esconder mais nenhum detalhe da minha história com o Kassian. Não era honesto, havia se tornado perigoso para todos e principalmente para mim.
- Kassian decidiu ir para aquele lugar e me levou junto. Eu achei que seríamos hóspedes por um tempo, mas quando percebi que a intenção dele era outra...
- E qual seria?
- Faizel estava treinando Kassian para transformá-lo em um ditador. Tirou dele toda educação européia, toda sofisticação e civilidade para transformá-lo em alguém que eu não desejava conviver. Dizia que só assim ele teria o seu lugar de direito junto ao pai e quem sabe, ocupar o lugar do Emir.
- Eles planejaram um golpe?
- Enquanto o pai do Kassian tentava pacificar seu território, Faizel queria manter os conflitos para continuar com poder e influência. Ele domina pelo medo e pela violência. Assim, se ele matasse a esposa e o filho legítimo do Emir, Kassian poderia se aproximar do pai. E Faizel teria um aliado insuspeito junto ao irmão.
- Um pai nunca suspeitaria do filho, já que ainda enfrentava as milícias insurgentes. - concordou, lembrando-se da situação caótica que o Emir tentava a todo custo controlar com a ajuda das forças internacionais.
- Era o plano perfeito que você atrapalhou. Você rechaçou Faizel no seu próprio deserto e ele não te esqueceu. O casamento arranjado foi uma das muitas concessões que o Khaleb teve que fazer, mas que não agradou nem um pouco a um filho ilegítimo, desprezado pelos líderes das castas mais antigas que pregavam o respeito às leis ortodoxas.
- E você? Qual seu papel nessa história?
- A esposa estrangeira que logo se tornaria inconveniente, na opinião do Faizel.
Ethan me encarava cético. A desconfiança o fazia avaliar cada palavra minha com frieza. Seu olhar era congelante e inescapável.
- Kassian queria fazer o que culpava o pai de não ter feito com a mãe dele. Legitimar uma mulher estrangeira como uma afronta, mas a doutrinação do tio o fez repensar e ele começou a mudar. A opção era me manter trancada, nas sombras como uma concubina de luxo.
- E isso te desagradou. - afirmou com desdém - Viver no luxo não seria de todo ruim. Dane-se o povo.
- Eu não me casei para ser senhora de um povo oprimido e miserável.
- Então por qual motivo?
- Acreditei no príncipe encantado e me enganei. - respondi com ironia para me defender do seu tom inquisitivo.
Ethan estava me testando. Me levantei para fugir daquele interrogatório, onde eu já me sentia condenada e me afastei dele.
- Enquanto estive lá, vi o que eles fazem com as pessoas, com as mulheres e crianças. Eu acabaria sendo uma delas. Sem voz. Sem vontade. Sem liberdade.
- É isso que fdp como Kassian e Faizel fazem.
- Então eu decidi abandonar tudo e o único modo seria se ele fosse descoberto, preso ou...
- Ou morto.
Ignorei seu comentário e continuei.
- Quando ele fosse mandado de volta para o pai, eu iria para o lado oposto do mundo e nunca mais nos veríamos. Era o que eu imaginava ser possível.
- E eu era a garantia de que seu marido seria preso e levado às autoridades?
- A coragem e a determinação necessárias, só você teria. - afirmei.
- E o Santoro? Como o convenceu?
- Eu o contatei e fizemos um acordo. Assim que tivessem as armas, provando o envolvimento do Kassian com o tráfico internacional, ele seria deportado e eu estaria livre.
- Deu merda porque eu explodi tudo. - falou com sarcasmo evidente na voz.
- Se tudo tivesse saído como esperado, a essa altura eu estaria longe. E nós nunca teríamos nos envolvido.
Ethan se aproximou com agilidade felina, me encostando contra a parede. O rosto próximo ao meu era uma máscara de decepção. Tentei desviar meus olhos e ele segurou minha face, me fazendo encará-lo.
- E nós? Quanto de tudo que vivemos é verdade? Ou tudo fazia parte do seu plano?
- Eu esperava que Kassian fosse morto, mas você escolheu me salvar. Eu esperava o assassino e conheci o protetor. Isso mudou tudo. Ethan, eu juro...
Com o olhar turvo de raiva e dúvida, ele se afastou de mim e saiu sem dizer mais nada, batendo a porta com força.
Por quase duas horas esperei seu retorno com o coração angustiado, pois estava convencida de que a minha partida teria sido a melhor opção para todos.
Cansada de vagar pela casa vazia, decidi sair a sua procura. As chaves do carro e o celular estavam sobre a bancada e pela roupa que vestia, era provável que tivesse ido para a academia do condomínio.
Caminhei pelas ruas praticamente desertas, pois pelo adiantado da hora poucas pessoas ainda perambulavam pelo local. Quase esbarrei em dois rapazes que saíam da sala de exercícios. Os três que ainda estavam no recinto se retiraram logo que entrei. Andei até o cercado onde o Ethan estava, assim que o salão ficou totalmente vazio.
