Capítulo 19
Jaqueline não veio à aula. Como ainda não tenho intimidade com outros alunos, me sento sozinha à mesa do refeitório, mas logo ganho companhia. Léo.
— E aí? — ele se inclina, dando um beijo no meu rosto. Se senta de frente pra mim.
— Oi, Léo — dou um sorriso acolhedor.
— Eu vi suas fotos e vídeos na página da Promoarte. Caramba, você ganhou tudo o que disputou. Parabéns, gata.
— Obrigada.
Ele toma um gole de suco e se fixa nos meus olhos. Os olhos dele, negros e brilhantes, tem o charme comum aos garotos que têm atitude e são legais por natureza.
— Pôxa, legal você seguir a Promoarte — observo.
Ele dá de ombros.
— Gosto de ver meninas bonitas dançando.
Reviro os olhos.
— Tá bom — rio.
Então me dou conta que não são a beleza, o carisma e as pernas compridas das bailarinas os motivos de meu recente amigo seguir o perfil de uma produtora de espetáculos de dança. O motivo só pode ser a Rebeca.
— Olha, eu não entendo nada de balé, mas eu sei dar valor ao que é bonito.
— Você já assistiu a uma apresentação dela?
Léo franze o cenho.
— De quem?
— Da sua namorada.
Fazendo um movimento de negação com a cabeça, ele a inclina pra comer uma colherada de arroz com carne.
— Prefiro ver pela internet. Eu acharia engraçado ficar sentado numa cadeira ao lado de uma mulher gorda, carregando uma menininha e falando: olha que developé lindo daquela bailarina.
— Mulher gorda? Cara, você pode ser cancelado por isso — dou risada ao adverti-lo.
— Tudo é motivo pra cancelamento hoje em dia — ele divaga, usando um tom distante de quem não tá nem aí.
— Eu acho que ela ficaria contente se você fosse vê-la dançar.
— Ela quem?
— A Rebeca, ora. Dããããã!
— Eu não tenho dinheiro pra assistir festival de dança. E depois, os bailarinos da sua escola sempre vão pra cidades distantes, e as passagens de ônibus custam caro.
Tenho que concordar.
Mastigo uma colherada de carne e fito o olhar de Léo.
— Quem te contou que eu tô namorando a Rebeca?
— A Jaque me contou logo no primeiro dia em que eu comecei a estudar aqui.
— Ah, sei… E a Rebeca fala de mim pra você?
— A gente não se dá muito bem. Ela é muito competitiva, sabe, e me vê como uma ameaça ao sonho dela de ser a bailarina fodona do estúdio.
Léo ri.
— Ela voltou bem brava de Barra Bonita.
Fico surpresa que ele dê essa informação.
— Sério? Por quê? — finjo inocência.
— Ela perdeu pra você.
— Não tive culpa. Só dei meu melhor. Tô pouco me lixando se ela ficou com dor de cotovelo porque os jurados acharam que eu fui melhor que todo mundo.
Tomo mais um gole de suco ao dar essa resposta.
— Não canso de gostar desse seu jeito petulante, bailarina. E quer saber? Você tá mais que certa em não ligar. Elas que lutem.
Com certeza, Rebeca não gostaria nem um pouco de saber que seu namorado está me dando apoio. Isso me faz pensar que talvez ele não goste tanto assim dela.
— Posso te perguntar uma coisa? — arrisco.
— Claro.
— Como um cara legal como você namora uma garota que se sente melhor que todo mundo?
O cenho dele se franze em desagrado. Melhor medir minhas palavras.
— Bombom, não fale mal da Rebeca. Por favor.
— Desculpa. Não tô falando mal, mas você não é burro a ponto de fingir que a Rebeca não tem defeitos.
— E você não tem?
A invertida dele me atinge como um soco no estômago. Ok, eu mereci.
Léo fecha os olhos e inspira de um jeito pesado, condensando a indignação que acabei causando sem querer. Soltando o ar pela boca, me olha.
— A gente tem um lance legal — começa a falar —, já faz quase um ano que estamos juntos. Eu a conheci num campeonato de vôlei entre meninas judias. Um amigo meu, que é judeu e também primo dela, me convidou pra assistir. Eu fiquei gamado nela, sabe. A gente ficou se encarando, sorrindo um pro outro. Depois do jogo, meu amigo a trouxe a fim de me apresentar. A gente conversou, trocou telefone, começou a sair junto e estamos juntos até hoje.
O canto esquerdo do meu lábio se enleva.
— Você é bom em editar uma história — faço uma observação com um teor levemente irônico.
— Quer saber dela em detalhes?
