V - Quando a morte decida nos reunir, seremos livres para viver nosso amor
Os dez dias que sucederam a transferência de Lena para o quarto passaram surpreendentemente rápido em meio a provas do vestido, muitos banhos de sol — e de água — e alguns momentos de enjôo por conta da alimentação exagerada. Ao acordar naquela terça-feira chuvosa de inverno, a garota parecia, ao menos visivelmente, bem. Mas aquele era apenas o disfarce que usara para ocultar o sofrimento profundo de saber que, em menos de 24h, estaria vivendo em algum lugar distante com seu novo marido. E sofria ainda mais por pensar que, naquela mesma noite, dormiria ao lado de um homem que não era Henrique. Ela apertava o colar que ganhara do amado em seu aniversário contra a pele, como se os dois pudessem estar mais próximos daquela maneira.
Caminhou até a janela, na qual se sentou, para olhar o horizonte: aqueles montes, aquelas árvores de pequeno porte e aquela... Aquela silhueta masculina parada no alto de um dos montes, refletida pela luz do sol que nascia às suas costas. Não era possível para qualquer outra pessoa naquela casa saber quem era, mas Lena tinha a certeza de que se tratava de Henrique. Seu coração ficou apertado, mas ela sabia que não havia mais remédio para a situação.
Talvez o amor realmente seja apenas uma ilusão e as almas gêmeas estão fadadas apenas a se encontar e seguir adiante. Talvez a felicidade seja apenas uma ilusão, pois cada um de nós tem um destino marcado para ser cumprido. Ela cumpriria seu destino e, ainda que aquilo parecesse doloroso nessa vida, sentia no mais profundo de seu coração que, em outra vida, encontraria a felicidade ao lado do homem que amava.
— Bom dia senhorita. — Uma criada bateu na porta do quarto, despertando Lena dos mais belos sonhos, e entrou.
— Bom dia. — Ela respondeu, como se acordasse de um transe.
— Seu pai ordenou que eu a ajude a vestir seus trajes de noiva.
— Eu sou capaz de colocar um vestido sozinha, muito obrigada.
— Creio que duas mãos seriam de grande ajuda, ainda mais se tratando das minhas. — Raquel apareceu na porta, carregando o vestido — Quero ajuda-la nesse momento tão difícil e importante.
— Você não precisava sair novamente de sua casa para vir ao meu casamento.
— Está tudo bem, eu faço porque a amo. Infelizmente as crianças não puderam vir por conta dos estudos, e meu marido por culpa do trabalho, mas tenho certeza de que todos desejam o melhor para você nesse dia.
— Que grande festa... — Lena ironizou — Além de comemorar a minha ida para o inferno com comidas e bebidas caras, meu pai ainda fez questão de marcar meu abate para um dia de semana, provando que os pobres e mortais trabalhadores da cidade não são bem-vindos.
— Você sofrerá muito mais se mantendo relutante dessa forma até o final, minha irmã.
— Eu peço desculpas por não ser como você.
— Não se desculpe, isso não é um defeito. Você tem sonhos e ambições e eu tenho a certeza de que, se eu fosse a irmã mais nova, teria aprendido grandes lições de vida.
— Mas me tocou aprender com você, Raquel. Então me diga: como eu farei para que minha vida não seja um completo inferno ao lado desse homem?
— Eu temo não poder ajuda-la com isso. Você busca o amor, enquanto eu percebi que o casamento é costume, é ter meu marido como um porto seguro e me sentir bem com o conforto e a estabilidade que essa relação me proporciona.
— Seria mais fácil se eu fosse como você.
— Você é como é. Não queira ser como os outros e nem queira que os outros sejam como você. Somos pessoas únicas, diferentes umas das outras e diferentes até do que fomos ontem. Eu não sou a mesma que saiu daqui anos atrás para me casar com um desconhecido, e cabe a você tirar o máximo de coisas positivas dessa nova etapa.
— Peço perdão por incomodá-las, — A criada interrompeu — mas precisamos arrumar a garota, porque o casamento será na hora do almoço.
— Tão cedo? — Lena se assustou.
