19°|Red Tigger Village
Red Tigger era medieval. Desde as casas até o meio de transporte mais usado - carroças puxadas por cavalos de pescoço esticado. As ruas eram de terra vermelha e eram bem movimentadas. O que mais me chamou a atenção foram as "pessoas". Era como se eu estivesse dentro de um filme louco de fantasia, onde tigres andavam em duas pernas, usavam armaduras e possuíam armas. Onde haviam escorpiões gigantes que falavam. Mulheres de pele escamosa, ou sardas que na verdade eram olhos. Cabelos de folhas. Anões verdes. E as demasiadas coisas que eu não conseguiria descrever sem perder minha sanidade por completo.
Porém, eu fui obediente e não fiquei encarando. Embora tivesse sido muito difícil resistir a curiosidade que me sufocava por dentro.
_ Chegamos. - anunciou Nanda parando em frente de uma das casas e batendo na porta.
A porta se abriu, revelando uma mulher terrivelmente alta, de cabelos crespos e olhos vermelhos vibrantes como as pedras do muro. Ela tinha uma feição grosseira no rosto, que se dissipou no momento em que pôs os olhos em Nanda. Com um movimento rápido ela agarrou meu pulso e o de Peter - os que estavam mais próximos dela - e puxou pra dentro do casebre, Nanda se juntou a nós e a porta se fechou bruscamente atrás dela.
_ Por que tanto alvoroço? - Peter perguntou irritado pelo puxão.
_ Nanda, quanta saudade! - exclamou abraçando Nanda e ignorando Peter.
_ Glime, essa é a princesa do Reino Deesh, Elleanor. - Nanda me apresentou e eu me esforcei pra não rolar os olhos diante desse título ridículo. Glime fez uma reverência e eu a imitei desengonçadamente, sem saber ao certo o que fazer. Pela minha visão panorâmica, vi Peter contendo um sorriso. Não me surpreendeu que ele estivesse se divertindo com minha desgraça.
_ É um prazer, Alteza. - disse ela se endireitando.
_ Digo o mesmo, Glime. - sorri cordialmente.
_ Agora - começou Peter - Por que nos puxou pra dentro daquele jeito?
Glime intercalou os olhos entre mim e o chão. Parecia preocupada e por um minuto pensei que não falaria nada, até que ela abriu a boca:
_ Os guardas de Brand estão por todos os lugares, não se sabe ao certo o que querem, mas destroem casas, vilas. Eles estão sanguinários e mais cruéis que nunca. Ouvi que estão infiltrados em todos os reinos como espiões, recolhendo informações e depois queimam tudo e todos... - Glime me encarou - Eles estão te procurando, Princesa.
Nanda e Peter agiram de imediato, ambos se juntaram no canto da cozinha e começaram a se planejar enquanto eu ainda digeria a informação. Meu momento de digestão, no entanto, durou poucos minutos, pois assim que a conversa entrou em um assunto que não queriam que eu escutasse, eles praticamente ordenaram que eu e Glime fossemos arranjar comida e roupas limpas.
As roupas eram de Glime, porém nenhuma cabia em Peter ou era masculina o suficiente, então ela saiu na rua para comprar mais. Ela havia dito que deveríamos ter chamado muita atenção quando entramos com as roupas do baile, então me mandou trocar no mesmo instante. Eu substituí o vestido velho e sujo por uma blusa branca que me lembrava muito os piratas e uma calça de couro preta, além de arranjar uma bota do mesmo estilo da calça - o que foi um alívio, já que eu havia me livrado do salto alto desde o início da caminhada para Red Tigger Village. Ela também havia separado uma para Nanda.
Depois de arrumar as mochilas e tomar um banho, voltei para a cozinha e me sentei na cadeira, entediada. Glime não demorou muito para voltar com a roupa de Peter na mão e se juntar a mim na cadeira ao lado.
_ Sem querer ofender, mas não deveria estar lá com eles? - desviei meu olhar de Glime e o direcionei para Peter e Nanda, discutindo no canto do cômodo.
