Capítulo XIII

Mikaela Evans⭐

Quando Ethan saiu pela porta e fiquei sozinha na sala, me arrependi por não ter lhe dado um abraço ou falado algo encorajador. Me calei, pois o Capitão estava tão determinado que meu pedido anterior para que tivesse cuidado, soou redundante. Porém, a sensação de que havia coisas importantes a serem ditas entre nós, iria me atormentar com o passar das horas.

Brian o acompanhou até o carro e voltou em seguida Ele colocou o notebook na mesa de centro e sentou-se no sofá com o celular na mão, pronto para iniciar a vigília que seria aquela noite.

- Você acha que...

- O Cap tem muita experiência em campo, vai ficar tudo bem.

Ele me interrompeu, não querendo ouvir seus próprios receios.

Achei melhor não insistir, pois eu também não queria externar tudo que sentia naquele momento.

- Vou para o quarto, tomar um banho. - ainda estava com o vestido e ele com a roupa social que usamos naquele dia.

- Vou ficar por aqui. Tenta descansar.

- Se precisar de mim é só chamar.

- Ok.

Caminhei na direção do corredor, deixando o agente totalmente concentrado nos seus aparelhos eletrônicos

Depois do banho, me deitei e fiquei rolando na cama por horas, entre um cochilo e outro. A mania de beber água me fez levantar e voltar à sala, onde encontrei Brian dormindo no sofá. Me aproximei devagar e o chamei com cuidado para não assustá-lo, pois sou daquelas que detesta ser acordada aos gritos.

- Foxie... Foxie, vai deitar na cama do Ethan.

- Que foi? O Ethan? Ele ligou?? - perguntou, procurando pelo celular que havia escorregado da sua mão e caído ao lado do sofá.

Ele aprumou o corpo e arrumou os cabelos bagunçados ao mesmo tempo que bocejava.

- Vai dormir no quarto dele ou vai ter uma tremenda dor no pescoço.

- Só cochilei. E você, ainda não dormiu?

- Perdi o sono e me deu sede, vim beber água.

Sua atenção voltou às telas iluminadas em busca de alguma mensagem e do sinal que indicava o deslocamento do irmão.

- Então, ele deu notícia? - indaguei sem esconder minha aflição.

- Ainda não, mas fica tranquila. Às vezes quando estamos em uma missão não dá pra se comunicar.

- Só espero que ele fique bem.

- Tenho certeza que está.

Olhei para ele em silêncio e percebi o quanto sua impotência o angustiava naquele momento.

- Eu também tô preocupado. Não saber o que tá rolando me deixa louco.

O rapaz passou a mão no rosto para afastar os maus pensamentos e falou inesperadamente sério.

- Não importa para onde ele vá, importa que ele sempre vai voltar.

- Como você pode ter certeza?

- Ele me prometeu e o Ethan não faz promessas que não possa cumprir.

Brian me olhou fixamente e eu poderia afirmar que tinha a mesma certeza que ele.

- Você tá gostando dele, não é?

A pergunta me pegou de surpresa. Ele apontou a blusa do Capitão que eu vestia como prova. Era a mesma do primeiro dia que cheguei e apesar de ter comprado roupas, não devolvi. Já havia sido lavada, porém mesmo o cheiro do amaciante me fazia lembrar o seu dono.

- Nunca conheci ninguém como ele. - respondi incapaz de negar - Eu não consegui dormir, sem saber como ele está... É louco isso.

- Sei como é...

O agente verificou mais uma vez se havia mensagens e deitou a cabeça no encosto, apertando os olhos frustrado por não encontrar nada nos seus equipamentos.

Fui até a cozinha e trouxe água, lhe entregando um copo. Me sentei ao seu lado, sabendo que nenhum de nós dormiria, pois já era madrugada.

- Ele é sua única família?

- Desde que ele voltou, somos só nós dois.

Percebi que Brian estava disposto a me contar parte do seu passado, então me sentei ao seu lado para ouvir com atenção.

- Quando nossa mãe morreu, ele não estava aqui.

- O que aconteceu com ela?

- Descobrimos que ela tinha um tumor inoperável. No final, era tanta dor que ela ficou sedada e não resistiu por muitos dias.

- Posso imaginar como você ficou perdido, sendo tão jovem.

- Eu tava sozinho, não consegui falar com o Ethan antes que ela fosse sepultada. - Brian bebeu um gole d'água e continuo. - Ela adoeceu e morreu em menos de dois meses e o Ethan não veio. Ele tava perdido no meio de um deserto qualquer. Eu fiquei decepcionado e com muita raiva. Revoltado com a perda inesperada da nossa mãe e achando que o Cap nunca voltaria como nosso pai. Então acabei me envolvendo com uns lances errados.

