Capítulo XXIII
Ethan Hawkeye☀️
Deixei o grupo de amigos na praça e segui na direção indicada. O bairro não havia mudado muito nos últimos anos e não foi difícil encontrar os mesmos edifícios abandonados.
Eu conhecia aquela área dos armazéns da antiga fábrica que encerrou atividades, deixando o local desocupado por décadas.
Passei em velocidade moderada na frente do prédio da velha indústria. O muro alto e o portão de ferro eram originais e as pichações entregavam o abandono. Por ocupar quase todo quarteirão, as ruas no entorno estavam desertas ao final da tarde.
Antes de ser preso, Yuri liderava o roubo de carros na região e ali funcionava sua oficina de desmanche. Além de vender as peças, ele percebeu que a clonagem de carros renderia muito mais dinheiro. Foi nessa atividade que o talento do Brian despertou a atenção dele. Yuri precisava de alguém para alterar os documentos dos veículos para que fossem vendidos nas lojas de carros de luxo como originais.
Continuei até o final da rua, virei a esquina e estacionei atrás do terreno da edificação. Ali, onde o terreno tinha uma pequena elevação, seria o melhor local para observar se havia movimento do lado de dentro dos muros.
Tive um pressentimento ruim, mas como um soldado veterano não me deixei abalar. Seguindo meu instinto, me preparei para a ação.
Peguei o fuzil Taurus CT556 com mira e silenciador que trazia na mala carro. A arma era o equipamento indicado pela Agência para manuseio em ambientes confinados ou veículos em movimento, pois seu tamanho e peso a tornavam ideal para o uso em vias urbanas. A precisão do tiro assegurava uma ação efetiva e a abordagem à distância garantia a segurança do sniper.
Conferi o pente da pistola 9mm, destravei e guardei no coldre preso a minha cintura.
Subi o barranco para ter a visibilidade ampla da área. Me deitei entre a vegetação que crescia sem controle no terreno baldio e fiz uma varredura do perímetro cercado por muros e arame farpado na parte superior.
Posicionado na lateral do terreno, eu tinha a visão do portão até a entrada do edifício. Marcas de pneus e óleo no chão denunciavam que o local estava sendo novamente usado.
Durante alguns minutos ouvi o som de um maçarico e o eco distante das batidas de metal contra metal, comprovando que havia atividade. Uma buzina insistente começou a soar do lado de fora da propriedade, até que a porta de aço foi erguida por dentro para que alguém saísse do prédio. Um homem de estatura baixa e corpo roliço que mal cabia no macacão jeans manchado de graxa, andou até o portão de ferro e o fez deslizar sobre roldanas barulhentas, dando passagem para um veículo entrar. Ele usava um cinto de ferramentas preso abaixo da barriga proeminente e, em um dos bolsos era visível a empunhadura de um revólver.
Uma Blazer com os vidros escuros fechados estacionou no pátio e uma moto entrou em seguida, a qual reconheci ser do Brian, pilotada por outro homem. Este era magro e alto, usava calça jeans propositalmente rasgada e um agasalho de moletom. Quando retirou o capuz, revelou cabelos com tranças rastafari na altura dos ombros. Ele parou a Kawasaki ao lado do carro e observei que a lataria apresentava um amassado que não tinha pela manhã.
— Que máquina!! — falou alto ao descer da moto — Quero pra mim!!
— Tá maluco!!! Essa moto é chamariz de polícia. — o homem de cabelos ralos grisalhos que abriu o portão respondeu de longe, revelando conhecimento dos desdobramentos da atividade ilícita.
— Fala sério, Mais Velho!! Deixa essa belezinha comigo que eu vou pegar muita tchutchuca no rolê.
O mais novo repetia gesticulando enquanto andava ao redor da motocicleta, cobiçando o modelo especial de linhas metálicas e chamativas. Seus movimentos denunciaram que ele carregava uma arma escondida sob o casaco.
— Pô, me dá essa moral…
— Vamos desmontar e vender as peças pra não deixar rastro. — o outro respondeu e riu com o mesmo prazer de um açougueiro prestes a destrinchar um peça de carne.
— Mó vacilão…
Enquanto a dupla disputava, a porta traseira do automóvel foi aberta e vi o Brian ser praticamente empurrado para fora. Ele tentou se equilibrar e caiu de joelhos entre o carro e a moto.
Através da mira pude ver seu rosto machucado e as mangas da camisa rasgadas nos antebraços, provavelmente resultado de uma queda da moto em movimento.
— Você bateu na minha moto...
— Sua poha nenhuma! Perdeu playboy!
