• Capítulo 11 - Nasceu!

       Evangeline via ao longe três carruagens aproximarem-se dos portões da residência com uma mão pousada na grande barriga e um sorriso no rosto, com Portia ao seu lado.

       — Creio que sejam os seus amigos que aí vem. — disse Portia olhando pela janela.

       Evangeline olhou a jovem médica de esguelha, voltando a sua atenção para a janela.

       — São eles sim. Como a gravidez aproxima-se do fim, eles quiseram vir previamente para estarem cá na altura do parto. — explicou a duquesa fitando a jovem de cabelos castanho um pouco avermelhados, olhos azuis e feições delicadas.

       Da janela viram o duque aproximar-se das carruagens. Da primeira, com o brasão do lobo talhado na porta, saíram Christopher, Lucille e a dama de companhia de Lucille; da segunda carruagem, com o brasão da naja, saíram Benedict e Aleksei, e da terceira carruagem, com o brasão da pantera, saíram James, Blair e Phoebe.

       — Já escolheram quem serão os padrinhos? — inquiriu Portia ainda no seu posto de vigia.

       — Estás a ver aquela mulher ruiva? É Phoebe Hogan, será ela a madrinha. — revelou Evangeline. — Aquele louro do casaco vermelho é Aleksei Petrovsky, grão-duque de São Petersburgo, e será ele o padrinho.

       — E os outros, quem são? — perguntou a jovem médica curiosa.

       Então Evangeline começou a apontar e a dizer o nome de cada um respetivamente, e quando o grupo começou a dirigir-se para dentro, ambas as mulheres desceram ao encontro deles.

       Ambas chegaram ao saguão, descendo as escadas sob os olhares do grupo recém chegado, e aproximaram-se dos convidados, isto para Evangeline ser subterrada pelas amigas e os respetivos questionários.

       Já algum tempo que não os via, e sentiu saudades.

       — Quem é esta bela donzela que aqui encontro? — perguntou Aleksei focando o olhar em Portia.

        — Pois bem, esta é Portia Wood, a médica designada para me acompanhar durante a gravidez, será ela quem realizará o parto, para além de que se tornou uma grande amiga. — apresentou Evangeline prostrando-se ao lado dela e tocando-lhe no braço delicadamente.

       Portia, corada pela repentina atenção recebida, fez uma elegante reverência.

       — Encantada por conhecê-los. — respondeu educadamente.

       — Não tanto quanto nós. — retrucou Aleksei.

       — Olá Portia. — disse Blair aproximando-se dela. — Quero que saibas que amiga de Evangeline também é uma amiga nossa, por isso considera-te parte do grupo.

       Portia sorriu-lhe em agradecimento, e na companhia de Phoebe, Lucille, Blair e Evangeline, dirigiu-se para o quarto da duquesa, deixando os homens para trás.

       — Bem bonita esta Portia. — disse Aleksei acariciando o cavanhaque perfeitamente aparado, fitando o local por onde o grupo acabou de sair.

       — Olha que realmente, não é nada de se deitar fora. — concordou Benedict.

       — Um verdadeiro pitéu. — acrescentou James.

       Dorian, já farto deles, esperou que Christopher dissesse algo a respeito do aspeto da jovem médica, mas não o fez.

       Christopher apenas fitava a escadaria fixamente com uma expressão séria no rosto.

       — Para a próxima lembrem-me de vos arrancar os olhos quando tiver uma mulher bonita debaixo do meu teto. — retrucou Dorian seriamente.

       — Isso inclui Evangeline? — perguntou o ordinário do Aleksei.

       — Especialmente Evangeline. — Dorian fez questão de frisar bem a resposta.

       Aleksei mordeu a língua, para evitar responder e atiçar ainda mais a fera. Deus, como queria fazê-lo!

       Mas deixaria para outra altura, tinha a certeza que não iriam faltar oportunidades.

       No quarto da duquesa, com Evangeline confortavelmente sentada no divã, o grupo, agora com um novo membro, falavam das novidades que traziam de Londres.

       — Imaginam que Lady Aretha de Jersey, a esposa do conde zarolho, foi apanhada em flagrante enquanto se atracava com o cavalariço em cima de um monte de feno nos estábulos? — contou Blair fitando as amigas com um olhar chocado.

       — Toda a gente sabe que não há nada mais romântico do que ter um monte de cavalos a olhar enquanto estamos a fornicar com alguém. — retrucou Phoebe fingindo uma expressão séria. — Voyeurismo equino é como se chama.

       Portia abafou o riso com a mão, mas Evangeline riu abertamente.

       — Olha que também sei de uma! — exclamou Lucille chamando a atenção para si. — Lorde Phillip Towerd, o barão de Leeds, foi visto a dormir no jardim da residência em Londres na semana passada, e pouco depois soube-se que foi a mulher que o pôs fora de casa quando descobriu que ele a traía com a irmã dela.

