XII - Sua vida amorosa estava prestes a mudar, para pior e para sempre



Lena entrou em casa, desconcertada, olhando para o pingente em suas mãos, e nem percebeu que Rodrigo descia as escadas e caminhava ao seu encontro.

— Não me diga que perdi a partida de meu cunhado.

— O quê? — Ela se assustou ao ouvir a voz do irmão tão perto — Ah sim, o Pedro já foi.

— Me sinto um péssimo anfitrião.

— Ele sabe que você tem muitas obrigações a partir de agora e terá que estar descansado para isso. E você nem conseguiria vê-lo, está caindo uma chuva torrencial lá fora e meu marido precisou fugir de mim para conseguir viajar nessa situação.

— Vocês têm uma boa vida juntos, não é verdade?

— Muito melhor do que eu imaginei ter quando nos casamos. É fato que muitos casais funcionam na base da convivência, mas sinto que Pedro e eu construímos um laço ainda mais forte. Eu me sinto segura e completa ao lado dele, e tenho certeza de que ele se sente da mesma forma quando está comigo.

— Eu ouvi a boa conexão entre vocês na noite passada. — Ele disse, sério, mas sorriu ao ver o rosto de Lena corar instantaneamente.

— Eu não acredito que você escutou. Me perdoa por favor, eu sei que você e sua esposa estão passando por problemas e jamais foi nossa intenção cometer esse tipo de indiscrição.

— Não é culpa de vocês, fique tranquila, as paredes dessa casa são exageradamente finas e eu os coloquei muito próximos ao nosso quarto. Além disso, é normal que um casal tenha esse tipo de intimidade, ainda que essa não seja realidade em meu casamento.

— Eu já pedi que pare de castigar sua esposa dessa maneira, principalmente porque nada disso é culpa dela.

— Nós já conversamos e vamos procurar especialistas em cidades maiores, para descobrir como frear nossa reprodução. — Ele sorriu — A propósito, agora que seu marido não está, quero que me conte a razão pela qual um casal tão apaixonado e... — Ele parou para alguns instantes, tentando encontrar as palavras corretas após o que ouvira durante a noite — Bem, chamaremos apenas de apaixonados, mas desejo conhecer a razão e as alternativas que vocês tiveram para não procriar.

— Creio que lhe devo essa história, mas gostaria de conta-la em um local privativo.

— Vamos até o jardim dos fundos, garanto que ninguém nos incomodará.

Eles caminharam para os fundos da residência e se assentaram em um banco da varanda, de frente para o jardim encharcado.

— Eu já estive à espera de um filho.

— E o que aconteceu?

— Toda a situação do casamento e a descoberta da morte de nossa irmã me afetaram muito. Sofri uma ameaça de aborto em meio a uma discussão acalorada com meu sogro, conseguiram salvar o bebê, mas a segunda vez foi arrasadora e já não houve mais o que pudesse ser feito. Procurei algumas opiniões médicas e eles me disseram que o estresse não foi causador da morte de meu filho, mas sim que meu ventre não era o local mais apropriado para o crescimento de uma vida. E nunca mais aconteceu.

— Eu jamais imaginaria que você tivesse sofrido tanto. A vida foi demasiado cruel com você.

— Eu não vejo dessa forma. Poucos meses depois da morte de nosso filho nasceu o filho de uma das empregadas da casa, e aquela criança encheu nossas vidas de alegria novamente. André já é um rapaz, nosso afilhado, e estou com muita saudade dele nesse momento.

— E isso não foi doloroso para vocês?

— A princípio sim e eu sequer queria aceitar o convite para apadrinha-lo, mas logo percebi que as intenções de Virgínia eram boas e aceitei.

— E o que seu sogro fez a respeito? Digo, ele lhe comprou para que o filho tivesse uma descendência, mas você não pôde colaborar com isso.

— Pedro e eu jamais compreendemos o motivo de Rogério jamais ter me atacado por minha infertilidade. Nossa teoria é de que ele tem um filho ilegítimo e que, no momento ideal, deserdará Pedro por completo para que esse filho continue seu legado.

— Isso incomoda vocês?

— De forma alguma, nós já não temos uma grande ligação com meu sogro. É claro que, muitas vezes, já usamos desse sobrenome maldito e importante para viver uma boa vida na alta sociedade e conseguir vantagens, mas hoje em dia já não o necessitamos mais.

