Capítulo VII

Mikaela⭐

Voltei a agência nos dias seguintes e agora nos concentramos em imagens reais de locais públicos onde o árabe poderia ter transitado. O Secretário havia conseguido acesso ao banco de dados da Interpol, mas nada referente ao Faizel foi encontrado.
Ao final de uma busca infrutífera, Brian e eu fomos até a sala do Capitão.

- Foxie, leve a Mikaela para casa.

- Você não vem com a gente?

- Vou assim que terminar com o Santoro.

- O que aconteceu? - perguntei.

- Ele recebeu o relatório da Federal. O resultado não foi dos melhores e vamos ter que dar explicações.

- Contar e recontar a mesma versão enquanto eles procuram uma contradição. - Brian criticou.

- Vou garantir que não achem.

Ethan nunca demonstrava receio em defender suas convicções, porém a situação de estar na berlinda o deixava visivelmente irritado. Ele nos acompanhou até o estacionamento, evitando comentar o assunto no caminho.
Brian se adiantou na direção da sua moto estacionada sob a proteção de uma cobertura.

- Nem pensar - o mais velho o interpelou - Leva meu carro e deixa a moto - falou jogando as chaves da Hilux verde musgo que o irmão pegou no ar.

A motocicleta do agente mais jovem era uma Kawasaki. Aficionado por velocidade, ele nutria verdadeira paixão por modelos diferenciados como a Z900RS que combinava o estilo retrô esportivo com a tecnologia moderna. Seria emocionante ser carona na possante de duas rodas, porém o Capitão se mostrou irredutivelmente contra a idéia.

- Você vai cuidar bem da minha máquina?

- Tão bem quanto você do meu SUV.

Eles trocaram sorrisos irônicos e ver essa prova de afeto entre os irmãos me fazia lembrar de como era bom ter alguém que te compreende pelo simples olhar, sem muitas explicações.

- Até mais tarde. - me despedi quando Ethan abriu a porta para que eu entrasse no veículo e esperou até me ver colocar o cinto para fechar a mesma.

- Até mais. Se cuidem. - falou com o seu singular tom protetor.

Inclinado na janela aberta com o rosto próximo ao meu, ele capturou toda minha atenção para o azul cristalino das suas orbes e assim permaneci, até me dar conta que o olhava fixamente por alguns segundos.

Brian sentou no lado do motorista e deu a partida quando Ethan se afastou do carro. Observei a imagem do Capitão parado na entrada do edifício pelo retrovisor, até perdê-lo de vista.

Quando o carro entrou na avenida e tomava o caminho de casa, fiz um pedido ao meu condutor.

- Brian, preciso de dinheiro, então pensei em vender esse colar e comprar algumas roupas e outras coisas de que preciso. Pode me ajudar?

Ele me olhou de lado, enquanto eu retirava de dentro da blusa a corrente de ouro com o pingente de diamantes sobre uma única asa de anjo. O derradeiro presente do Kassian que eu teria o maior prazer em me desfazer pela sua simbologia macabra.

- É uma peça bonita e deve ser muito cara.

- Não tenho nenhum apego. Além do mais, não faz sentido manter algo de valor quando estou nessa situação.

- Eu conheço um lugar, mas não sei se é uma boa idéia andar por aí com você.

- Seremos rápidos e discretos. Vendemos, fazemos as compras e voltamos pra casa.

O agente parou em um sinal fechado para nós, ainda pensativo se deveria atender meu pedido. Com certeza avaliando a reação do irmão quando soubesse que nos desviamos do caminho para a segurança do condomínio.

- Tem uma galeria no meu bairro onde compro minhas roupas, mas são coisas bem simples.

- Só preciso de coisas básicas, não precisa me levar em um shopping.

Ele ponderou por mais alguns instantes, antes de falar.

- Conheço um lugar que faz comércio de ouro e jóias. Podemos tentar...