       Uma comoção de gargalhadas ecoou no quarto.

       — Mas olha que ele mereceu! — acrescentou a jovem Clermont.

       — Disso ninguém duvida. — concordou Evangeline.

       Todas concordaram com a duquesa.

       — Mas e tu Portia, fala-nos um pouco sobre ti. — pediu Blair atraindo a atenção para a jovem médica.

       — Bem, não há muito o que dizer sobre mim, sou filha única de um médico, a minha mãe morreu poucos dias após eu nascer e desde aí tenho sempre vivido com o meu pai. — explicou resumidamente, com as mulheres a fitá-la atentas.

       Portia não costumava falar da sua vida para qualquer um, mas no meio daquelas mulheres tão próximas a si em idade, não foi difícil sentir-se segura e acolhida.

       — E foste tu quem decidiu seguir a profissão do teu pai? Convenhamos que não vemos muitas mulheres a exercer a profissão, apenas de parteiras. — comentou Lucille interessada.

       — Não é tão incomum quanto se julga, porém é bastante raro, especialmente aquilo que eu faço, que é realizar autópsias e mexer com venenos. — explicou Portia.

       As jovens gritaram-na com os olhos arregalados.

       — Mexer com venenos?! — inquiriram as quatro em coro.

       Portia estranhou aquela reação.

       — Sim, para poder fazer os respetivos antídotos tenho que analisar o conteúdo do veneno. É somente por isso que lido com eles, assim como estudo ervas e plantas para fazer remédios caseiros. — esclareceu e o quarteto suspirou em uníssono.

       — Ao menos esse conhecimento é útil? — questionou Phoebe.

       — Oh sim! E muito! — respondeu Portia enfaticamente. — Vocês nem fazem ideia da quantidade de esposas que tenta envenenar os maridos asquerosos e infiéis, de modo a verem-se livres dos casamentos infelizes.

      Todas elas sabiam que era verdade, e só mulheres que viviam um verdadeiro inferno com o cônjuge é que, movidas pelo desespero e insanidade, cometiam o crime de envenenar os maridos, meio visto por elas como o único caminho para a libertação.

       Porém Evangeline estava satisfeita por ter um casamento feliz.

       O seu exemplo de felicidade conjugal eram os seus pais, que estavam casados à mais de vinte anos e continuavam apaixonados como dois jovens alienados que acabaram de descobrir o amor. Vinte e dois anos e quatro filhos depois, William e Lora Borton não deixavam transparecer a passagem do tempo pelo sentimento de ambos, talvez porque o tempo nem chegou a passar pelo amor que nutriam um pelo outro.

       Aliás, tal como os seus amigos, os seus pais e irmãos em breve aparecerão aí para assistir ao parto.

       Disso ela não chegava sequer a duvidar.

       Evangeline sabia que, no que se referia à sua família, nunca devia duvidar das suas desconfianças. E como das outras vezes, acertou em cheio.

       No início do oitavo mês, o exército Borton irrompeu palacete adentro exigindo a atenção da pobre grávida que não tinha por onde fugir. Após os beijos exagerados da mãe, do abraço de urso, mais comedido devido à barriga, do pai e do abraço coletivo dos irmãos Elliot, Oliver e Liam, Evangeline pôde relaxar um pouco mais enquanto a sua mãe, sentada ao seu lado, acariciava a barriga saudosa e com um largo sorriso no rosto.

       Os seus pais seriam avós babados, já que o seu pai sentara-se do outro lado a acariciar a barriga em sincronia com a esposa, bem como os irmãos seriam os tios que irão ceder a todas as vontades da sobrinha. E claro, sendo a sua cria, iria aproveitar cada momento para trapacear os tios, tal como a mãe fazia.

       A sua família foi apresentada aos seus amigos, pelo menos àqueles que não conheciam, e o restante mês que faltava até ao tão aguardado nascimento passou com uma leveza que somente os que lhe eram mais chegados podiam proporcionar.

       Porém, na primeira semana do mês de maio, uma semana antes do previsto por Portia, as águas rebentaram e as primeiras dores de parto tiveram início.

       O sol começava a aparecer timidamente por trás das copas das árvores circundantes, Evangeline levanta-se de supetão sentindo uma pontada de dor na barriga, e ao sentir o lençol húmido, acordou Dorian, só faltando esmurrá-lo já que o demónio não queria acordar.

       Não será preciso dizer que ele entrou em pânico naquele mesmo instante.

       Assim que o dia amanheceu totalmente o quarto dos duques assemelhava-se a uma taverna apinhada de harpias, tamanha a algazarra que as suas amigas e a mãe causavam devido à ansiedade.

