Capítulo V
Ethan Hawkeye☀️
Saímos da sala do Comandante e nos separamos, conforme as tarefas que foram determinadas.
Fiquei parado, observando meu irmão guiar Mikaela pelo corredor, até perdê-los de vista. O jeito muleque do Brian ao se inclinar para ela, falando próximo ao seu ouvido... Ser afetuoso faz parte da sua personalidade, mas às vezes eu quero matá-lo. Como agora.
Mikaela com seu andar elegante, mesmo de tênis e roupa militar. Uma combinação que a deixou parecendo mais menina, diferente do mulherão sexy do dia anterior. Lembrei das curvas sinuosas do seu corpo, felizmente escondidas sob a jaqueta que lhe dei e apesar disso, ela chamava a atenção de todos. Preciso deixar esses pensamentos de lado, ou melhor, nem devia tê-los.
- Foco, Hawkeye. - censurei a mim mesmo.
Caminhei de volta para a sala do Santoro, me sentindo estranhamente incomodado.
Bati antes de entrar, mesmo sabendo que ele estava à minha espera. O encontrei de costas, olhando pela janela a bela vista que tinha do campo de treinamento de tiro.
- Você acha que a sra. Al-Maghrabi já contou tudo que sabe? - inquiriu ao se virar.
- Mikaela falou a verdade.- afirmei por impulso, frente a sua ironia de chama-la pelo nome do marido.
- Ela tem que contar tudo, antes que o árabe seja liberado e não vai demorar muito.
- Bandido ou não, ele é estrangeiro e bilionário. Era de se esperar.
Sentei a sua frente, quando ele me indicou a cadeira.
- O príncipe Khaleb não deixará o filho por muitos dias humilhado entre criminosos comuns. Entende-se "comum" qualquer um que não seja da realeza, por que ele já conseguiu prisão especial.
- Tão rápido? - nem sei porque fiquei surpreso.
- O consulado também já falou com as esferas superiores. Devem entrar com o pedido de soltura, assim que souberem que só temos provas circunstâncias.
- Para sarfar um criminoso eles agem tão rápido.
- O Moretti vai segurar o quanto der e enquanto for interessante para ele.
- O Secretário cumpriu bem o seu papel, sendo um canalha ambicioso como ninguém.
- Ele nos deu o aval para agir em segredo, contando que ao final tivéssemos provas do tráfico e não só a palavra da esposa. Não posso culpá-lo pela sua impaciência, já que não conseguimos muita coisa.
Santoro falava com cuidado, mas sua crítica à minha ação era velada. Se ele não era um homem de campo, o Secretário muito menos. Não sabem que muitas vezes temos que tomar decisões no calor da batalha e que fatalmente não agradarão a todos.
- Vamos jogar com o que temos. - amenizou, sabendo que eu também não estava satisfeito.
Cerrei os punhos de frustração. Um pouco daquilo era por minha culpa. De fato, não ter provas físicas do tráfico de armas contava a favor do Kassian.
Nós tínhamos a investigação e as provas circunstanciais que nos levaram a invadir a mansão no intuito de pegar o playboy árabe em plena negociação.
Não era para matá-lo como quase aconteceu e foi por muito pouco. Quando entrei no quarto e vi como o canalha machucou a própria mulher e que estava a ponto de matá-la covardemente, tive que usar todo meu autocontrole para não enfiar uma bala na cara dele.
- Agora a Srta. Evans é a peça chave, se ela realmente nos levar ao Baraki.
- Ela precisa estar segura. Se ele imaginar que é o alvo, virá atrás dela.
- Por esse motivo deixei a bela jovem aos seus cuidados. - ironizou.
Me remexi na cadeira, incomodado com seu comentário.
- Faizel vai fazer de tudo para evitar que seu rosto seja conhecido e ela é a única do nosso lado que já o viu.
- Talvez se souber que está sendo identificado, faça ele sair da toca. - propôs friamente.
- Não podemos usar Mikaela como uma simples isca. Nesse caso é perigoso demais. Estamos lidando com um assassino.
- Até o secretário ficou admirado com a sua disposição em protegê-la.
- Uma pessoa que entrega um aprendiz de terrorista que por acaso é seu marido, merece no mínimo ser resguardada.
- Ethan, não se iluda. A Sra. Al-Maghrabi não o fez por patriotismo. Ele o fez para se salvar. Esse era nosso acordo.
A frieza dele me incomodou. Eu sabia que Santoro estava sob a pressão dos seus superiores, mas colocar a vida de alguém em risco deliberadamente não era seu perfil, até onde eu o conhecia.
- No fim, conhecer Faizel pode ser um golpe de sorte para ela.
