24°|Tarde de Folga e Jogos Violentos
Ataque de pânico.
Pelo menos foi o que Peter dissera. Ele não quis saber o motivo de eu ter saído desesperada pela propriedade dos Drake e entrado a fundo na floresta fria. Apenas me abraçou durante os infinitos minutos que se passavam até que minha respiração voltasse ao normal. Eu sentia o corpo quente, embora toda a neve. Dentro das minhas veias corria um tipo diferente de energia. A mesma energia que senti quando congelei o quarto meses atrás, era aquela mesma energia dominada pelo medo. E talvez seja esse a causa da terrível tempestade de neve que nos cercava, e não o péssimo clima de Cold Wheather.
Por fim, Peter me guiou de volta para a casa dele. O caminho inteiro seus braços rodeavam minha cintura, como se garantisse que eu não correria para longe de novo. Não me afastei do seu toque quente, ou deixei meus ouvidos atentos para algo que não fosse sua a respiração pesada, o cheiro de inverno me anestesiava. Ele era minha âncora naquele momento. Nenhuma palavra fora dita durante todo o percurso, mas eu podia sentir seu olhar preocupado queimando minha pele. Mesmo quando chegamos a margem da floresta e aqueles rostos nos cercaram, Peter não se afastou de mim e me guiou para dentro do quarto dele, mandando embora todos que tentavam se aproximar. Eu não contestei quando suas mãos me empurraram carinhosamente para dentro do quarto e atrás de mim a porta se fechou.
_ Me desculpa. - murmurei. Meu estômago revirou na barriga. Eu vou vomitar, eu vou vomitar...
_ Não é sua culpa, Elle. - encarei aqueles olhos. Lampejos de brilho lilás passavam por eles, como um pisca-pisca perdendo a luz. Não havia traços do Peter babaca. - Você passou por muitas coisas nos últimos dias.
Eu ainda conseguia ver os olhos de Kyle presos naquele corpo metamórfico enquanto ele vinha pra cima de mim naquela noite. Conseguia ouvir Glime gritar. Conseguia sentir a respiração do ogro na minha nuca. O cheiro dos corpos dos guardas entrando em decomposição.
Eu vou vomitar!
Corri em direção a uma lata de lixo no chão e lancei minha cabeça lá dentro no mesmo momento em que senti a bile queimar a garganta. As mãos de Peter seguraram meus cabelos durante todo o tempo. Quando não aguentava mais, me joguei para o lado de Peter sentindo o estômago doer. O cansaço chegando aos meus ossos quando apaguei nos braços dele.
Duas semanas se passaram desde que a crise aconteceu. Depois daquela, houveram outras e outras. Ninguém tocava no assunto, mesmo quando eu acordava toda a casa com o barulho dos meus gritos ou os enojava com o barulho do vômito na madrugada. Mas ninguém falava nada. Ninguém com exceção dos meus guardiões e de Henricksen. Os irmãos Drake grudaram em mim como um chiclete velho do tipo que agarra no cabelo e só sai se cortar as mechas fora, sempre me vigiando e costumavam revezar as madrugadas, montando guarda do lado de fora do quarto, embora sempre alegassem alguma desculpa quando eu os pegava dormindo ao pé da porta.
Em algumas madrugadas, quando eles não conseguiam ou não tentavam disfarçar que estavam de sentinela do lado de fora do quarto, os dois irmãos me distraíam com histórias. Como a história do dia em que Peter causou uma avalanche porque gritou assustado quando Sasha o cutucou com um galho nas pernas e ele pensou ser uma cobra. Ou a triste história do irmão mais velho, o motivo pelo qual manca. Henriksen era para ser meu guardião, não Peter, mas três anos antes de ser enviado à minha procura, se envolveu estúpidamente em uma briga com três montanhenses bêbados. Um deles tinha um machado e quase decepou a perna de Henriksen. "Melhor a perna do que a cabeça", ele havia brincado, mas eu podia ver nos seus olhos o quanto ainda doía. Ele não quis revelar o motivo da briga e eu não insisti.