       — A minha neta vem aí! A minha neta vem aí! — cantarolava Lora Borton batendo palminhas e dando pequenos saltos.

       Às vezes Evangeline duvidava que a sua mãe tivessem mesmo trinta e oito anos ao invés de cinco.

       No quarto somente as mulheres estavam presentes, os homens decidiram armar o acampamento em frente à porta do quarto.

       — Qual é o nome que escolheram para a menina? — perguntou Lora. Ela estava convicta de que seria uma menina.

       — Grace, mas eu tenho a certeza de que será um menino. — retrucou Phoebe. — Quem vem aí é o Julien.

       — Nunca contraries uma mulher que já pôs quatro filhos no mundo! Se eu digo que é uma menina, é porque sei do que falo! — exclamou Lora com as mãos na cintura.

       — Que eu saiba, ainda não foi criado um meio de uma mulher saber o sexo da criança antes de nascer! Milady tem visão raio X é? — desdenhou Phoebe recebendo um olhar irritado da condessa.

       Enquanto isso, com o apoio constante de Portia, Evangeline arfava enquanto se agarrava com uma mão a um dos pilares do dossel da cama. Não conseguia ficar deitada, então Portia recomendou que ela caminhasse pelo quarto.

       — Posso não ser bruxa para ver através das coisas, mas já dei à luz quatro crianças, e sei reconhecer os sinais! — respondeu Lora já irritada num nível pouco saudável.

       Do lado de fora, prostrados no corredor, o contingente masculino tentava acalmar um duque bastante alvoroçado, já William Borton estava de orelha colada na porta, ouvindo a discussão e reconhecendo perfeitamente a voz da esposa.

       — Eh lá, Dorian! — berrou o conde Borton e o duque fitou-o de imediato, achando ser alguma coisa relativamente a Evangeline.  — A tua sogra está zangada.

       Dorian ergueu as mãos exasperado e bufou audivelmente.

       — Se não for sobre Evangeline ou o bebé, não me interessa! — retrucou visivelmente nervoso.

       Vai ser pai oras! É mais do que compreensível.

       — Deus, que nervosinho! — retrucou William voltando a atenção para a porta, porém ouvindo as risadas baixas de Benedict, James, Christopher, Aleksei e dos seus filhos.

       — Eu adoro cada vez mais este senhor! — exclamou Aleksei referindo-se ao sogro de Dorian.

       Já o conde voltou-se para ele sério.

       — Vamos esclarecer aqui uma coisa. — disse fitando Aleksei. — O senhor está no céu, aqui é William se faz favor. Entendido?

       — Sim senhor! Quer dizer, William! — respondeu Aleksei, e só faltou ele bater continência.

       William sorriu satisfeito.

       — Assim é que eu gosto.

       E voltou novamente para a sua posição de escuta.

       Já Christopher, Benedict, James e Aleksei puseram-se a conferenciar.

       — Digam-me uma coisa, Evangeline saiu ao pai ou à mãe no quesito personalidade? — questionou Aleksei.

       — Não faço a mínima ideia. — disse James.

       — Também não sei em quem apostar. — respondeu Christopher.

       — Arrisco-me a dizer que é uma mistura perigosa dos dois. — sentenciou Benedict.

       E no final todos concordaram com a suposição do marquês.

       Dentro do quarto a luta Phoebe vs Lora continuava ferrenha, Blair atuava como árbitro enquanto a pobre Lucille tentava, inutilmente, acalmar os ânimos. E tão cedo não haveriam de se calar.

       “É menina!”

       “É menino!”

       “É menina!”

       “É menino!”

       Era isto ao que se resumia a discussão das duas.

       — Pelo amor de Deus! Será que uma mulher já não pode parir sossegada?! — berrou Evangeline e imediatamente as duas calaram-se.

       Lucille fitou-a como quem diz: “A sério, só agora é que as mandas calar?”

       Porém mesmo com o silêncio, nada conseguia acalmar a duquesa.

       As horas foram passando, exatas cinco horas depois de tudo aquilo começar, ainda nada da criança querer dar as caras.

       Naquele momento Dorian, que entrou no quarto após Evangeline berrar a plenos pulmões “Digam à peste do meu marido para vir para a minha beira já!”, encontrava-se agachado ao lado da cama segurando na mão da esposa, que a muita insistência de Portia, deitou na cama e ofegava devido às contrações.

       —Meu Deus! Será que a dor nunca mais acaba?! — grunhiu agarrando na mão do marido que acariciava o seu rosto corado com suavidade.

       — Estas coisas demoram Evangeline, precisas de ter paciência e calma. — explicou Portia prostrada ao fundo da cama, em posição para ajudar Evangeline a trazer o seu bebé ao mundo.

