Capítulo 09 - Apresentação com o diabo
Era o dia da apresentação.
Eu mal conseguira dormir preocupado com o que seria do trabalho. Valia pontos que somariam bem com a média final, então teria que ir muito bem nesse trabalho para obter uma pontuação considerável.
Minha preocupação também ia com Roy. Tinha medo que ele fosse apenas um rostinho bonito naquele trabalho. Geralmente os populares, não faziam muito bem a sua parte num trabalho. Apesar de Roy ter me ajudado, mas estava uma correria na sua vida por causa dos jogos das finais do time de futebol do qual fazia parte. Ainda não tinham perdido nenhum jogo até ali.
Levantei bastante agitado. Tudo o que fiz até chegar na escola, foi com a mais pura agitação. Por fora eu não demonstrava tanta inquietação, mas por dentro meu ser pulava, corria, gritava e não parava quieto de maneira alguma.
Chegando na escola, encontrei com Lisa e Franklin. Eles estavam conversando quando eu cheguei e logo que me viram fizeram uma recepção. Franklin com os seus cabelos ondulados jogados sob sua testa, usando seus óculos de grau e vestindo um moletom verde lodo, estava bem sorridente. Lisa também fora bastante bem arrumada para se portar bem na imagem na hora da apresentação. Não que ela tivesse se arrumando apenas ali, não mesmo, pois já fazia isso desde mais algum tempo. Ela estava com o cabelo solto jogado sobre os ombros, uma blusa baby look rosa claro e usava um macacão jeans que valorizava bem as curvas de seu corpo.
Conversamos por um tempo antes das aulas começarem. Eu falava o quanto estava nervoso pela apresentação do trabalho que seria nos últimos horários do dia, me afligindo ainda mais, pois meu coração estaria irrequieto por todo o dia até finalmente o momento final.
Na minha cabeça só se passava o fato de que tudo poderia dar errado naquele trabalho. Eu estava surtando. Mal prestara a atenção nas outras aulas martelando paranóias em minha cabeça. Fases de um estudante totalmente desesperado. Quem nunca ficou dessa forma. Por mais que eu tivesse estudado, ainda me preocupava, pois quando me mantinha muito nervoso, acabava travando e pondo tudo a perder e, meu medo era exatamente aquele no momento, dar a descarga em tudo.
Como já havia pensado antes, Roy também me preocupava demais. O trabalho era para ser em dupla e fora o que mais o professor realçara em suas falas, que o trabalho teria que ser desenvolvido em dupla ou então o ponto seria mínimo para a dupla. Teríamos que trabalhar por dois como um só. Aquilo poderia não fazer sentido, mas como a visão de sociólogo, aquilo era o trabalho em equipe e contava para a sociedade de forma tamanha e conjunta.
Minhas mãos suavam o tempo todo e meu coração não cansava, batendo rapidamente o tempo todo. A cada minuto que o relógio indicava, estava cada vez mais próximo do horário final e com os minutos, voava também minha ansiedade, que se achegava cada hora que se aproximava mais.
Respira Charlie, respira!
Tentava me encorajar para não ter um terço antes mesmo de tudo dar errado. As coisa também poderiam dar certo, mas o medo sempre pendia para o lado negativo e perturbava o coração vulnerável, assim como o meu.
No intervalo, enquanto lanchávamos, Roy se aproximou da mesa onde eu estava com Franklin e Lisa.
― Está tudo certo para hoje Charlie? ― perguntou Roy ao se aproximar.
Quase me engasguei com a comida. Por um momento esqueci que ele poderia estar falando do trabalho. Passou logo na minha cabeça, os momentos que tivemos juntos e toda a nossa relação escondida.
― A apresentação do trabalho! ― esclareceu Roy.
Depois de desenganado com um gole de suco, consegui finalmente falar.
― Ah claro! ― respondi. ― Mas você lembra que o trabalho é em dupla, certo?
― Claro!
― Temos que ter química juntos, amigo ou essa nota será apenas um sonho!
Roy deu um leve sorriso.
Queria que nada estivesse evidente. Parecia que por eu esconder esse segredo as pessoas poderiam estar suspeitando o tempo todo. Ficava muito nervoso de estar escondendo algo e mesmo que por internamente, temia que todos pudessem suspeitar e entender tudo no ar.
― Eu acho que vamos bem! ― declarou Roy.
― Eu espero mesmo! ― falei.
Roy distanciou-se e ajuntou-se aos seus amigos.
