Capítulo XXII
Ethan Hawkeye☀️
Sob o olhar atento daquela sereia que ocupava minha cama, eu me vestia para outro dia de trabalho.
Escolhi uma calça cargo preta e uma blusa de malha e mangas compridas, também preta para facilitar o uso do colete de proteção, acessório indispensável durante a instrução de tiro de precisão que cabia a mim ministrar no campo de treinamento da Agência.
Mikaela estava sentada na cama com as pernas cruzadas e acompanhava meus movimentos com um sorriso maroto. Antes de vestir a blusa me aproximei para receber seu abraço. Adoro quando ela esfrega o rosto no meu peito e depois apoia o queixo pedindo um beijo. Daria um milhão de beijos naquela boca provocadora de tantos prazeres.
Segurei sua nuca e suguei seus lábios macios, antes de invadir e capturar sua língua para um beijo com o tesão matinal que só ela sabia provocar em mim.
Quando sinto a textura aveludada e o arrepio que o toque dos meus dedos causa na sua pele, o desejo percorre meu corpo como fogo. Sinto meu coração acelerar e minha carne pulsar. Preciso de muito controle para não ceder à tentação e me deitar novamente com ela.
Mikaela é manhosa como uma gatinha e me seduz quando se mostra uma amante sem pudores e entregue aos nossos momentos de luxúria. Mas quando demonstra confiar em mim, apesar da incerteza que vivemos, me faz sentir o mais forte e determinado dos homens.
A bolsa de viagem continuava pronta para sua partida, mas eu consegui convencê-la de que a casa era o lugar mais seguro para ela. Percebi sua impaciência. Perguntei e não negou. Ela não suporta se sentir aprisionada e era como estava vivendo.
O caso Al-Maghrabi estava perto de ter um fim, mas não poderia apostar no resultado. Cabeça de juiz é território minado, um passo em falso e estaria f#dido. Realmente não sabia se a conclusão final seria boa para nós... Me dei conta de que já pensava que éramos um casal.
Eu acreditava que se o árabe fosse deportado, ele não teria tempo de tentar fazer Mikaela ir junto, seja pela força ou convencimento usando algum subterfúgio. O fato é que eu estava decidido a evitar qualquer das duas opções.
Quando nos despedimos, ela disse que iria jogar paciência o dia todo, já que o Brian passou em casa e deixou o notebook. No entanto, ele preferiu seguir de moto ao invés de vir de carona comigo. Meu brother estava estranho, mas julguei ser pela pressão do Santoro.
Nas dependências da Agência, cada um foi para um lado cumprir suas tarefas e aguardar o desenrolar dos acontecimentos que estavam além das nossas decisões.
No meio do dia, Santoro me informou o andamento da terceira seção da Corregedoria. O Comandante queria evitar que o processo maculasse a integridade da ACIS. O Secretário queria encerrar o episódio, antes que gerasse um mal-estar de caráter internacional.
O relatório do Marco Aurélio parecia feito não apenas para inocentar o árabe, como também para me f#der como profissional, deixando subentendido que meu histórico de combatente me fez tomar a decisão de invadir a mansão, pressupondo que seria alvejado se não atacasse primeiro.
Como na guerra temos que nos antecipar ao adversário, argumentou que de eu agi com a mesma força desmedida de quem ataca um inimigo declarado. O Federal estava me jogando aos leões, desviando a atenção da Corregedoria do verdadeiro crime investigado. Mais um pouco e eu teria que agradecer ao Kassian, se ele não fizesse uma queixa contra mim, por atacá-los pelo simples fato de serem estrangeiros em nosso território.
Apesar de toda essa preocupação, eu precisava focar minha atenção no treinamento tático dos novos agentes. Alguns com experiência militar, outros vindos da própria Polícia Federal. Algo que chamou especialmente a minha atenção.
Santoro almejava tornar a ACIS uma referência em segurança e investigação, mas era a rigidez na escolha dos componentes do seu staff que manteria a sua expertise. E acima de tudo, ter isenção para atuar em qualquer esfera da sociedade.
A ACIS não queria apenas excelência na investigação preventiva, mas também no combate ao crime em andamento. Ações urbanas em locais fechados requerem uma abordagem específica, diferente do ataque em território inimigo, onde baixas são aceitas como efeito colateral de qualquer missão.
A tarefa ocupou toda manhã e ainda tive que fazer a avaliação do perfil de cada um dos candidatos, deixando a decisão final para o Comandante, já que nem todos seriam efetivados.