       — Se voltas a dizer para eu ter paciência e calma, eu juro que te desfaço à porrada! — ameaçou Evangeline fitando a jovem média de modo ameaçador.

       Já Portia apenas riu da ameaça e voltou a focar-se no seu trabalho.

       Todos estavam reunidos no quarto apreensivos e ansiosos à longas sete horas.

      — Dorian… — gemeu a duquesa fitando o marido ao seu lado.

       — Sim meu amor?

       — Dói muito!

       — Já vai passar amor. — Dorian chamou Portia, que imediatamente o fitou, isto enquanto Evangeline gemia com uma nova contração. — Já vai passar não já Portia? É que eu não gosto de falhar as promessas.

       Portia sorriu divertida, observou lá em baixo e observou o duque novamente.

       — Só mais um bocadinho. — disse sinalizando com os dedos o bocadinho que faltava.

       O bocadinho estendeu-se por mais meia hora, isto até Portia dar a indicação a Evangeline para começar a fazer força para empurrar a criança. De um lado da cama estava Dorian, do outro Lora inspirando e expirando junto com a filha, dando apoio e ajudando-a da maneira que podia no momento.

       — Evangeline, agora quero que empurres com toda a tua força. — instruiu Portia, e com todo o cansaço que já sentia, Eva esforçou-se o mais que podia.

       O aperto na sua mão era quase insuportável, porém Dorian suportava essa dor de bom grado porque não era nem um terço da que Eva estaria a sentir. Com a pele a reluzir em suor Evangeline grunhia enquanto fazia a força que Portia lhe instruía a fazer, mas ela só queria era irromper num choro desesperado e exausto. Sentia todo o corpo a rasgar lentamente.

       — Vamos Eva, já estou a ver a cabeça! — exclamou Portia animada, e aquilo foi o suficiente para a duquesa prosseguir.

       Com um grito estridente e dolorido Evangeline empurrou com as poucas forças que lhe restavam, deixando-se cair sobre as almofadas, enquanto um choro estridente ecoava pelo quarto, proveniente do pequeno embrulho ensanguentado que Portia tinha nos braços.

       Evangeline recuperava a respiração e as forças, já Dorian fitava o pequeno embrulho que chorava e esperneava no colo da jovem médica com um brilho nos olhos e um sorriso imenso.

       — Parabéns aos dois, é uma menina. — revelou Portia com um sorriso largo no rosto.

       Grace Anne Borton Cavendish, a primogénita dos duques de Devonshire, nasceu numa tarde solarenga do dia 5 de maio do ano de 1772.

       Depois de banhada pela avó e pela madrinha, Grace foi colocada num bonito vestido de linho branco e envergava uma pequena touca que cobria os ralos cabelos negros que possuía. Embora os traços do rosto denunciassem uma grande semelhança com o pai, o formato da boca e a cor dos olhos não deixavam dúvidas que eram como a mãe.

       — Eu disse que seria uma menina. — gabou-se Lora e Phoebe disfarçou um sorriso.

       — Ao menos tenho algum mérito, fui eu que escolhi o nome.

       Lora brincava com a mãozinha da neta, que a fitava atenta com os seus olhinhos tão idênticos aos da sua primogénita.

       — Um bom gosto para nomes.

       Terminaram de vestir a menina e aguardaram por Evangeline, que se foi banhar.

       Evangeline foi carregada por Dorian até ao quarto ao lado, onde uma banheira estava disposta e ele mesmo fez questão de a banhar com todo o cuidado. Depois de vestida e penteada, Evangeline foi colocada na cama, e Lora pousou a pequena no colo da mãe, que logo sorriu ao ver a sua menina.

       — Contrataram uma ama de leite para Grace? — perguntou Lora fitando a neta.

       — Claro que não. — respondeu Evangeline curta e grossa. — Ei de ser eu a amamentar a minha filha, tenho os peitos cheios de leite e irei dar-lhe algum uso, logo será com Grace. Qual ama de leite, qual raio.

       Foi impossível alguém não rir com a resposta dela.

       Pouco depois todos saíram do quarto, deixando apenas os duques para trás, que fitavam a filha, radiantes e felizes.

       Dorian pegou na filha e embalou-a até ela adormecer perto da janela, dando-lhe um beijo na testa carinhosamente.

       Grace era tão bela e frágil, e com apenas algumas horas de vida, Dorian sentia que era capaz de tudo para proteger a sua filha, e olhando para a esposa, faria qualquer coisa para a proteger igualmente, agora com mais afinco do que antes.

       Porque agora, graças a Evangeline, tinha dois motivos para amar a vida ainda mais. E o mais novo motivo era a sua filha, o melhor presente que podia receber.

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