— Sim, o menino Pedro deseja que a noite de núpcias seja na casa dele e ainda hoje.
— Mas é claro que deseja. — Lena debochou, pegou o vestido e caminhou em direção ao closet de seu quarto, acompanhada por Raquel.
...
— Já está tudo pronto. — Um homem armado falou para o "chefe", assentado na grande cadeira de sempre.
— Ótimo. — Ele carregou o revólver — Em alguns minutos sairemos, pois não desejo perder sequer um instante dessa grande celebração.
...
— Você está parecendo uma princesa, minha irmã. — Rodrigo falou, logo que entrou no quarto e viu a irmã, já vestida de noiva e com o cabelo preso em trança para o lado, as costas enfeitadas com um véu que descia de uma coroa no topo da cabeça.
— Eu queria estar assim pra me casar com o homem que amo.
— Fico mal em saber que não pude fazer mais para ajuda-los, mas saiba que eu adoraria ter o Henrique como cunhado.
— Seu amado se chama Henrique? — Raquel ficou curiosa.
— Sim, Henrique Monteiro.
O rosto de Raquel embranqueceu logo que escutou o nome, e ela precisou de alguns instantes para se reestabelecer e voltar seu olhar para Rodrigo.
— Você apoia esse tipo de relação?
— Ele não é como o pai. Pelo contrário, está se tornando um homem justo e bom. Não creio que seja justo julgarmos os filhos pelos problemas entre os pais.
— Eu concordo plenamente, mas também não creio que seja saudável alimentar relacionamentos desse tipo. O sofrimento que nossa irmã está vivendo agora, por um amor que beiraria o impossível ainda que não houvesse casamento, é a maior prova do que eu digo.
— Agora já não há mais nada que fazer. — Lena interrompeu a conversa entre os irmãos — E não preciso que sintam pena de mim, ou pensem que tudo teria sido mais fácil se Henrique e eu jamais tivéssemos nos conhecido. Ele foi, é e sempre será o amor da minha vida, e não há casamento arranjado ou sofrimento que me faça pensar de outra maneira.
— Eu concordo plenamente com você, minha irmã. — Rodrigo colocou a mão em seu ombro — Mas agora, feliz ou infelizmente, me tocou ser quem te leve ao altar.
— Será uma honra ser acompanhada por vocês até a festa. — Ela segurou as mãos de Rodrigo e Raquel — E espero contar com a presença de vocês sempre, assim como pretendo fazer.
...
— Você conseguiu meu filho. — Rogério deu tapinhas de cumprimento nas costas do filho — Em alguns minutos se casará com uma mulher linda e de berço.
— Creio que a melhor definição para minha futura esposa seja a de uma fera pronta para me matar da maneira mais dolorosa possível.
— Se imponha, moleque! — Ele repreendeu o filho — Você é o homem! Ela deve obedecê-lo e respeitá-lo, ainda que você precise usar a força para tal.
— Eu espero não precisar chegar a esse extremo para conseguir o respeito de minha esposa.
— E eu espero não ver sequer uma insolência da parte dela, caso contrário, me encarregarei pessoalmente de domar sua fera. Estamos entendidos?
— LÁ VEM A NOIVA! — Anunciou o cerimonialista e todos os importantes convidados se levantaram ao som da suave música que ecoava do piano.
Pedro estava ansioso. Seu pai tinha razão ao dizer que aquela mulher, que ele logo teria a honra de chamar de sua, era fantástica, mas o casamento era algo que o deixava apreensivo, principalmente por não conhecê-la.
E foi em meio a esse misto de emoções que ela surgiu: linda, radiante, como se saíra de uma pintura renascentista. Pedro não conseguia deixar de pensar em como aquela Milena de aparência doce e, em alguns momentos, um tanto quanto infantil, era capaz de ser uma mulher tão forte e madura por dentro, quanto tinha demonstrado no primeiro encontro.
