3 - ÚNICO
"Elisa, você prefere o arco-íris após um dia chuvoso ou dormir durante a chuva?"
"Abel, pare com suas conversas sonhadoras." – eu ri.
Meu irmão era único. Nunca havia conhecido um rapaz sonhador. Por isso que ele nunca conseguiu outra noiva além de Virgínia. Os rapazes tinham que ser másculos e inteligentes, não bobos e sonhadores.
A terceira parte da minha história começa com um sorriso. Abel era a única família que eu tinha, portanto passei a vê-lo como uma figura paterna – não fraterna. Às vezes ele trazia-me presentes, como uma flor, um prendedor de cabelo, meias quentes.
"Elisa, eu tenho algo diferente para você hoje. Eu encontrei em cima da caverna, não sei exatamente o que é – parecem engrenagens –, mas senti que devia dar-lhe."
De fato, eram engrenagens. Não quero estragar a surpresa, mas ao mesmo tempo quero revelar um segredo – não eram engrenagens quaisquer. Eram além do especial. Eu não sabia naquele momento. Demorei muito para descobrir que era uma parte de mim. Um paradoxo – algo que nunca esteve lá antes, mas sempre esteve por perto. Um desejo do futuro preso no passado.
"Que lindo!" – exclamei – "É tão brilhante."
Aquele era um dia preguiçoso do qual Abel não trabalhava. Estávamos deitados na caverna, conversando e rindo. Ele comentava que eu parecia mais alegre àqueles dias; eu sentia-me mal por não lhe falar sobre Pô, as crianças e as jovens virgens dos quais eu entrosava. Não queria mentir para o meu irmão que fazia tanto por mim, porém não queria ser privada da interação social. Novamente, eu menti, contando-lhes das práticas de magia.
Dias depois eu me descuidei brincando com Pô enquanto conversava com uma jovem de minha idade.
"Não é assustador viver numa caverna, senhorita?"
"Não porque eu sempre tenho companhia. Pô, meu melhor amigo, as crianças e mocinhas da cidade. Amo todos vocês! E lhes agradeço por não revelarem minha localização. Hoje em dia o único adulto que confio é meu irmão mais velho."
Envergonhada e distraída, ela caiu. Esse pequeno acontecimento me fez cometer o segundo maior erro da minha vida.
Estiquei minha a mão e imaginei sua perna curada, sem arranhões ou sangue. Pude sentir uma luz sob meus olhos fechados – sabia que minha mão brilhava.
"Isso é incrível! Por que os adultos encaram como algo ruim?"
Seu fascínio era desprezível para uma pessoa que nos observava. Segurando Pô pela cabeçada, ele se afastou em silêncio. O silêncio perturbador que iria me destruir.
"Faça algo divertido!" – horas mais tarde, Abel voltou das compras.
A grama cortada flutuou na nossa frente, a fiz tomar formas impossíveis à mão humana. Com apenas três fios de grama, fiz um coelho verde saltitar pela caverna.
"Isso é impossível!"
"Para você, é impossível, Abel."
Uma vez por semana tínhamos uma tarde só nossa. Relembrando, rindo, fazendo truques bobos.
"Eu queria voltar a ler, irmão... Gosto da magia dos livros."
"Eu prometo que vou lhe comprar o livro que quiser. Se tivesse mais tempo, eu lhe ensinaria a escrever suas próprias histórias."
"Por que eu sou assim? Apesar de ser uma dama, desfavorecida por natureza, nasci loira com os olhos azuis, nunca poderei ser escrava, mas tive o azar de ter um lado inumano."
"Não é inumano. Sua alma é forte, Elisa. Tão pura e poderosa que precisou extravasar da forma mais bela possível: dando-lhe um dom."
Abel realmente era como um pai. Apoiava-me, amava-me, trazia-me presentes.
Adoraria poder falar de todos os nossos momentos de amor e amizade, mas não tenho muito tempo. Sem poder dar detalhes, digo-lhes tudo o que realmente importava da maneira mais simples – meu irmão e eu nos amávamos plenamente.
Por isso aquela noite foi tão dolorosa.
Eu perdi meus pais, minha cunhada, e por fim meu irmão. Perdi tudo.
Aquela noite em que senti o cheiro de fumaça e vi novamente o fogo. Em frente a um grupo, estava o dono dos cavalos levantando a maior tocha. Lembro-me quando meu irmão correu para me proteger, me pedindo para fugir sozinha. Aquela noite que eu corri dez metros até ouvir o grito de Abel. Quando usaram uma faca para perfurar seu corpo cansado; quando usaram o fogo que deveria queimar-me para queimar sua carne. Quando eu gritei de dor desejando não causar tanto sofrimento aos meus entes queridos. Quando segurei a engrenagem perto do meu peito. Quando a engrenagem brilhou fortemente. Quando eu chorei implorando uma segunda chance.
E minha segunda chance foi concedida.
"...você prefere o arco-íris após um dia chuvoso ou dormir durante a chuva?"
Quando eu abri meus olhos e revivi aquele dia.
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