Sua expressão entregou um pouco de vergonha e arrependimento.

- Sob pressão ou sofrimento tomamos decisões que nem sempre são as melhores. - falei, citando a mim mesma como exemplo.

Minha decisão de me afastar do Kassian poderia ter sido melhor arquitetada. Se eu tivesse a frieza necessária para esperar a ocasião ideal, não estaria nessa enrascada

- Nosso pai era um militar canadense. Um tenente da marinha e foi chamado para a Guerra do Golfo. Ele soube da minha existência, mas não teve chance de me conhecer. Morreu antes do meu nascimento, enquanto liderava uma ofensiva do seu batalhão. Apesar de todo sofrimento, minha mãe dizia que eu era o último presente que o marido lhe deixou.

- Sinto muito, Brian. - falei sincera, imaginando o peso dessa tragédia na vida de uma criança.

- Ela deu todo apoio quando Ethan decidiu seguir o exemplo do nosso pai. Mesmo ele estando distante, cuidando dos outros, ela dizia que cada um tinha uma missão a cumprir. Tinha orgulho de ser filha, esposa e mãe de militar.

- Sua mãe deve ter sido uma mulher incrível.

- Dna. Beatriz não economizava amor pelos filhos. Antes de ficar inconsciente ela perdoou o Ethan por não voltar, ao contrário de mim.

Ainda havia um pouco de mágoa em suas palavras, mas era devido a perda irreparável e não pelas atitudes da mãe.

- Eu queria qualquer coisa, menos seguir os passos do Cap e do nosso pai. Pra mim, ser militar representava uma coisa que te fazia abandonar as pessoas que realmente importam, por outras que você nem conhece. Era egoísta como todo garoto inexperiente e revoltado. Fiquei com muita raiva porque ele não chegou a tempo e me envolvi com coisas perigosas, nada com drogas. Enfim, fiz umas merdas.

Deixei o copo sobre a mesa para escutar mais confissões. Ele desviou os olhos de mim para contar a parte menos nobre da narrativa.

- O que você aprontou, Foxie??

- Eu tinha uns amigos no bairro que gostavam de pilotar carros e motos, comecei a participar dos rachas por dinheiro e pela adrenalina. Então fui chamado para pilotar em roubos de veículos e transporte de carga, mas não era minha praia. Meu lance era só a emoção do perigo e eu não podia ser preso. Era filho e irmão de um militar de alta patente. Seria uma vergonha para o legado da família.

Continuei calada, sem fazer qualquer julgamento das atitudes dele e nem poderia.

- Eu estava nessa vida sem rumo e inconsequente quando recebi o aviso de que o Capitão estava no hospital e seu estado era muito grave. Foi outra bomba, não tinha nem três meses que havia enterrado nossa mãe.

O rapaz respirou fundo, lutando contra as lembranças ruins, receando que seus medos pudessem de alguma forma se tornar realidade.

- Eles o resgataram em choque pela perda de sangue e ele ficou desacordado por dias. Então decidiram fazer a cirurgia apesar de todo risco. O ferimento era sério, o quadril precisava de pinos e uma placa para fixar os ossos, a espera poderia causar sequelas irreparáveis. Foi outra decisão que eu tive que tomar e assumir os riscos. Eu revivi um inferno naqueles corredores, sem saber se ele resistiria e em que condições.

- Eu posso imaginar como foi difícil pra você, depois da sua mãe, ver o Ethan tão machucado.

- As horas de espera foram quase insuportáveis. Ele podia entrar em choque novamente, mas atrasar a cirurgia poderia significar a perda do movimento da perna. Seria demais pra ele e injusto por tudo que ele fez a serviço das forças armadas que era sua paixão.

Toda aquele narrativa me fazia gostar ainda mais do Brian e entender o apego fraternal que os irmãos nutriam um pelo outro.

- A primeira frase que ele me disse ao acordar mudou tudo. "Me perdoa, irmão. Por não ter voltado antes". Ele tava todo arrebentado e me pedindo perdão. Então, eu não desisti até ver o meu mano de pé novamente.

- O Capitão é um cara focado e dedicado, era de esperar que conseguisse se reerguer, além de contar com sua ajuda. - mesmo no pouco tempo que convivência, eu podia atestar que o apoio entre eles era incondicional e recíproco.

