Capítulo II
Mikaela Evans⭐
Após ultrapassar as cancelas eletrônicas, o comboio de SUVs estacionou na entrada de um edifício moderno com portas e janelas de esquadrias na cor grafite e vidros espelhados que refletiam o sol do final da tarde. Antes de entrar no prédio, os agentes recolheram dos veículos o material utilizado na ação, armas, coletes e transmissores.
Ethan abriu a porta do carro e me chamou para que os acompanhasse. Ele retirou seu colete com um pouco de dificuldade. Percebi o olhar atento do agente Foxie ao ver a marca do tiro no equipamento de proteção.
- Você tá legal? Tá ferido?
O mais jovem perguntou, nitidamente preocupado.
- O colete segurou bem.
- Era uma 45mm.
- Fica tranquilo, Foxie - ele mexeu o braço atingido. - Tô inteiro.
Assim que atravessamos as portas os agentes reunidos no hall fizeram uma breve continência ao Capitão e aplaudiram o grupo que retornava de uma missão. Apesar de não seguirem uma hierarquia militar, eles reconheciam a patente dos oficiais que coordenavam a Agência em cargos de liderança.
- Bom trabalho, Capitão!!!
- Missão dada é missão cumprida!!!
No meio dos homens e mulheres de preto, eu destoava com meu traje longo e florido. Estava vestida para uma festa na piscina e fui parar na Agência Central de Inteligência e Segurança - ACIS.
No final do corredor, um homem de meia idade chamou a atenção de todos, silenciando a comemoração.
- Capitão Hawkeye, venha até a minha sala.
Ethan sinalizou para o grupo que o acompanhava e eles seguiram por outro corredor, levando o material para ser revistado e armazenado.
Eu o acompanhei e antes de chegar no escritório do Comandante, Ethan me conduziu para outra sala, indicado onde eu deveria ficar.
- Me espere aqui.
- O que eu faço?
- Quando terminar a conversa com o Comandante, eu volto. - disse e saiu apressado.
Sozinha, observei o local e deduzi ser a sala do Capitão. Um escritório pequeno e simples, idealizado para alguém que não exercia uma função burocrática e sim tática. A mesa de vidro e base de ferro estava perfeitamente organizada, as cadeiras eram de couro preto, assim como o sofá embaixo da janela. A estante que ocupava a parede atrás da mesa tinha a parte inferior e superior com armários e gavetas. O nicho central foi ocupado por alguns objetos relacionados à profissão, dentre eles um quadro de medalhas das Forças Especiais ganhava destaque.
O tempo parecia se arrastar enquanto eu esperava para finalmente poder ir embora como imaginava. Então, a porta foi aberta e o agente Foxie entrou.
- Sou eu, Brian. Tudo bem?
- Na medida do possível, sim.
- O Capitão me pediu para te trazer algo.
Ele segurava um copo de café em cada mão e me ofereceu, sorrindo com simpatia. Devolvi o sorriso, sentindo um pouco de alívio por não estar totalmente solitária.
- Não sabia o que preferia, então trouxe café puro e capuccino.
- Capuccino. Obrigado.
- Beleza. Prefiro puro mesmo.
Eu bebi um gole e ele bebeu do seu copo.
- Você e o Capitão são...
- Irmãos.
Brian é irmão mais novo do Ethan, a semelhança não deixava dúvidas, porém foi o seu cuidado com o possível ferimento do Capitão que chamou minha atenção.
- Ah... e como ele está?
- Ainda em reunião com o Comandante. Ele alvejou o helicóptero e não sobrou nada.
- E isso foi ruim?
- Comprometeu o resultado da ação e o Santoro pediu explicações.
A porta foi aberta novamente e uma jovem mulher entrou, seu olhar era de preocupação. Eu estava no sofá e Brian sentado em uma das cadeiras próximas da mesa, ainda bebendo nossos cafés, aparentando uma calma que não existia.
- Foxie, o Comandante está nos chamando, agora.
