• Capítulo 3 - Erin: a praga da família


       — Mr. Perkins! — chamou Evangeline quando viu o mordomo a passar no corredor dos aposentos ducais. — Podia dar-me um momento?

       O mordomo aproximou-se com um ar sereno, algo que Evangeline já percebeu ser uma característica sua.

       — Claro, em que posso ajudá-la milady? — perguntou solícito.

       — Preciso de sanar uma dúvida, e creio que poderá me ajudar. Sabe dizer-me em que quarto é que Erin e Isaac se instalaram?

       — Claro, eles estão nestes aqui. — disse Perkins apontando para as portas no lado oposto do corredor.

       Evangeline franziu a testa.

       — Logo em frente aos quartos ducais?

       O mordomo assentiu.

       O corredor principal da mansão era destinado aos aposentos ducais e aos quartos destinados aos filhos que vierem a ter, visitas eram colocadas em quartos noutro andar. Erin sabe bem disso, e com esta atitude deixou claro que pretende tomar uma posição de poder naquela casa, coisa que não iria permitir.

       — Peça a alguns criados para remover os pertences de ambos e colocá-los num dos quartos de hóspedes, de preferência os que forem mais distantes desta ala, por favor. — instruiu Evangeline e o mordomo assentiu e saiu para colocar em prática a sua ordem.

       Voltou-se para o seu novo quarto e entrou, dando de caras com Dorian a abotoar os botões de punho da camisa que usaria ao jantar.

       — Nem sabes o que eu acabei de descobrir. — proferiu exasperada fechando a porta.

       — Pela tua cara não é nada de bom. — retrucou Dorian aproximando-se e beijando-a de leve.

       Evangeline sentiu a fragrância da água de colónia dele e divagou por segundos.

       — Sabes em que quartos Erin e Isaac se instalaram? — perguntou e Dorian fitou-a à espera da resposta. — Nestes logo em frente.

       O duque franziu o cenho e manteve-se em silêncio. Evangeline quase podia ouvir as suas engrenagens a funcionar.

       — Ninguém me informou sobre isso. — disse por fim. — E o que vamos fazer quanto a isso?

       — Eu já tratei do assunto, pedi que tirassem as coisas deles de lá e que as colocassem num dos quartos de hóspedes.

       — Em pouco tempo já começas a impor autoridade. -— disse Dorian com um sorriso caminhando até à esposa. — Como uma duquesa.

       — E o que te parece isso? — perguntou observando-o atentamente.

       Dorian observou-a de alto a baixo e mordeu o lábio.

       Caminhou até ela e andou ao seu redor lentamente, analisando-a descaradamente provocando tremores no seu corpo por estar a ser observada com tanta minúcia.

       — Extremamente atraente e poderosa. — sussurrou perto do seu ouvido.

       Sorriu e estremeceu quando sentiu a língua do marido roçar no lóbulo da sua orelha, isto enquanto a abraçava por trás.

       — Temos que ir jantar querido. — balbuciou levando uma mão ao seu cabelo.

       — Antes do prato principal vem a entrada não é? — perguntou mordendo a sua orelha e esfregando o nariz no seu pescoço.

       — Não neste caso. — afastou-se dele ignorando o seu ar amuado. — Vamos.

       Dorian vestiu o colete e seguiu a esposa para fora do quarto em direção ao salão de refeições. Caminharam em silêncio, porém de mãos dadas.

       Chegando ao salão Dorian puxou a cadeira do lado direito da mesa para Evangeline se sentar, e depois de acomodada foi sentar-se à cabeceira. Com a sua ordem o jantar foi servido, e sob o olhar dos criados iniciaram a refeição.

       Comiam embalados pelo silêncio esporadicamente interrompido pelo som dos talheres, mas mal sabiam eles que aquela paz não duraria muito tempo.

       — Um de vocês que acrescente mais um prato na mesa. — Dorian fechou os olhos e apertou os talheres com mais força, tentando encontrar algum autocontrolo. — Não perderia por nada deste mundo a oportunidade de compartilhar uma refeição com o meu enteado e a sua adorável esposa.

