Capítulo 29

Como eu poderia descrever o olhar de James para mim naquele momento? Refletia um brilho diferente e uma certeza inabalável. Eu engoli em seco, pois temia o que poderia acontecer naquele almoço. Não podia confiar em mim ou nas forças das minhas próprias pernas, já que elas insistiam em ficar trêmulas, por isso sentei-me no sofá à frente dele.

— Vamos, pessoal! — Ouvi minha mãe nos chamar. — O almoço será servido — anunciou e voltou novamente para cozinha. 

Céu se levantou do sofá e me ofereceu a mão como apoio, talvez ele soubesse que o meu estado de nervos estava me deixando sem força vital no corpo. Então aceitei sua ajuda e ergui-me, mas uma aparente fraqueza passou sobre mim, levando-me a cair, contudo, as mãos firmes dele me seguraram pela cintura, deixando-nos muito perto um do outro a ponto de eu sentir a respiração quente dele sobre minha face. O mundo deve ter parado por uns instantes, pois aquele contato de olhar que trocamos era profundo demais. Amparada em seus braços, senti-me em casa e num lugar seguro.

— Não ouviu sua mãe, Amber? — a voz grave do meu pai bradou pela sala, o que nos fez separar rapidamente.

— Claro que sim, pai. — Passei a mão pelo rosto. — Eu quase tropecei aqui, mas o James me ajudou.

— Hum... — Papai, com um olhar perscrutador, se aproximou de nós dois. — Sabia, James, que eu ainda tenho algumas armas em casa do meu tempo como fuzileiro naval?

Ao escutar aquela conversa, uma tosse desencadeou em mim.

— Você não gostaria de conhecê-las? — Papai ignorou o meu ataque de tosse e continuou sua fala.

— Eu gostaria muito, senhor. — James, sem nenhum juízo, ainda deu trela ao meu pai naquele assunto. — Eu conheço algumas armas bem legais — ele deu um sorrisinho bem irônico.

“É isso, Senhor, estou pronta para ir ao lar celestial!”

— É mesmo? Conhece de onde? — papai indagou, cruzando os braços sobre o peito.

— Eu gosto de pesquisar, sabe? Meu pai também me ensinou algumas coisas. — James quicou os ombros, como se aquilo você a coisa mais comum do mundo.

“Espera aí, Amber da Silva! Isso é comum sim pra ele.” — minha mente disse.

“Não, não, não! Era comum. ERA!” — O outro lado minha consciência rebateu.

Eu balancei a cabeça para desvencilhar aqueles pensamentos loucos.

— Vocês querem um convite de ouro, é? — Minha mãe, com uma cara de poucos amigos, chegou na sala.

— Estamos indo, querida — papai declarou e colocou os braços ao redor dos ombros dela, acompanhando-a para o local que iríamos comer.

— Bom, vamos logo! — Céu falou.

— Você não tem medo do perigo, não é? — eu perguntei retoricamente.

— Por que eu teria medo? — Com a cara mais lavada do mundo, ele me olhou e arqueou a sobrancelha.

— Falar sobre armas com o meu pai? Você bate bem da cabeça?

Céu olhou para mim e soltou uma risada alta. Eu contraí o cenho e cruzei os braços, não entendendo aquela atitude repentina dele.

— É claro que eu não bato bem da cabeça! Se eu tivesse um pingo de juízo, eu não teria me apaixonado por você — ele proferiu e, com ousadia, tocou no meu rosto com o dorso de sua mão. — Mas você roubou completamente minha lucidez.

Eu não pude aguentar e fechei os olhos para sentir melhor aquele toque de carinho.

— No futuro, teremos chance de aproveitarmos mais um do outro — Céu pronunciou e parou com o toque, levando-me a despertar para a realidade da vida. — Não vamos mais deixar ninguém esperando.

E então seguimos rumo ao jardim, devidamente preparado pela Sra. Maria da Silva, para o nosso almoço de família. O alimento estava delicioso, porém, aquelas palavras ficaram ruminando em minha mente: “No futuro... No futuro... No futuro”. Meus pais e James conversavam sobre alguma coisa, que não me atentei, e eu somente pensava “No futuro”. Porém, um assunto delicado entrou em pauta e esqueci de minhas indagações momentâneas.

— James, sabia que Amber um dia participou de um concurso de talento na escola? — Mamãe começou e eu queria me enterrar naquele momento. Por que reviver aquela triste história?