Ele socava o saco de boxe, usando luvas de muay thai e quando percebeu a minha presença não esboçou qualquer reação. Continuou acertando os golpes de forma concentrada por longos minutos. Apesar da academia ser climatizada, a força que ele aplicava aos movimentos, além de expor seu conjunto exuberante de músculos, deixou sua pele com uma fina camada de suor.
- Ethan...
- Por que veio até aqui?
- Você demorou. Tive receio de que não voltasse.
- Em algum momento eu voltaria. Você já deveria saber que eu não fujo do que me proponho a fazer.
Silenciei com a sua resposta cortante, porém não me movi e continuei o olhando.
- Eu precisava de um tempo pra pensar. - falou, amenizando o impacto da sua resposta anterior.
- Sei que parece uma traição, mas eu precisava da ajuda de alguém como você...
- Louco o bastante para matar um terrorista? - acusou ressentido.
- Alguém que faria sempre o que é certo. Que não pudesse ser comprado. Em quem eu pudesse confiar.
- Alguém capaz de matar ou morrer para cumprir um propósito. - completou.
- Não... Isso não...
Ele finalmente virou o rosto na minha direção e me encarou. Nunca pensei que ver a descrença contida no seu olhar me causaria tanta tristeza.
Então, afastou-se do tatame e sumiu atrás de uma parede que presumi ser o vestiário. Certa de que estávamos só nós dois ali, fui até o local e me encostei na parede que separava os dois ambientes.
Ele havia tirado a calça e a camiseta, estava dentro do box que nada mais era do que uma meia parede de tijolos de vidro opaco e várias duchas enfileiradas. Dava para notar sua silhueta da cintura para baixo, o bumbum avantajado e as coxas grossas. Uma cortina d'água caía sobre seus ombros, escorrendo pelos músculos tensionados das costas e ele apoiava as mãos na parede. Parecia pensar sobre o que fazer. Ele sabia que eu estava ali, mesmo sem ter olhado para trás.
- Ethan me desculpe. Eu só não pensei... - minha voz ficou presa na garganta.
- Não pensou em que? - perguntou sem se virar. - Fala, Mikaela.
- Que eu fosse me envolver com você.
Ethan fez um único movimento ao fechar a ducha e por demasiado tempo, o silêncio era quebrado apenas pelo som das gotas que escorriam do seu corpo e cabelos, caindo sobre o piso de azulejos.
Segundos se arrastaram até que ele se virou. Saiu do box nu e molhado, vindo na minha direção, sem desviar seus olhos dos meus. Quando estava próximo o bastante, me segurou pela nuca e inesperadamente me puxou para ele com força. Logo, sua boca estava dominando a minha em um beijo que beirava o desespero. Enterrei minhas unhas nas costas dele, ao mesmo tempo que ele mordia meu lábio. Senti o gosto de sangue, mas nenhum de nós dois tinha a intenção de se afastar. Não era uma disputa de poder e sim a falta total de controle sobre nossas emoções. Era tesão desmedido e desejo incontrolável o que sentíamos um pelo outro.
- Vamos pra casa ou eu não respondo por mim. - disse, se afastando num ímpeto que quase me fez perder o equilíbrio.
Ethan vestiu a calça novamente e o tecido se ajustou ao corpo úmido, revelando a excitação que a camiseta não conseguiu encobrir, mais uma vez.
Pelo caminho, ele segurou minha mão, novamente protetor. Assim, entramos em casa e eu o segui até o quarto.
- Vou tomar um banho decente. Você fica aqui.
Ordenou, como quem põe uma criança de castigo, me fazendo sentar na cama. Obedeci prontamente.
A porta do banheiro entreaberta entregava os sons do seu banho enquanto eu olhava ao meu redor, como se estivesse me despedindo do local que presenciou noites e dias de amor intenso. Era assim que eu classificava nossa relação, mesmo que covardemente nunca tenha admitido.
Minutos depois ele voltou enrolado na toalha e parou na minha frente, perscrutando meu rosto. Passou as mãos nos cabelos seguidas vezes.
- Tira a roupa e deita. - mandou.
- Ethan...
- Tira a roupa e deita. - repetiu.
Passei a blusa pelos ombros e cabeça, depois abri o sutiã, deixando as peças ao lado da cama. A temperatura fria do ambiente arrepiou minha pele e causou um leve tremor no meu lábio dolorido. Esperei alguma reação dele por segundos. Nada aconteceu. O silêncio era cortado apenas por minha respiração ofegante. Ele seguiu a oscilação irregular do meu colo, com seu olhar de ave de rapina e as mãos na cintura, onde o ferimento estava exposto. Deitei de costas e abri os botões do short que vestia, descendo devagar pelas pernas e esperei em silêncio.
