8 - SANGUE

Uma explosão de azulejos azuis e brancos jogam Nádia para bem longe. O demônio volta à sua procura com mais ódio.

Agora, ele não dará uma segunda chance para que não complete sua missão: trazer desgraça para a vida de alguém.

As pessoas passam pelo corredor do hospital como se nada estivesse acontecendo ali, naquele quarto. Na dimensão Opaca tudo move-se infinitamente mais lentamente que a terceira dimensão... a dimensão dos seres vivos.

Haja vista, na 4a. dimensão seja a dimensão dos seres espirituais... mas, a dimensão Opaca é aquela onde o mundo espiritual se funde ao mundo material perturbando o tempo natural e a mecânica da nossa velocidade.

Até as cores ficam opacas. Parecendo que quando tentamos andar para frente, alguma coisa nos suga para trás, como um imenso aspirador de pó bem nas nossas costas.

Nádia tenta gritar, mas vê as ondas sonoras tremularem o tecido da realidade em sua volta, numa lentidão tão gritante, que faz seu íntimo lamentar a própria desgraça.

O gigante sem olhos pula na sua direção com suas garras armadas. O golpe será único e fatal.

Nádia sente o impacto no seu corpo frágil e humano a tirando do alcance do demônio.

— Você outra vez. — Rosna o demônio para a Santa. — Eu já deveria saber que somos uma só pessoa.

— Nós nunca fomos a mesma pessoa. — A Santa coloca Nádia atrás de si. — Eu nasci do mar e você?

— Eu nasci do ódio. Do lamento. Desespero é o meu primeiro nome.

O demônio aumenta o tamanho e a espessura das suas garras. A Santa adianta um passo com sua perna esquerda e estende para frente sua espada reluzente igual ouro.

— Você me amaldiçoou! Olhe para mim! OLHE PARA MIM!

A Santa continua em posição de ataque, na frente de Nádia, olhando para o demônio que turva-se mesclando com a escuridão e a luz.

— Eu te amava. Nunca te amaldiçoaria.

— Eu te odeio. E Nádia... — Ao chamar o nome da jovem, fumaças com cheiro de enxofre brotam pelo chão do hospital, surgindo os cinco cães do Desespero. Ele sorri e continua: — Pobre moça chamada Nádia... ainda não terminei com você. Mas, olhe para meus meninos. Cada um deles te detesta mais que o outro. Não é lindo isso? Responda-me Nádia: NÃO É LINDO ISSO?

— Você não vai toca-la. — A voz da Santa é calma, mas estronda o ambiente, deixando os cães atiçados.

Passando para frente dos seus animais, o demônio olha para baixo e sorrindo diz:

— Você percebe que nunca tivemos essa conversa antes? Todos esses anos amarradas uma na outra pelo destino... naquela noite você me tirou tudo.

— Esse foi o nosso pacto diante da deusa:
"A bondade desejada, tripla honra alcançada. A maldade praticada, que venha a agonia desesperada. Tudo que seu coração com o mal me venhas desejar, o inverso ocorrerá."

— Eu me lembro dessas falas. — Rosna o demônio. — Eu me lembro quando recitamos essa palavras uma para outra, segurando o tridente de Possêidon e depois unimos nossos sangues como filha e mãe.

A Santa não desvia o olhar do demônio.

Ele, suspira e olha com raiva cega para a Santa. Aquele olhar que somente os que odeiam sabem fazer... o olhar através dos dentes trancados pelo ódio. O demônio recomeça dizendo:

— Cada frase era um arquétipo dos dentes do tridente... Um símbolo do nosso maldito juramento, do qual não pensei com máxima clareza na época. Como te odeio. — O demônio sorri displicentemente. — Três desejos, três dentes, três resultados. No juramento havia mais a fonte do meu sucesso do que da minha desgraça. — Novo sorriso. — E por isso que te odeio... porque sabia que nunca pensaria o bem para você... por isso a sutileza de um anagrama.