O rastafari passou a chutar meu irmão caído e se divertia com a dor que sua agressão causava a um cara indefeso.
O terceiro homem saiu do carro. Ele usava roupas no estilo guerrilheiro, calça camuflada, coturno até o meio da canela e uma parka comprida. A barba crescida contrastava com o cabelo avermelhado, raspado nas laterais e espetado no topo da cabeça. Acendeu um cigarro e tragou calmamente, revelando tatuagens nos dedos e dorso da mão. Ele ficou encostado na lateral do automóvel, assistindo impassível a agressão imposta ao seu desafeto. Era o bandido Yuri.
— Se preocupa contigo, X9!!!
— Cara, já te falei… não entreguei ninguém. — Brian negava a acusação, porém o outro não lhe deu atenção.
— Mais Velho, fecha esse portão. Digão, leva a moto pra dentro. Leo, faz logo a limpa e entra com a Blazer. — ordenou aos comparsas que o obedeceram prontamente.
— Vamo acabar logo com isso e ralar peito. — o porteiro concordou, usando a força para mover o portão barulhento e pesado.
— O carro tá pronto? — Yuri indagou.
— Já troquei as placas. Tá na marca.
— Vamos pegar nosso dinheiro e sair de circulação. Agora temos outro patrão.
— Partiu ficar rico! — o mais novo do bando comemorou a breve vitória.
— Quanto a você… — Yuri segurou com força a camisa do Brian que estava encurvado no chão, após ser chutado nas costelas.
Quando ele se abaixou para falar com seu prisioneiro, ficando entre a Kawasaki e o carro, perdi o contato visual e não consegui entender a ameaça. Todavia não era preciso ser adivinho para saber que se tratava de um ato de vingança.
Por um instante minha visão ficou embaçada pela raiva que queria controlar minhas ações. Respirei fundo algumas vezes, buscando dentro de mim a frieza do sniper exaustivamente treinado para esperar o momento certo de agir. Sem falhas e sem vacilar.
O motorista da Blazer permaneceu dentro do carro e eu não tinha como saber se estava armado, o que representava mais um risco.
Eu precisava acertar os quatro, sem arriscar a vida do meu irmão. Mirei primeiro no rastafari, por estar mais perto do Brian e ter uma arma de fácil acesso. Ele largou a moto que conduzia na direção do prédio e caiu quando acertei sua cabeça.
— Digão??!!! Que poha é essa??!!!!
Yuri se afastou do Brian e se abrigou na traseira da Blazer.
Na sequência, acertei o chamado Mais Velho duas vezes para garantir, pois seu tamanho poderia fazê-lo resistir tempo bastante para puxar a arma e revidar. Ele caiu e o choque do seu corpo contra o portão fez um barulho estrondoso.
Yuri olhou para os comparsas inertes e depois seu olhar seguiu uma linha imaginária até onde eu estava camuflado.
— Tem um fdp no barranco!!! Atira!! Atira!!! — gritou para o motorista.
Ao mesmo tempo, ele sacou o revólver que tinha escondido sob a jaqueta e atirou na direção que julgava ser o meu esconderijo, mas óbvio que não teria a sorte para me acertar. Apesar do zunido das balas que passaram próximas a mim, eu estava protegido pela vegetação e pela penumbra que caía sobre o local.
Por sua vez, o motorista dava tiros a esmo, usando a porta aberta do carro como anteparo. Aproveitando a vantagem de estar praticamente invisível, acertei a mão que segurava a arma e ele gritou, voltando para se abrigar dentro do carro. Calculei a sua posição recostado no banco e fiz dois disparos seguidos que atravessaram o para-brisa escuro e o atingiram no peito e no rosto.
— Três fora de combate. Agora é você, Yuri. — decretei, olhando através da mira do rifle.
Durante a troca de tiros, Yuri arrastou o Brian e entrou para a oficina.
Não havia tempo para dar a volta pela rua, então deslizei do barranco e decidi pular o muro que presumi ter a altura de dois metros por fora e três metros pelo lado de dentro. Usei a bandoleira do rifle como apoio para amortecer o impacto da queda. Tentei não tocar na cerca, porém pontas soltas de arame na parte de dentro rasgaram a camisa e me cortaram na altura das costelas. A adrenalina que já corria no meu corpo fez minha mente desprezar o ferimento superficial. Deixei o rifle entocado na vegetação que crescia junto ao muro, pois a partir dali empunharia a pistola 9mm.
Me aproximei dos corpos para me certificar que estavam mortos e garantir que não teria surpresas. Chutei o rastafari que estava caído de cara no chão e verifiquei que não respirava para ter certeza. O motorista estava imóvel com os olhos abertos e vidrados, recostado no banco. O Mais Velho morreu com a boca aberta, provavelmente sufocado com o próprio sangue. Certo de que os três estavam neutralizados, me direcionei para o interior do prédio à procura do meu último alvo.