- Você está falando do mesmo assassino e terrorista? Ninguém tem "sorte" de encontrar esse indivíduo. Tem a sorte de sobreviver a esse encontro.
- E você foi um desses. Ethan, eu conheço a sua história. Não se deixe cegar pela vingança.
- Sorte minha, azar o dele.
Santoro percebeu a minha irritação e conhecia a minha determinação em encontrar um modo de pegar o terrorista.
- Bem, em todo caso conseguimos algum tempo. Se ela nos der a identificação do Faizel não terá sido em vão nosso acordo.
Ele se inclinou sobre a mesa e cruzou os dedos quando falou e eu senti que estava me testando.
- Ela pode pedir o programa de proteção a testemunha.
- Ela fica comigo.
O silêncio que se seguiu me obrigou a usar um tom mais incisivo do que nossa relação profissional permitia ser.
- Mikaela vai ficar sob a minha proteção.
Ela ser alvo de um assassino líder de um pequeno exército de mercenários reduzia em muito suas chances de sobrevivência em qualquer programa de proteção. O dinheiro fala mais alto e isso não lhes faltava para comprar informações e chegar até o seu alvo.
Santoro apenas assentiu. Então, pedi permissão para me retirar.
Voltei para minha sala e me sentei na minha cadeira. De uma das gavetas da estante retirei a pasta com todas as informações do "Caso Al-Maghrabi" que Santoro me entregou na primeira reunião que tivemos sobre o caso.
Com a informação de que o mesmo Faizel que me atacou era o mentor do filho do Emir, eu ligava a última ponta solta. Nenhum relatório revelava o paradeiro do Kassian na data exata em que fui emboscado quando fazia a travessia de Ninmruz para Cidadela de Al-Maghrabi.
- Onde você estava desgraçado?
Se tudo aconteceu como eu desconfiava, Kassian foi quem entregou o paradeiro da esposa do Emir para a milícia do Baraki.
- Você traiu seu pai e pessoas morreram por isso. Para o seu az@r, eu não fui uma delas.
Murmurei olhando uma foto do miserável sorridente em um iate.
Revendo os relatórios e fotos, lembrei de todos os acontecimentos que resultaram na minha atual situação.
Eu havia passado cerca de um ano me recuperando do ferimento a bala que me custou uma placa, quatro pinos de titânio no quadril e uma dor incômoda, às vezes suportável, outras intensa.
Minha recuperação foi lenta devido ao sangue que perdi. Fui resgatado quase em choque e só acordei cinco dias após chegar ao hospital. O que atrasou minha cirurgia, pois os médicos nem sabiam se eu iria sobreviver.
Lembro de ter despertado e visto o Brian dormindo em uma cadeira. O garoto não saiu mais do meu lado, desde então. Virou minha sombra, meu motorista, cozinheiro, minha babá quando fui pra casa e mal podia me movimentar. Eu me sentia tonto por um bom tempo, devido a forte medicação que fui obrigado a tomar e que aos poucos fui diminuindo. Sem falar das horas intermináveis de fisioterapia, atualmente substituídas pelos exercícios normais de força e resistência. Foi um longo ano e meu brother me deu todo apoio.
Eu deixei um garoto em casa e o reencontrei quase um homem feito. Que me admirava como um herói, mesmo eu tendo voltado arrebentado e quase inválido. Meu irmão não sossegou até me ver de pé novamente.
Ainda não estava apto a sair em campo quando Santoro me chamou para fazer parte do quadro de instrutores que estava recrutando para a Agência que ele iria comandar.
Seu propósito era especializar seus homens em técnicas de combate contra guerrilhas urbanas. Ele me disse que só aceitaria os melhores no seu staff.
Eu sempre gostei de ser franco atirador e minha mira era infalível. Por isso me chamam de Hawkeye. Eu era o melhor no que fazia, até ser ferido naquela missão.
Ser instrutor na ACIS era melhor do que o trabalho burocrático para o qual seria designado nas Forças Armadas. Ensinar técnicas de invasão, subtração de reféns no campo no inimigo, além de atuar como consultor de crises, devido a minha experiência, seria bem mais rentável.
Aceitei o trabalho e algum tempo depois, o Comandante me chamou na sua sala.
- Santoro, me chamou?
- Sente-se, Ethan. Tenho um assunto confidencial para tratar.
Me sentei na cadeira na frente da sua mesa.
Além de meu superior direto, o considero um amigo. Nos conhecemos desde o tempo de academia, porém nossas carreiras tomaram rumos diferentes. Ele passou a agir nos bastidores, pois inteligência e investigação eram o seu forte.