— Entendo. Bem, apenas uma coisa ainda não entrou por completa em minha mente. Você falou que tudo o que aconteceu no casamento pode ter prejudicado sua gravidez. Mas isso não faz sentido, pois você não estava grávida quando se casou.

— Bem, isso é outra coisa que eu gostaria de lhe contar. Ainda que meu bebê não tivesse falecido, meu sogro jamais teria um neto de sangue, porque Pedro e eu jamais geramos um filho juntos.

— Seu filho morto era um Monteiro?

— Sim. Mas por favor não comente sobre esse tipo de coisa pela cidade, pode gerar um burburinho desnecessário.

— Eu jamais comentaria algo assim. E digo mais: vamos mudar o tema de nossa conversa.

— Estou de acordo e agora é minha vez de perguntar algo para você.

— Sou todo ouvidos.

— Quais motivos te levaram a aceitar suceder Armando Castelo na política?

— Chegou um momento da vida em que o papai só confiava em mim, por isso aceitei. A doença começou a dar sinais muitos anos atrás, e ele me quis por perto, pra substituí-lo.

— Eu não estou aqui pra julgar a sua atitude, porque não estive aqui por anos, e não vi o que você passou todo esse tempo ao lado dele. Apenas fiquei curiosa, você não me parece ter ideais semelhantes aos dele.

— E não tenho. Pelo menos não como os ideais do Armando que você conheceu. Eu sei do ódio que você sente por ele e todas as justificativas plausíveis para tal, porque eu também já senti muito. Mas posso garantir a você que o papai mudou bastante desde que você foi embora.

— Desde que ele trocou a vida da própria família por poder e pagou caro, não é mesmo?

— Bom dia! Pensaram mesmo que essa chuva me afastaria do meu melhor amigo, digo, do senhor prefeito, no primeiro dia dele como tal? — Vicente chegou sorridente e sacudindo o guarda chuva, mas logo parou ao ver Milena — Vejo que o clima pesado de hoje tem um motivo. Meu amigo, eu me mantive firme no velório enquanto você corria atrás dessa senhora porque pensei que iria prendê-la ou expulsá-la, mas jamais imaginei que a traria para sua própria casa. — Ele disse bravo e não entendeu quando os dois gargalharam.

— Não seria novidade para mim sair arrastada dessa cidade — Ela riu com deboche — mas creio que você deveria ser um pouco mais educado ao conversar com uma mulher. Começaremos outra vez, vamos. Me diga seu nome antes de começar a me insultar, assim teremos uma conversa um pouco mais pessoal.

— Sou Vicente, o melhor amigo do Rodrigo. Rodrigo é esse homem simpático e muito parecido comigo, que está ao seu lado, e que velava o pai quando você apareceu repentinamente e cuspiu sobre o caixão do falecido. — Ele ficou ainda mais bravo ao ver que Rodrigo ainda ria — Mas que droga está acontecendo aqui, Rodrigo? Faça alguma coisa!

—Eu prefiro deixar que ela se apresente antes.

— Hmm. — Ela ainda ria — Já que Rodrigo fez as honras, eu me apresentarei. A mulher que cuspiu no caixão do velho também estava no velório do pai. Me apresentei como Milena Montenegro pois é meu nome de casada e porque não gosto de ser associada ao maldito Armando, mas aqui em casa, para os íntimos, me chame de Milena Castelo. E sim, eu sei que não foi muito elegante de minha parte aparecer no enterro daquela maneira brusca, mas preciso que compreenda que se tratava de uma promessa.

— Milena Castelo?

— Em carne, osso e saliva. — Ela estendeu a mão — É um prazer enorme conhecer um grande amigo de meu irmão, infelizmente o último que conheci resultou não ser tão bom quanto Rodrigo conhecia.

— Como se atreve? — Ele retrucou e ela recolheu o braço.

— Vicente agora não. — Rodrigo repreendeu o amigo.

— Como você tem o sangue frio de recebê-la nessa casa? — Ele se virou, enfurecido, para Lena — E você, como tem a indecência de aparecer nessa cidade depois de todo o sofrimento que sua irresponsabilidade causou à sua família? E ainda ousou desonrar o caixão de seu pai?

