Capítulo IX

Mikaela Evans⭐

- Brian tá vindo pra cá.

A voz potente do Capitão me fez ter um sobressalto e quase deixei cair um dos ingredientes que adicionava a panela para preparar o jantar que prometi ao Brian.

Ethan tinha o talento para se aproximar silenciosamente e seus passos não ecoaram no piso de madeira do corredor, por isso não percebi que estava de volta do treino. Ele não passou do batente entre a cozinha e a área, mantendo certa distância de mim que estava próxima ao fogão.

Minha atenção foi até os pés descalços, subindo novamente até o rosto de traços simétricos de deus nórdico.

Para se exercitar ele vestiu uma camiseta azul petróleo que acentuava a cor dos seus olhos e uma bermuda de tecido impermeável fino demais na minha humilde opinião, pois desenhava os músculos das coxas e... Deixa pra lá. Músculos. Estavam todos lá plenamente esculpidos e delineados por veias saltadas pelo esforço recente. Também usava luvas de musculação para proteger as mãos e garantir a pegada forte, sem que ficassem calejadas. O cabelo curto não caía na testa, mas quando úmido ficava arrepiado, o que era um charme a mais. Enfim... o ápice da virilidade.

- Aahh...o Brian... tá vindo...

- É isso... Vou tomar um banho rápido. Ele sabe a senha, vai entrar sem bater.

- Ele é assim mesmo. - sorri para disfarçar aquela troca de informações que só serviam para preencher as lacunas dos meus devaneios.

- Cheiro bom. Tá fazendo o quê?

- Um risoto 4 queijos. É uma receita simples, espero que gostem.

- Tenho certeza que sim.

Ethan permaneceu com a mão na cintura como se esperasse eu terminar minha indiscreta inspeção. Então se foi me deixando perplexa comigo mesma por ter capturado tantos detalhes em tão pouco tempo.

Depois do que aconteceu naquela madrugada naquele mesmo local, não tivemos oportunidade de ficar a sós. Nos dias seguintes, Brian estava comigo todo o tempo na Agência e me trazia em casa, onde permanecia até a chegada do irmão. O Capitão se ocupava o dia inteiro com as atividades de instrutor e outras investigações em andamento. E ainda precisaria se preparar para enfrentar o Secretário e outras autoridades para dar conta dos seus atos na prisão do Kassian.

Quando Brian chegou, nos acomodamos a mesa de jantar. Ele retirou seu notebook Dell da mochila e ajeitou-se na frente da tela. Olhou para mim e depois perguntou ao irmão.

- Qual a alegação estão usando para te enquadrar?

- Me acusaram de usar força excessiva na condução da prisão do ilustre fdp e ao Santoro por autorizar a invasão da casa, baseado em denúncias não comprovadas.

- É muita sacanagem!! - bufou.

- Eles estão tentando encontrar uma brecha para liberar o árabe o mais rápido possível.

A expressão do Capitão era de total contrariedade enquanto revelava a pressão que estava suportando por cumprir ordens e fazer o que julgava correto.

- Por pouco o Secretário não me acusou de ter um trauma de guerra e estar obcecado por vingança.

- E o Santoro?

- Ele tá se segurando como pode. Se a ação se provar infrutífera e descabida, nós dois seremos fritados pela Federal e o Secretário vai lavar as mãos.

- O Comandante vai falar de mim? - indaguei preocupada, pois se a suspeita do Kassian fosse confirmada seria péssimo para minha sobrevivência.

- Vai alegar a presença do defensor do árabe para não revelar nossa fonte e seu paradeiro, por motivos de segurança.

Soltei ar preso nos pulmões, deixando meus ombros caírem, porém o desânimo era maior do que o alívio.

- Conseguiu alguma imagem que identifique o Faizel? - Ethan perguntou.

- Ainda não. Ele não era alguém que se deixava fotografar e evitava ao máximo estar em público ou usar aeroportos onde pudesse ser flagrado e reconhecido - o agente mais novo analisava seu alvo, insatisfeito com o resultado - Mais esperto que o Kassian que adorava o flash de uma câmera.

- Ele gostava de ostentar sua riqueza. - concordei ácida.

- Baraki facilmente se mistura na multidão por não demonstrar o quão poderoso é e isso o torna mais perigoso.

- Não há nada relevante na sua biografia. Irmão do Khaleb e senhor de um feudo, onde mantém a população sob seu domínio como é comum nesses territórios. Nenhum motivo para ser apontado como traidor. - Brian enumerou o pouco que descobriu da biografia do Faizel.

- Nada, além de ser um dos apoiadores do Emir que preferiu manter-se nas sombras depois da suposta pacificação. - Ethan concluiu.

- Já vasculhei todo arquivo de imagens disponíveis da Interpol. Resta apelar às outras agências internacionais para que eu possa continuar a pesquisa.

- O Secretário não vai fazer o pedido a CIA.

- Não tem nada lá também. - Brian deixou escapar e o irmão o encarou.

- Não me diga que você...

