Capítulo 4 - O interior da residência

O corte ardia como fogo. O sangue não parava de brotar pelos dedos de minha mão. Minhas forças estavam acabando, e a voz da gargalhada maligna se aproximava. Não entendi o real motivo para ainda permanecer vivo, será que ela estava com pena de mim? Ou desistiu? Não, não era possível, a mesma não parava de falar "apareça, humano". Só que a própria mulher, era humana, também. Não estávamos em um mundo de fantasia, até porque, um mundo fantástico não existe.

-Sinto cheiro de medo humano. Hum...é menino, ainda não tirou o odor de urina, que acompanha os homens por toda uma...uma...

Antes de terminar a frase, algo irrompeu da escuridão das flores. Era ele, Tinto. A velocidade que vinha foi tão grande, que não tive tempo de segurá-lo. Em seu rastro, veio o gato branco, um pouco mais lento, e com fúria nos olhos. "Voltes aqui, Godah", foi o que tive a momentânea impressão, de ter escutado.

-Bichano, voltes aqui, seu gato safado!- latiu a mulher canibal.

A mulher falou essa frase no mínimo dez vezes, e percebi que a sua voz estava se distanciando. Minha chance de fugir, apareceu. Amanhã tinha aula, e eu já não poderia faltar, pelo motivo que, na minha frequência, já tinham oitenta faltas.
Levantei, o sangue pareceu ter parado de sair pelo corte profundo. Apalpei o lugar que pouco antes estava sangrando, já não mais doía. Quando puxei a camisa e olhei para minha barriga, vi que não mais existia nenhum ferimento, nem mesmo cicatriz. Isso, sem via de dúvidas, me surpreendeu. Fiquei assustado, todavia estava tão feliz, que tive de tampar minha boca, porque uma gargalhada estava prestes a sair. No alto, a lua estava em sua fase, que chamam "lua cheia", entre as nuvens fracas que já não mais mandava chuva. Olhei para o lugar que pouco antes estava a pessoa da risada mais horrível que ouvi, e nada estava lá. Uma foice longa, com cabo de madeira, estava sobre o chão. A barra estava limpa, o momento chegou, abri um sorriso. Ainda contendo a vontade de sorrir, dei o primeiro passo e...

-Pensas que vais para onde?- uma mão fria caiu sobre o meu ombro direito.

Sobressaltado, corri sem olhar para a dona da voz. O medo que estava tomando conta de mim, fazia com que minhas pernas tremessem.
Slim, slim
O som raspou duas vezes a minha orelha. Ela havia pegado a foice. Ao redor do jardim, não tinha lugar para se esconder, o meu fim tinha chegado. Uma vez que, tentasse pular a grade, ela me agarraria pelas pernas. A luz que veio para minha mente, foi a de enfrentar a mulher, ou correr até ela cansar.

-Corra, carneirinho, quanto mais suado, melhor!- soltou uma maldita gargalhada , que fez até os pelos de meus dedos arrepiarem.