Disse em tom de urgência para o rapaz e me olhou de modo especulativo. De alguma forma a minha presença parecia ser um incômodo para ela.
- Sarah, essa é a Mikaela.
Ele nos apresentou e a moça apenas assentiu.
- Seria um prazer em outra ocasião. - respondi educada e sincera.
Brian se levantou e indagou.
- Deu ruim pra nós?
- O que for ruim pro Cap, é ruim pra nós também.
- Fique aqui. Quando terminar a reunião, saberemos o que fazer. - ele falou para mim.
- Está bem.
Sarah saiu e Brian a seguiu, fechando a porta atrás de si.
Que escolha eu tinha? Pensei. Nem podia dizer que sentia muito. Soaria estranho, mas era exatamente assim que me sentia, perdida no meio de toda aquela confusão.
Horas se passaram sem que ninguém retornasse. Exausta pela tensão daquele dia interminável, acabei adormecendo no sofá.
Ethan Hawkeye☀️
Voltei para minha sala depois de três horas de explicações e muito puto por ter tomado uma "chamada" do meu superior, quando tenho total convicção de que fiz o que era necessário. Os demais foram dispensados, só eu permaneci escutando o sermão.
Santoro deveria entender que vidas são mais importantes do que preservar as provas de um crime.
- Meus homens estarão sempre em primeiro lugar. Civis sempre serão minha prioridade. Se a Federal não conseguir nada do Al-Maghrabi, problema deles.
- Ethan, todas as provas se perderam. Como vou explicar isso para o Secretário?
- Diga que foi necessário para garantir a vida dos meus soldados e de pessoas inocentes.
- Você não poderia ter resolvido de outra forma?
- Quem sai em missão comigo, volta comigo.
Mal sabe ele que o árabe está vivo a custa de muito controle da minha parte.
Vendo que não adiantava rebater e que não havia como voltar atrás da decisão que eu tomei e assumia, o Comandante mudou a argumentação.
- O federal já está fazendo loby contra nós. - reclamou.
- É usual do Marco Aurélio tentar nos desacreditar, mas nesse caso ele tá bastante empenhado.
- A Sra. Al-Maghrabi vai ficar sob nossa custódia, até que seja definido o papel dela nessa história.
- Ela vai ficar detida? - indaguei mais interessado do que pretendia parecer.
- Não podemos detê-la sem provas, mas também não posso deixar ela solta, correndo risco de possível retaliação dos cúmplices do marido.
- Onde vai esconde-la?
- Você vai levá-la para sua casa.
Eu vi um riso de satisfação no seu rosto.
- É sacanagem?
- O condomínio dos oficiais é seguro e discreto. Ou você quer que eu a deixe aqui?
- Comandante, não acho boa idéia.
- Mas é a única que tenho no momento. Se Marco Aurélio a pegar, ela será entregue à Interpol e extraditada junto com o marido. Te parece uma idéia melhor?
Eu lembrei da violência de Kassian contra ela e que ele quase a matou na minha frente. Não poderia permitir isso nunca.
- Leve-a consigo e eu mantenho o federal longe de vocês.
Falou dando por encerrada a nossa reunião.
Entrei na minha sala e encontrei Mikaela encolhida no sofá, adormecida. Tirei minha jaqueta e a cobri. Sua pele é tão sensível que hematomas já se formavam nos braços, onde Kassian deve a ter segurado. Somente um crápula era capaz de agredir a própria mulher e atentar contra sua vida da forma como Al-Maghrabi o fez. Sendo assim, não seria exagero esperar qualquer ato covarde vindo dele.
Ainda precisava ler alguns relatórios acumulados que Sarah me entregou para revisar e assinar, então sentei na minha mesa. Finalizei meu trabalho o mais rápido que pude e sem fazer barulho. Quando terminei, me aproximei do sofá e a chamei com a voz baixa para não assustá-la.
- Mikaela...
Ela piscou algumas vezes antes de se levantar e sentar de uma vez.
- Você demorou... Eu dormi quanto tempo?