- A autorização só viria daqui uns 10 a 15 dias quando eles se dessem ao trabalho de responder - falou como quem prepara o terreno para outro golpe. - Era isso ou...

- Brian, não.

- Ethan, não temos todo esse tempo. Cada dia sem provas, conta a favor do Kassian.

Os dois irmão iniciaram um debate ao qual eu só assistia, tentando entender.

O hacker dentro do agente, gritava por ação e adrenalina. Por outro lado, o soldado experiente e zeloso sabia que não deveria apoiar o irmão para cometer um crime virtual, mesmo que por um bom motivo.

- Você não pode reincidir, sabe o que te custaria.

- Eu tô muito mais esperto agora. Posso entrar e sair sem ser detectado.

- Esse é o problema. Achar que é mais esperto que uma agência de inteligência como a CIA.

- Não tô falando da CIA.

- Brian!!!

- Tô falando da Agência Israelense.

- Pqp, Foxie!!! Você rackeou a CIA e quer tentar a AI!!! Você tá maluco?!!

O Capitão estava raivoso e bateu o punho na mesa, levantando-se da cadeira em seguida.

- Você sabe o trabalho que deu limpar sua ficha e a acusação nem foi espionagem.

- Crime digital não tem regulação. - rebateu.

- Mas moralmente você fica marcado. Você sabe que esse é um dos motivos da resistência da Sarah...

Ele se arrependeu no instante que falou. Permaneci calada, enquanto o Capitão argumentava menos exaltado com o irmão.

- Esse caso é diferente. É para prender o bandido e salvar alguém de quem gostamos. - o mais novo alegou.

- Eu sei. Também quero fazer o máximo para ajudar a Mikaela, mas não podemos fazer algo que venha a ser contraproducente, entendeu?

O fato deles estarem realmente dispostos a fazer qualquer coisa para solucionar aquele caso iniciou um processo de culpa em mim.

- Brian, não faça nada disso - intervi - vamos encontrar outro modo.

- E se não houver?

- Se custar você ser desligado da Agência não vai nos adiantar de nada. - o Capitão pontuou.

- Mesmo que leve algum tempo, Faizel acabará cometendo algum erro que o deixará exposto. - argumentei.

- Ele é um escorpião escondido sob a areia e não vai sair.

- Até os escorpiões precisam caçar e ele gosta disso. - Ethan asseverou - Esse tipo de crime não se encobre para sempre.

O Capitão andava de um lado para o outro da sala e por vezes sua mão descia até o quadril, num ato que se tornou reflexo do seu nervosismo e impaciência.

Brian tinha uma expressão de desgosto. Ele era do tipo que não aceitava ficar impossibilitado de agir frente a um problema que envolvia tecnologia e informação, sua "expertise".

Meu nervosismo deixou meu corpo enregelado e tentei diminuir aquela sensação esfregando meus braços.

- Tudo bem? Tá com frio?

- Um pouco... - disfarcei meu real sentimento.

Ethan era calorento e mantinha o ar condicionado da casa no máximo. Deixei que pensasse que era o motivo do meu desconforto. Ele usou o controle para aumentar a temperatura e eu sorri em agradecimento, porém o conflito interno em que eu me encontrava era a verdadeira causa do meu incômodo.

O fato de que Kassian pretendia sair do país tão rápido, sem que eu soubesse para onde, me fez concluir que a compra das armas seria feita naquele dia na casa. Então, informei ao Santoro a provável data da negociação para que meu marido fosse preso ou eu seria obrigada a acompanhá-lo para qualquer lugar. Não imaginei que ele pudesse mudar de planos.

- Kassian mudou de idéia.

Adquiri a expressão de quem acabara de se lembrar de algo que passou despercebido. Me levantei inquieta como quem precisa pensar, antes de expor uma suspeita.

- As armas não seriam trazidas até a mansão. Ele provavelmente iria até onde elas estavam. - deduzi.

- Você ouviu algum nome de pessoa ou lugar?

Ethan veio até mim e pousou suas mãos sobre meus ombros no intuito de me encorajar a buscar na memória alguma informação que tivesse sido esquecida, devido à tensão dos últimos dias. Seu porte fisico faria qualquer pessoa com o meu biotipo se sentir acuada, porém a mim inspirava segurança e confiança. Tão diferente da aversão e medo que a proximidade do Kassian me causava nos últimos meses.

Minha vontade de revelar uma pista que pudesse arruinar qualquer que fosse o plano perfeito que meu ex marido arquitetou, superava o receio de me colocar cada vez mais em perigo como uma delatora.

- Pensa um pouco. Qualquer detalhe pode ser importante. - falou com a voz controlada, apesar da evidente ansiedade.

- Ele estava muito cauteloso e não largava aquele aparelho de celular. - iniciei o roteiro daquele último dia de liberdade do Kassian.

- Aquele Black Berry deve ter muitas informações e contatos, levaria um tempo pra desvendar a criptografia, mas se eu tivesse acesso seria muito útil. - Brian lamentou.