- Ótimo, vamos até lá. - concordei antes que ele mudasse de idéia.

Brian tomou outra direção e seguimos para um bairro mais afastado da Agência, onde ele mantinha o imóvel da família. O comércio era simples como falou, porém encontrei o básico para me manter por alguns dias.

Ele me guiou por um labirinto de pequenas lojas variadas, dentro de uma galeria. Os quiosques vendiam de tudo, roupas femininas e masculinas, bijuterias e produtos de maquiagem, perfumes e toalete. Além de lanchonetes e produtos eletrônicos de origem chinesa. Quase no final de um corredor, subimos por uma escada de degraus estreitos e chegamos a uma lojinha de compra e venda de jóias e afins. Abrimos a porta onde se via a placa "Ravid Ourives" e o sino dos ventos anunciou nossa chegada com seu tilintar de boas vindas.

- Boa tarde!!

- Olá, meus jovens! Em que posso ajuda-los?

Respondeu o simpático senhor, satisfeito ao nos ver entrar no seu pequeno estabelecimento.

- Desejam um par de alianças? Faço gravações de nomes, datas e até pequenas frases. - continuou, deduzindo que éramos um casal.

- Não senhor, não vamos nos casar. - Brian negou e explicou. - Queremos avaliar uma jóia.

- Ah, sim. Então me mostrem a peça.

Me adiantei e retirei a corrente do pescoço, depositando na mão enrugada e delicada do ancião. Ele deveria ter mais de 60 anos, o corpo apresentava o resultado de quem passou anos encurvado sobre pequenas pedras preciosas e metais nobres, o que causou uma leve inclinação do pescoço e tronco. Todavia seus olhos ainda eram límpidos e possuíam a acuidade necessária para qualificar objetos e as pessoas que entravam no seu estabelecimento.

Atrás do balcão, ele observou por alguns minutos com uma lente específica, os diamantes incrustados. A seguir, colocou sobre a bancada um conjunto de utensílios que aparentavam estar bem gastos pelo tempo de manuseio, usando para pesar e medir a preciosidade que segurava com cuidado. Mais do que avaliar, ele apreciava o trabalho artesanal de outro artista como ele próprio o era.

Enquanto aguardamos sua resposta, olhei ao redor para os objetos expostos, entre jóias e relógios antigos pendurados nas paredes que pareciam mais recordações de família do que itens a serem negociados.

Por fim, colocou minha jóia sobre uma bandeja forrada de veludo e nos olhou, falando com a sua experiência.

- É um trabalho único, arrisco dizer que foi feito sob encomenda. Tem a assinatura do seu criador.

- É verdade, foi um presente. - confirmei sem emoção alguma na voz.

- Uma jóia assim não pode ter o seu valor exato avaliado. - explicou sincero.

- Não importa. Preciso vender com uma certa urgência.

- Não posso pagar o valor. Diamantes amarelos com essa qualidade são raros, minha jovem.

- Sr. Ravid faça sua oferta. - insisti.

Brian observava a negociação ao meu lado. O ourives pensou um pouco mais e fez uma proposta.

- Para ser honesto proponho o penhor da jóia como um empréstimo.

- Qual valor?

- Cinco mil e mantenho a peça comigo por um tempo. Seria um sacrilégio desmanchar tal obra.

- Fechado. - concordei por não haver muito o que pensar.

O comerciante sumiu atrás da cortina que separava a loja da pequena oficina em busca do valor combinado.

- Mikah...

- Brian não tenho tempo para longas barganhas. Preciso de dinheiro rápido.

Passados alguns minutos, ele voltou com as notas separadas em maços com elásticos.

- O prazo do empréstimo são três meses, é o tempo máximo que posso esperar.

- Concordo e agradeço por sua honestidade.

Guardamos o dinheiro e saímos em seguida, após as despedidas. Descemos as escadas e seguimos pelo mesmo corredor de lojas simples para fazer as compras que eram minha intenção.

