Capítulo VIII

Ethan Hawkeye☀️

Santoro me aguardava em sua sala com uma expressão de total contrariedade, confirmando que seríamos convocados para dar explicações da minha atuação e ele, por ter autorizado a invasão a casa do árabe.

- Os defensores do Al-Maghrabi fizeram uma representação na Corregedoria contra a Agência.

- Isso só pode ser piada.

Não era e o Comandante estava tão indignado quanto seu cargo permitia.

- Não foram encontradas armas ilegais. Somente pistolas registradas. Inclusive estão nos acusando de ter usado de violência excessiva.

- Fomos recebidos por seguranças bem armados, o que esperavam? Que eu não revidasse?

A situação estava se desenrolando de mal a pior. Todo nosso trabalho de investigação parecia estar indo pelo ralo da Federal.

- E a reação do árabe? O tiro que eu levei?

- Ele nega ter resistido, só reagiu a sua truculência e não pode ser responsabilizado pela ação de terceiros.

- Um tiro pelas costas com uma 45mm e ele ainda teve a cara de pau de alegar isso!!!

Era para ficar muito puto da vida e eu estava, mas me segurei para ouvir o restante dos argumentos contra a minha conduta.

- O advogado do Kassian alegou que os ocupantes da aeronave eram comerciantes de ouro e pedras preciosas que levavam jóias para o cliente avaliar, o que não se configura nenhum crime. Eles apenas se defenderam por achar que a casa foi invadida por assaltantes, assim como os seguranças da residência.

- A arma com a qual nos alvejaram do helicóptero não era de brinquedo, posso garantir.

- Os destroços foram resgatados e não encontraram nada parecido com o que você alega ter visto pela mira da sua Sniper.

- Sou capaz de indentificar uma DSR-50 pelo som do projétil. Já empunhei uma e sei o estrago que faz. - afirmei convicto.

Se há algo que eu reconheceria depois de anos de combate, seria uma arma daquela potência. Um rifle de assalto de longo alcance, muito utilizado por milícias na guerra e de alto valor no mercado negro.

- É uma arma capaz de atravessar blindagem, imagino o estrago nas paredes daquela casa. Sem dúvida faria muitas vítimas entre agentes e civis, sei disso. - concordou.

- Eu reagi com a força necessária que o momento exigia.

- Então, ou foi destruída na explosão ou está no fundo do mar.

- Impossível não terem achado nada, a não ser...

- Ethan, se levantarmos dúvidas da investigação do Marco Aurélio, estaremos declarando guerra abertamente entre a CIS e a Polícia Federal.

- Não seria a primeira vez que o meu caminho atropela o dele.

- Você tem esse talento de cultivar desafetos e ele tem sorte de nunca ter sido pego.

- Ele é sabidamente corrupto e só não foi pego porque é escorregadio como uma enguia.

Deixando de lado minha relação nada amigável com o delegado federal, voltamos nossa atenção para a reunião com os corregedores.

- O Secretário espera que nossos argumentos sejam irrefutáveis, mas pelo que temos, ou melhor pelo que não temos, não será tão fácil.

- Se eu lhe entregasse um terrorista usando nosso território como entreposto de suas negociatas, ele levaria todo o crédito.

- Mas não foi isso que aconteceu, então vamos lidar com as consequências de cabeça fria. - ponderou - E a pesquisa do agente Foxie chegou a uma identificação?

- Faizel é uma sombra. Nos arquivos da Interpol não há registro algum. Precisamos ter acesso as imagens de outras agências.

- CIA?

- O Secretário poderia usar sua influência. - sugestionei.

- No atual quadro, não sei se ele faria isso.

- Santoro, vamos tentar. Sabemos com quem estamos lidando.

A Agência é independente das polícias municipais e estaduais, porém está submetida ao Secretário de Segurança a quem devemos satisfações, além de apresentar resultados positivos para sua imagem.

A idéia inicial seria trabalhar em conjunto com a Forças Federais de Segurança ao tratarmos de crimes territoriais, sem ultrapassar nossas atribuições, porém divergências tornaram-se inevitáveis quando egos inflados passaram a ditar os métodos de trabalho para alcançar o resultado esperado das investigações.

O Comandante fez contato com o Secretário e conferenciamos através do viva voz. Eu fiquei sentado a sua frente e ele colocou o aparelho sobre a mesa entre nós.

O Secretário Fagundes nos deixou na linha por alguns minutos enquanto ouvíamos ao fundo ele despachar com algum funcionário do seu staff.

Não foi preciso mais do que um breve diálogo sobre a atual situação e suas implicações para que ele fosse direto ao ponto.

- Capitão, use toda sua experiência para apresentar argumentos convincentes ou não poderei garantir que o árabe permaneça detido.

- E quanto ao Faizel? Se o senhor solicitar acesso aos arquivos da Agência Americana...

Ele me cortou, demonstrando que já estava com uma idéia preestabelecida.