— Eu já mandei você se calar. — Rodrigo estava nervoso.

— Deixe que ele diga o que pensa sobre mim, afinal creio que toda a cidade tenha essa visão a meu respeito.

— Como consegue dormir todos os dias sabendo que armou o massacre de seu casamento para fugir com o pai do filho que esperava? Você é o rosto da morte e sua presença amaldiçoou essa cidade a viver em meio ao medo.

— VICENTE CALE ESSA MALDITA BOCA! — Rodrigo chegou ao extremo e gritou com o amigo.

— Foi essa história que o Armando contou a todos? — Ela estava incrédula com o que acabara de escutar — E você permitiu que manchassem meu nome dessa maneira depois de ver nossa irmã morrer para me salvar, depois de eu defender ao menos uma dúzia de inocentes?

— A situação era um pouco mais complicada.

— Não me importa a situação. De nosso pai eu esperaria isso, mas você... Eu pensei que você me defenderia sabendo de todo o meu sofrimento.

— Lena, por favor, se acalme.

— Eu estou calma, apenas decepcionada. E sabe o que mais me enoja em tudo isso? Saber que eu me sentei aqui como uma estúpida pelos últimos minutos e lhe contei segredos de minha vida enquanto você se fingia de tonto, mesmo conhecendo uma mentira que envolvia esse fato.

— Eu lhe peço perdão por nunca tê-la defendido.

— E o Henrique? O que fez com tudo isso?

— Ninguém sabe a identidade de seu antigo pretendente.

— É claro que não sabem, porque ele continua sendo o mesmo covarde de sempre. Creio que eu não tenha mais nada que fazer em sua casa. Vou procurar uma hospedaria que me receba e aguardar meu marido por lá. Agradecerei se você puder, por gentileza, pedir que ele me busque quando voltar.

Ela subiu as escadas, arrumou rapidamente a mala e saiu pela rua encharcada sem sequer olhar para trás.

...

Já era manhã do dia seguinte quando o carro que transportava Pedro estacionou na porta de sua casa. A chuva incessante transformara o percurso em uma verdadeira pista de obstáculos, e a viagem que duraria pouco menos de 10h, terminou por tardar mais que um dia inteiro. A essa altura, o delegado já esperava não conseguir chegar à posse do cunhado a tempo, mas sequer imaginava a confusão na qual a esposa se metera depois de sua partida, tampouco a confusão que estava para se formar em sua vida nos próximos dias.

— Bom dia Virgínia! — Ele cumprimentou a empregada ao vê-la e estranhou a reação assustada esboçada por ela com o cumprimento — O que houve? Parece até que viu um fantasma.

— Pensei que não retornaria tão cedo.

— Aquela delegacia não me dá muitos momentos de paz para aproveitar com minha esposa, mas pedirei uma licença de alguns meses para me dedicar a ela e acompanha-la na visita ao irmão.

— É claro que pedirá.

— E onde está o André? Já na escola?

— Como sempre ocorre nesse horário.

— Por que está tão mal humorada?

— Você não me deve nenhuma satisfação, mas creio que deveria ao menos ter se despedido de seu filho antes de ir.

— Foi uma viagem de emergência e cá estou eu, 48h depois, de volta à casa.

— Como eu já disse, você não me deve satisfações.

— Então já chega de agir como se eu devesse. Não se esqueça do seu lugar nessa casa. Eu fui imprudente e, por culpa de minha imprudência, hoje temos um filho que eu amo e respeito, mas nada mais do que isso. A minha esposa é, sempre foi e sempre será minha maior prioridade.

— Isso você tem deixado claro desde o nascimento do André, não precisa gastar saliva repetindo.

— Quer saber, eu já estou farto de sua insolência. Nós acordamos cada detalhe da vida de André, portanto você esteve de acordo com tudo. Se pretende começar a me cobrar algo que não combinamos, me avise agora e eu terminarei de vez com essa farsa.

— Perfeito, para mim essa foi a melhor ideia que você teve em anos. Mas não vejo sua amada esposa por aqui. O que houve? Ela voltou para o antigo amante?

— Ela está com o irmão. Eu confio plenamente em minha esposa e não tenho motivos para carrega-la comigo todo o tempo.

— Fico feliz que confie tanto nela. Mas o que ela pensaria sabendo que está sozinho com a mãe do seu filho? Será que correria para os braços do pai do filho dela?