Seria morto, morreria tão rápido que não daria tempo de gritar. Uma árvore estava no fim do caminho. Correndo, meu primeiro pensamento foi: vou subir na árvore. No entanto, optei pelo caminho mais fácil. Uma janela estava aberta ao lado da árvore, não pensei duas vezes, pulei para dentro da casa, tranquei a janela e tranquei a janela.
Do lado de fora, vi o motivo do espanto que o marmita teve. Aquela mulher era a coisa mais horrível que pude presenciar. Seu rosto era no formato de cara de gato, seus dentes caninos eram tão grandes, que ficavam expostos e chegavam ao queixo. Seu cabelo preto imundo, tinha líquido verde. Seus olhos eram completamente brancos, desde os glóbulos oculares, até a pupila. Pude entender o motivo para ela não ter me liquidado. Essa mulher não enxergava, tanto era, que ela estava fungando o ar, para sentir o meu cheiro. Na mão direita, segurava a foice que vi pouco tempo atrás, e suas orelhas pontiagudas, tornavam sua aparência, um choque para qualquer pessoa.
Mais uma fungada na janela, depois expôs um sorriso maligno, deu uma gargalhada tão sinistra, que tremeu até minha coluna vertebral, e assim saiu de vista.
Agora que ela não estava no meu rastro, pude perceber onde estava. Na parede atrás de mim, tinha uma enorme prateleira branca. Me aproximei para enxergar melhor o que fazia a composição do lugar. Comecei pela primeira do meio. Nela saquinhos de plástico com o nome "arroto de porco", "mata-mata", "pólen dos deuses" e "koncrer", escritos por letras feias, estavam um do lado do outro. Acima, frascos diziam "loblicca", e "siprum", eram enfileirados. Peguei uma amostra de cada, coloquei em uma sacola amarela, que estava no chão, e fui explorar um louco nais o que meus olhos podiam enxergar.
Ao lado, na parede de madeira, gatos pretos pendurados pelos pés, pendiam do teto, amarrados por cordinhas finas. Os felinos se mexiam lentamente, mas não tentavam o sair do laço.
Chifres de bode estavam em um frasco com molho vermelho. O chão era de madeira, muito desregulado. A porta de saída daquele quarto, era sem dúvidas a que eu estava olhando no momento. Tinha um chifre no lugar da maçaneta. Pensei: "se eu voltasse pelo jardim, ela poderia me matar facilmente". Se tinha de sair, era pela porta da frente, por mais que isso custasse minha life. Coloquei minha mão no pontiagudo chifre, girei muito devagar, e saí para um salão sinistro e redondo. A casa tinha no mínimo, treze andares acima de minha cabeça, suas paredes antigas, em madeira marrom escura. No entanto, era alguma ilusão, pois de fora da casa, via-se somente as telhas de uma casa velha e baixa, prestes a desmoronar .Uma espécie de escada circular, em madeira maciça, fazia-me ficar tonto, o mundo girar em minha visão. Na casa não tinha televisão, telefone, ou cozinha, só que um caldeirão prateado, lançava perfume no ar, próximo a janela da porta de entrada. Sua madeira queimava ardentemente abaixo, no fogão à lenha.
Passos ecoaram pelo piso de madeira. Me enfiei atrás de uma cortina preta, na frente tinha uma mesa redonda, algo que daria para me esconder por um tempo.

-Menininho, apareça, a titia tem docinhos para ti- a mulher deformada, tentava me fazer de bobo.

Uma ideia surgiu na cachola.

-Quero ser sua amiguinha, podemos brincar de esconder- insistia a canibal.

Abri a sacolinha com os objetos que peguei, e sem pensar, peguei o frasco que tinha o nome de koncrer, e joguei para a outra extremidade do salão circular. O objeto quebrou, e dele irromperam chamas azuis, que fizeram a mulher gritar de fúria.

-Mexendo nas minhas poções, agora morrerás!- urrou a sinistra, e começou rondar o lugar, saboreando com fúria o ar.

Em três passos ela estava cara a cara comigo, eu estaria frito. Pensei em gritar, pedir socorro, no entanto...
Plack
Vi um gato branco atravessar o salão, voando pelo ar, e colidir com a porta de entrada. Soltou um gemido e apagou.

-O que foi isso, Bichano?!- ela foi na direção do gato caído.

Quando a cara de gato abaixou-se para socorrer o gato, saí de trás da cortina e pensei "era minha hora de escapar", todavia, naquele momento algo aconteceu.

-Ei, acho que vai precisar disso.

Olhei para baixo, Tinto, meu rato de estimação, estava apoiado nos dois pés traseiros, me entregando um punhal dourado.

----------------------------------------------------------------
Gostando da história?
Vote, siga o meu perfil, deixe nos comentários o que achou do capítulo.
Um grande abraço

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top