A dimensão Opaca se desfaz, porém os cinco cães continuam do lado do demônio. A Santa aumenta sua base para defender e atacar. Embora saiba que não haverá um duelo, não agora.

— O que foi praguejado naquela noite, no seu quarto, selou nossos destinos. A força das palavras feitas na conjuração com sangue no templo da deusa, serviram para proteção... principalmente contra sua maldade.

O demônio se recorda da referida noite.

      Passados 12 meses da noite que Aim Al Amatich foi sentenciada à morte comida pelos ratos, a Princesa Teodora daria a luz a sua primeira criança. O Dodge de Veneza estava numa felicidade única. A cidade de Veneza estava toda iluminada parecendo o Carnaval!

        As cinco parteiras ao seu lado. Todas da sua inteira confiança. Todas as cinco matariam por ela.

       As dores de parto aumentaram muito na última hora. A Princesa Teodora suava a bicas e sentia a agonia das dores do parto, provocarem câimbras nas partes detrás das suas coxas.

         A parteira mais velha, grita avisando que vinha um menino e era cabeludo igual ao Dodge. O que deixava todas que estavam dentro do quarto em pavorosa alegria.

       Porém, com nojo repentino, a parteira afasta-se da mulher que deu a luz com um olhar aterrorizado. Nem ela colocando suas mãos nos seus olhos, fazia com que deixasse de ver o filho da Princesa Teodora.

         A Princesa gritava parindo mais filho. No final ela pariu doze ratos mortos. Ratos grandes e mortos. O Dodge a dois andares a baixo, escutou todos os gritos dados por sua princesa e todos seus lamentos.

     A primeira coisa que a princesa viu sobre a mesa ao lado da sua cama, pegou e começou a espetar os ratos que estavam mortos encima dela.

       E a plenos pulmões gritava:

— AIM AL AMITACH VOCÊ ESTÁ MORTA! EU TE CAÇAREI AONDE ESTIVERES NO INFERNO E QUANDO TE ACHAR, CRAVAREI OS DENTES DESSE GARFO EM VOCÊ! EU SOU A PRINCESA E VOCÊ O DEMÔNIO!

        As parteiras tentaram acalmar a Princesa Teodora, que as expulsou do quarto como cães. As chutando pra fora.

         Enlouquecida pelo que concebeu, chamava desenfreadamente a sacerdotisa de demônio e a si mesma se apiedava em voz alta como uma pobre santa num martírio de agonia.

       Mostrando o garfo para o céu a Princesa Teodora gritou:

— Na casa de todos que forem seu sangue, eu irei lá pessoalmente matá-los, quando o garfo igual a este no chão cair. — Nisso Teodora solta o garfo. — E você não poderá fazer nada! NADA!

        Um raio caiu dentro do mar, onde o corpo de Aim Al Amitach foi jogado e, uma chuva grotesca e tenebrosa caiu sobre Veneza, da mesma forma que a princesa desmaiou depois que o garfo tocou o chão.

— Se lembrou daquela noite? — Pergunta a Santa. E o que ela irá revelar deixará o demônio com mais raiva: — Agora sabes que todos que consegui salvar, desde então, não eram meu sangue. Bem como os que não consegui... eles eram teu sangue.

        O demônio manda os cães do inferno embora com um aceno brusco e raivoso de sua mão.

— Não posso mudar quem sou eu. — Fala o ser das trevas. — Eu serei sempre o prenúncio de coisas ruins para os que são do meu sangue. E nem deixarei de te odiar. Aliás meu ódio só aumentou. — Ao dizer isso, o demônio desaparece da mesma forma que apareceu.

         Nádia, chorando e sem nada entender, sente o abraço materno da Santa e uma promessa é dita aos seus ouvidos.

— Jovem, nunca se esqueça: "A bondade desejada, tripla honra alcançada. A maldade praticada, que venha a agonia desesperada. Tudo que seu coração com o mal me venhas desejar, o inverso ocorrerá." — Dizendo isso, a Santa some e dois enfermeiros entram no quarto para saber o porquê de Nádia se encontrar sentada no chão.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top