— É mesmo? Não sabia que a Amber era tão talentosa assim. — James me olhou de lado e eu dei um sorriso seco.

— Ou ela é sim, mas...

— Começou agora termina, mãe!

— Vamos dizer que Deus não a concedeu uma voz muito afinada, mas para tocar flauta, não tem ninguém melhor do que ela. — Mamãe tentou ser gentil com aquele elogio, porém, logo iniciou o relato de minha humilhação. — Certo dia, ela botou na cabeça que queria porque queria cantar no concurso de talento da escola. A Hanna deu algumas dicas e a canção ficou bem ensaiada, mas, no dia do show, ela se empolgou tanto que começou a andar de um lado para o outro no palco e então...

Mamãe fez um suspense com a voz e James inclinou o corpo um pouco para frente e arregalou os olhos, fazendo uma expressão de curiosidade para ver o que iria acontecer.

— Ela tropeçou no fio do microfone e caiu do palco. — Papai acabou com o suspense.

James, sem nenhum respeito e solidariedade com a minha pessoa, se acabou de rir junto com meus pais, que não tinham mais o que fazer e pegaram o vídeo para ele assistir, para completar minha vergonha. Céu lagrimou de tanto rir e eu queria morrer ali mesmo.

— Grandes pais vocês são, né? — Eu semicerrei o olhar para os dois e ambos apenas riram mais.

— Não se preocupe, Amber, seu segredo estará guardado comigo. — Céu piscou para mim em meio sua crise de riso.

— Quando Amber se casar essa vai ser uma das coisas que vou avisar para o noivo — mamãe disse e eu não entendi ao que ela se referia.

Céu tomou uma postura mais rígida e com um olhar sério, perguntou:

— Avisar o quê, senhora?

— De que não a deixe fazer um especial para ele no dia do casamento, principalmente cantando — ela respondeu. — O coitadinho não merece.

— Tenho certeza que se ele a amar de verdade vai tolerar isso e quem sabe achar a voz dela a mais linda do mundo — Céu sorriu e desviou um pouco o olhar para mim, fazendo minhas bochechas corarem.

A Sra. Maria da Silva aproveitou e começou com a sua lista para me matar de vergonha.

— Ah, ele também vai ter que tolerar o mau-humor de todas as manhãs, a choradeira nos filmes de romance, a raiva quando o Flamengo perde...

— Não acredito! — Céu interrompeu e olhou para mim com uma expressão de assombro. — Você torce para o flamengo?

— E você torce para quem? — Cruzei os braços em questão.

— Para o Palmeiras, é claro!

— COMO ASSIM! — meu pai deu um grito. — Aquilo nem tem mundial!

As vozes se alteraram e já estávamos prestes a começar uma discussão quando mamãe repreendeu a todos nós.

— Acalmem-se os ânimos!

Céu abaixou a bola para defender seu time e, quando íamos retomar o assunto, o celular dele tocou. Ele pediu licença e se afastou de nós para falar com mais privacidade. Após alguns minutos, eu consegui me afastar dos meus pais e fui ver o que estava acontecendo. Quando me aproximei da cozinha, eu ouvi a voz grave e preocupada dele.

— Não me diz que isso aconteceu! — ele esbravejou. — Onde? Eu vou correndo e não demoro.

Ele desligou o celular e quando se virou deu de cara comigo.

— O que aconteceu? — perguntei com firmeza.

Ele passou as mãos entre os cabelos e umedeceu os lábios antes de responder.

— Não me esconde nada! — Dei um passo a frente, mostrando que não aceitaria nada além da verdade.

— Pão levou um tiro e não sei se tem escapatória pra ele. — Ele virou o rosto transtornado. — O morro foi atacado e eu preciso ir pra lá.

Meu coração apertou ao ouvir aquilo. Aquilo não podia estar acontecendo!

— Eu tenho que ir. — Ele tocou no meu ombro e me olhou de um jeito que eu não soube decifrar. — Peça desculpa aos seus pais por mim — disse e saiu pelo outro lado da casa.

Naquela hora, só fechei meus olhos e clamei o socorro do Senhor.

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Fala, pipoquinhas de leite ninho!
Eita, como será que vai ficar o Pão e Céu no meio do ataque do morro da Luz? Só esperando o próximo capítulo pra ver e você NÃO PODE perder!

😘
P.W

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