Eu sempre preferi o combate em campo e a estratégia de batalha. Caçar e vencer o inimigo eram a minha adrenalina. A sensação do dever cumprido quando se salva a vida de inocentes e se liberta cativos eram o melhor resultado de uma missão. Não me importava não ter um lar, uma vida fora dos quartéis. Não me apegava a nada, pois podia dormir em um país e acordar em outro, bastava ser convocado.
Assim foi com as Forças Especiais. Deixei minha mãe e Brian, ainda um moleque com 16 anos e passei cinco anos em países diferentes, mas com os mesmo problemas. Disputas internas, violência contra a população civil, miséria, injustiça e fome. Vi todas as mazelas que um ser humano pode causar a outros. E o quanto se pode suportar, sem se deixar derrotar.
Seguindo regras e protocolos, eu mergulhei na realidade de morte e desespero diários de povos submetidos a tiranias e crueldades. Salvei todos que pude. Menos do que eu queria.
Provavelmente se não tivesse sido alvejado, não teria regressado e teria enlouquecido. No fim de tudo, enfrentei meu infortúnio como uma segunda chance de estar com meu irmão e talvez quem sabe, construir algo para mim.
Santoro sentou-se atrás da mesa a minha frente, expressando a seriedade que o assunto merecia.
- Algum problema?
- Recebi informações de uma possível ação criminosa em nosso território com ligações terroristas.
Ele me entregou uma pasta com o dossiê e fotos. Olhei atentamente por alguns segundos.
- Esse é Kassian Al-Maghrabi, um dos filhos do Emir Khaleb.
- Não sabia da existência desse filho do príncipe.
- Ele é fruto de uma aventura juvenil do príncipe com uma estrangeira. Quando o Emir assumiu a liderança do seu território, não pôde levar a mulher e nem a criança.
Eu examinei as fotos do homem jovem e extravagante, com uma linda mulher ao seu lado.
- Ele está fora da linha de sucessão, então virou um playboy internacional, fingindo ser um empresário ou qualquer coisa do tipo. Desde a morte da mãe ele roda pela Europa e países do oriente, sem firmar raízes.
- Não é crime esbanjar o dinheiro do pai com luxo e belas mulheres.
- Ele está vindo para o Brasil. Tudo indica tráfico de armas.
- Informação confirmada?
- Cem por cento de certeza.
- Isso é sério e merece nossa atenção.
- Não queremos uma célula terrorista em nosso território.
- Nenhum país quer. - concordei.
- Quero que fique responsável pela investigação desse caso. Além do melhor treinamento antiterrorismo, você esteve em campo. Sua experiência vai ser determinante nos passos que iremos tomar.
- Vou precisar de auxilio.
- Pode escolher o grupo que irá liderar.
- Quando começo?
- Agora. Escolha seus homens.
- Sim, senhor.
- Ethan, mais uma coisa.
- A mulher com ele. - percebi que era um detalhe a ser observado com atenção.
- Ela é esposa do Kassian e deve ser protegida antes de tudo. A Sra. Al-Maghrabi é nosso contato.
- Ela delatou o marido? Porquê?
- Não conheço seus motivos. Ela usou seus contatos profissionais para chegar até nós e entregar os atos criminosos do árabe.
- Quais contatos?
- Mikaela Evans era uma modelo de sucesso antes de se envolver com ele. Frequentou muitos lugares e conheceu pessoas importantes.
As fotos mostravam uma mulher jovem, elegante e incrivelmente bela. Ela sorria na maioria das imagens ao lado do marido, parecendo feliz. Em uma determinada foto, Mikaela parecia ter olhado direto para a lente e era possível perceber algo diferente nos olhos esverdeados, ou talvez fosse a luz nas fotos que a favoreciam. O fato é que me detive mais do que necessário memorizando seus traços. Ela parecia um anjo na companhia de um demônio.
Kassian se apresentava como um playboy, um rico herdeiro que gostava de brincar com armas. Era da sua natureza ser belicoso e cruel. Agora que sei com quem Kassian está metido, sei o tamanho do perigo que ela corre e ter visto a face de Faizel a coloca no topo das vítimas desse assassino.
- Como ela se meteu nisso e casou com esse aprendiz de terrorista?
Mikaela não tinha idéia de onde estava metida, tenho certeza e nem precisava perguntar se acreditava nela. Esse tipo de homem não envolve as mulheres nas suas armações. Elas são meros acessórios para suas vidas de luxo e ostentação.
A partir daquele momento eu me dediquei a estudar os passos do árabe através das informações que a esposa passava ao Santoro. Quando a oportunidade se apresentou, invadimos a mansão onde Al-Maghrabi esperava seus futuros parceiros de negócios.
Nem tudo saiu como planejado, mas Mikaela foi salva e agora protegê-la tornou-se mais que uma missão. Era a minha escolha.
Se você gostou, toque na estrela. Obrigado! 🌟🤩
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top