— A vida dos outros não me interessa. Só acho que vocês dois são muito diferentes. E não tô falando dela ser branca e você negro. Tô falando do fato dela ser rica, saber falar vários idiomas — acho que Rebeca fala não só inglês e espanhol, mas também hebraico —, e viajar pra vários lugares, e você ser um cara simples. Não que ser simples seja defeito, não me entenda mal, mas a Rebeca é tão fresca que não pisa nem em grama.
— Não acho que ela seja fresca. Ela é vaidosa sim, mas se você der a ela chance pra provar que é uma pessoa legal, pode ser que acabem se tornando amigas.
Só pode ser uma piada.
— Acho que ela não quer provar que é uma garota legal. E eu não tô nem aí pra isso.
Me calo por um breve momento a fim de editar na minha cabeça a próxima frase. Não quero ser desagradável com o Léo.
— Eu não vim a São Paulo pra fazer amigas, mas pra fazer balé.
Léo deixa a colher sobre o prato. Fica quieto, pensativo, só me olhando.
— Entendo — há reticência em sua voz.
Escuto um burburinho atrás de mim, e intrigada, me viro por instinto. O professor de Matemática e o diretor estão andando lado a lado, rindo e conversando. Me lembro da prova que vou ter semana que vem e um calafrio percorre meu corpo. Tô fodida.
— Vai participar da Festa da Primavera? — Léo pergunta repentinamente.
— No momento só tô preocupada com uma prova que aquele cara vai passar — sorrio nervosa.
— É só estudar que você tira uma nota boa.
— Ah, é. É só estudar, né?
Não acho necessário contar a Léo que EU ODEIO MATEMÁTICA. Bailarinas são muito mais emotivas do que racionais, e qualquer coisa que envolta exatas dá um nó no meu cérebro.
— Por que eu tenho que estudar uma coisa que eu sei que não vai ter importância para o que eu vou fazer no futuro?
Mas Léo não responde, se limitando a dar de ombros como quem diz sei lá. Presto melhor atenção no rosto dele, um conjunto perfeito de olhos negros e brilhantes, boca carnuda e nariz de bonito formato. E a pele preta, bombom.
Ele é um dos poucos garotos que não parece um babaca. Na minha classe tem três ou quatro com quem converso, e mesmo assim só sobre superficialidades. Mas Léo é o único com quem posso conversar de um jeito mais aberto, franco.
Nosso bate-papo dura até o fim do recreio. Nos levantamos e andamos pelo corredor a caminho de nossas respectivas salas, e ele põe a mão na parede de um jeito folgado, impedindo minha entrada na sala.
— Tchau — me dá um sorriso bonachão.
— Tchau — respondo, me mantendo impassível enquanto recebo dele um beijinho no rosto.
Os alunos se acotovelam, se resvalando uns nos outros enquanto vem e vão pelo corredor, mas abrem caminho para Léo caminhar. Ele se impõe com respeito.
Entro na sala quando o garoto bom com os punhos some do meu alcance de visão.
…
Chego ao estúdio suada, com a sensação desconfortável de ter a roupa grudada no meu corpo. Dou boa tarde à Clara e vou direto para o meu quarto. Jogo minha mochila na cama e abro o guarda-roupa, tirando um collant limpo e meias calça.
Jordana estava dormindo de manhã quando me levantei. Ela chegou às quatro da madrugada. O motivo? Alice e Angel a levaram para aquele mesmo barzinho em que Odin e eu fomos, e ficaram lá até tarde. O legal é que o noivo da ruiva também foi.
Só fiquei sabendo disso no meio da aula. Minha colega de quarto me mandou uma mensagem, comunicando que estava ainda com muito sono, e pedindo pra eu me virar no almoço, já que não estava com ânimo pra cozinhar.
O problema é que eu sou um completo desastre na cozinha.
Enquanto ensabôo meu corpo nu, recebendo uma gostosa ducha morna, acabo decidindo comer no bookafe do estúdio. Me enxugo, visto a calcinha, a meia calça e o collant, e calço as botas de aquecimento. Faço o coque, e então vou a cantina.
Há várias mães comendo lanche com suas filhas. Nenhuma delas é minha aluna, pois são do grade 1. Noto que também há alguns pais teclando notebooks.
— Pois não? — Rafaela pergunta.
— Eu queria um risoles de presunto e queijo. E um copo de suco de laranja.
Ela desliza para o lado a porta da estufa e escolhe o salgado de melhor aspecto. Pergunta se quero suco com ou sem açúcar. Peço a segunda opção.
— Oi — Jordana se senta no banco ao meu lado. Ela toca de leve o topo da minha cabeça, me dando aquele sorriso acolhedor que é sua marca.
