I - A mistura perigosamente perfeita de liberdade e solidão.
Era mais um dia de outono. Enquanto as crianças se divertiam na escola, Milena continuava, assim como em toda sua vida, sentada na cadeira da pequena sala em sua casa. Ainda que as garotas conquistassem, aos poucos, cada vez mais espaço nas salas de aulas, Armando Castelo insistia em que a educação de suas filhas fosse realizada exclusivamente em casa. Para Raquel, a mais velha dos Castelo, agora "formada" e recém-casada, aos 18 anos, nunca fora um sacrifício se contentar em ter como únicos amigos os empregados do casarão – sabia que, se a família era rica o suficiente para proporcionar o melhor para seus irmãos mais novos, era porque ela fora prometida ao filho de um rico fazendeiro quando pequena. Mas Milena era diferente. Aos 8 anos, ela não entendia o que o poder era capaz de proporcionar ao homem, e apenas sentia inveja do irmão do meio, Rodrigo, que aos 12 anos, frequentava a escola e estava sempre fora de casa, brincando com os amigos.
— Acabou, minha querida. — A professora falou, enquanto fechava o livro de matemática — Não se esqueça de fazer a lição pra praticar.
— Finalmente. — A menina sorriu ao pular da cadeira— Então já posso ir?
— Imagino que possa. Amanhã eu estarei de volta, como sempre.
— Até amanhã, professora! — Ela sorriu para a empregada, que esperava, sentada, em uma poltrona ao lado da porta — Pode levar a professora? Eu estarei brincando em algum canto.
— Claro que sim, menina. Só lhe aviso, como sempre, que não pode sair da casa, e tem que estar aqui quando o seu pai chegar.
— Tudo bem. — Ela sorriu e correu pela porta da até desaparecer no longo corredor.
Milena sabia que era proibida de fazer amigos ou brincar com as outras crianças da cidade, e que seu pai faria muito mal à empregada responsável por ela se a encontrasse em algum lugar distante da casa, ainda que toda a grandiosa fazenda tivesse dimensões que se perdiam no horizonte. Mas ela era uma alma livre e, desde que fora expulsa de todos os internatos que frequentara – sempre por inúmeras tentativas de fuga – criara em sua própria imaginação um mundo dentro daqueles limites, que aumentavam mais, conforme suas pernas cresciam e sua capacidade de correr mais rápido garantisse seu retorno antes que percebessem sua ausência. Se alguém fosse capaz de adjetivar a alma de Lena, essa seria, desde a infância, definida como a mistura perigosamente perfeita de liberdade e solidão.
...
Henrique Monteiro, jovem herdeiro de sua também importante família, lia um livro, deitado na rede da varanda de sua casa, quando sentiu algo bater em sua cabeça.
— Oi Henrique! — O garoto, escondido atrás de um arbusto, era conhecido, e fez Henrique abrir um grande sorriso ao vê-lo.
— Rodrigo! —Ele gritou, ao lembrar-se que estava sozinho em casa naquele dia.
Os garotos não sabiam os motivos, mas, desde pequenos, tinham sido ensinados que seriam os sucessores de seus pais — inimigos declarados na política e na vida — e que deveriam se odiar, tal como acontecia com suas famílias. Mas a curiosidade falara mais alto, e os dois colegas de escola, tinham sido capazes de ignorar qualquer rivalidade e se tornar grandes amigos, ainda que às escondidas.
— Eu preciso de distração. Minha casa está tediosa desde o casamento da minha irmã.
— Eu não seria louco de ir até lá, sabendo quantos convidados poderiam me reconhecer por alguma semelhança física com meu pai.
— E eu também não seria louco de expor nosso clubinho secreto ao chato do marido da Raquel. Ele claramente não sabia nem o que estava fazendo lá, tampouco sua idade, e seria bem capaz de insistir em fazer parte do clube. O nosso único problema é a Lena. Desde que foi expulsa do internato, vive no quintal da casa, e pode nos ver sem ser vista.
— Desde quando tem medo da sua irmã, Rodrigo?
— Tenho certeza de que não nos delataria para meu pai, mas a troco de se juntar a nós.
— Sabe que garotas estão proibidas.
— Eu sei. Mas, muitas vezes, sinto que ela quer ser como eu. E não a julgo. Viver trancada e vigiada todo o tempo era fácil para a Raquel, porque ela sempre foi obediente e responsável. Mas essa vida não é fácil para a Lena, eu sei que não aguentaria.
— Faremos um ótimo trabalho fugindo de sua irmã, e a pobre não ficará tentada a brincar conosco, eu prometo. Agora vamos, não é sempre que nossos pais estão ocupados ao mesmo tempo, e temos que aproveitar para nos divertirmos muito.
...
Pendurada no alto da grande árvore, próxima ao limite lateral da propriedade, Lena fitava os milhares de pés de café no horizonte, e se divertia em seus próprios pensamentos, quando viu duas silhuetas masculinas, que se escondiam entre a vegetação, próximas a ela. A garota se assustou por alguns segundos, até perceber que uma das silhuetas era de seu irmão. Curiosa para saber quem era o outro garoto, ela procurou não chamar a atenção, desceu e os seguiu, silenciosamente, depois de tomar uma distância segura.
— Tem certeza que nenhum dos empregados vai nos ver chegando? – Henrique perguntou, preocupado, para Rodrigo.
— Tenho sim, vou passar na sua frente, ver se não tem ninguém e distrair os que estiverem. Então chamarei você e vamos correr para o sótão.
Como dito, o garoto entrou na casa pelos fundos e afugentou a única empregada que encontrou, dizendo que havia visto um rato na sala onde a pobre estava. Depois disso, os dois subiram as escadas e se esconderam no sótão.