- O ponto fraco dele é a vaidade, então eu o provocava. "cara, teu irmão mais novo consegue, você não?" ou "eu faço isso melhor do que você". Coisas do tipo. Eu fazia os exercícios de fisioterapia junto com ele. Fiquei sarado enquanto ele se recuperava. - mostrou os músculos do braço para comprovar, sinal de que já estava de bom humor.

Aproveitei a oportunidade e perguntei sobre outro assunto que aguçava a minha curiosidade.

- E você e a Sarah?

- O que tem ela?

Ele virou o copo vazio na boca para disfarçar.

- Foxieee!!! Vocês só enganam a vocês mesmos. Tem uma tensão entre vocês. É palpável.

- Dá pra perceber?

- Ciúmes da parte dela. Total babação da sua.

- Ciúmes?? De mim?? Rola nada não.

- Cheguei a pensar que o interesse dela era o Capitão, mas quando vi os joguinhos de vocês, ficou claro como a água desse copo. - mostrei o qual segurava.

Brian se inclinou para deixar o seu copo sobre a mesa, mas não voltou a recostar-se, apoiou os antebraços nas pernas e manteve a cabeça abaixada.

- Ela não quer nada comigo. Sarah é muito focada e merece um cara que queira uma carreira militar de sucesso.

- E você não quer?

- Não exatamente. Eu tô na Agência pelo Ethan. O Comandante me aceitou por ele.

- Porque pensa assim? Você tem habilidades para fazer um trabalho que poucos estão preparados. Acho que conquistou o lugar por seus méritos e tem que reconhecer o seu valor como agente da ACIS.

- Depois do que aprontei, sei não.

- Se tudo der certo... e vai dar - cruzei os dedos - todos terão que agradecer a você. Menos o Kass...

O rapaz voltou a sorrir, como se minhas palavras o tivessem aliviado de um peso ou fossem respostas às inseguranças que muitas vezes rodam nosso íntimo, sem que ninguém perceba, enquanto não são verbalizadas.

- Obrigado pelo apoio.

- Obrigado por tudo, Foxie.

Recuperado do momento de emoção, ele retornou a sua costumeira postura atrevida para me provocar.

- Eu revelei todas as fraquezas que conheço do Ethan, isso não é justo.

- Porquê?

- Estou te entregando ele de bandeja. E você, quais são as suas fraquezas?

- Não ter liberdade. Não ser dona da minha vida.

O celular vibrou na mão do Brian e o toque foi o único som no ambiente, durante os segundos que nos encaramos, antes dele olhar o display. A mensagem era tão ansiosamente aguardada que nos pegou desprevenidos e me causou um sobressalto, fazendo meu coração palpitar agitado.

- É do Ethan. "Cheguei no Porto agora. Vou esperar o movimento da troca de turnos para entrar. Tudo ok. Se cuidem." - Ele chegou e está bem. - falou e deixou escapar um suspiro.

Quando nos demos conta, já estava amanhecendo e Brian teria que ir para a Agência relatar ao Comandante as decisões e a atual localização do Ethan.

- Vai tomar um banho enquanto eu faço o café pra gente.

Ele andou na direção do quarto do irmão, alongando o corpo para diminuir o incômodo da noite insone e eu fui para a cozinha preparar o nosso desjejum.

- O que é isso?

Perguntou quando se sentou à mesa e eu o servi da minha especialidade.

- Café forte, pão, presunto, queijo e ovos. Tudo junto e misturado. Não comemos nada ontem, então achei bom reforçar a primeira refeição.

Brian olhou com uma cara nada animada para o prato a sua frente, mas a sua expressão mudou de desconfiado para satisfeito quando provou a mistura.

- Tá mais gostoso que bonito.

- Minha mãe sempre dizia "beleza não põe mesa". - falei rindo da recordação.

- Sábia mulher. Deve ouvir ela, mães têm sempre razão.

- Meus pais morreram em um acidente. - revelei num impulso.

Minha confissão o pegou de surpresa, ele mastigou lentamente, esperando que eu continuasse, mas me calei. Percebendo minha hesitação, ele tentou me fazer continuar.

- Se você quiser me contar sobre sua vida antes do árabe, serei todo ouvidos. Afinal, temos histórias parecidas.

- Outra hora falamos sobre isso. Você tá atrasado. Coma logo e se manda.

Me levantei para lavar a louça na pia. Brian terminou sua refeição e se despediu.

- Eu volto assim que puder.

- Não esquece de me avisar...

- "Se o Ethan der notícias".

Falamos ao mesmo tempo e unimos nossas mãos sinalizando nossa empatia. Ele beijou minha testa como um irmão faria e saiu, fechando a porta atrás de si.

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