— Ao contrário de mim, Milena tem dignidade e jamais se deitaria com outro homem por despeito ou bebedeira E essa conversa já me cansou, chame o segundo motorista pois pretendo apenas ir até a delegacia pedir meu afastamento, tomarei um banho e voltarei para a posse de meu cunhado.

— Sim senhor. — Ela respondeu, tentando controlar a raiva que invadia todo seu ser — Eu apenas gostaria de avisar uma coisa ao senhor, se me permite, é claro.

— Não, eu não permito. —Ele caminhou apressadamente em direção à porta de entrada.

— Mulheres apaixonadas são incontroláveis, mas as traídas são imprevisíveis e arrasadoras. Não se esqueça disso.

Ele apenas lançou um olhar de desprezo para a empregada e bateu a porta ao sair.

...

Lena olhava para o teto do pequeno quarto de pensão quando escutou batidas na porta. Se levantou, caminhou até ela , ao abri-la, se deparou com Lilian.

— Meu irmão lhe mandou para que eu não fechasse a porta em sua cara?

— Seria muito deselegante se você fizesse isso com a primeira dama da cidade, pouco mais de 48h antes da cerimônia de posse do marido.

— O que você quer?

— Não estou aqui em nome do Rodrigo, mas porque vi quão mal você ficou com as palavras de Vicente. Ele é boa pessoa, mas às vezes se porta como um ogro e eu sequer o reconheço. Posso entrar? — Ela apontou para o sofá, Lena assentiu com a cabeça e as duas se assentaram.

— Não estou chateada pelas palavras de alguém que sequer me conhece. Minha tristeza foi saber que o Rodrigo permitiu que falassem tamanhas barbaridades a meu respeito, sem ao menos tentar impedir.

— O seu pai sempre contou essa versão para todos da cidade e o Rodrigo não era ninguém para desmentir publicamente. Todos te odiaram, inclusive o Vicente.

— Ele me odiou por algo que lhe contaram, sem sequer me conhecer.

— Vicente ficou órfão muito cedo. É filho único e cresceu sozinho, por isso era inconcebível para ele que alguém tivesse planejado uma chacina que colocaria a família em risco em nome apenas da luxúria.

— Cada vez que escuto essa história me sinto pior. Mas e quanto a você? O que sabe de mim? Digo, o Rodrigo não foi capaz de desmentir sequer ao melhor amigo.

— Eu sei o suficiente e sofri o bastante nas mãos de seu pai para formar minha própria opinião sobre os fatos, a ponto de saber que você está muito longe de ser uma má pessoa.

— Me diga o que sabe sobre mim.

— Eu prefiro ouvir o seu lado primeiro. Será mais fácil lhe apontar todas as mentiras que seu pai contou depois de ouvir a história da boca de quem realmente a viveu por inteiro.

— Você não deseja ouvir toda a minha história.

— Já chega de tentar adivinhar os desejos das outras pessoas.

— Eu critiquei isso em meu pai a vida inteira e agora faço exatamente o mesmo. — Ela refletiu alto.

— Comecemos do início. Prazer, meu nome é Lilian Castelo e eu quero ouvir sua história.

— Prazer Lilian, eu sou Milena Montenegro, mas já fui Milena Castelo. Meu pai arriscou a vida de minha mãe para que eu nascesse e me vendeu ao filho de um completo estranho quando eu era apenas um bebê. O tempo passou, eu realmente me apaixonei por um garoto errado, mas somente percebi isso quando já não podíamos mais estar juntos. Aos 18 anos fui obrigada a me casar com meu prometido sem sequer conhece-lo ou suportá-lo, presenciei um atentado violento em minha cerimônia de casamento onde perdi minha irmã. Raquel se jogou em minha frente enquanto eu atirava desesperadamente com a arma de meu amado, tentando salvar vidas inocentes.

— Espere, você realmente disparou?

— Sim, mas apenas nos baderneiros. Eu acredito que tenha tirado a vida de alguns homens maus naquele dia, mas me conforta saber que muitos pais puderam ver seus filhos naquela noite por minha causa.

— Ninguém jamais falou sobre isso.

— Heróis às vezes são esquecidos, porque os vilões dão mais o que falar.

— Nisso você tem razão. Mas continue, quero saber como chegou até aqui.