- Então, Mikaela. O que você lembrou? - o Capitão insistiu.

- Kassian me disse para eu ficar dentro da casa enquanto os visitantes do helicóptero estivessem com ele, então isso me levou a crer que receberia as armas naquela ocasião.

Os dois agentes ouviam com atenção minha narrativa, sem me interromper para que eu concluísse meu raciocínio.

- Então, o que levaram até ele era só uma amostra.

- Se as armas não estavam no helicóptero, estão em algum outro lugar. - Brian concluiu.

- Precisamos descobrir um ponto de ligação entre a aeronave e o traficantes.

- Eu copiei toda a investigação do Marco Aurélio, a perícia do local e o relatório final na íntegra. Foi isso que fui fazer na Agência. Algo não está batendo, vamos examinar e achar um detalhe que passou despercebido...

- Ou foi omitido propositalmente - ressaltei.

- Se os federais querem nos fritar, temos o direito de nos defender. O único jeito é ter provas e as provas nesse caso só iremos conseguir assim.

Ethan pensou um pouco e por fim concordou. O hacker sorriu vitorioso e estalou os dedos dramático antes de se concentrar na tela do notebook.

Observei os dois irmãos por alguns instantes. Eles eram fisicamente parecidos, porém com personalidades praticamente opostas.

- Se vamos ter uma longa noite, melhor comermos algo. - sugeri.

O Capitão não disse nada e parecia não ter prestado atenção, estava de pé olhando o note onde o irmão digitava freneticamente.

- Eu preparei o jantar. Alguém com fome? - insisti, não querendo desperdiçar a comida que estava pronta.

- Com fome eu como até pedra, então vou arriscar.

Brian falou sem levantar os olhos da tela. Passei por ele e dei um leve tapa na sua cabeça.

- Aiii!!! Doeu!!!

Contornei a mesa e fui para a cozinha.

Enquanto Brian continuava concentrado na sua pesquisa, Ethan passou a observar meus movimentos entre o forno e o armário, onde estavam os pratos e copos. Sua atenção me causava uma sensação estranha que não era incômoda. Nunca fui tímida, mas ele conseguia me deixar encabulada quando pousava aqueles dois diamantes azuis sobre mim. Um olhar que parecia querer desvendar meus segredos, meus pensamentos mais íntimos e não somente admirar a bela aparência de uma mulher. Talvez uma mistura de curiosidade e muito interesse, assim eu desejava.

Servi os pratos e levei para a mesa. Brian sentiu o aroma e afastou o notebook para dar espaço. Depositei um à sua frente e o outro na frente do Ethan, que agora estava sentado ao seu lado. Me sentei no lado oposto da mesa redonda, numa posição atrás da tela do note.

Por algum tempo nenhum dos dois disse nada, apenas levavam os talheres a boca enquanto olhavam atentos o aparelho eletrônico, esperando por alguma informação relevante.

- Não é que tá bom mesmo!! Tem mais?

Apontei para a cozinha e Foxie se levantou indo até lá para se servir.

- Sabia que você tinha outros talentos. Está muito bom. - Ethan elogiou.

Apenas sorri em agradecimento, pois não consegui pensar em nada para responder.

Brian sentou-se novamente e olhou com atenção para a tela que refletia o brilho na estampa metalizada da sua camiseta.

- Pessoal, acho que encontrei algo interessante.

Brian murmurou com o garfo na boca, chamando nossa atenção.

- O que foi?

- Esse cara, o dono do helicóptero, se negou a declarar o que perdeu na queda da aeronave. Alegou que o seguro cobriria o prejuízo. Samir Aziz.

- Ele é um comerciante de todo tipo de coisas exclusivas, caras ou exóticas. Seus serviços são muito requisitados. - falei.

- Kassian já negociou com ele antes?

- Algumas vezes. Objetos de decoração, jóias, uma moto uma vez. Qualquer coisa que seus clientes desejem muito e possam pagar, ele consegue.

- O cara tem um volume de negócios bem diversificado.

Explicou ao mudar de tela onde se via listas das atividades do Aziz.

- Nesse ramo, os clientes vips prezam por sua discrição e eficiência. - acrescentei.

- Ou ele espera ser ressarcido pela perda ou foi apenas um testa de ferro para enviar a encomenda até o Kassian.

- Tem um jeito de descobrir.

- Como? - perguntaram ao mesmo tempo.

- Indo até o Aziz.

- Mikah...

- Como esposa do Kassian, posso tentar confirmar se o transporte está sendo feito através do Aziz.

- A notícia não vazou para a mídia, os árabes cuidaram de abafar, mas é provável que os negociadores saibam. - Brian ponderou.

- Se ele for uma ponta da rede do tráfico, pode ser perigoso você se expor - o Capitão falou cauteloso.

- Enquanto ninguém souber que eu me afastei do Kassian, não há motivos para desconfiarem de mim.

Os dois agentes de entreolharam, avaliando as chances daquela jogada ter um resultado positivo e mais relevante do que perigoso.

- E então?

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