23°|A poseira brilha

   Peter tinha um irmão. Sete irmãs.

   A mais velha, era a garota que estava do lado de fora quando chegamos, se chamava Ophelia. Depois vinha Sasha e Henriksen, gêmeos. Depois eu comecei a me perder de quem era quem ou a ordem de idade, mas tinha a Arya, Krisa, Felicy e a caçula, Rube. Além disso, ainda havia a avó, Siara, e os pais, Dwarf e Cassie. Gravar aqueles nomes de, certa forma, havia sido pior do que fazer a prova de geografia do Sr.Scheme.

   A casa é uma bagunça. Todo mundo falando em cima de todo mundo, gritando uns com os outros ou correndo pelos corredores. Todos eram muito elétricos. As risadas era o som mais comum. Eu e Peter éramos os únicos que se arrastavam de exaustão, cada músculo do meu corpo doía, piscar doía. Mas não fomos descansar de imediato, ficamos sentados no canto da sala até Nanda se estabilizar, porém em algum momento minhas pupilas foram ficando pesadas e toda a correria ficou mais lenta. Depois, a única coisa que lembro foi ter acordado no quarto de Ophelia, me sentindo totalmente revigorada.

   Agora, todos estávamos ao redor de uma mesa enorme recheada das mais variadas espécies de comida. Umas eu não tive coragem de provar. Nanda também estava junto, a cabeça enfaixada e necessitando da ajuda de Peter para ajudá-la a comer... Por algum motivo, eles não haviam revelado nada sobre o namoro ainda.

  _ Então, minha querida - a avó de Peter começou a falar, estava sentada na minha frente - Como é no seu mundo?

   A pergunta me pegou de surpresa. Era a primeira vez que alguém me perguntava aquilo. A primeira vez que tratavam a Terra, Califórnia, como o que realmente significava para mim: um lar. E toda a mesa havia parado para me escutar. Limpei a garganta, me sentindo desconfortável com tantos olhares em cima de mim, mas estava feliz por estar prestes a compartilhar a minha verdadeira história com alguém.

   _ Eu morava na Califórnia. É totalmente o oposto de Cold Wheather, já que é um lugar quente e repleto de praias, surf e garotos bronzeados...

   _ Ui, gostei da última parte! - Arya comentou animada, arrancando risos das mulheres na mesa e caretas por parte dos homens.

   _O que é... surf? - perguntou quem eu acredito ser Krisa. Ou Felicy.

   _ É um esporte que se pratica na água, onde a pessoa se equilibra na crista das ondas em cima de uma prancha...

   _ Ah, meu Deus! Isso parece incrível! - Rube exclamou e se virou com os olhos brilhando para a mãe - Posso fazer surf?

   _ Rube, nem temos praia aqui. - quem disse isso foi Sasha, Rube murchou na cadeira, murmurando um "é verdade" quase inaudível.

   O pai de Peter se levantou.

   _ Muito obrigado pela sua companhia, Alteza - agradeceu, seguido de uma reverência - Mas estas mocinhas... E mocinho - acrescentou olhando para Henriksen, que resmungou - Precisam voltar para o trabalho.

   Uma onda de reclamações se levantou, mas aos poucos cada um foi se dispersando. Peter ajudou Nanda a ir para o quarto descansar e eu fiquei apenas na conpanhia da vovó Siara. Ela me encarava com  um sorriso travesso.

   _ Eu já fui para os Estados Unidos. - revelou em um sussurro. A encaro assustada tentando descobrir se ela estava brincando - Quer dizer, faz parte da vida de um guardião ir parar em outro mundo. Embora nem todos sejam tão sortudos.

   _ A senhora já foi uma guardiã? - inquiri curiosa, ela acenou com a cabeça e inclinou o corpo para frente.

   _ Há muitos anos, mas fui afastada do cargo por... Alguns problemas amorosos. - riu endireitando a postura - Nós, os Drake, possuímos uma linhagem inteira de guardiões no sangue. Por isso Dwarf sempre foi muito rigoroso com os meninos, já que os homens são sempre os escolhidos. Horrível, não acha?

   _ Mas, a senhora é uma mulher. - pensei alto.

   _ Sim, eu sou!

   _ Então... Como? - o assunto me envolvia cada vez mais, me aguçando a curiosidade.

   _ Fui a única filha de meus pais, então para não acabar com toda a tradição, quebrei todas as regras impostas pelo Rei. Foi um milagre não ter morrido! - ela olhou pensativa para as próprias mãos - Foram os melhores dias da minha vida. Desde então, nunca mais tive nenhuma outra aventura ou um outro amor. A única coisa que me restou do meu Eddy foi meu filho... Não cometa o mesmo erro que eu, Princesa.

   Vovó Siara se levantou da cadeira e lentamente andou para outro cômodo. Fiquei sozinha na mesa. As engrenagens do meu cérebro trabalhavam para tentar responder apenas uma pergunta: qual dos erros?

   Eu estava entediada.

   Todos estavam ocupados com seus afazeres, mas ninguém me deixava sequer tocar em uma louça suja. Quando falei que era acostumada, riram e pensaram que fosse uma piada. Desde então, fiquei o tempo todo deitada na cama de Ophelia, encarando o teto. Até mesmo Nanda estava ajudando vovó Siara e Cassie na produção de agasalhos.

   Olhei para minha bolsa encostada ao pé da cama e então algo se ascendeu na minha mente. Algo que não era meu, mas por alguma razão estúpida meu cérebro resolveu pegar e esconder dentro do bolso de um paletó. Estiquei meu corpo e alcancei a alça da bolsa, trazendo ela para perto de mim e abrindo o bolso da frente, lá dentro a luz do quarto refletiu na prata, fazendo a poseira brilhar. Agarrei o objeto e observei os detalhes esculpidos, no meio o mesmo símbolo da bandeira Deesh e talhado como um rabisco, as iniciais B.III.G. Abri a poseira, me deparando com meu reflexo no espelho redondo e desgastado, até que ela começa a brilhar e então uma imagem surge. Era eu.

   Na imagem eu encarava aterrorizada para as minhas mãos, as pontas dos dedos estavam congelando. Ao meu redor, uma tempestade de neve furiosa. Eu colocava então a mão no peito e começava desesperadamente a arranhá-lo, como se eu quisesse arrancar algo lá de dentro. E então a imagem acabou comigo, ajoelhada no meio do caos, com o peito arranhado e as mãos ensanguentadas.

   Fechei a poseira com força. Meu coração doía e comecei a me sentir sufocada. Cambaleei para fora da cama e saí correndo do quarto. Passei pelos outros cômodos como um furacão, as lágrimas descendo incontroláveis pelas minhas bochechas, a garganta se fechando. Eu não pensava, minha mente havia se tornado uma nuvem densa de fumaça negra. Alguns tentavam me impedir e gritavam meu nome ao fundo, mas eu não estava no controle do meu próprio corpo. Finalmente, alcancei o exterior da casa. A claridade do sol me acertou em cheio e o frio me fez estremesser, mas eu não parei, continuei correndo como se minha vida dependesse disso. As árvores passavam como um borrão branco. Até que a neve foi ficando cada vez mais alta e então eu caí.

   O frio me abraçou. Eu não tive força o suficiente para levantar. Fiquei ali, deitada enquanto minhas lágrimas congelavam em meu rosto. Um movimento atrás de mim me chamou a atenção e então Peter se ajoelhou ao meu lado e me envolveu com seus braços.

   _ Eu estou aqui, Elle.

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Você é incrível!

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