- Esse suposto cúmplice terrorista nunca esteve em nosso território, não vejo mais motivos para investigá-lo. O árabe por outro lado, está nos acusando e seremos motivo de piada se nada for comprovado contra ele

- Na ocasião do ataque em Nimrud ainda havia muitos insurgentes tentando enfraquecer a liderança do Emir. Nada levava a crer que fosse uma ação planejada por um de seus próprios apoiadores. Agora temos indicações claras da sua participação.

- A ligação dos dois é circunstancial e só temos a palavra de uma esposa insatisfeita. - retorquiu belicoso.

- Vocês não pensaram assim quando iniciaram a investigação baseada na delação da Srta. Evans. - rebati impaciente e Santoro estreitou os olhos em sinal de censura.

- O Al-Maghrabi estava em nosso país. Qualquer possibilidade de crime deve e será investigada. Ao contrário, o que acontece em um país que vive em constante conflito não nos diz respeito.

O Secretário demonstrava desinteresse por algo que não lhe seria mais útil.

- Essa investigação foge da nossa alçada e foi requisitada pela Interpol.

- Isso é um absurdo! - reagi.

- Capitão, a investigação era restrita às atividades em nosso território. O caso Faizel, se existe um, transcende a nossa jurisdição.

- Seremos meros colaboradores?

- Pense no lado bom. Se a Sra. Al-Maghrabi ficar sob a tutela de um programa de testemunha, você vai se livrar da obrigação incômoda de protegê-la.

O veneno e a ironia contida em suas palavras me fizeram trincar o maxilar. Se ele estivesse presente talvez eu não controlasse o meu punho.

Eu estava a ponto de revidar e minha expressão corporal revelava todo meu descontentamento com suas palavras.

Santoro tentou amenizar a conversa que tomava rumos inesperados e me fez calar, antes que eu dissesse exatamente o que pensava daquele político dissimulado e burocrata que só agia quando lhe convinha.

- Entendemos sua posição, Secretário. Vamos dar as explicações necessárias com base em fatos comprovados. A Corregedoria não terá motivos para contestar nosso trabalho na ACIS.

- Assim espero, pelo bem e integridade da Agência. É dispendioso manter esse quadro de experts que você mesmo escolheu, Santoro. - respondeu cínico.

- Temos um histórico de ações bem sucedidas que fazem valer a pena o investimento do Governo. - o Comandante respondeu com firmeza.

- Sem dúvida o Executivo valoriza seus esforços. Bem, tenho outros assuntos que precisam da minha atenção, acho que encerramos por aqui.

- Tenha uma boa noite, Secretário.

- Comandante. Capitão. Até logo.

Após as despedidas, ele finalizou a ligação. Bati na mesa com o punho fechado e respirei fundo para controlar minha ira.

- Fdp!!!

- Ethan, sei que você quer chegar ao Faizel, mas nesse momento talvez não seja o melhor caminho.

- O que quer dizer?

- Concordo com o Fagundes que devemos nos ater à investigação do que aconteceu agora e esquecer o passado.

- Essa é minha chance de chegar até aquele terrorista. Não vou desperdiçar...

Me levantei e fiquei na sua frente, pronto para continuar nosso debate. Todavia, meu amigo demonstrou todo seu cansaço com um longo suspiro e recostou-se na sua cadeira. Lembrei do seu investimento pessoal e de como ele se orgulhava de ter os melhores profissionais trabalhando ao seu lado. A Agência era seu último projeto para encerrar uma longa carreira de forma honrosa e elogiável. Compreendi que apesar da nossa amizade, ele só iria até o ponto de não colocar em risco tudo o que se empenhou para conquistar.

- Ethan, vá para casa e descanse. Farei o mesmo.

- Boa noite, Santoro.

Me despedi com um leve aceno e sai da sala.

O resultado daquela reunião nos deixou no mínimo frustrados.

Tanto Santoro quanto eu tínhamos a convicção de que agimos com correção e seríamos questionados por um bando de raposas que sequer pegam em uma arma, porque tem seguranças bem pagos com o dinheiro público para os proteger.

Brian pressentiu meu estado de espírito e retornou a tempo de fazermos a troca dos veículos. Não que eu não gostasse de velocidade, mas estressado como estava, seria até temeroso pilotar uma moto de 948 cilindradas e que alcançava fácil 150km/h. Ele estava apressado, então combinamos de nos falar em casa.

- Está de plantão hoje? - indaguei.

- Não, só vim terminar uma pesquisa. Más notícias? - perguntou ao ver meu semblante fechado.

- As coisas estão complicadas. Melhor nos falamos em casa. - respondi já sentado ao volante.

- Seja o que for, acharemos uma saída.

Assenti e dei a partida em direção à saída.

Era uma noite quente de verão e por isso apesar do adiantado da hora o trânsito na avenida estava movimentado. Cada sinal fechado e veículo à minha frente parecia um obstáculo que impedia minha chegada ao meu destino final e me deixava mais ansioso. Conduzi minha Hilux na velocidade máxima permitida até chegar aos portões do condomínio.

