Capítulo XXIX

Kassian Al-Maghrabi🐍

Agora que estou livre, minhas forças estão renovadas.

Na verdade, a calma nunca me abandonou. Ser frio e calculista é algo que devo agradecer ao treinamento do meu tio Faizel. Além do físico, o psicológico de um homem nunca pode falhar.
Após um banho demorado, vesti roupas limpas e engomadas, trazidas pelo funcionário do Consulado.

A camisa de linho off white, a calça de alfaiataria de estilo moderno e o sapato Louis Vuitton completam o conjunto italiano, feito sob medida para se ajustar perfeitamente ao meu corpo modelado por exercícios constantes. Barba e cabelos aparados e o toque sutil do perfume árabe especiado.
Eu sou um homem bonito e sei disso.

Beleza, riqueza e inteligência. Recebi o pacote completo da hazun saeid (boa sorte) e coloquei todo ele a meu serviço. A beleza disfarça a maldade. A riqueza abre portas e a inteligência as mantém abertas.

Sobre a cama kingsize, além das roupas havia uma caixa forrada de veludo e me surpreendi ao reconhecer todos os objetos pessoais que eu usava no momento em que minha casa foi invadida. As jóias, o celular e meus documentos.

- Ótimo. Me devolveram tudo.

Peguei o Rolex e coloquei no pulso. O modelo exclusivo de ouro branco e diamantes seria uma perda e tanto.

— Adoro essa marca. Combina muito comigo. — sorri para minha imagem sofisticada e viril refletida no espelho, que meu Malaki (anjo) certamente aprovaria — Que saudades do riso, da voz sensual, da pele aveludada e do perfume dela.

Minha pistola Magnum foi enviada ao Consulado com a recomendação de que só me fosse entregue quando eu estivesse fora do território brasileiro. Comédia. O Cônsul prontamente acatou a ordem e para me manter "seguro e vigiado", me cercou de um séquito de empregados e seguranças.

O Emir ordenou meu imediato retorno ao seu país. Não creio que seja por saudades do filho pródigo, mas talvez para me dar um castigo exemplar por minhas estripulias internacionais. Óbvio que eu tendo sido inocentado, somente chegou aos seus ouvidos a minha versão oficial dos fatos.
Inclusive um jato particular já estava sendo preparado para a minha viagem de volta, mas terei que declinar do convite dele e para ganhar tempo, usarei de um expediente simples e sem maiores implicações. Um indivíduo irá embarcar, se fazendo passar por mim.
Idade aproximada. Os cabelos e a barba pretas que são características marcantes. O único detalhe seria a cor um tanto peculiar dos meus olhos, herança da minha mãe, facilmente disfarçados por um par de óculos escuros que eu costumo usar para proteger da claridade excessiva e também evitar o contato visual desnecessário com os serviçais. Um bisht, a túnica que indica uma posição social mais nobre, sobre as roupas tradicionais e ninguém saberá que não sou eu durante a viagem.

Não foi difícil encontrar entre os vários seguranças a meu serviço, alguém com a estatura parecida com a minha para trajar uma roupa elegante. Não seria necessário dar ordens ou qualquer conversa durante o vôo. Somente manter o porte altivo e aproveitar enquanto for tratado como um verdadeiro príncipe.

Até pousarem em território árabe e descobrirem a farsa, já estarei voando para Baraki em outra aeronave com a minha mulher. É meu desejo sair desse país muito em breve. Todavia, não vou a lugar algum sem meu Malaki.

Quando saí da suíte, percebi que já era noite através das vidraças do salão principal, contíguo a sala de refeição. O mordomo designado para ficar a minha disposição serviu uma bela refeição e aguardava impassível por qualquer ordem minha.

Ao invés da culinária tradicional, escolhi um cordeiro ao molho de mostarda Dijon e ervas finas. Eu viajei boa parte do mundo e frequentei os melhores restaurantes da Europa e América, por isso não tenho restrições alimentares. Apenas não como o que não apetece meu paladar refinado e só consumo bebidas destiladas e vinhos de excelente safra. Hábitos que abandono quando estou na casa do meu tio, onde o consumo de álcool é terminantemente proibido.