Aqueles relatórios consumiram minha tarde e as horas se passaram sem que eu me desse conta. Olhei para o meu celular e só então percebi o adiantado da hora. Liguei para o Brian e o sinal caiu na segunda chamada. Insisti e nada.
- Brian, cadê você???
Fiz uma chamada interna e prontamente fui atendido.
- Cap...
- Sarah, você sabe onde o Brian tá?
- Eu o vi sair mais cedo e até agora não voltou.
- Ele te mandou alguma mensagem?
- Nenhuma. Aconteceu alguma coisa?
A voz da Sarah denunciava certo receio. Tudo que acontecia com o Brian merecia sua total atenção.
A indecisão de sempre e os ciúmes infundados por causa da minha protegida, impediam que eles se acertassem. Eu deveria fazer algo, mas ainda não queria expor meu envolvimento com a Mikaela, por mais que confiasse na Sarah.
- Ele pode estar com a Mikaela.
Percebi o tom contrariado, mas ela era muito reservada para falar qualquer coisa além.
- Provavelmente não. Fica tranquila.
Rapidamente minha desconfiança virou apreensão. Se algo acontecesse com meu irmão, eu nunca me perdoaria.
Saí da minha sala e a avistei no corredor. Fiz um sinal para irmos na direção do estacionamento.
- Eu vou atrás dele e você vai pra sua casa. Quando eu o encontrar te aviso.
A agente desviou os olhos de mim em silêncio, ensaiando alguma questão.
- Sarah?
- Cap, posso fazer uma pergunta?
- A vontade.
- Brian e Mikaela, o que tá rolando?
- Nada. Eu e a Mikaela estamos juntos.
Ela suspirou aliviada, mas também incrédula.
- Eu não imaginei que pudesse ser você.
- Por que?
- Porque ela é uma missão e você nunca se deixou envolver. Isso vai contra tudo.
- Mas veio de encontro ao que eu queria e talvez precisasse. - respirei fundo - Sarah, eu aprendi que nem sempre seguir todas as regras nos salva do perigo.
- Não foi isso que eu aprendi.
- Eu sei. Aconteceu. - disse por fim.
- Eu até entendo. Ela é tão... perfeita.
- Perfeita pra mim, como você pode ser para o Brian, se quiser.
A agente não retrucou, mas seus olhos entregaram alguma emoção e uma crescente angústia.
- Encontra o Foxie e me avisa, por favor.
- Pode deixar.
Ela voltou para o interior do prédio quando eu entrei no meu carro e saí da Agência.
Enquanto guiava o SUV pela avenida, tentei ligar novamente para o meu irmão e o celular respondia fora de área ou desligado, o que aumentou minha sensação de que algo não estava certo. Minha desconfiança subia de nível a cada segundo sem notícias.
Liguei para Mikaela e três toques já eram demais para a minha impaciência. Quando ela atendeu, controlei ao máximo o tom da minha voz. O barulho ao fundo indicava que o aspirador estava ligado. O modo dona de casa estava ativado.
- Mikaela.
- Ethan, você tá vindo?
- Ainda não...
- Tá tudo bem?
- Tudo... certo...
- Então, você tá aonde?
- Estou a caminho.
Silêncio, o barulho cessou.
- Você marcou algo com o Brian hoje? - indaguei.
- Não falei com ele o dia todo.
- Tá... tenho que desligar.
- Ethan... o que...
- Estou dirigindo, ser multado. Depois te ligo. Beijo gostoso.
Encerrei a chamada antes que ela começasse a desconfiar, se já não estava e fizesse perguntas para as quais eu não tinha respostas.
Decidi começar minhas buscas pelo local mais óbvio e segui para o bairro onde fica o apartamento da nossa família, mas não encontrei sinal dele em casa. Andei pelos arredores até chegar ao local onde a galera se reunia e que o Brian costumava frequentar na época que decidimos nomear de "rebeldia juvenil".
Era um bairro comum em que o comércio se concentrava ao redor da praça. Aposentados ocupavam seus dias jogando dominó nas mesas de pedra, dividindo espaço com o parquinho, onde as crianças brincavam após a saída da escola. Todos aproveitando a inércia de um local que não se modernizou.
Não fosse o som estridente que vinha de um carro, estacionado no meio fio com as portas abertas para exibir caixas de som potentes instaladas no porta-malas.
Avistei o trio que eu conhecia e por pouco não foram fichados pela polícia, junto com o Brian. Na época eram garotos desocupados, facilmente atraídos pela oportunidade de uma grana fácil.