       Com todo o descaramento que possuía, Erin deu a volta à mesa e sentou-se do lado esquerdo da cabeceira, de frente para Evangeline. Rapidamente uma criada serve-a e ela começa a comer, com toda a naturalidade possível.

       — Espero sinceramente que tenham feito uma boa viagem. — disse com um sorriso irritante. — Uma viagem desde Londres até Devonshire é bastante longa e cansativa.

       — Nós sabemos milady, acabamos de fazer esse percurso. — retrucou Evangeline suavemente.

       Erin deu um sorriso fechado, que para Evangeline irradiou falsidade em demasia.

       — Estou ciente disso minha querida, apenas estou a expor a minha compreensão nesse assunto.

       — Compreensão essa que é totalmente dispensável. — retrucou Dorian secamente, sem levantar o olhar do prato.

       Evangeline não acrescentou nada à fala do marido, e Erin não contestou o enteado, porém estava visível na sua postura que ela não gostou do tom de voz dele. Mas calar era coisa que não estava disposta a fazer.

       — Bom, devo dizer que fiquei deveras surpreendida com a notícia do vosso casamento, não esperava por isso. — Erin desviou o assunto para tentar deixar o ambiente mais leve, mas qualquer tentativa da sua parte era totalmente falhada.

       — E porquê tanta surpresa milady? Acha assim tão improvável que eu e Dorian tenhamos casado? — rebateu Evangeline focando o olhar na matrona.

       — Acho improvável Dorian se ter apaixonado, e logo por si.

       Lady Cavendish tentou não dar uma resposta áspera à mulher, especialmente quando o seu marido estava a ponto de a expulsar dali ao pontapé.

       — Creio que o meu marido seja capaz de amar alguém, que eu saiba o coração dele não é de pedra. — retrucou levando o garfo à boca.

       A mulher deu uma risada curta e sarcástica.

       — Nunca se conhece um homem verdadeiramente por muito íntimo que ele nos seja, mesmo que o homem em questão seja nosso marido.

       — Que eu saiba não me conhece o suficiente para poder opinar sobre a minha vida! — rosnou Dorian fitando a madrasta de lado.

       Podia não conhecê-lo profundamente, mas isso não era impedimento para a provocação. Sempre foi algo que apreciou fazer pois Dorian nunca facilitou a sua vida desde que se tornou a esposa do falecido duque, e já que ele não lhe dava paz, ela também não lhe daria, e não seria pelo facto de Harry estar morto e ela ter sido destronada do seu título que cessará aquele que se tornou o seu passatempo favorito.

       — Convivi contigo desde a morte da tua mãe, durante seis anos meu querido, isso já me dá uma perspetiva ampla sobre ti. — respondeu Erin de modo aveludado.

       — Eu conheço Evangeline desde os seus doze anos, ou seja, há oito anos. Se a quantidade de anos for decisiva, então ela conhece-me bem melhor.

       Evangeline sorriu para o marido, oferecendo-lhe apoio de modo silencioso.

       — Eu acho bastante inusitada a amizade entre uma menina no auge da inocência que os seus doze anos lhe atribuem, com um jovem sabido de vinte anos. — retorquiu Erin de modo dissimulado.

       — Pois eu não vejo problema nenhum nisso. — respondeu Evangeline focando na mulher de modo duro. — Eu via Dorian como um irmão mais velho.

       — Já não tem irmãos que chegue?

       Erin tomou um gole de vinho, com uma elegância que não condizia com a sua compleição falsa e matreira.

       — Elliot, Oliver e Liam são insubstituíveis e eu amo-os a todos por igual, mas como sou eu a mais velha de todos, é normal que Dorian tenha ocupado o lugar de um irmão mais velho quando nos conhecemos, e ele tratava-me e agia como se eu fosse a sua irmãzinha.

       — Irmãzinha esta com quem casou. Eu acho estranho o modo abrupto com que Dorian se apaixonou por si Evangeline, é... intrigante.

       Erin não duvidava do amor do enteado por aquela jovem, mas se pudesse estremecer um pouco as ideias dela, bem que o fará. Se os puder destabilizar, melhor para si.

       — Está mesmo a duvidar ou a pôr em causa o meu amor pela minha esposa? — perguntou o duque de modo pausado, um claro sinal de alerta.