— Agora eu só quero saber como vou sair desse sótão para ir embora. – Henrique se preocupou.
— Resolveremos um problema de cada vez, meu amigo. Mas tenha certeza de que resolveremos esse, e você vai sair daqui tão invisível quanto entrou.
— Eu não o chamaria de invisível. – Uma voz feminina assustou os garotos.
— O que faz aqui, Lena? – Questionou Rodrigo, ao ver a irmã parada na entrada.
— Segui vocês até o clubinho secreto do sótão, e quero fazer parte.
— É um clube de homens! – Henrique exclamou.
— Pois vão ter que mudar as regras, se não quiserem que papai descubra.
— Não é preciso me chantagear com algo assim, eu aceito que você faça parte do clube. – Rodrigo rapidamente se manifestou – Mas com uma condição: vai nos ajudar a entrar e sair sem que o Henrique seja visto.
— Você é o Henrique? – Ela perguntou, deixando de lado o irmão, e se virando para o garoto desconhecido.
— Muito prazer senhorita, eu sou Henrique Monteiro. – Ele estendeu a mão.
— O prazer é meu, Henrique. – Ela retribuiu o gesto com um aperto de mãos – E te asseguro que pode contar comigo
...
Ao longo da quase uma década que se seguiu, os três se tornaram inseparáveis – ainda que sempre às escondidas – e a diferença de 3 anos entre os garotos e Lena quase não era sentida, ainda que a garota tivesse se tornado uma linda jovem, já na idade em que todas as outras corriam em busca de um marido. E encontrar um marido não seria difícil para quem encantava os poucos que a viam com sua beleza e carisma: a pele branca como a neve, os grandes olhos castanho-esverdeados e o liso e brilhante cabelo castanho.
Henrique, por sua vez, foi criado livremente pelo pai, depois que a mãe morreu, vítima de uma misteriosa doença. Cresceu um lindo rapaz, relativamente alto e forte, de pele um pouco bronzeada, cabelos pretos e levemente ondulados, um pouco acima dos ombros, e dono de lindos olhos cor de mel.
Rodrigo, como forma de agradecimento ao segredo guardado por Lena naquele sótão, agora era o responsável por proteger o amor puro e sincero que nascera entre sua irmã e o melhor amigo, garantindo que nenhuma das famílias, ainda rivais, descobrisse ou cruzasse seus caminhos.
...
Milena e Henrique se encontravam todos os dias, na estufa , localizada no alto de um pequeno morro, dentro da propriedade dos Castelo. Rodrigo era confidente e vigia, responsável por avisar os apaixonados sobre qualquer aproximação de empregados que poderiam colocar o segredo em risco.
— Você não vai me alcançar! — Gritou Milena para Henrique, os cabelos voando conforme ela corria morro acima e o vento contrário soprava em seu rosto.
— Tenha certeza que vou, só estou te deixando correr na frente como bom cavalheiro que sou. — Ele gritou, ofegante, alguns metros abaixo.
— E eu vou apenas fingir que acredito, como boa dama que sou. — Ela sorriu, diminuindo o ritmo.
Foi então que Henrique acelerou a corrida e, assim que chegaram ao alto do morro, ele alcançou a namorada e a abraçou, jogando-os no chão.
— Eu acho que te alcancei. — Ele sorriu e a beijou.
— Não vale! — ela protestou — Eu estou de saia.
— Aceite que perdeu, Milena Castelo.
— Está bem, admito que você foi realmente muito rápido e me surpreendeu. Impressionante, eu diria. Agora deixe que eu me levante, antes que minha roupa fique suja. Não estou com paciência para escutar o longo discurso de meu pai dizendo "uma mulher de quase 18 anos deveria estar se preparando pra ser uma boa esposa, mãe e dona de casa, não correndo por aí como criança".
— Eu não me importaria em ter como esposa uma garota que corre por aí como criança, ainda mais se estiver correndo comigo.
— Tão engraçadinho... — Ela fez bico— Agora me solta.
— Não quero te soltar. — Ele a beijou mais um pouco e ela correspondeu.
Foi então que o romance foi interrompido por Rodrigo, que chegou correndo e ofegante à base do monte.
— Milena! — Ele gritou.
Ela se levantou e, ao perceberem que se tratava de um assunto sério, os dois correram até Rodrigo.
— O que foi? — Ela perguntou, enquanto se aproximava do irmão.
— Papai mandou te buscar, e eu tenho uma péssima notícia.
— Que seria... — Ela indagou, assustada.
— Preciso te levar pra casa agora, lá você vai ver o que houve.
— Tão sério assim?
— Temo que sim.
— Amanhã eu volto pra te ver, meu amor. — Milena beijou Henrique.
— Vou estar aqui, te esperando como sempre.
Os irmãos Castelo correram até a casa principal.
...
— Agora já pode me falar o que está acontecendo? — Milena perguntou preocupada para o irmão, enquanto caminhavam pelo jardim de frente para a casa.
— Não, não posso, porque o papai me proibiu. E se eu não chegar com você em casa, sabe que irei sofrer as consequências. Só te desejo sorte, porque dessa vez, ele enlouqueceu.
— Mas pra que eu preciso de sor... — A garota parou sua pergunta ao abrir a porta e ver um garoto alto, de cabelos pretos, curtos e encaracolados, com uma fina barba cuidadosamente alinhada, de corpo um pouco menos definido que o de Henrique — apesar de igualmente bonito, ela deveria admitir —, que estava sentado do sofá da sala.
— Milena, o Pedro veio conhecer você.
— E quem é Pedro? — Ela perguntou, indiferente, para o pai, que já se posicionava ao seu lado.
— Seu futuro marido.
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