Ela olhou para o altar e viu o noivo que sequer conhecia, mas que fazia seu coração bater de uma forma diferente. "Deve ser ódio" ela pensou, enquanto caminhava, de braço dado com o irmão, até o homem com quem dividiria a vida dali para frente. Para diminuir seu sofrimento, imaginava em Pedro o rosto de Henrique. Sua imaginação naquele momento entretanto, parecia ter ido além para pregar-lhe uma peça, pois a garota poderia jurar que o vira, escondido, entre os convidados.
— Cuide bem dela Pedro, isso é o único que eu te peço. — Rodrigo recomendou, assim que chegou ao altar e entregou a irmã ao futuro cunhado.
— Espero que nós dois façamos uma boa dupla, não é Milena?— Pedro sorriu para a noiva e ela retribuiu o gesto com uma expressão de ironia — Você está linda.
— Obrigada. — Ela respondeu, seca.
— Creio que precisaremos aprender a trocar mais palavras do que isso daqui em diante. — Ele brincou, na tentativa de descontrair o ambiente.
— Creio que precisaremos aprender muito mais, pois, caso não tenha percebido, somos completos estranhos.
Se viraram para o altar e a cerimônia começou.
...
— E agora o noivo já pode beijar a noiva. — O bispo anunciou, após o fim da cerimônia.
Os dois se aproximaram e, mesmo sem muita sintonia, deram o tão esperado beijo. Milena sentiu um arrepio que percorreu todo seu corpo, mesmo deixando claro para seu coração de que aquele homem que a beijava não era o que amava. Uma das garçonetes trouxe uma taça de champanhe para cada um dos dois, e eles foram obrigados a cruzar os braços para tomar a bebida.
— Espero que sejamos felizes, e espero poder fazê-la feliz de agora em diante.
— Já eu espero apenas que possamos nos suportar, creia que será uma vitória para mim.
— Juro que, caso dê uma chance para me conhecer como sou, se surpreenderá positivamente.
— Eu também prometo surpresas... — Brindaram e beberam — Mas não garanto que serão positivas. — Ela sorriu maliciosamente e piscou um dos olhos para o marido.
...
— A festa começou, senhor. —Um homem armado anunciou ao pai de Henrique.
— A deles... — Engatilhou o revólver — Porque a nossa está prestes a começar.
...
Lena se sentia sufocada em meio àquela overdose de futilidade e falsidade, então decidiu se afastar um pouco, caminhando na direção da árvore na qual vira Henrique pela primeira vez. E, para sua surpresa, percebeu que também seria aquela árvore testemunha de seu último encontro com o amor de sua vida, ao vê-lo parado em sua frente.
— Eu sabia que você viria. — Henrique estava sentado sobre uma pedra, fumando um cigarro.
— Já eu pensei que estava louca quando o vi entre os convidados. Mas percebo que o louco era você.
— Está linda. — Ele segurou a mão esquerda de Lena e, ao tocar acidentalmente a aliança, respirou fundo, como se ela o queimasse — E é uma pena que não seja para se tornar minha esposa.
— Você não precisava vir até aqui, já basta que um dos dois sofra.
— Eu jamais a abandonaria em um momento como esse.
— E nem eu o abandonei. — Ela tirou o cordão de dentro do corpete.
— Não precisa ser assim. Ainda podemos ficar juntos.
— Eu já estou casada, não há mais nada a fazer. — Ela o beijou delicadamente, e procurou saborear cada parte dos lábios de Henrique para gravá-los por completo em sua memória — Mas eu quero que saiba que levarei a lembrança desse beijo em meu coração até o último dia em que viver, com a certeza de que, quando a morte decida nos reunir, seremos livres para viver nosso amor na eternidade.
— Fuja comigo e ninguém, nunca mais, terá notícias de nós. Seremos felizes e viveremos juntos o nosso amor.
— Eu já disse que meu sogro é um homem poderoso e sem escrúpulos.
— Seu sogro já não existirá ao fim dessa noite.
— O que quer dizer? — Ela soltou a mão de Henrique e se afastou, assustada.
— Eu ouvi meu pai falando que esse senhor tem uma dívida com ele, e a pagará com a vida.
— Sempre escutei barbaridades sobre seu pai, mas jamais acreditei que você concordaria com algo assim.