       — Não duvido do poder de sedução da jovem duquesa, eu sei que existem muitas maneiras de uma mulher deixar um homem aos seus pés. — disse misteriosa observando Evangeline pela borda do copo.

       — Não é o aspeto ou saber ser provocadora que irá atiçar o interesse masculino. — retrucou Evangeline séria.

       Não percebia como conseguia dar atenção àquela mulher. Mas não era capaz de deixar a víbora sem uma resposta decente.

       — Não só. — rebateu Erin. — Isso são fatores essenciais, mas não é a isso que me referia, referia-me a modos mais... ilícitos.

       — Como por exemplo?

       — As poções do amor. — disse misteriosamente.

       Evangeline franziu a testa e fitou Dorian, que detinha a mesma expressão que ela. Mas o que raio aquela mulher estava para ali a dizer?

       Não conseguia entender a lógica de Erin, e a realidade é que não faria nenhum esforço para conseguir tal coisa, não era do seu interesse fazê-lo e só lhe traria dores de cabeça.

       — Com poções do amor está a referir-se a venenos e feitiçaria portanto. — respondeu e não foi capaz de conter o sarcasmo na voz.

       — Óbvio que não! — exclamou a mulher ultrajada. — Poções do amor são estimulantes, servem para estimular o amor de um homem pela mulher que o deseja e ama.

       — Isso não existe! — retrucou Dorian convicto.

       Evangeline concordou com ele, e com aquilo concluiu que a mulher era completamente louca.

       — Oh, existe sim, aliás há um caso que uma mulher da alta sociedade francesa do século XVII que usou, ou diz-se que usou, essas poções para garantir a eternidade do amor do seu amante. — explicou Erin com ar sabichão.

       — E quem era a mulher? Quer dizer, se ela existiu. — perguntou Dorian nem um pouco interessado na reposta.

       — Foi a célebre marquesa de Montespan, que diz-se ter usado essas poções no rei Luís XIV, o seu amante por treze longos anos.

       — E uma nobre da corte francesa ia arriscar-se a ter venenos consigo no palácio de Versalhes? Ridículo. — retrucou Evangeline.

       — Não passam de suposições já que ela não foi acusada de envenenamento formalmente, mas olha que a bruxa a quem ela supostamente comprava as poções foi queimada na fogueira acusada de bruxaria, e a filha dela deu o nome de Montespan como uma das clientes da mãe, a La Voisin...

       — Esta conversa já está no patamar do ridículo! — silvou Dorian interrompendo-a. — Está a insinuar que Evangeline fez o mesmo que essa marquesa para que eu me apaixonasse por ela de forma abrupta, é isso?

       Evangeline só queria sair daquela mesa para não ter que olhar para a cara da jibóia!

       — Longe de mim fazer isso! Evangeline é uma jovem encantadora, carismática, completamente o oposto da duquesa nossa predecessora. — provocou com todo o veneno que podia destilar. — Não tinha brilho nenhum ou sequer algum talento, uma pobre alma desengonçada e fingida.

       E aquela foi a gota de água para Dorian.

       — Lave essa boca imunda antes de falar assim da minha mãe! — vociferou Dorian após dar um murro forte na mesa. — Você acha-se digna de criticar o comportamento ou índole que quem quer que seja? Logo uma mulher que nem ao primeiro marido soube ser fiel quando ele lhe fez o favor de casar consigo, isto só porque não soube manter as saias para baixo? Poupe-me da sua falsidade e cinismo!

       Levantou-se com violência fazendo a cadeira tombar para trás, atirou o guardanapo de pano sobre a mesa e caminhou para fora do salão sem olhar para trás. Evangeline, acordando do seu torpor devido à explosão do marido, saiu da sala logo após lançar um olhar de puro ódio a Erin, que continuou a refeição ignorando o facto do enteado a ter exposto à frente da mulher dele.

       Evangeline procurou Dorian incessantemente, mas parecia que ele não queria aparecer. Procurou na biblioteca, no escritório e até no quarto, mas ele não estava em lado nenhum. Mas rapidamente lembrou-se de um local onde ele pudesse estar: a sala privada da duquesa.