Kadu e Victor eram irmãos com pouco mais de um ano de diferença de idade, por isso tinham quase a mesma estatura alta e forte, a pele clara e os cabelos cortados à máquina. O terceiro era o Xandão, o amigo moreno de cabelo preto liso, mais alto e mais forte que a dupla. Os três eram crias do bairro e amigos do meu irmão, desde a época do colégio. Eles perceberam minha aproximação e também me reconheceram.
- E aí chefia!!!
- Viram meu irmão hoje?
Os rapazes estavam se exercitando nos aparelhos de academia instalados na praça, enquanto ouviam a música no volume máximo, vinda do veículo parado. Bati o porta-malas e o som incômodo cessou. Agora que tinha a atenção deles, repeti a pergunta sem precisar elevar o tom da voz.
- Vocês viram o Brian?
- Vi não, chefe. - Kadu respondeu e inquiriu o irmão - E você, Vitinho?
- Também não.
- Cê viu ele, Xandão?
Xandão desceu da barra de exercícios e se aproximou para verificar se eu não havia danificado o aparelho sonoro que lhe pertencia.
- Ele tá dando um tempo. E tá certo. - respondeu encostado ao meu lado, após se certificar de que estava tudo ok.
- O que tá pegando?
- Andaram perguntando pelo parça.
- Quem??
- O Yuri.
Reconheci aquele nome e era uma péssima notícia. O rapaz confirmou minhas suspeitas.
- Ele não estava preso?
- Faz pouco tempo que o cidadão saiu da gaiola e voltou pra reunir a gangue.
- Chegou em vocês e procurou pelo Brian?
- Foi. Veio com um papo de que não guardava mágoas porque só ele pagou o pedágio na cadeia. Mas que tinha que honrar a nossa amizade, por isso aceitava a gente de volta de boas.
- Aquele fdp.
- O Yuri é cobra criada e quer voltar a ativa. Falou que tá com as costas quentes e não vai dar ruim pra ele dessa vez.
- É o que vamos ver. - respondi - Sabe onde ele tá baseado?
- Nos velhos armazéns. Ele voltou pra oficina.
- Quer dizer o desmanche?
- É e tem uns caras novos lá com ele, que não são daqui. A parada tá sinistra.
Kadu e Vitinho também se chegaram para atestar a veracidade das informações dadas pelo amigo.
- A gente tá fora dessa, chefe. - Kadu se apressou em dizer.
- Vocês não são mais menores de idade, se vacilarem dessa vez não tem desculpa e vão ter ficha suja. Entenderam?
- Não vamos nos meter com nada errado, pode confiar. - Xandão garantiu - Eu tô nos bombeiros e o Kadu nos paraquedistas. Só falta o Vitinho arrumar um trampo.
- Yuri ficou bolado porque agora somos todos recrutas. - Kadu acrescentou - Disse que somos traíras igual ao Brian e que desprezamos a amizade da infância.
- Avisei ao mano Brian que o Yuri não é mais o velho parça. - o moreno completou - Eu vi no olho dele. Antes era só malandragem, agora tá rancoroso e vingativo. Nem reconheci o cara que cresceu com a gente.
- Depois que se paga cadeia, ninguém é o mesmo e não foi diferente com ele. Ou aprende ou piora. - atestei.
- Ele se entregou ao lado negro da Força. - Vitinho completou solene.
Não havia humor na piada. Só a triste constatação de que alguns tendem a praticar o mal, independente do meio em que nascem e convivem. Diferente dos três rapazes que aprenderam a lição e não persistiram no erro, Yuri escolheu permanecer na delinquência que o levou a condenação.
- Eu vou atrás do Brian.
Avisei já me afastando do local e os três tentaram me acompanhar.
- Podemos ajudar...
- Não é assunto pra vocês.
- Mas se o Yuri...
- Do Yuri cuido eu.
Dispensei a ajuda, mesmo com a insistência deles. Não iria envolver os três jovens que estavam seguindo por um bom caminho em um assunto que eu sabia poder acabar em prisão ou na pior das hipóteses em morte.
- Fiquem espertos e longe de problemas. Entendido?
- Positivo, chefe.
Deixei o grupo na praça e, após pegar minha Hilux, segui na direção apontada.
O bairro não havia mudado muito nos últimos anos e não foi difícil encontrar os mesmos edifícios abandonados.
Tudo indicava que eu iria empreender novamente uma missão solo de resgate.
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