2 - François-Marie Arouet
"Morre hoje, o maior, o mais ilustre e talvez o único monumento desta época gloriosa em que todos os talentos, todas as artes do espírito humano pareciam haver se elevado ao mais alto grau de sua perfeição".
A REVISTA
O homem careca e de pele branca igual ao leite, olha sem contemplação pela janela da sua casa. Na verdade, a casa não é sua. Ele está em alguma casa democrática num dos bairros parisienses, na França.
Ele chegou a alguns anos da Prússia. Saiu às pressas. Algo o incomodou, o que de fato ele não sabe o que aconteceu... Talvez tenha sido a carta que recebeu do rei da Prússia, afirmando que o coração dele era maligno, enquanto a sua mente era uma fonte benigna.
A saudade da França permeava sua cabeça. O cheiro do café servido em Paris fazia sua memória olfactiva sempre acender seu nariz para cima. Voltar por cima, depois de tantos momentos cheios de agruras, só deixava essa noite mais especial nas suas memórias.
Porém, foi defendendo um morto que toda sua notoriedade o trouxe de volta para os braços e corações dos franceses.
No lado esquerdo da sua cama, está uma xícara de chá e uma fatia de torta de maçã. Os cheiros misturados fazem seu estômago chiar.
Ao pegar a xícara com chá de hortelã, sua base de porcelana bate no garfo que se encontra repousando no prato da torta e cai. Seus pensamentos são interrompidos com três batidas na porta do seu quarto.
— Monsieur Voltaire! Boa noite. Desculpa incomoda-lo a essa hora — São sete horas da noite. — Mas, tem uma senhora que insiste em falar com o senhor. — Explica a mulher do outro da porta.
— Prezada Magnólia, já estou deitado. Peça-a para voltar amanhã. —Voltaire responde sem olhar para a porta.
— Farei isso, monsieur.
— Obrigado. — O pensador iluminista abaixa-se para pegar o garfo, quando novas batidas na sua porta acontecem.
Uma voz andrógina anuncia que a visita precisa falar-lhe algo de seu interesse e que a visita já teria ido procurar o Rousseau... Seu desafeto.
Essa última informação faz com que Voltaire abra a porta para dizer que vai descer em poucos minutos, porém não tem ninguém o esperando, ao contrário, ele vê apenas uma réstia mal iluminada pela lamparina, descendo a escada. Depois a parede da janela faz um som riscado. Frisante. Sublinhado.
—Magnólia?
Como o silencio é a resposta recebida, o filósofo francês volta para dentro do seu quarto para vestir a peruca branca. Um símbolo de autarquia para a época.
O susto é homérico quando Voltaire abre sua porta e encontra Magnólia com sua mão direita posicionada para novas batidas.
— Eu já havia dito que estava descendo.
Magnólia faz uma cara de surpresa e interrogação. Não foi isso que ela escutou quando havia subido anteriormente. Mas, ela sempre soube que esses pensadores morriam por causa da loucura, doença venérea, suicídio ou overdose. A governanta da casa achava que o pensador iluminista seguiria por uma morte pela velhice. Normal. Porém, começou a achar que poderia estar errada.
Os olhos de Voltaire se espantam com sua visita. Ele olha para Magnólia que só faz pigarrear. A mulher negra, aparentando uns quarenta anos, encontra-se ainda de pé o aguardando.
A mulher atende a solicitação do filosofo e senta numa das partes do sofá cinza colonial. Voltaire não se sente incomodado pela mulher ser negra, mas por causa da lembrança do vulto que viu descendo a escada que vai até seu quarto.
Olhando alternadamente para a mulher e Magnólia, ele pergunta:
— Em que posso ajudar? Se é que posso.
Logo a mulher se apresenta por nome de "Mary", esposa de Clay Brown, condenado injustamente à pena de morte. Já fazia três meses que o marido havia sido assassinado. Haja vista, um enforcamento para um condenado inocente, é o mesmo que assassínio.
"Mary" explica como tudo aconteceu.
O seu marido estava brincando com o filho deles, o caçula de três, quando a polícia chegou na sua casa dando voz de prisão acusando-o de assassinato.
A vítima era um homem obeso e branco, comerciante e dono de um bar no centro da cidade, que foi morto a paulada. O filho do homem disse que seu pai fora morto por um negro. Clay Brown ao ser levado até a presença do filho da vítima, teve a infeliz surpresa de ser reconhecido.
Por mais que o agricultor dissesse que estava em casa, e que seu vizinho chamado Christian Merlua, juntamente com a esposa dele, eram testemunhas de que ele não teria feito tal atrocidade, foi tudo em vão.
A polícia nunca iria considerar os testemunhos de uma mulher negra e de um homem pardo e alcoólatra como "fidedignos".