Nem mesmo quando ouvimos o som da campainha o serviçal se afastou, ciente de que um dos seguranças se encarregaria de abrir a porta para o visitante que eu já esperava.

Meu delegado federal de estimação atravessou a sala de estar olhando para todos os lados, admirando o luxo da cobertura.
Havia requinte e bom gosto na decoração moderna de cores neutras, mas nada comparado ao palacete que seria minha morada definitiva em Baraki.

— Agora assim você tá bem instalado, Kassian.

— Como vai, delegado? Sente-se. - o cumprimentei em inglês.

Indiquei a cadeira à minha frente que o mordomo afastou e ele obedeceu.

— Está servido? O cordeiro está muito saboroso. Aceita uma bebida?

Apontei a travessa com a carne suculenta e o balde de prata onde as garrafas de Perrier estavam mergulhadas no gelo.

— Parece bem refrescante, mas como já encerrei o expediente, se tiver uma "loira gelada", eu prefiro.

— Como? — indaguei.

— Uma cerveja. Brahma? Skol? Budweiser?

— Ah, claro. "Traga uma Wäls Brut bem gelada". — ordenei ao serviçal na nossa língua.

O homem se retirou silencioso e voltou sem demora com uma garrafa da bebida nacional fabricada como os vinhos de Champagne, o que a torna propícia para comemorações.

Ele serviu em um copo de cristal também gelado e o convidado degustou sôfrego o líquido cristalino.

— Nem parece cerveja. — era um elogio, visto que estalou a língua com sua "finesse" habitual.

— Esta cerveja passa doze meses em caves durante o processo de "champenoise". Ela é rica em aromas, com notas frutadas, viníficas e de especiarias. É para apreciadores de boas bebidas.

Sem entender muito da explicação, o delegado tomou um grande gole antes de voltar a falar.

— Tenho que admitir que essa é a melhor "cerva" que já tomei.

— Fique à vontade. — apontei a garrafa e o mordomo voltou a servi-lo.

Eu quase ri da sua cara patética quando ele finalmente se deu conta de que eu falei na sua língua pátria, mas seria dar muita intimidade.

Levantei minha taça para um brinde a distância e as pedras preciosas dos anéis nos meus dedos reluziram a iluminação do lustre que pendia sobre a mesa.

— Desde quando você fala português?!!!

— Não falo tão bem, mas entendo perfeitamente.

— Muito espertinho. Então quando você cochichava com seus advogados, era você que estava instruindo eles e não ao contrário.

— Para negociar com eficiência, temos que ter palavras bem ensaiadas e ouvidos bem treinados.

Sempre neguei que falasse português, assim precisava de intérprete para qualquer declaração e mesmo com o federal, conversava em inglês para não levantar suspeitas.
Nem a minha aimra'a sabia que eu entendia tão bem o português. Minha mente foi treinada para aprender vários idiomas, porém reconheço que o "brasileiro" foi por puro prazer.

Mikaela se divertia tentando me ensinar as expressões e achava sexy meu sotaque carregado, então nunca me preocupei em pronunciar bem as palavras. Na verdade era um artifício para que eu pudesse ouvir as suas conversas, enquanto ela falava a vontade com alguns poucos amigos brasileiros que logo deixaram de procurá-la. Exceto uma pessoa em especial. Eu a cercava de mimos, mas também de toda vigilância.

— Então quais as novidades, delegado?

O homem de terno genérico sentado à minha frente me observava, surpreso com a minha calma.

Nossa última conversa foi naquele lugar imundo, onde estive enclausurado por tempo demasiado. Uma prisão em um país decente estranharia as suas visitas, porém nessa terra de ninguém, qualquer desculpa é válida. Usando o esquema usual do "molha mão" ele teve a entrada liberada em horários fora do expediente e sem o registro das câmeras de segurança.

— Esse país é uma piada. — meu comentário foi totalmente dito sem humor, mesmo assim ele riu.

Terminei a última porção da iguaria, degustando o sabor agridoce da carne e então lhe dei a devida atenção.

Ele parecia um cão aguardando um afago por uma boa ação e sua expressão era de quem estava satisfeito consigo mesmo, ansioso por relatar seus méritos e de certo, angariar a recompensa.