Comprei aleatoriamente camisetas básicas de malha, shorts, um agasalho, uma calça jeans e uma sapatilha. Escolhi a lingerie pelo tamanho e conforto, embaladas em um conjunto de seis peças, enquanto o rapaz saiu discretamente, indo para outra loja à procura de novos modelos de bonés que colecionava. Me lembrei de pegar produtos de cabelo e banho, pois o que havia no banheiro da casa era de uma linha masculina de excelente qualidade, mas não indicada para meu tipo de cabelo fino e claro.

Quando eu efetuava o pagamento do último item que adquiri, Brian se aproximou com duas sacolas nas mãos.

- Toma, comprei esse pra você. - disse ao me entregar um boné preto com o nome dos Lakers em roxo sobre a bola de basquete amarela.

- Amei. Vou aderir a esse novo estilo Foxie de ser. - coloquei o boné e sorri através do espelho, sinceramente agradecida com o gesto.

Saímos do mini shopping com meia dúzia de sacolas e uma valise de viagem de tamanho médio. Meu acompanhante estranhou minha compra e perguntou.

- Pretende viajar? - indagou.

- Em breve tudo vai se resolver e eu terei que escolher um caminho a seguir.

Falei esperançosa e deixei no ar meus planos futuros.

- Mas esse dinheiro é muito pouco pra você seguir sua vida do modo que está acostumada.

- Não me importo com o luxo que ele proporcionava. O preço se tornou alto demais.

Coloquei as sacolas no banco de trás e entramos no carro.

- Tudo que eu quero é ir pra bem longe do Kassian. - confessei, deixando transparecer meu desagrado em citar o nome.

- Kassian te agredia?

- Faz um tempo que ele deixou de ser o príncipe que conheci. Aquela foi a primeira vez, mas existem outras formas. Fazendo você presenciar coisas que te agridem muito mais até do que fisicamente.

- Que fdp! - falou batendo no volante.

- Talvez ele nunca me maltratasse de fato se eu suportasse calada. Seria fácil viver numa bolha e em segurança, quando tudo a seu redor cheira a medo.

- Ninguém deveria ser obrigado a viver sob o terror e a violência, seja de que tipo for. Se você não estava feliz, fez certo em tentar sair dessa situação.

- Eu só espero poder ir tão longe que ele não me encontre... Ou que finalmente me esqueça.

- Poxa, já tava me acostumando com a sua presença.

Sorri para amenizar a tensão que as minhas palavras revelavam e ele apertou de leve minha mão.
Brian deu a partida no carro e voltamos ao percurso que nos levaria para casa.

Ao chegarmos, eu desci com as sacolas e esperei que ele fosse entrar.

- Não vai entrar? - perguntei, pois ele continuou dentro do SUV.

- Vou voltar na CIS, aproveito e troco o carro pela moto.

- Isso tudo é ciúme da sua moto?!

O rapaz riu de lado e seu silêncio revelava que o motivo era outro.

- Nos vemos mais tarde? - insisti.

- Chego a tempo do jantar.

- Então hoje eu cozinho.

- Conhecendo o Ethan, nervoso como está hoje, vai ficar sem apetite.

- Vou arriscar.

- Talvez seja uma boa mudar o tempero, desde que seja melhor que o meu. - brincou.

Sorri, apoiada na janela aberta do carro.

- Algumas mudanças podem ser bem vindas.

- Outras são necessárias.

- Obrigada, Foxie. Por tudo que está fazendo por mim.

Fazendo um sinal com os dedos na fronte, ele ligou o veículo e se afastou na direção da saída do condomínio.

Entrei na casa e em seguida, liguei os alarmes como ele havia me ensinado.

Eu já tinha quase tudo que precisava para dar o passo que me afastaria definitivamente de tudo que o Kassian representava.

Se você gostou, toque na estrela. Obrigado! 🌟🤩

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top