— Oi — intercalo um olhar entre ela e a Rafa, que acaba de trazer meu pedido.
— Tô exausta. Quase não consegui me manter em pé durante a aula. Não vejo a hora desse dia acabar.
— Eu nem prestei atenção à aula hoje. E olha que eu precisava. Semana que vem vou ter prova. MATEMÁTICA — olho para o teto, fazendo cara de tédio.
Jordana faz sinal a Rafaela pra que se aproxime.
— Faz um café expresso pra mim, por favor.
— Matemática é um saco — Jordana se volta pra mim. Ela está com olheiras, o que ilustra bem seu estado de ânimo.
De repente ela ganha um ar animado.
— Eu amei as suas apresentações — segura minhas mãos. — Sabia que você iria vencer. Mostrou pra todo mundo como uma bailarina tem que dançar.
Sei que Jordana está sendo sincera, por isso fico feliz de verdade por suas palavras.
— Obrigada. Parte de tudo isso devo a você, por ter me ensaiado e colocado movimentos novos no contemporâneo.
— Não. O mérito é todo seu e da Letícia. Ela criou a coreografia e você a dançou. Só tirei o que achava que precisava tirar e coloquei algo a mais.
Inclino de leve a cabeça, concordando.
O cheiro do café é tão gostoso que dá vontade de tomar, mas como tenho minha cota semanal de cafeína, me contento com o suco.
— Tô indo — a ruiva se levanta após aproximar seu cartão da máquina e pagar a conta. — Não é porque a gente dançou ontem que a Letícia vai dar moleza.
— A turma do Balé Avançado vai ensaiar?
— Vamos gravar vídeos das nossas danças. Mês que vem tem festival na Argentina, em Posadas, e a Letícia quer levar a gente pra competir. A seleção dos competidores é por meio da escolha dos melhores vídeos.
— Tomara que você seja escolhida.
— Vamos ver o que Deus prepara — a ruiva usa uma de suas expressões preferidas. Segundo ela, os crentes sempre falam assim ao invés de se Deus quiser.
Ela amarra a sainha cor lilás na cintura, tem a mesma cor de seu collant, dá dois passos, mas para.
— Bombom, eu não gosto de dar spoilers, mas como tenho um lado bem travesso… Bom, a Letícia tem uma novidade pra você.
— Que novidade? — me remexo na cadeira.
Jordana espeta as têmporas, acaricia o coque.
— Não conto.
A ruiva sai, fazendo uma graça ao caminhar na ponta dos pés, me deixando curiosa.
E mais essa agora. Uma novidade. Não bastasse aquele senhorzinho da Yex vir aqui amanhã e assistir ao meu ensaio, Letícia tem algo pra me contar.
As coisas aqui em São Paulo funcionam de um jeito tão insano. Mal acabamos de sair de um festival, já temos que nos programar para o próximo. Eu tenho sorte de estar sendo bancada pela Tânia, de ter boas sapatilhas de ponta e de não ter que me preocupar – por enquanto – com taxas de inscrição.
Se meus pais tivessem que pagar, com certeza eu ficaria de fora de muita coisa. Por isso quero ganhar tudo o que eu puder e dar retorno pelo que eles fizeram por mim.
Termino de comer meu lanche e ando pelo corredor, buscando a sala de aula. Como já estou de uniforme, só calço as pontas e amarro os laços de cetim em vota dos meus tornozelos.
Por estar muito dolorida e por ser segunda feira, não faço um alongamento nível hard. Me contento com um espacate lateral, encostando o peito no chão, e cloches na barra.
Tenho tempo pra ensaiar alguns saltos e fouettés. É mais gostoso treinar sem ter ninguém me olhando, como se eu pudesse dançar só pra mim. Decorridos quinze minutos de atividade, estou suada.
O próximo passo que treino é o pas de bourree suivi. É um passo em que a bailarina (só mulheres dançam) se locomove com graça e leveza pela sala na ponta dos pés, movimentando os braços e ostentando um olhar doce.
De repente meu celular, que deixei carregando na tomada, recebe uma notificação de mensagem. Xingo a mim mesma por não ter desligado os dados móveis. Odeio quando alguma coisa tira minha comunhão com minha dança. Ando até meu aparelho e abro o whatsapp.
É o Odin.
Boa tarde, Bombom, tudo bem?
Só passando pra avisar. Amanhã a gente vai assistir ao teu ensaio no estúdio. Tchau.
Debruço meu corpo sobre o chão, posicionando minhas pernas como as de um sapo. Levo os indicadores às têmporas.