— Suponho que venha relatar seu êxito no Porto.

— Tudo certo, Kassian. Está a caminho. — falou em código, se sentindo o próprio agente duplo. Pqp!

— Tem certeza? — perguntei levando a taça à boca, sorvendo a borbulhante água com gás.

— Cem por cento. Embarcamos a encomenda e a mensagem foi enviada como você orientou.

— Ótimo. Meu tio ficará satisfeito e me deixará conduzir as coisas do meu jeito por um tempo.

— Só tive que enquadrar o Hawkeye, mas o fiz com prazer. Pena não poder finalizar...

— Do que está falando?

— O agente estava lá no Porto. Chegou antes de mim, mas não conseguiu atrapalhar nada.

Suas explicações atrapalhadas me irritavam, mas eu precisava saber detalhes, então me controlei.

— Como ele chegou até lá?

— Sua esposa esteve com o Aziz minutos antes da minha chegada na loja. Por pouco eu não a peguei.

— Mikaela esteve com o turco?

— Sim e ele entregou todo o roteiro na inocência, achando que ela estava sob suas ordens.

Por instantes a voz dele ficou longe. Me recolhi no meu próprio mundo, lutando contra a certeza da traição do meu Malaki.

— Ela deve ter sido obrigada, chantageada para não ser presa e humilhada.

— A ACIS não trabalha assim. Eles seguem as regras, tem ética. Eu duvido que tenha sido pressionada.

— Cale-se. — ele refutar minhas alegações, defendendo o "modus operandi" da Agência me deixou ainda mais irritado — Me conte o que o agente viu.

— Um navio sendo carregado e nada mais. O otário foi sozinho, então não teve como me enfrentar, sem o apoio da autoridade local que por acaso estava do nosso lado. Ele arriscou uma missão solo e se deu mal.

— Ousado esse Capitão.

— Ele tava na mira do meu homem. Bastava um sinal meu. — fez o gesto com a mão de quem atira e depois assoprou o dedo.

Revirei os olhos involuntariamente. Era cada coisa que eu tinha que aguentar por alguns favores.

— Eu disse que não o quero morto, por enquanto. Mas chegará a hora de mostrar que sua intromissão não passará incólume.

— Incól... o que? — seu vocabulário restrito não incluia palavras eruditas.

— Esquece. O importante é que a carga chegará ao destino e depois seguirá de trem até o território do Faizel. Agora que estou livre, logo receberei a confirmação.

Falei aliviado, pois conhecendo o escorpião do deserto, qualquer ameaça de falha o motivaria a tomar medidas extremas para salvar nossos contatos e a primeira vítima da sua ira seria a minha zawja(esposa).

Eu não permitirei que façam mal a ela, nem mesmo meu tio. Quem a tocar, morrerá. Se ela me traiu pagará caro, mas não com a morte e sim com uma vida inteira de submissão. Mikaela é minha e sempre será.

Marco Aurélio se remexia inquieto na cadeira estofada, sinalizando que ainda tinha revelações a fazer.

— Não finalizei o Capitão, seguindo a sua vontade, mas já tratei de lhe dar um recado nosso.

— Um recado?? Explique melhor.

— Todos tem um ponto fraco. Achei o dele e usei. O irmãozinho se meteu com gente da pesada e o meliante saiu da cana dura, pronto para buscar vingança. Era o cara certo para dar um corretivo no ratinho de internet.

— Me explica como esse plano infalível surgiu na sua mente e você achou que daria certo armar uma cilada para nossos inimigos, sem pôr em perigo a nossa operação.

— Nada como plantar a semente da ambição em terreno fértil. Ofereci a certeza de um negócio mais lucrativo que roubo e desmanche de carros. Foi fácil comprovar os ganhos do tráfico de armas e o sujeito aceitou.

Seu sorriso orgulhoso era ridículo e irritante. Se o federal não servisse aos meus propósitos mais urgentes, com certeza já teria me livrado dele.

Levantei em silêncio e contornei a mesa. Parei atrás dele e coloquei as mãos sobre o encosto da cadeira. O idiota se contorcia em um riso nervoso, sem saber qual era minha intenção. Se eu lhe aplicasse um mata-leão e interrompesse a circulação de ar para o cérebro, ele estaria morto em poucos segundos. Como um agente da lei pode baixar tanto a guarda?!!