Meu nível de estresse estava alto e eu precisava liberar adrenalina para me acalmar. Treinar me deixava focado e não podia prescindir dos exercícios para manter meu condicionamento em dia. Quando não encontrava alguém disposto a dividir o tatame comigo, descarregava a tensão no saco de areia da academia instalada nas dependências do residencial.

O local foi equipado com aparelhos de última geração, além de instrutores, caso fosse necessário. Como o condomínio foi destinado para oficiais e seus familiares, não costumava ter muitos frequentadores. A moderna instalação que incluía uma ofurô de hidromassagem para recuperação muscular, servia também como um centro de reabilitação para agentes feridos em serviço, como foi o meu caso. Após sair do hospital, diariamente precisava fazer uma série de fisioterapia para a completa recuperação da força e dos movimentos da perna e ali encontrei todo equipamento necessário.

Minha rotina era entrar em casa pela porta lateral para deixar o coturno e as roupas na lavanderia que ficava do lado oposto do corredor que separa o cômodo da cozinha e trocar ali mesmo a roupa de treino. Obviamente por ter uma hóspede, não tirei a roupa que vestia e segui para a sala.

Nos últimos dias havia se tornado rotina encontrar Brian e Mikaela ocupando aquele espaço com a tv ligada, usando o notebook na mesa de refeição ou preparando algo para comermos juntos após a minha chegada. O silêncio nunca me incomodou, mas estranhei não ouvir suas vozes hoje. Meu irmão estava sempre agitado, contando suas piadas. Mikaela era sempre contida em suas revelações, mas ria abertamente de suas histórias. Porém, ela emudecia ao me ver e esperava minha iniciativa para iniciar um diálogo. Eu parecia lhe trazer a lembrança do perigo iminente e isso de algum modo começou a me causar um incômodo inexplicável.

Atravessei o corredor e a vi pela porta entreaberta do quarto, guardando algo no armário. As pontas úmidas do cabelo entregava que ela tomou banho a poucos minutos e um novo perfume adocicado chegou até mim, impregnando o quarto que até então era usado esporadicamente pelo Brian.

Não entrei, apenas bati com o nó dos dedos na madeira para que me visse. Ela se virou e ergueu o corpo, retirando os fios loiros do rosto.

- Oi... - falou com um meio sorriso.

Reparei de imediato que ela usava uma camiseta estampada com o logo da Harley Davidson, igual às que o meu irmão usava e não uma das minhas que cobriam até metade das suas coxas, como era habitual.

- Tá usando roupa do Brian agora? - foi a primeira coisa que me ocorreu dizer. - "Que poha de possessividade é essa?" - pensei comigo mesmo.

- Fizemos compras hoje.

Apontou para a pequena pilha de peças dobradas sobre a cama.

- Compras? Onde?

- Brian me levou ao bairro onde mora e eu vendi uma jóia, depois fomos nas lojas que ele costuma frequentar.

Fiquei surpreso, mas tentei não transparecer meu receio dela ter passeado com o Brian, afinal não era uma prisioneira. Imaginar ela na garupa da moto com aquele maluco do meu irmão me causou uma estranha sensação. Por sorte, a troca de veículos evitou tal loucura.

- Deve sentir falta das suas roupas e usar as minhas não era ideal.

- Nada contra usar suas camisas, é bem confortável. - ela brincou. - Eu precisava de outras coisas também, foi rápido e voltamos logo.

Explicou, desculpando-se como se eu fosse os censurar.

- Foxie fez bem. - amenizei o tom da voz.

- Ele não veio com você?

- Ficou lá para pesquisar alguma coisa no programa e vem mais tarde.

- E o Comandante, o que disse?

- A Corregedoria vai mesmo nos convocar.

- Sinto muito.

- Eu sempre soube que poderia ser questionado, ninguém é perfeito. Tomar decisões te deixam sujeito a julgamentos, nem sempre isentos. Mas a possibilidade de que o Kassian saia livre e como vítima, é inaceitável.

- Pode chegar a tanto?

- O cenário que estão criando tem essa intenção, não vou mentir.

Ela respirou fundo e o silêncio pairou entre nós. Sua expressão de medo e desgosto me deixou ainda mais revoltado, mas eu ainda não tinha uma resposta que pudesse lhe tranquilizar. Ainda.

- Eu vou me exercitar e depois falamos sobre isso, quando Foxie chegar.

- Tudo bem. Eu espero vocês.

Saí de casa a caminho da academia que ficava a poucos metros e dediquei algumas horas aos exercícios que me mantinham fisicamente pronto para qualquer enfrentamento, caso fosse necessário para finalizar aquela missão.

Voltava do treino quando Brian enviou uma mensagem. Passei novamente pelo quarto da Mikaela para avisá-la que ele estava chegando.

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