Espero que Odin não pense que só porque um empresário de nome vem me ver (e que por causa disso, vou estar tensa), vou deixar que ele fique me provocando.
Lembro da conversa que tivemos ontem, das coisas engraçadas que falamos um pro outro, e de repente, me flagro sorrindo de novo como uma menina emocionada.
Pombom, o que tá acontecendo com você?
Escuto uma respiração pesada atrás de mim. Nem preciso me virar pra saber quem é.
Ela passa ao meu lado como uma modelo, já de collant e com o coque arrumado, fica de lado na barra. Fico olhando pra ela, vendo seu ritual de aquecimento. Faz dois demis e um grand, estica a perna direita quase por trás da orelha do outro lado da cabeça.
Ser magra e ter bumbum pequeno é mesmo uma vantagem pra qualquer bailarina.
— Gostou da minha flexibilidade? Não é pra qualquer uma — a morena direciona a mim seus olhos azuis cheios de veneno.
— Pena que ser feita de borracha nem sempre é tudo — dou uma de minhas respostas prontas.
— Tá se achando porque teve sorte lá em Barra, não é?
— Tenho sorte — faço um sinal de aspas com os dedos — desde que tinha cinco anos de idade.
Rebeca solta o ar pela boca. Um ar impregnado de inveja, raiva e inconformismo.
Ela se mantém me encarando com superioridade. Como estou em posição de sapo, debruçada, a morena aparenta estar no alto. Dizem que quanto mais alto subimos, maior pode ser nossa queda.
— Obrigada pelo toque que você me deu, Rebeca. Não passei vergonha — apoio os cotovelos no chão e mudo de pose, ficando sentada em espacate frontal.
A morena franze o cenho, nada respondendo.
— Rebeca?
Ela me ignora, mudando de direção na barra e esticando a outra perna.
— Tô falando com você.
— Ai, que saco! O que foi, garota?
— Vem cá. Quero conversar com você.
— O que a gente tem pra conversar? Se toca!
— É assim que você quer ser primeira bailarina da Promoarte? Com esse comportamento infantil?
Rebeca se retrai como que ferida em seu brio. Sua boca se entreabre. Consigo captar toda sua cólera segurada a custo e ver a veia de seu pescoço saltando e se abaixando.
— Vem — insisto. — A principal bailarina da turma do nível 8 não tem medo de uma conversa olho no olho. Ou tem?
— Claro que não! — ao responder, ela se senta defronte a mim, me permitindo sentir o cheiro gostoso de seu desodorante antitranspirante. — Fala logo.
Ofereço um sorriso conciliador. Levo minhas mãos às pernas da morena, fazendo-as se esticarem para os lados e deixarem-na também em espacate. Seu semblante endurece, logo se suavizando quando a puxo pela cintura, alinhando as pernas dela às minhas e o sexo dela ao meu.
— Eu queria te propôr uma coisa — tomo o cuidado para pisar em ovos.
— Fala — Rebeca põe as mãos nos meus ombros.
— Um duo. Uma coreografia para um festival. Nós duas.
— Um duo? Você e eu? Você só pode estar brincando.
— Não tô brincando. Você tem experiência com pas de deux, tem expressividade, força… Eu não tenho a sua técnica, mas tenho minhas qualidades. Você viu isso ontem. Um duo de garotas seria ótimo para o estúdio e para nós duas.
— Não tenho a menor vontade de ser caridosa com uma novata.
— Uma novata que ficou à sua frente logo na primeira competição que disputou — ela sabe disso, porém quero ter o prazer.
O olhar dela foge à ironia impregnada do meu semblante, mas mantenho um pouco de respeito ao não sorrir.
— Rebeca, você mesmo disse que eu sou boa. E o que eu falei de você também é verdade. Você dança muito. Nós duas somos boas. Então, por que não dançar um duo?
— Eu não tô a fim de participar de nenhum projeto com você.
Com um movimento abrupto, a garota tira minhas mãos de sua cintura, levantando-se e voltando até seu lugar na barra.
Fecho os olhos, lastimando o fato de que existem pessoas que não querem crescer.
— Você é quem sabe — dou de ombros, falando num tom bem audível.
Ela me olha por sobre seu ombro, o cenho franzido junto com um ar blasé dissimulado.
Os alunos entram e Letícia fecha a porta, nos cumprimentando com uma boa tarde entusiasmado. Bons resultados num festival deixam qualquer professor feliz.
Letícia respeita os limites dos nossos corpos ao nos poupar de uma aula de muita exigência física, porque sabe que estamos cansados. Nosso fim de semana foi intenso. Várias vezes a flagro bocejando, com certeza também voltou tarde.