— Não concordo, mas tampouco posso fazer algo a respeito, além de protegê-la.
— Me proteger de quê?
— É hora do espetáculo.
Antes que ela compreendesse o sentido da frase, escutou o estrondoso som, que parecia ser de tiros, vindo da festa. Se virou e começou a correr em direção ao barulho, mas foi interrompida por Henrique.
— Não se atreva a ir para lá! — Henrique ordenou e Lena se virou para ele, podendo assim perceber que o amado apontava uma arma em sua direção.
— O que significa isso?
— Eu preciso leva-la pra um lugar seguro agora.
— E pretende me disparar caso eu não aceite segui-lo?
— Eu estou desesperado e sim, pretendo disparar em sua perna e leva-la comigo caso não venha por bem.
— A minha família está lá! — Os gritos se intensificavam — O seu melhor amigo está lá!
— Eu não posso perder os dois.
— Então o meu irmão é um alvo?
— Eu fui claro com meu pai quanto a não aceitar que o Rodrigo saia ferido, e pedi que poupasse sua irmã. Mas não confio em seu sogro e temo pela sua segurança.
— Pretende me proteger e me livrar de presenciar uma carnificina, não é mesmo? — O olhar de desespero de Lena se acalmou rapidamente e ela suavizou a voz, conforme caminhava na direção de Henrique, com as mãos a vista.
— Exatamente.
— E não há nada que possamos fazer além de fugir? — Ela se aproximava mais e mais, caminhando lentamente.
— Infelizmente não, mas eu juro a você que tentei evitar tudo isso.
— Eu não gosto de armas ou de estrondos de tiros.
— Eu também não, e você não imagina quão difícil está sendo apontar essa pistola para você.
— Então abaixe-a.
— Somente quando você me prometer que virá em segurança comigo.
— Eu já entendi que devo ir com você. — Ela se aproximou de Henrique, a ponto de serem capazes de escutar os corações disparados um do outro, segurou a pistola e a abaixou, ainda na mão do rapaz.
— Isso mesmo, faça o correto.
— Devo fazer o que é correto, não é mesmo?
— Exatamente, e viveremos nosso amor daqui em diante, longe até de meu pai e suas carnificinas. Venha comigo, meu amor.
Sem nenhum aviso prévio, Lena deu um soco na barriga de Henrique e pegou o revólver de sua mão, o apontando para ele.
— Mas eu não vejo covardia como o certo a se fazer.
— Abaixe essa arma, Lena. — Ele levantou uma das mãos, como que pedindo a arma, mas a garota respondeu com um tiro no chão.
— Nem mais um passo. Eu vou até lá ajudar a minha família, e quero que você saia daqui. AGORA!
— Comigo estará protegida. — O misto de tiros e gritos já se tornava insuportável.
— De que adianta proteção se a minha família está dentro daquele inferno?
— Não há tempo para busca-los.
— Você sempre foi tão covarde?
— Não posso perdê-la. — Ele se levantou com um impulso e foi na direção dela.
— Perdão. — Ela apenas teve tempo de dizer essa palavra, antes de derrubá-lo com um tiro na perna.
— Por que fez isso? — Ele tentava se levantar, sem sucesso.
— Eu não sou uma covarde.
Lena não olhou para trás ao correr em direção à festa. Ao chegar lá, os tiros eram constantes e várias pessoas já estavam caídas no chão. Ao ver que um dos empregados da fazenda seria baleado por um homem vindo de suas costas, ela logo atirou nesse homem, voltando a atenção de todos para si.
— Corra Milena! — Pedro gritou para a esposa já em um lugar seguro, junto com os anfitriões da festa e convidados altamente importantes, cercado por diversos seguranças.
A garota não se importou, e ainda conseguiu salvar outros 2 seguranças de serem abatidos, antes de escutar um disparo e sentir dois braços a empurrando para o lado, fazendo-a cair no chão e bater a cabeça tão forte, que desmaiou.
Lena não viu quando a carnificina terminou, ou quando foi carregada, com o vestido completamente embebido de sangue, para longe daquele lugar e, principalmente, daquele cadáver: o de sua irmã.
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