― Eu sinto pena de você amigo! ― confessou Lisa. ― De tantas pessoas você foi pegar justamente o babacão do Roy.
Se ela soubesse que eu o peguei de todas as formas possíveis...
― Ele e todos os outros do time dele, têm cérebros de passarinhos! ― ela concluiu.
Franklin riu. Eu forcei um riso mesmo não achando tanta graça nas palavras dela, fiz apenas para não parecer que eu estava desvalorizando o humor negro dela.
Nossas conversas em trio estavam cada vez mais completas. Com Franklin ali também ajudava muito a não morrer com o assunto. Ele tinha várias histórias, vários assuntos diversificados, parecia até uma revista humana. Não nos entendiava nunca. Pelo contrário, ele nos entretia em meio a tanto tédio.
O dia foi se passando em suas medidas. Por fim, finalmente chegara o horário das apresentações. O professor chamou por ordem de formação dos grupos. Eu e Roy fomos um dos últimos a sermos selecionados, portanto assistimos a todas as apresentações antes de enfim fazermos a nossa.
Algumas duplas foram bem horríveis apresentando, então aquilo me preocupava ainda mais. Estava cada vez mais aflito. Eu olhava para Roy naquela aula e ele me retornava com pequenos gestos de cabeça e expressões.
O professor em alguns momentos de certas apresentações, parava para reclamar o que havia sido ruim naquela dupla e recomendava aos próximos que fossem apresentar que não cometessem o mesmo erro ou então os descontos na nota seriam mais acentuados.
Aquilo de certa forma nos dava mais tempo para apresentar, mas também massacrava meu coração, que batia tal como uma música intensa do "Heavy Metal", quando a bateria se torna evidente e marcante. Com tudo era bom que fossemos os últimos, pois nos apropriaríamos de cada dica do professor para não fazer feio no fim e talvez sermos a melhor dupla até ali. Como últimos a responsabilidade era maior e necessitávamos ser impecáveis de todo modo.
Era a vez de Lisa e Franklin apresentarem o trabalho deles. Eles estavam bem entrosados e eram bem articulados. A única coisa que talvez prejudicara a dupla, é que Franklin era um pouco tímido para falar com toda a classe, falando baixo em alguns momentos da apresentação, mas de resto, os dois se complementavam bem.
O professor quando fora comentar sobre eles dois, dissera que eles haviam sido o melhor grupo até ali. Falara também o que eu já comentara, que Franklin só precisava ter falado mais alto em alguns momentos, no entanto tirando isso eles tinham sido perfeitos e tiraram quase a nota máxima.
Ainda haviam alguns grupos mais para se apresentarem antes de Roy e eu. Continuamos na mesma situação, olhando os outros apresentarem e temendo a hora da nossa apresentação. Ainda houve outros grupos bons depois de Franklin e Lisa, o professor comentara bem a respeito, advertira de algumas coisas e de outras elogiara e por fim concluía dando o resultado das notas no exato momento pós avaliação.
Finalmente era a nossa vez. O professor nos chamou pelos nossos nomes. O frio na barriga era inevitável. Parecia até que eu estava descendo a uma altura absurda numa velocidade insana em uma tirolesa na neve, que mexia com toda a adrenalina do meu corpo, canalizando-a para minha barriga, pois passava uma friagem intensa por ali e subia para o meu coração acelerando-o também.
Nos pomos em frente à toda a turma. Ver todos aqueles olhos cheios de expectativas nos fitando, aumentava a pressão pela qual já estávamos sentindo. Queria dar a eles e principalmente ao professor, uma apresentação digna de um encerramento. Queria apresentar algo que fosse memorável, de forma grande. Eu queria de verdade destacar. Queria que desse tudo certo. Queria impressionar.
O professor nos jogou mais pressão ainda, quando nos apressou, dizendo que já poderíamos começar a apresentar. Talvez ele não fizesse por mal, pois tinha que administrar o tempo das aulas, mas só nós sabíamos o quanto aquilo era intimidador.
Começamos nossa apresentação. Eu estava bastante nervoso com tudo ali. Respirava fundo e no início, logo nas minhas primeiras palavras, saíram numa fala ofegante. Apenas depois de começar a falar, comecei a articular melhor minhas falas. Ainda estava bastante nervoso e minhas mãos tremiam, mas tentei manter a compostura para a finalização do trabalho.
Roy não parecia estar nervoso, pois falara muito bem e me ajudara em alguns momentos. Começamos a nos encaixar melhor à partir do meio do trabalho, quando transbordamos química. Comecei até a me empolgar na fala. Realmente estávamos trabalhando em equipe ali e isso se tornara mais perceptível no decorrer das conclusões.