— Acordei em uma grande cidade sem me lembrar de detalhes da carnificina. Fui obrigada a conviver por algum tempo com um sogro desprezível, enquanto considerava meu marido igualmente nojento. Mas ele abdicou muito de seu conforto em prol de meu bem-estar e nos apaixonamos dia após dia. Não trabalho, mas me dediquei a apoiar causas sociais voltadas para as mulheres, e também a ajudar meu marido a solucionar os casos mais difíceis da delegacia, mesmo nunca levando o crédito. Bem, essa é minha história ou, ao menos, a parte mais simplificada dela.

— Essa história é realmente diferente de tudo o que contaram aqui na cidade. A história que todos conhecemos aqui é a de uma menina problemática, que viveu naquela fazenda a vida toda porque ninguém a podia controlar, e que na adolescência se envolveu não somente com o homem errado, mas também com pessoas que não devia.

— E que no final acabou por confabular contra a própria família para fugir, grávida, com seu amado.

— Essa parte você já sabia.

— E é a única que não é completamente falsa. Eu jamais faria nada contra meus irmãos, mas Henrique e eu tínhamos planos de fugir juntos.

— Henrique?

— Henrique Monteiro foi o grande amor de minha adolescência e o pai do filho que eu jamais pude carregar nos braços.

...

Já era fim de tarde quando Pedro finalmente conseguira se livrar das obrigações na delegacia e correra para casa, afim de correr o máximo possível e sair daquela cidade antes do anoitecer. Não contara, entretanto, que ao chegar no pé da escada, André estaria chegando da escola.

— Por fim lembra que existimos. — Reclamou.

— André querido, peço desculpas em meu nome e em nome de sua madrinha por não ter trazido um presente da viagem, mas infelizmente não fomos a passeio. Eu, inclusive, retornarei agora para lá e prometo trazer um presente muito bonito em nosso regresso. — Ele abraçou o garoto, que se esgueirou.

— Não preciso de seus presentes.

— Por que está chateado?

— Como tem coragem de dizer que pede desculpas em nome de minha madrinha por não se lembrar de mim? Ela é uma mulher muito boa e não merece me amar tanto sem saber quem sou, PAPAI.

— Como você descobriu? — O rosto de Pedro tomou a cor de uma folha de papel recém comprada em questão de segundos.

— Minha mãe é muito transparente com seus sentimentos e eu apenas precisei escutá-la falando consigo mesma para descobrir a verdade.

— Vamos conversar, meu filho.

— Não me chame assim. — Ele se afastou mais — Em respeito à minha madrinha, espero que fiquem por muito tempo em sua viagem, para que eu não precise vê-la tão cedo. Já é terrível não poder conceber um filho, mas ainda pior é que o marido engravide a funcionária.

— Eu entendo o seu rancor, mas verá que se sentirá melhor depois de uma boa conversa. Está muito irritado, é compreensível. Por que não conversamos amanhã? Eu sairia agora, mas estou disposto a mudar meus planos por você.

— Não temos nada que conversar e tudo o que eu penso e gostaria de dizer está naquela carta que lhe mandei.

— Qual carta?

— Eu enviei uma carta para o endereço do qual chegou o telegrama anunciando a morte do pai de minha madrinha. Sabe que sou melhor com as palavras escritas do que com as faladas, por isso peço que o senhor apenas leia o que escrevi e não volte a me incomodar.

— André eu não recebi nenhuma carta.

— Creio que atrasou por causa das chuvas, mas estou seguro de que chegará em breve. Só espero que minha madrinha não leia antes do senhor, ela não merece passar por esse desgosto.

— Quando você enviou essa carta?

— No dia em que o senhor partiu.

— Maldição.

Pedro apenas conseguiu dizer isso antes de correr para o carro, gritando o motorista para que partissem imediatamente. Ele confiava no péssimo estado das estradas, lamacentas por causa das fortes chuvas dos últimos dias, para que a carta não chegasse ao seu destino antes que ele, ainda que estivesse dias em desvantagem. Ele precisava estar ao lado de Milena quando ela soubesse a verdade de André, senão a perderia para sempre.

...

Na tarde do dia seguinte, Lena escutou novamente batidas em seu quarto e, ao abrir, encontrou Lilian mais uma vez.