— Você convocou estranhos para nossa operação, sem a minha autorização? Você é um perfeito cretino. — sibilei cada palavra.

— Achei que não atacar diretamente, não queria dizer não fazer nada.

— Não pense. Não tente usar talentos que não tem. — minha paciência já estava no limite.

— Fica tranquilo, Kassian. Não há testemunhas para contar esse episódio.

— Me esclareça sem rodeios. Você matou o irmão do Hawkeye?

— Estranhei a demora de ter a confirmação do cara que contratei, então busquei notícias com meus contatos. Meu informante na delegacia da área disse que receberam a incumbência de fazer uma faxina para apagar os rastros de uma execução. Foi um favor entre velhos amigos, entende?

— E que corpos foram encontrados? — indaguei para ter a certeza.

— Do pessoal que estava a meu serviço. O policial esteve no local e relatou que não sobrou ninguém pra contar história. Foi serviço de especialista, tiros certeiros e mortais.

— Ele não recebeu a alcunha de Hawkeye a toa. Um sniper não erra.

— O cara é um monstro. Devia ter finalizado no Porto, quando estava desguarnecido e...

— A oportunidade certa está por vir. Exercite a sua paciência. É o que eu tenho feito.

Levantei sinalizando para o mordomo que havíamos terminado ali. O federal sorveu o último gole da bebida e também levantou. Caminhei para a sala com o ele no meu encalço.

— Vamos aos próximos passos para encerrar de uma vez por todas minha estadia nesse país. Agora que não existem mais acusações, vão devolver minha esposa e poderemos finalmente voltar à nossa vida.

— Bem... — iniciou vacilante — A última informação que recebi foi que ela saiu da cidade na companhia do Capitão.

— Como assim? Para onde? Ela saiu do país?

— Posso garantir que não. Eles estão viajando de carro. Estão sendo seguidos por homens de confiança, aguardando minhas ordens. Não se preocupe, Kassian.

Me afastei e dei alguns passos, deixando minha mente se acalmar para pensar com objetividade. Era incrível como tudo que envolvia a Mikaela elevava meu estresse a níveis estratosféricos. Quando recuperei o autocontrole, a resposta surgiu.

— Eu sei para onde estão indo.

— Devo ordenar que a tragam de volta?

— Não. Deixe chegar ao destino em segurança.

Me sentei e indiquei o outro sofá. Olhei fixamente para meu interlocutor.

— Agora ouça atentamente o que quero que faça. Vamos resolver nossos problemas de uma vez. Reúna uma pequena milícia. Homens em número e competência suficientes para abater uma ave de rapina.

Em poucos minutos expliquei meu plano. Sendo o campo de ação do delegado federal, não seria difícil cumprir a tarefa sem erros. Por outro lado, era melhor não envolver homens meus diretamente na operação.

— Mikaela não pode em hipótese alguma ser ferida. Ninguém deve tocar na minha zawja(esposa).

— Os homens que trabalham para mim são experientes. Tudo vai sair conforme sua vontade.

— Pelo preço que estou disposto a pagar, tudo deve sair como eu determino. Sempre.

— Meus homens farão pela grana. Eu farei por puro prazer.

— Agora comece os preparativos. Ah, se por acaso ouvir que eu embarquei antes do combinado, não se surpreenda. Na hora marcada voltaremos a nos encontrar.

Após a saída do agente da lei, perambulei pelos cômodos da cobertura até chegar a sala de exercícios. Eu precisava gastar aquela energia acumulada. Sentia um misto de excitação e ansiedade por estar tão perto do meu objetivo maior. Resgatar minha aimra'a.

Troquei a roupa social pela bermuda que encontrei no local, junto com toalhas e um roupão deixados pelo empregado. Fiz uma série de alongamento e iniciei os golpes em um boneco sparring, alternando pés e punhos.

Meu plano era diabolicamente simples e eficaz. Nada controla mais a mente de uma pessoa do que saber o que ela pode perder e como o que ela ama, poderá ser destruído.

— Meu Malaki, será para o seu bem. Eu juro.

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