Quando terminamos nossa apresentação, a sala ficou em silêncio por alguns segundos nos encarando. Fiquei um pouco hesitante quanto a nossa apresentação. Talvez tivesse sido um fiasco. Baixei minha cabeça e em seguida olhei para Roy que olhava fixo para o professor que parecia estarrecido. Logo a turma inteira se levantou com aplausos.
O professor ainda permanecia boquiaberto, olhando para nós sem reação alguma. Ele anotou algo em seu caderno e em seguida levantou-se e nos encheu de elogios abalizadamente, revelando que havíamos sido a melhor dupla dali e havíamos tirado a pontuação máxima. Fiquei feliz.
Mau podia acreditar no que acontecera. Eu havia surtando tanto por aquele trabalho e olhe então. Eu havia tirado a nota máxima no trabalho. Meu surto até que fora recompensado afinal. Meu coração estava exultante dentro do meu peito, querendo sair de dentro do meu peito para estouar nas extremidades exteriores.
Tomei assento num alto grau de felicidade na cadeira. O restante final da aula, o professor apenas comentara sobre os trabalhos, não cansando de enaltecer a apresentação feita por mim e Roy.
O sinal finalmente tocou, indicando o fim das aulas. Franklin, Lisa e eu caminhamos pelos corredores da escola, depois de liberados, andando à passos vagarosos, enquanto conversávamos ainda sobre as nossas respectivas apresentações do trabalho.
― Ei, que tal irmos comemorar em uma lanchonete esse feito maravilhoso? ― sugeriu Lisa.
Por sorte eu tinha levado dinheiro naquele dia, então concordei na mesma hora em ir, afinal adoraria sair um pouco. Franklin concordou também, então ficou tudo certo.
Voltamos a nos mover, mas desta vez mais rápido, em direção aos nossos armários para guardar nossos materiais, quando um grito ecoa por nossa retaguarda. A voz chamava pelo meu nome. Virei-me para ver quem me chamava então. Era Roy. Ele quem me chamava. Ele deu uma carreira para chegar mais rápido próximo de mim.
― Ah, vão adiantando as coisas, que eu já chego lá! ― disse para Franklin e Lisa.
Lisa me olhou meio preocupada.
― Você tem certeza? ― ela perguntou.
― Sim, está tudo bem! ― passei segurança.
― Então tudo bem! ― ela falou virando de costas para mim juntamente com Franklin e saindo os dois juntos logo em seguida.
Voltei a minha direção para Roy, que já estava bem perto de mim quando voltei-me para ele.
― Roy! ― falei.
― Ah, eu só dizer que fomos bem juntos hoje não é?! ― alçou ele.
― Sim, fomos muito bem hoje, à propósito obrigado por me ajudar em alguns momentos!
― Sabe, que bom que eu acabei ficando com você!
Meu coração exacerbou-se. Senti meu corpo inteiro estremecer. Aquelas palavras me atingiram de cheio. Meu coração bateu mais intenso e açorado.
― Formamos uma bela equipe não é mesmo? ― replicou ele.
― Sim! ― concordei.
― Ah, você quer fazer alguma coisa hoje, sei lá?
― Olha Roy, hoje não posso! ― falei. ― Vou sair com meus amigos para comemorar esse ocorrido de hoje.
― Ah, claro! ― ele fez um ar sem graça.
― A gente pode fazer outro dia então!
― Tudo bem! ― pactuou ele.
― Mas se consideramos no sábado do jogo quando você me deixou, estamos quites! ― relembrei-o com um sorriso astucioso armado.
― Ah, então quer dizer que agora é vingança! ― Roy entrou no meu jogo.
― Claro! ― disse sorrindo. ― Aqui se faz aqui se paga!
― Mas e o amor ao próximo que seus pais lhe ensinaram? ― motejou ele.
― E quem disse que eu aprendi alguma coisa? ― falei enquanto ria. ― Não é porque eles são um poço de santidade que eu necessariamente vou ser assim!
― Olha, de qualquer forma eu ainda vou ficar te devendo uma, Charlie!
Assenti com um sorriso tímido esculpido.
― Charlie! ― a voz de Lisa ecoou pelos corredores me chamando com pressa.
Virei-me e gesticulei para que esperasse, pois eu em breve iria.
― Olha Roy eu tenho que ir mesmo, já estão me esperando!
― Tudo bem, vai lá! ― disse Roy dando alguns passos para trás. ― Divirta-se!