       Caminhou até ao quarto andar e parou um momento em frente à porta de ébano. Respirou fundo e entrou, encontrando Dorian sentado numa poltrona de frente para à lareira apagada, fitando fixamente o retrato colocado acima da mesma.

       O retrato era uma reprodução belíssima de Liz Cavendish, com os seus belos cabelos negros presos num penteado alto, vestido azul turquesa com bastantes babados e um sorriso gentil e feliz enquanto ela tinha as mãos unidas junto ao ventre.

       O duque não desviou o olhar do retrato quando ouviu a porta abrir e Evangeline entrar, mas isso não a impediu de avançar na sua direção. Ele estava destabilizado emocionalmente depois do que Erin havia dito, e ela queria dar-lhe o apoio que ele precisava naquele momento. Não o deixaria sozinho quando tinha os seus braços para ele poder refugiar as suas angústias, e quem sabe as suas lágrimas. Ele precisava de si, e como sua esposa e amiga, estaria ali para ele, mesmo que a tempestade seja perigosa e turbulenta, ela enfrentá-la-á ao seu lado.

       Parou atrás do cadeirão e pousou as mãos nos seus ombros tensos, que imediatamente relaxaram ao reconhecer o seu toque. Um suspiro escapou dos lábios dele, e uma mão grande cobriu a sua e apertou gentilmente.

       — Segundo ela, este quadro foi pintado no dia em que descobriu que estava grávida. — disse Dorian ainda a fitar o retrato. — Estava radiante com a ideia de ser mãe, nas palavras dela "estava exultante de alegria por em breve ter o meu pequeno anjo da guarda nos braços".

       Para si, aquela felicidade exacerbada eternizada no rosto de Liz Cavendish tinha um motivo, que era a notícia de que a sua maior — e única — alegria na vida de casada estava a caminho. A jovem de apenas dezoito anos que teve a vida arruinada ao ser entregue em casamento a um homem que nunca a respeitou, valorizou, e que só soube humilhá-la publicamente e na própria casa, ao menos teve uma alegria na vida, que a amou e respeitou como nenhuma outra pessoa. E que lhe tinha um amor tão grande, que não permitia que ninguém manchasse ou desrespeitasse a sua memória.

       O que Dorian nunca lhe falou foi do que ela morreu.

       — Eu odeio tanto aquela mulher. — Dorian falava de Erin. — Odeio-a com todas as forças que tenho em mim!

       — O ódio não resolve nada Dorian, isso só te faz mal. — disse sabiamente massageando os ombros do marido.

       Dorian bufou e fechou os olhos, encostando-se no espaldar do cadeirão e disfrutando da massagem, procurando relaxar um pouco.

       — Acho que preciso descansar. — informou levantando-se logo em seguida. — Vou deitar-me.

       — Fazes bem, tenta dormir e não sonhar com a bruxa. — aconselhou aproximando-se dele.

       — Só não demores a vir ter comigo sim? — pediu e Evangeline assentiu afirmativamente dando um beijo rápido ao marido e deixando-o ir para o quarto.

       Pouco depois saiu da sala e caminhou até ao quarto da duquesa, do outro lado da porta de comunicação que a separava de Dorian. Fitou o quarto planeando redecorá-lo e transformá-lo na sua sala privada, porém tendo em conta os acontecimentos dos últimos minutos, não seria para já. Em cima da cama, onde o tinha deixado quando desfez a mala mais pequena que trouxe consigo, jazia o seu caderno de esboços. Sentou-se na cama e pegou nele, observando os seus desenhos de vestidos e acessórios a carvão, já a pensar no próximo que juntaria àqueles.

       Podiam tirar-lhe a paz e o sorriso do rosto, mas nunca lhe tirarão os sonhos e as ambições.

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Caramba, até eu fiquei com raiva da Erin, e fui eu quem escrevi, imaginem se não fosse!

Digam-me sinceramente: gostaram do capítulo?

Se sim deixem o vosso voto e comentário, se não, votem e comentem à mesma 😆😆😆, só para eu ficar feliz.

Por agora é tudo, bjs e boa leitura fofuskas 😘.


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