Capítulo 1
Novembro de 1994
Lucas chegou em casa com o semblante abatido e colocou a pasta que continha alguns documentos do trabalho sobre a mesa da cozinha. Sentou-se em uma das cadeiras e ficou observando em silêncio enquanto sua esposa Julia retirava um bolo do forno. O cheiro agradável tomou conta do ambiente. Julia tinha os cabelos escuros e a pele clara com lindos olhos verdes, usando aquele avental era a mais linda dona de casa do mundo. A linda esposa de Lucas que por motivos diversos havia concluído a faculdade, mas não arranjara nenhum trabalho que valesse a pena deixar a casa sozinha ou na mão de uma empregada. Ainda mais que os dois planejavam ter um filho logo no início da vida a dois.
— Olá querido! Aconteceu alguma coisa? Você parece triste.
— Mamãe não estava se sentindo bem novamente, mas desta vez papai a levou ao médico. Ela precisa descobrir qual é o problema que tem, não pode ficar com esses sintomas e não saber se tem alguma doença.
— Você tem medo que seja alguma doença grave? — perguntou Julia.
— Não acredito que seja o caso dela, mas só saberemos depois que ela fizer os exames. Enquanto isso é impossível não ficar preocupado.
— Eu entendo você, mas não adianta se torturar antes da hora. Não será nada grave, você vai ver.
— Deus te ouça.
— Coma um pedaço de bolo, é uma receita nova que encontrei na internet. Experimente para ver se é bom igual diziam no site.
Julia então cortou um pedaço e serviu num prato de sobremesa para Lucas.
— Humm. É delicioso, você fez uma ótima escolha.
— Obrigada! — E sua mãe ficou de dar notícias?
— Mais tarde eu ligo para ver como ela está, agora irei finalizar um relatório que preciso entregar amanhã no trabalho.
— Tudo bem, mas será difícil conseguir se concentrar se está preocupado com sua mãe.
— Você tem razão, mas não posso deixar isso para depois.
Uma hora mais tarde Lucas pegou o telefone e ligou para sua mãe.
— Olá mamãe! — Como a senhora está?
— Eu estou bem filho. O doutor pediu alguns exames e pediu para que eu retornasse quando tivesse os resultados.
— Mas ele não falou o que a senhora tem?
— Não! Aparentemente eu estou bem, mas vou fazer os exames que ele pediu. Amanhã também farei um teste de glicemia em jejum. Eu fiz na clínica e ele disse que estava um pouco alterado o resultado, mas pediu este teste para depois dizer se isso realmente é um problema.
— Ótimo. Assim que retornar ao médico me avise. Vamos visitá-los no final de semana.
— Pode deixar que aviso sim e estaremos esperando você e Julia.
— Julia está mandando um abraço para a senhora.
— Obrigada! Até domingo filho.
Lucas desligou o telefone e permaneceu pensativo.
— Sua mãe está melhor agora? — perguntou Julia.
— Sim, mas o médico ainda não deu nenhum diagnóstico. No entanto, ela estava com a glicemia alterada e o médico pediu que ela refizesse o exame em jejum.
— E você acha que isso tem alguma relação com os sintomas que ela estava sentindo?
— Não sei. Mas glicemia alterada é sinal de diabetes, espero que isso não seja verdade, do jeito que mamãe gosta de comer doce isso seria uma coisa terrível.
— Isso é verdade, toda vez que vamos almoçar lá ela faz alguma coisa diferente. E geralmente é algo com bastante açúcar.
— Espero que eu esteja errado, ou não quero imaginar o problema que teremos — disse Lucas preocupado com a situação.
No dia seguinte Maria, a mãe de Lucas foi ao hospital para realizar os exames. Fez o teste de glicemia e alguns outros exames que o doutor havia solicitado. Já com o resultado do exame de glicemia em mãos o doutor Paulo mandou chamá-la em sua sala.
— Sente-se dona Maria. — Como a senhora está se sentindo?
— Estou bem, mas com bastante fome.
— Isso pode ser por causa do jejum, mas a senhora tem sentido muita fome ultimamente?
— Sim. Acredito que mais do que o normal. Também tenho sentido necessidade de urinar mais vezes do que estava acostumada.