― Ok!
― Tchau.
― Tchau.
Ele se foi e eu me dirigi até Lisa, que estava com pressa. Ela segurou em meu braço e andamos com os braços cruzados, tal como dois melhores amigos.
― Qual era a do senhor encrenca? ― perguntou ela.
― Nada demais, ele só queria falar que no fim das contas acabamos fazendo uma ótima dupla.
― Realmente! ― confirmou ela. ― Quem diria vocês dois. Um dia desses estavam como cão e gato nos corredores da escola e olha só hoje!
Dei um leve sorriso.
― À propósito cadê o Franklin? ― perguntei.
― Está nos esperando na entrada! ― respondeu.
― Vocês dois também foram muito bem hoje! ― comentei.
― Não como você é Roy! ― sobrelevou ela.
― Mas vocês também foram bem, vai! ― tentei reerguer.
― É, até fomos, tipo como um segundo lugar, mas o destaque hoje foi seu "mu namour"!
― Mas vocês foram até bem, pois pensei que Franklin nem ia falar em público!
― Realmente, Franklin falando em público foi uma vitória!
Rimos juntos e continuamos andando.
Parei no meu armário apenas para guardar meu material. Seguidamente seguimos ao encontro de Franklin na entrada/saída. Estando nós três juntos, seguimos para a lanchonete que Lisa nos recomendara.
Chegando lá, arrumamos nossos lugares numa mesa próximo à vitrine do estabelecimento. Fizemos nossos pedidos e acompanhamentos à garçonete e ficamos ali conversando, esperando os nossos pedidos chegarem.
― Eu estava tão nervoso no começo da apresentação, nem acredito que tirei a nota máxima! ― comentei empolgado.
― Ai amigo, você arrasou nesse trabalho! ― Lisa assumiu.
― Lisa tem razão Charlie, você foi muito bem! ― concordou Franklin.
― É, até que você e o tal Roy formaram uma dupla incrível! ― admitiu Lisa.
Meu coração bateu mais forte. Aquele comentário era tão direto que parecia até que Lisa já estava desconfiada de alguma coisa. Talvez fosse apenas mais uma paranóia da minha cabeça, como sempre. Eu vivia com essa síndrome cansativa na minha cabeça. Resolvi não pensar mais naquilo pelo menos até mais alguma coisa despertar um pensamento meu como aquele, mas por enquanto estava tudo bem.
Optei por me divertir ali com meus amigos. Precisava viver momentos bons, sorrir um pouco, afastar minha mente de problemas. Acho que na verdade todo mundo merece. É sempre bom sair da realidade dos problemas algumas vezes. São momentos como essas que faz a vida valer a pena, que fazem a gente sentir que estamos vivendo, pois a vida é feita de momentos simples e gostosos.
Quando o nosso lanche chegou, fizemos algumas comemorações e logo atacamos nossa comida. Eu tinha pedido um hambúrguer com uma Coca e uma porção de batatas fritas com molho caseiro. Confesso que estava tudo divino. Não conseguia nem falar, apenas saborear esmiuçadamente, entre mordidas famintas e mastigadas lentas e cautelosas, para sentir bem o sabor da delicia que eu estava saboreando.
Lisa e Franklin também tinham pedido hambúrgueres e Coca, porém a única diferença era que a Coca de Lisa era Coca Diet, mas no restante pedimos igual. Eles também comiam de maneira voraz que nem sequer tinham espaço para falar alguma coisa entre mordidas famélicas.
Depois que terminamos de comer, ainda ficamos por mais um tempinho conversando e rindo muito, pois Franklin contava algumas histórias muito engraçadas que ele ouvira no acampamento que seu pai lhe madava quando era mais novo no verão. Lisa riu tanto que espirrou refrigerante pelo nariz, fazendo com que eu e Franklin caíssemos na gargalhada. Ela limpou tudo com guardanapo e ficou um pouco a graça, mas não perdeu a chance de rir de si mesma.
Eram aqueles tipos de momentos que me faziam feliz também. Apesar de ser bom estar apaixonado por alguém, mas amar e ser amado pelos seus amigos, de uma forma a não se envergonhar, fazia crer que a amizade era uma das mais belas formas de amar da natureza. Era uma prova substancial do amor recíproco.
Aproveitei ali cada minuto com meus amigos. Ri bastante e afastei todas as energias negativas, que foram eliminadas com o meu sorriso espontâneo. Franklin e Lisa juntos me faziam rir bastante. Eu estava amando cada segundo ao lado deles.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top