— Vejo que não descansará até estar segura de que comparecerei à posse. — Lena brincou.

— Meu esforço está sendo em vão?

— Não. Eu pensei muito sobre nossa conversa e compreendi que meu irmão errou em não me defender, mas errou sendo controlado por nosso pai. Eu vivi isso em minha própria pele e, ainda assim, o julguei. Esteja segura de que comparecerei ao baile de posse de meu irmão, mas quero pedir que seja um segredo entre nós duas, pois desejo que seja uma surpresa para ele.

— Conte comigo, eu estou segura de que ele ficará muito feliz. Pedirei que alguém traga o convite, explicando sobre as vestimentas, horário e local, mas já aviso que será um baile de máscaras.

— Sou fascinada por eles.

— Eu a verei amanhã e espero contar também com a presença de seu marido. A propósito, Rodrigo me comentou que essa carta, de caráter urgente, tinha chegado à prefeitura e estava endereçada ao Pedro. — Ela entregou o envelope para Lena.

— Agradeço que tenha guardado, eu a entregarei para ele assim que nos encontrarmos.

— Agora eu preciso ir, ainda são muitos detalhes dependendo de minha aprovação.

— Caso precise de algo, não hesite em me chamar.

— Eu agradeço.

Ela saiu e Lena caminhou até a mesinha sobre a qual estava a carta, sentou-se na cadeira ao lado e começou a abrir o envelope. Ela e Pedro jamais tiveram segredos entre si, porém garantiam a privacidade um do outro e evitavam se intrometer em assuntos privados. Entretanto aquela mensagem de "urgente" a preocupou, e Lena tomou assim a pior decisão de sua vida ao abri-la pensando ser apenas uma simples carta de trabalho. Naquele momento, sua vida amorosa estava prestes a mudar, para pior e para sempre.

...

Em meio às preocupações com a mudança de prefeito e o retorno inesperado e repentino da mulher que amava, Henrique se virava incessantemente sobre a cama, buscando encontrar, ainda naquela noite, o sono a muito perdido. Sem sucesso, ele se levantou, arrumou a barba cheia e o cabelo por cortar, vestiu a primeira roupa que encontrou ao abrir o guarda-roupas, pegou seu guarda-chuva e saiu, sem rumo, pela rua.

...

Os olhos de Lena eram embaçados pela mistura de lágrimas e chuva, conforme ela andava sozinha pela rua. Não sentia medo da escuridão, da chuva, ou dos criminosos que poderiam se esconder pelas vielas daquela parte afastada da cidade. Os únicos sentimentos que invadiam seu peito naquele momento eram provenientes da dor de uma traição, descoberta através das palavras duras de um garoto em uma carta. Os dois tinham sido enganados por duas das pessoas que mais confiavam no mundo, e Lena desejava abraçar e consolar André ao imaginar quão desprezado o garoto devia se sentir naquele momento.

Os relâmpagos, vez ou outra, iluminavam seu caminho e lhe mostravam o que se escondia na escuridão tenebrosa daquela noite. Mas ela sequer era capaz de visualizar nada em sua frente ­ — e parte dessa culpa era da garrafa de uísque que tomara sozinha tentando digerir as informações, ela admitia —, nem quando um forte raio clareou o céu como dia e revelou uma figura tampada por um guarda-chuva que, também sem visão de seu entorno, topou com Lena e a lançou em direção ao chão.

Ela se sentiu cair, mas em instantes também sentiu seu corpo ser segurado por braços fortes e molhados. Um relâmpago iluminou aquele lugar e seus olhos fitaram a imensidão azul em sua frente.

— Me perdoe, eu... — Ela se levantou e continuou a andar, cambaleando pela cidade e a passos largos, acompanhada pela lembrança daqueles olhos que a tinham salvado de cair em alguma poça ou no meio fio. Ela conhecia aqueles olhos, mas tinha medo de admitir aquilo para si mesma.

E o homem também seguiu seu caminho, e passou toda a noite sonhando com aqueles lindos olhos verdes da mulher que acabara de salvar. Ele tinha certeza de quem era a dona daqueles olhos, pois jamais tinha deixado de sonhar com eles nos últimos anos. Henrique sabia que o destino a estava colocando outra vez em seus braços e que, a partir daquele momento, deveria agir para recuperar o amor de sua vida.

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