O galpão ocupava toda a largura do terreno, tinha colunas nas laterais que sustentavam o teto e terminava em uma parede de tijolos aparentes, por onde não havia como sair.
O espaço estava ocupado por vários carros depenados de um lado e do outro, pilhas de pneus, bancos de couro e partes metálicas da lataria, resultado do desmanche e prontas para serem vendidas. Exceto um automóvel que estava parado no fundo com as portas abertas e direcionado para a saída.
— Larga a arma ou ele morre. — Yuri gritou quando me viu adentrar o salão.
— Se não largar meu irmão, com certeza você vai morrer. — ameacei.
O ruivo andava lentamente por estar arrastando o Brian junto a si como escudo. Eles tinham praticamente a mesma altura, o que permitia cobrir seu próprio corpo com o do outro.
Um braço passava pelo pescoço do meu irmão e achei por um momento que ele poderia estar sufocando. Porém, o agente usou o expediente de fazer "corpo mole" para dificultar o deslocamento do seu agressor. Assim, tive a chance de me aproximar usando as colunas como proteção e diminuir a distância que nos separava.
Me protegi atrás da pilastra quando Yuri atirou na minha direção. Contei o número de balas que ele já tinha disparado. Eram oito projéteis do revólver 38, contra dezesseis da minha Ponto 40. Quando ouvi o barulho do tambor vazio, andei de encontro a eles com a pistola em punho, pronto para acertar o covarde.
Sem tempo para recarregar, Yuri largou a arma e sacou uma lâmina de dentro do casaco, a qual encostou no pescoço do Brian.
Observei o fio de sangue manchar a gola da camisa do meu irmão. Um corte na artéria poderia causar sua morte em poucos minutos, então preferi não arriscar e ganhar tempo.
— Matador fdp!! Você apagou meus parças! — gritou irado.
— Vindo de você que sequestrou e está com um canivete no pescoço de um amigo de infância, é uma incoerência.
— Esse X9 me entregou pros cana.
— Ele tentou te alertar e você deu mole.
— Eu paguei a cadeia porque não tinha as costas quentes.
— Foi preso porque era um vacilão e continua sendo.
Brian olhou para mim e percebi que estava atento. Sua intenção era deixar o Yuri pensar que tinha o controle da situação, quando na verdade estava ficando sem outra opção que não fosse se entregar. Este, continuou andando para trás na direção do automóvel estacionado, indicando que pretendia usar para sua fuga o modelo possante que chamaria menos atenção que a Blazer de vidro fumê.
— Vamos fazer um trato, pelos velhos tempos. Eu pego a grana, o carro e me mando. Sumo do mapa e nunca mais apareço por aqui.
— Se deixar o Brian agora, dou a vantagem de não te caçar como um animal. — blefei.
Olhando fixamente para o bandido, destravei a pistola e cruzei os braços esticados na frente do corpo. Com um sorriso enigmático na face, eu dava a entender que estava resoluto e propenso a fazer o acordo.
Yuri deu mais alguns passos vacilantes, enquanto olhava a distância que faltava para chegar até o veículo. Se ele entrasse no carro com o Brian, eu não arriscaria atirar.
Então, fiz um sinal quase imperceptível que o meu irmão captou. Bastava um movimento dele que eu estaria pronto para agir. Quando o ruivo afrouxou o abraço, Brian escorregou o corpo, saindo da linha do tiro que acertou a cabeça do meu alvo. Yuri caiu ao chão já sem vida.
Me aproximei deles e chutei o canivete para longe, mesmo observando que Yuri estava imóvel, apenas sangue escorria do orifício na fronte. Brian estava apoiado no capô do carro e parecia bastante desorientado.
— Brian!! Brian!!! Olha pra mim!! — segurei seu rosto entre minhas mãos — Fala comigo, Foxie!
— Eu tô bem, mano…
Examinei a cabeça e o tórax em busca de algum ferimento mais sério e verifiquei que suas pupilas estavam normais. Além dos braços ralados e cortes pelo rosto, ele estava inteiro.
— Poha, moleque! — o abracei aliviado. — Vamos embora.
Antes de se apoiar em mim, por ainda estar um pouco tonto, Brian olhou para o chão e viu o ex amigo caído.
— Que merda, Yuri. — lamentou.
— Se há algo que aprendi na guerra é que não devemos deixar um inimigo vivo, pois fatalmente ele voltará para nos atacar.
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