— Isso só reforça as minhas suspeitas, estou com o resultado do seu teste de glicemia. Mesmo tendo realizado o exame em jejum a senhora ainda está com a taxa de açúcar no sangue muito acima dos níveis normais.
— E isso quer dizer o quê doutor?
— A senhora sofre de diabetes, a sua taxa de glicose está muito acima dos valores normais e não é a primeira vez que os exames mostram isso. Tudo indica para o diabetes tipo 1.
— Diabetes! O senhor tem certeza do que está falando?
— É interessante que a senhora repita o exame mais algumas vezes, também vou aguardar o resultado dos demais exames que solicitei. Mas não acredito que apresentem um diagnóstico diferente, infelizmente.
— E qual é o remédio que eu devo tomar para me curar?
— O diabetes não tem cura, apenas tratamento, infelizmente.
— Minha falecida mãe tinha diabetes, eu não sabia que isso poderia ser transmitido de uma pessoa para a outra.
— Na verdade, isso realmente não acontece. O que existe principalmente no caso do diabetes tipo 1 é uma pré-disposição genética para ter a doença. Como é um fator genético a pessoa saudável com hábitos sedentários e sobrepeso pode desenvolver a doença.
— Eu não sabia disso, nunca me falaram que eu precisava me cuidar para não ter essa doença. Isso quer dizer que meus filhos também podem vir a ter a doença?
— Infelizmente sim. Quantos filhos a senhora têm?
— Dois filhos, um homem e uma mulher já adultos.
— Acho bom que os previna, o diabetes é uma doença que não escolhe idade, ela é capaz de ser desenvolvida através de hábitos de vida sedentária, mas neste caso também existe o fator hereditário. Portanto, o risco é muito maior.
— O senhor ainda não me disse qual é o tratamento.
— A senhora precisará tomar doses diárias de insulina e também terá que fazer uma dieta saudável e com baixos níveis de açúcar. A dieta pode começar o mais rápido possível e a dose de insulina irei prescrever após ter o restante dos exames em mãos.
— Isso quer dizer que não posso mais comer coisas doces como pudim, bolo e chocolate?
— Não digo que não pode, mas devem ser evitados ao máximo possível. Se a senhora não seguir a dieta recomendada a insulina não fará efeito e as consequências da diabetes descontrolada podem ser fatais. Podem surgir várias complicações, como a pressão alta e consequentemente problemas cardíacos, problemas de visão e dificuldade de cicatrização de feridas. A senhora poderá ter uma vida normal, mas precisa seguir as recomendações.
— E o que mais eu não posso comer além de doces?
— Aqui está uma lista dos alimentos que a senhora pode consumir.
Maria olhou para a folha com cara de espanto.
— Só isso que eu poderei comer?
— Infelizmente sim. Vou recomendar que faça uma consulta com um nutricionista e também com um endocrinologista periodicamente. Também quero que retorne aqui amanhã para que eu possa lhe receitar a dose correta de insulina.
— Tudo bem doutor — disse Maria e então saiu do consultório sentindo que o mundo a seus pés havia desaparecido.
Carlos seu marido havia a deixado no hospital e após sair do trabalho foi buscá-la.
— E então. Como foram os exames?
— Péssimos. Acredita que o doutor acha que estou com diabetes?
— Não duvido muito, do jeito que você gosta de doce isso não me surpreenderia.
— Não exagere Carlos. Não como tanto doce assim e, além disso, ele disse que existe o fator hereditário. Minha mãe tinha diabetes e morreu por causa disso.
— Mais um motivo para que se preocupe com a sua saúde. O doutor deve saber o que diz. Ele receitou algum remédio?
— Sim. Disse que tenho que tomar insulina todos os dias para o resto da minha vida. Mas ainda falta o resultado de alguns exames, só então ele dirá qual é o tipo de diabetes que eu tenho.
— Ótimo. Mas é melhor que comece a fazer a dieta imediatamente. Ele deve ter lhe orientado.
— Sim. Esta folha diz tudo o que eu posso comer. Na verdade, acho que uma pessoa morreria de fome se seguisse o que diz nesta folha.
**********
No domingo pela manhã Lucas e sua esposa Júlia chegaram de carro a casa de sua mãe. Carlos seu pai estava na varanda fumando um cigarro e conversava com Felipe seu genro enquanto a irmã de Lucas ajudava dona Maria na cozinha. Felipe era casado com Marisa a irmã de Lucas, os dois haviam casado antes de Lucas, mas assim como ele e Julia ambos ainda não tinham filhos.