Estiquei os braços para cima, me alongando na espreguiçadeira e fechando os olhos para o sol despontando no céu. O dia estava lindo e a neve começara a derreter - indo contra minha teoria de que em Cold Wheather sempre nevava -, mas o clima condizia com o nome da cidade, já que não importa a força que o sol fizesse para emanar calor, ele sempre atravessava a atmosfera o suficiente para causar apenas cócegas na temperatura. Krisa tirou os olhos do livro que estava lendo e virou o rosto para as pessoas correndo atrás da bola no jardim. Um misto de risadas, grunhidos e gritos ecoavam pelas árvores.
_ Por que não está lá com eles? - perguntei. Os olhos grandes e verdes viraram para mim e seus traços do rosto se contraíram em uma careta.
_ São uns selvagens! - asseverou com desprezo nos olhos. Ela balançou a cabeça em desaprovação e os cabelos dourados farfalharam quando a pequena Rube caiu na lama, sendo esmagada, logo em seguida, pelo corpo de Felicy.
De fato, a brincadeira deles era violenta. Me lembrava muito com o futebol americano, mas era mais sanguinário e livre de quaisquer regras além de não poder morder. Rube, embora menor em idade e tamanho, se destacava. Tinha uma vivacidade em seus olhos, uma brutalidade bonita, exuberante que passava uma mensagem de aviso a todos que pensassem em mexer com ela. Rube era a definição exata de Krisa, uma selvagem. Ela e Felicy rolavam no chão, roupas, cabelos e lama em um emaranhado só enquanto elas desbravavam o solo com todas as partes do corpo. Arya, Sasha e Henriksen disputavam pela bola, a lama respingada nas botas e nas barras das calça, eram os únicos que não haviam caído ainda. Henriksen, por força, mas Arya e Sasha, usavam a esperteza. Peter e Ophelia se atracavam no chão, Peter possuía cuidado para não a machucar, mas Ophelia parecia uma onça que não queria deixar o almoço fugir. Era divertido vê-los atacando um aos outros para demonstrar, entre cada golpe, o amor e o afeto que sentiam. Mesmo que nunca chegassem a dizer em voz alta.
Respirei fundo, o cheiro dos pinheiros chegando em minha narinas. Era aqueles momentos que me distraíam, que arrancavam de mim qualquer sentimento ou pensamento que me levasse a outra crise. Os únicos momentos em que aquela imagem não percorria meu sangue, meus ossos e cada nervo do meu corpo em forma de terror. Fora por isso que Nanda teve a brilhante ideia de ocupar minhas tardes com treinos exaustivos. Aquela tarde, no entanto, era uma folga. Por coincidência, Krisa suspirou alto ao meu lado, fechando o livro com força e olhando por cima das árvores onde a fumaça cinzenta das casas no centro despontava para o céu. Então falou:
_ Preciso do segundo volume! Preciso de respostas! - exclamou para si mesma. Seus olhos recaíram sobre mim e então ela puxou minha mão - Vem comigo.
Não contestei quando fui arrastada para dentro da casa, na verdade, estava ficando ansiosa. Krisa me largou na porta e passou pela mãe como um furacão, gritando que ia pegar o dinheiro. Cassie me olhou confusa, mas apenas dei de ombros. Vovó Siara riu, sentada no sofá com as agulhas de crochê em mãos.
_ Livros, Cassandra, livros! - esclareceu ela.
Cassie deu um pulo quando Krisa saiu do quarto e passou correndo por ela, agarrando meu braço no meio do caminho e me arrastando para fora novamente. Atravessamos pelas pessoas que ainda se engalfinhavam umas as outras e corremos na direção da floresta. Em direção ao coração de Cold Wheather.
Não se esqueça de votar e comentar. Feliz dia das mães para todas as mamães!
Você é incrível!
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