- Algumas horas.
- Acabou? Posso ir embora?
- Por enquanto não é possível.
- Então, sou um tipo de prisioneira?
- Não. Você está sob a proteção da Agência.
- Como assim? - ela piscou confusa.
- Ficarei responsável pela sua segurança.
- Eu posso ir para um hotel...
- Achamos que não é uma boa idéia.
- Porquê?
- Pode haver retaliação por parte dos comparsas do Kassian.
- Todos que estavam na casa foram presos ou mortos, então não acredito...
- Os homens com quem ele negociava, com certeza não estão felizes.
Mikaela me olhava e ponderava sua situação, frente ao que eu revelava.
- São traficantes de armas e tiveram um grande prejuízo. Então, é melhor que permaneça comigo.
- Onde?
- Você vem comigo para minha casa.
Ela estava amedrontada, mas não como antes e demonstrou que já confiava em mim, concordando. Era estranho sentir aquela vontade de proteger uma pessoa que eu mal conhecia, mas o meu instinto me dizia para fazê-lo e ele não costumava estar errado.
Não foi uma decisão calculada, foi um impulso me colocar entre ela e o projétil que fatalmente a atingiria. Quando meu corpo se chocou contra o dela, tive que a manter segura para que não caísse ao chão.
No momento em que a vítima está em pânico é necessário manter o contato visual e falar de forma pausada para lhe passar segurança. Então, retirei a balaclava do meu rosto e a fiz olhar diretamente para mim. O lábio ferido tremia e ela hiperventilava, quase sufocando. Ela parecia tão frágil sob o toque das minhas mãos que eu quase a abracei naquele momento. O que seria uma quebra de protocolo totalmente perdoável.
Reparei que seus olhos tinham um tom de verde incomparável e a beleza do seu rosto era quase surreal. Mikaela realmente parecia um anjo que acabara de despencar dos céus, caindo diretamente no inferno.
Mikaela Evans⭐
Quando saímos do escritório praticamente não havia mais ninguém nas dependências da Central. Não avistei Brian ou Sarah em lugar algum.
Ethan dirigiu o carro e em poucos minutos chegamos no condomínio onde ele morava. Ele ocupava a última casa de uma das ruas. No seu interior, o imóvel se dividia em uma sala com estofados e a mesa de refeição, uma cozinha separada por uma bancada de granito cinza com banquetas da mesma cor e bases cromadas, um banheiro social e duas suítes. Não era grande, porém confortável e funcional.
Ao entramos, ele me levou até o quarto que eu deveria ocupar. Havia uma cama maior que a de solteiro, arrumada com uma colcha de desenhos assimétricos, um armário e uma mesa de trabalho com luminária e alguns livros.
- O Brian não vem?
- Hoje não. Algum problema em ficar sozinha comigo?
- Não é isso. Vocês são irmãos, imaginei que ele morasse aqui e como vou ocupar esse quarto...
- Como sabe?
- Nós conversamos e não é difícil deduzir.
- Ahhh... Ele dorme algumas vezes aqui, mas tem sua própria casa, onde nossos pais moravam.
Silenciei me sentindo idiota por fazer tal pergunta e parecer curiosa demais.
- Ele foi levar a Sarah em casa.
- Eu a conheci. Eles são namorados?
- Ele ainda não conseguiu essa façanha. - falou sorrindo.
Ethan ficou parado no meio do aposento e eu andei na direção da porta que dava para o banheiro.
- Tem toalhas limpas e... bem... pode usar o que precisar.
- Um banho é tudo que preciso, mas não tenho outra roupa, não tenho nada pessoal comigo.
- Vou pegar algo que te sirva no meu armário.
- Obrigada. - Eu tirei a jaqueta que ainda vestia e lhe devolvi.