Os ensaios vão ficar pra amanhã. À pedido dela, só alguns alunos permanecem na sala. Os mais promissores.
Letícia anda até o suporte de som, sob o qual está a pasta, e tira de dentro desta vários envelopes que acredito que contém nossas notas.
— Querem ver o que os jurados pontuaram sobre vocês? — ela sorri.
Como crianças afoitas, pegamos os envelopes e os abrimos. Obtive 9.8 com variação de Diana e 9.9 no solo contemporâneo, resultados que me deixam imensamente feliz, sorrindo de orelha a orelha.
Todo mundo ficou contente. Até a Rebeca delineia um meio sorriso, pois gostou das observações dos jurados.
— Aos que não conquistaram um prêmio material, se sintam realizados por terem dado seu melhor — Letícia usa um tom maternal, acolhedor. — Não é uma medalha de primeiro, segundo ou terceiro lugar que faz de vocês artistas excepcionais, mas sim a entrega de cada um. Se sintam vencedores.
Tenho vontade de abraçar Letícia. Ela consegue tocar o íntimo de cada um de seus alunos, nos fazendo entender que é importante subir degrau por degrau, sem pular etapas.
Os minutos a seguir são preenchidos por uma conversa descontraída, com risadas e troca de impressões dos bailarinos que dançaram. É a primeira vez que vejo nossa professora tão bem humorada. Claro que amanhã ou depois voltará a ter sua habitual postura de educadora: rígida e atenta a mínimos erros.
— Bom, vamos encerrar por hoje? — ela se levanta. — Bombom, Rebeca e Bruno. Vocês ficam.
Nós três buscamos respostas nos olhares uns dos outros enquanto a sala se esvazia aos poucos.
— Os três queridinhos da professora — escuto uma garota cochichar com a Pink.
Letícia anda até a porta e a fecha.
— Bom, agora que estamos só nós quatro, quero dizer que não sou de fazer distinção entre nenhum aluno meu. Dentro da sala de aula, dou a mesma atenção a todos. Mas tempo é um bem valioso, e eu não quero desperdiçá-lo com alunas que eu sei que não vão seguir carreira na dança. É triste, mas a maioria dos jovens que acabou de sair desta sala daqui a dois anos estará fazendo faculdade de Medicina, Direito, Engenharia Civil ou Tecnologia. E tudo porque os pais acham que balé não é um trabalho sério. Não dá dinheiro. Para os pais, o balé é só um entretenimento para suas filhas enquanto elas estão no colégio. Eu sei que é assim. E sei reconhecer quem tem talento e quem está a fim de ter uma carreira artística, e vocês três são bailarinos em quem vejo felicidade nos olhos quando dançam. Eu sei que vocês amam o que fazem e têm ambição de serem artistas profissionais.
Letícia faz uma breve pausa.
— O motivo de eu ter pedido para que ficassem é o Festival de Dança em Posadas, na Argentina, que vai acontecer em outubro. À princípio, eu queria levar só os alunos do Balé Avançado, mas pensei melhor, pedi uma opinião para a Tânia, e ela me aconselhou a levar alguns alunos que estão em formação. E antes que vocês falem de problemas como preço das passagens: é uma oportunidade importantíssima. Os vencedores recebem, além de prêmios em dinheiro, bolsas de estudo em ótimas escolas de dança e vagas para disputar a edição americana desse festival. Em Nova York! Junto com alguns dos melhores bailarinos do mundo!
— Meu Deus! Que tudo! — Bruno vibra.
Rebeca se limita a um sorriso discreto.
— Pensem. É caro, mas vale a pena — Letícia faz pressão. — Bombom?
— Não tenho dinheiro — minha resposta faz o cenho se franzir.
— Por isso você precisa de um patrocinador. E é pra ontem!
Meneio a cabeça pensativente.
— Me dê tempo pra pensar — peço.
— Eu te dou tempo pra dizer se vai ou não ter condições de ir, mas preciso que vocês três gravem em vídeo suas variações clássicas e também suas coreografias. A seleção dos participantes se dará por meio desse material, e só tenho até sexta para enviá-lo para o site da produtora. Então, se apressem.
Nós três trocamos olhares cheios de significado, sem nada dizer.
Letícia, dando por encerrada a conversa, abre a porta e nos despede. Vou para meu quarto, me sento na beirada da cama apoiando os cotovelos nos joelhos e ocultando minha cabeça.
Seria maravilhoso ir dançar na Argentina. E seria um passo importante na minha trajetória.
Mas será que posso dar esse passo?
3, 7k de palavras
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