— Como vai papai? Tudo bem Felipe?
— Tudo bem — responderam.
— Onde está a Marisa?
— Ajudando sua mãe na cozinha.
— Podem ficar conversando que vou até lá para ver se precisam de ajuda — disse Julia e saiu em direção à cozinha.
— Então papai. A mamãe já tem todos os resultados dos exames?
— Sim. Inclusive ela já começou a tomar a medicação.
— Do que vocês estão falando? — perguntou Felipe.
— Mamãe não estava se sentindo muito bem e resolveu ir ao médico, mas ainda não sei qual foi o diagnóstico.
— Humm. Marisa me contou que ela não estava se sentindo muito bem ultimamente, mas não disse que ela havia ido ao médico. Acho que ela não estava sabendo disso.
— Provavelmente Maria não contou a ela, mas hoje todos saberão — disse Carlos dando uma baforada de fumaça no ar.
— Saberemos qual é o diagnóstico, isso que o senhor quer dizer?
— Isso mesmo. Mas vamos deixar isso para depois do almoço.
Logo depois do almoço...
Todos estavam reunidos na sala de estar quando Lucas puxou o assunto.
— Então mamãe, qual foi o diagnóstico que o médico lhe deu?
— Médico! Diagnóstico! Do que vocês estão falando? — perguntou Marisa.
— Você sabe que não tenho me sentido muito bem ultimamente, então fui ao médico e fiz alguns exames. Já sei qual é a doença que eu tenho.
— Diga logo mamãe, a senhora está me deixando aflita.
— Estou com diabetes tipo 1. É uma doença que não tem cura e no meu caso a origem é hereditária. A minha mãe também tinha diabetes e eu não sabia que eu também poderia ter. Por isso nunca me importei com a possibilidade de desenvolver a doença.
— Nossa! — Por que a senhora não me contou antes?
— Não queria lhe preocupar a toa.
— Eu já desconfiava disso — respondeu Lucas.
— Hereditária quer dizer que nós também podemos ter a doença? — perguntou Marisa.
— Não necessariamente. Pelo menos foi o que o doutor disse. A doença não passa dos pais para os filhos, mas devido à má alimentação e uma vida sedentária existe um grande risco devido ao fator genético — disse sua mãe.
— E ele passou algum remédio para a senhora? — perguntou Lucas.
— Terei que tomar uma dosa de insulina todos os dias para o resto da minha vida e ainda preciso seguir a dieta que o doutor me passou. Ele também queria que eu consultasse um nutricionista e um endocrinologista, mas não temos dinheiro para ficar gastando dessa maneira. Também tenho que verificar periodicamente qual é a minha taxa de glicemia.
— Tomar insulina todos os dias? — perguntou Marisa.
— Sim. Mas é aplicada diretamente na pele com uma seringa.
— Ai que arrepio! A senhora vai se espetar todos os dias com uma agulha?
— Isso mesmo, mas o importante é que isso vai controlar a minha taxa de glicose no sangue. Mas agora vamos parar com essa conversa chata e vamos comer a sobremesa. Venha me ajudar a pegar o pudim que eu preparei Marisa.
Elas pegaram o pudim e serviram para todos.
— Mamãe. A senhora não acha que isso está muito doce para que possa comer? — perguntou Lucas.
— Não tem problema se eu comer apenas um pedaço, foi isso o que o doutor falou, depois eu tomo a insulina e tudo se resolve — disse ela.
No entanto, após comer o primeiro pedaço dona Maria pegou outro pedaço e ainda colocou um pouco da calda caramelizada sobre o seu pedaço. Todos observaram, mas apenas Marisa teve coragem de falar.
— A mãe não acha que está exagerando?
— Só mais um pedacinho não irá me fazer mal, não vou deixar de comer o que eu gosto por causa dessa doença idiota.
O silêncio pairou sobre o ar e ninguém mais falou nada sobre o assunto.
Naquela mesma noite Maria passou mal novamente e precisou retornar ao hospital. Mesmo tomando insulina a taxa de glicemia estava acima dos níveis normais.
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