Percebi seu olhar pelo meu corpo envolto no vestido, como se calculasse minhas medidas. Em seguida saiu, indo para o outro quarto. Lógico que qualquer roupa dele ficaria enorme em mim. Ethan ostentava um físico bem trabalhado, o peito largo, braços fortes, coxas grossas e... enfim, um soldado de elite. Nenhuma roupa dele iria me servir exatamente, mas não havia outra opção que não fosse aceitar o que ele me trouxesse. Ele logo voltou com um shorts de pijama com cadarço e uma camisa de malha, me deixando sozinha novamente.
Após tomar um banho quente e vestir o pijama, saí do meu quarto que ficava de frente para o dele. O vi pela porta entreaberta, sentado na cama tentando alcançar o hematoma nas costas, causado pelo tiro da arma do Kassian. Oferecer ajuda era o mínimo que poderia fazer.
- Precisa de ajuda?
Ethan me encarou pelo espelho do armário e eu parei na porta.
- Desculpe, eu vi o machucado.
- Não é nada, tudo bem.
Eu entrei e fui até ele, mesmo que dissesse ao contrário o machucado deveria doer bastante.
- Deixa eu te ajudar.
Ele me entregou o gel que tentava aplicar e eu toquei o ferimento com cuidado. Mesmo reparando o quanto ele é forte, tive cuidado para não causar mais dor.
- Por que você fez aquilo?
- O quê?
- Levar um tiro por uma pessoa que nem conhecia.
- É o meu trabalho.
- E até onde você é capaz de agir pelo seu trabalho?
Deixei minha mão sobre seu ombro e nos olhamos em silêncio.
Ethan tem os olhos azuis como duas águas marinhas. Eles demonstravam o seu cansaço e quase se fecharam enquanto eu massageava os músculos ao redor da mancha arroxeada. Quando terminei a massagem ele despertou e se levantou, vestindo a camisa.
- Obrigado. Ajudou bastante.
- Eu te agradeço por salvar a minha vida.
- Por nada. Você deveria descansar um pouco. Se quiser comer algo...
- Não se preocupe. Eu tô bem.
Voltei para o meu quarto e deitei tentando dormir, porém mil pensamentos ocupavam minha mente. Eu estava vivendo um pesadelo. Kassian tentou me matar. O cretino realmente atirou em mim. Eu não tinha como fugir, não tinha dinheiro e meu passaporte foi confiscado. Minha única opção era permanecer sob a proteção do Capitão Ethan Hawkeye.
Eu apaguei e acordei como se a noite tivesse passado em minutos. Acordei com fome, então me levantei e passei pelo quarto silencioso do Capitão. Segui para a cozinha que era no estilo americano, equipada com utensílios em inox e ideal para refeições rápidas. Abri a geladeira e peguei leite, depois fui vasculhar os armários.
- Por favor, tenha achocolatado.
Para minha sorte, achei. Fiz um copo e estava bebendo quando a porta se abriu silenciosamente, o susto quase me faz virar o líquido em cima de mim.
- Bom dia!
Brian entrou pela cozinha com uma sacola de compras nas mãos.
- Você quase me mata de susto.
- Chocolate? Você pode? - brincou.
- Eu posso tudo.
- Então, vai saborear meu café da manhã especial. Cadê o Cap?
Brian olhou na direção do corredor, parecendo preocupado.
- Ethan não costuma dormir tanto.
- Eu o ajudei ontem com o ferimento nas costas.
- Ele tá muito machucado?
- Por sorte o colete protegeu onde a bala o atingiu.
Ele suspirou consternado.
- Ele tem mania de não falar quando tá machucado.
Dito isto, ele retirou os alimentos que trouxe e começou o preparar a refeição. Conversamos enquanto ele me servia.
- Você faz sempre isso, o café do Capitão?
- Quase sempre. Só assim pra ter certeza que ele vai comer.
- Ele precisa dessa vigilância?
- Ele cuida de nós e eu cuido dele, quando ele deixa.
- Ele é resistente em pedir ajuda.
Eu me calei ao ver o Ethan parado na entrada da sala de braços cruzados nos olhando. Não estava com a melhor cara, provavelmente também teve uma noite ruim.
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