- Tudo...
Ele se referia a última peça que cobria minha nudez. Retirei a lingerie, mantendo as pernas recolhidas. Nunca tive pudor ou receio de me expor para ele, porém dessa vez senti como se fosse a minha primeira vez.
Ethan me olhava fixamente e sua mão foi de encontro ao membro escondido sob a toalha, o qual ele apertava como se estivesse se secando. Quando deixou a toalha cair, continuou se excitando com um movimento lento e ritmado.
Sem desviar os olhos de mim, se aproximou da cama. Eu não consegui deixar de admirar o tamanho da carne rosada que enrijecia a cada estímulo. Não queria perder um segundo daquele espetáculo e já sentia meu sexo despertar. Mesmo que ele só gozasse e me deixasse sozinha depois, era impossível não ficar excitada com aquela visão que provocaria inveja no próprio Eros.
Sem dizer nada, colocou o joelho entre os meus e inclinou-se sobre mim, afastando minhas pernas. Tentei acariciar o seu peito, porém ele juntou minhas mãos e as levou sobre minha cabeça, segurando meus pulsos. Sua outra mão passou entre nós no intuito de guiar o falo que já estava incrivelmente teso, até a minha intimidade. Ele deslizou entre meus lábios e eu me abri mais, colocando uma perna sobre seu quadril. Com um movimento preciso, entrou de uma vez, direto até o fundo. Arfei com o movimento tão impetuoso.
Ser possuída sem poder tocá-lo me fez sentir vulnerável e submissa, o que aumentou minha necessidade de satisfação. Meu interior estava úmido, mas não teve tempo de se moldar ao seu tamanho, mesmo assim recebeu guloso toda sua extensão e volume.
- Poha, já tá assim... tão molhada e quente. Não pode ser só tesão o que você sente. - disse, como uma confirmação para si mesmo.
Ele se ajoelhou meio de lado, olhando detidamente onde nossos corpos se conectavam e se fundiam em um só.
- Olha pra mim. - mandou.
Ethan capturou minha atenção de modo que eu não conseguia desviar meus olhos das suas íris cristalinas. Tentei desvendar os sentimentos que se escondiam por trás do seu olhar, porém o mar da tranquilidade estava encoberto por uma camada de gelo inescrutável.
Mordi meu lábio ferido para evitar pronunciar qualquer som e o senti sangrar novamente. Ele passou a língua, antes de me beijar e provar o gosto metálico. Imitei seu gesto e o mordisquei, misturando seu sangue ao meu. Abafei nossos gemidos, sugando sua língua com luxúria.
Ele se retirava quase todo e voltava a estocar fundo, fazendo nossos corpos colidirem com certa violência. Seu peitoral rígido sobre meus seios doloridos. Sua pélvis pesando sobre a minha carne exposta. Se era um castigo ou uma tortura, eu não poderia mais viver sem ter ele dentro de mim.
- Diz que me ama. Fala que eu sou único pra você. Fala, poha.
Era um pedido desesperado e sôfrego de quem precisava ter alguma certeza.
Eu não conseguia falar. Minha voz estava presa na garganta e meu corpo tomado pelo êxtase não obedecia. Lágrimas grossas escaparam dos meus olhos e ele as viu, o que o fez parar e encostar sua testa na minha. Seu corpo retesou e o ouvi gemer em agonia, certo de que havia me ferido.
- Aahh krlho... Mikaela... Desculpa.
Eu tentava conter os soluços e falar algo, porém quanto mais tentava, mais meu corpo entorpecido se negava.
Ethan permaneceu quieto, respirando pesadamente, com o rosto ao lado do meu. Continuava teso dentro de mim, latejando e sofrendo para se controlar.
- Você será o único homem pra mim, enquanto eu viver.
Ethan olhou dentro dos meus olhos. Viu lágrimas e também a verdade da minha alma. Eu o amava mais do que imaginei que pudesse ser capaz.
Mais do que palavras, queria lhe provar, através do meu sangue, gozo e lágrimas. Fiz um movimento mínimo com meu quadril, devido ao seu peso sobre mim. Eu o queria. Queria tudo dele em mim.
- Eu te amo. - sussurrei.
O que o impedia foi liberto e ele veio firme e contínuo. Beijando minha testa, meus olhos e por fim minha boca, me tirando o ar, a dor e o medo.
Seus olhos se fecharam e a respiração oscilava, saindo em espasmos entre um beijo e outro. Ethan já não gemia, urrava sem controle na busca de prolongar ao máximo seu orgasmo e continuou investindo, até que o primeiro jato foi liberto. Ele paralizou quando o prendi dentro do meu corpo, até verter a última gota do seu prazer.
- Eu te amo, Mikaela. Não vou permitir que nada, nem ninguém te afaste de mim. Eu juro.
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