Ninguém quis ajuda-los.
A polícia fez ouvido de mercador. E no dia 10 de fevereiro de 1778 Clay Brown foi assassinado por enforcamento.
—É por isso que estou hoje aqui. — Comenta "Mary". — Deixei meus filhos com a esposa do Monsieur Merlua, Sr. Voltaire. Sei que o senhor é um homem ligado à justiça. Sei também que o senhor defende a liberdade religiosa e de expressão, bem como a liberdade civil.
—Prezada senhora, faz tempo que não tenho influência alguma aqui no meu país, quanto mais nesses momentos políticos efervescentes. Desculpe-me desaponta-la. — Voltaire na verdade, analisava a mulher procurando entender o porquê de Rousseau não ter procurado ajudá-la.
— Monsieur François-Marie Arouet, o senhor se engana ao pensar assim! A sua voz será ouvida! A minha, a do meu marido ou a de qualquer outra pessoa nunca terá a mesma força que a sua.
— É... Infelizmente a do seu marido não pode mesmo ser ouvida.
— Foi ele quem me pediu para vim conversar com o senhor. Da mesma forma que pediu-me para procurar Monsenhor Rousseau.
Magnólia sabia que Voltaire não acreditava em vida após a morte, embora fosse um defensor veemente da liberdade religiosa, inclusive a de não ter religião nenhuma.
E talvez fosse por isso mesmo que a governanta abaixou sua cabeça e fechou os olhos esperando uma negativa educada do seu patrão. O que ocorreu no final das contas.
— Eu sei que o senhor não acredita no outro lado, mas esse outro lado acredita no senhor.
— A senhora é muito hábil com as palavras. Mas, não há necessidade de usar superstições para tentar me convencer de uma coisa que já sei como vai terminar.
— O garfo.
Voltaire franze o cenho.
— Perdão. Não entendi.
— O senhor recebeu uma visita depois que o garfo caiu no chão, não foi?
— Não recebi ninguém.
— O senhor tem certeza?
— Somente a Magnólia teve lá em cima. Por três vezes. Não foi mesmo Magnólia?
— Duas vezes. Eu estive lá por duas vezes.
— Meu marido esteve com o senhor hoje. Ele precisa ser ouvido pela sua voz, mounsier Voltaire. Ninguém mais poderia ajudá-lo como o senhor pode.
— Senhora Mary, sou um velho de oitenta e três anos, que procura passar os últimos dias de sua vida em paz.
— Mas, o senhor salvou a vida de Jean Calas.
— Engana-se nobre senhora. Infelizmente só tomei conhecimento do acontecido depois do falecimento do mesmo.
— Mas seu nome foi indicado pelo próprio Jean Calas! Meu marido disse que o senhor conseguiu inocenta-lo! Por favor limpe o nome do meu marido. Ele não é um assassino! Eu imploro!
— Mademoiselle Mary...
Voltaire apenas para de falar. Ele sente uma dor no peito. A tristeza toma-lhe o coração ao julgar estar escutando tanta superstição.
Ele levanta-se e se retira sem dizer nem que sim, nem que não. A esposa do finado Clay enche seus olhos de lágrimas. Ela entende que um homem da envergadura científica de Monsenhor Voltaire, nunca iria se deixar levar pelas suas crenças... Mesmo que isso significasse que seu marido nunca seria inocentado depois de morto, como aconteceu com Jean Calas.
Voltaire chega no seu quarto e senta na sua cama. Sua mente está intranquila. Seu coração sem paz. Ele sabe que pode ajudar a família de Clay Brown. Seria uma forma de mostrar a seu desafeto Rousseau que ele ainda continua mais humano que nunca.
O garfo cai do móvel de cabeceira.
Voltaire abaixa-se para pegar o garfo e sente sua garganta aperta. Como se uma corda invisível apertasse seu pescoço de pele fina por causa da idade.
O filósofo tenta respirar.
O ar falta.
Os pulmões ardem. Parecendo que estão se enchendo com água transbordando de um cano, diretamente dentro deles.
Ele tosse. Tosse! E tosse novamente. Respiração intercalada e deficiente.
Suas bochechas ficam vermelhas como se estivessem incendiadas por um fogo invisível.
— Socorro... — A voz só sai dentro da sua cabeça. — Socorro... — O aperto no peito e no pescoço o derrubam no chão.
Monsieur François-Marie Arouet, é encontrado morto às sete horas da manhã do dia 30 de Maio de 1778, Paris. França.
No dia 30 de Maio de 1859 a voz de Clay Brown foi ouvida na França, quando as cartas psicografadas por Amelié Boudet, que segurava um garfo enquanto escrevia o que lhe era dito pelo espírito de Clay, foram consideradas como provas no Tribunal de Paris.
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