_ Ah, não! - exclamei, sentindo o peso do julgamento de Glime nos meus ombros - Estou acostumada. Eles sabem o que é melhor pra mim, de qualquer forma.
Glime assentiu e se calou. Ficamos observando os dois discutirem, mas a coisa estava ficando quente e não era no bom sentido. Ambos pareciam muito irritados, envoltos em uma nuvem de preocupação. Toda a felicidade que eu havia presenciado na cachoeira havia se extinguido em um piscar de olhos. Certo momento, Glime se cansou de me fazer companhia e sumiu casa adentro. Apoiei meus braços na mesa de madeira e descansei a cabeça, fechando os olhos e deixando o cansaço me dominar até tudo escurecer.
Quando abri os olhos, eu não estava mais na casa de Glime. O céu azul se estendia em cima da minha cabeça, o vento alvoroçava meu cabelo e balançava as árvores em volta. Eu estava em um campo de girassóis e logo a frente, vi minha mãe biológica. Ela estava diferente da última vez que a vi, no meu primeiro sonho bizarro, pouco antes de mergulhar na aventura tema Frozen. Os cabelos estavam de um azul mais claro e a pele mais rosada, além de que ela usava um vestido simples de verão.
_ Minha Lor Anihí. - murmurou. Eu não sabia exatamente o que fazer ou o que falar. Aquela mulher era uma estranha, apesar de ser quem me trouxe ao mundo. Como uma estranha pode causar tantos sentimentos bons e ruins ao mesmo tempo dentro do meu peito?
_ Por que me chama de "Lor Anihí"? - foi a única coisa que consegui falar, a voz trêmula por causa do nó que se formava na minha garganta.
_ É o seu nome de nascença...
_ Eu não gosto dele! - no momento em que eu disse aquelas palavras, quis tomá-las de volta. O rosto da mulher na minha frente se contorceu em dor, como se tivesse levado um soco no estômago - Quer dizer, eu... Elle... Desculpa.
Fitei o chão, tentando segurar as lágrimas. Eu não queria chorar, fora ela quem havia me abandonando. Me entregado para outros pais, para outro mundo. Ela era a culpa de eu ter sido maltratada durante todos aqueles anos. Ela era a razão da minha infelicidade.
_ Eu não tive escolha, Lor... Elle! - a Rainha Miranda se aproximou, seus dedos frios tocaram o meu rosto e o ergueu. Limpei a lágrima teimosa que escorreu pela minha bochecha e desviei meus olhos dos dela - Você talvez não saiba, mas eu procurei de todas as formas te livrar da profecia. E não vou mentir, eu não queria que tivesse voltado para cá... - a olhei magoada. Ela ainda não me queria? Mesmo depois de tudo o que enfrentei para vir parar nesse mundo de merda por ordem dela? - Pelo menos não com essa profecia! Eu não suportaria ver você se afundando em um final muito pior que a morte!
_ Do que você está falando? - ela se afastou de mim, ficando de costas e abraçando o próprio corpo.
_ Eu realmente sinto muito, Elle.
Então, sumiu. Ao longe, meu nome ecoava.
Acordei sobressaltada, me deparando com os olhos de Peter. Eles estavam lilases. Nem Nanda e nem Glime estavam por perto, mas eu conseguia ouvir o barulho de móveis sendo arrastados em um dos cômodos da casa. Lá fora, o mundo parecia estar acabando.
_ Vamos, levante! - Peter ordenou, praticamente me arrastando da cadeira. Nanda apareceu no vão da porta, todos os traços do seu rosto exalavam terror.
_ Eles nos rodearam! - e então voltou pro lugar de onde veio. Olhei aterrorizada pra Peter.
_ Quem nos rodeou?! - Peter ignorou minha pergunta, me empurrando pra dentro do mesmo quarto onde Nanda e Glime estavam. Todas as formas de entrada haviam sido bloqueadas por móveis.
Glime andou até o tapete no meio do quarto e o jogou pro canto, revelando uma portilhola. Meu sangue gelou enquanto as lembranças invadiam minha mente como milhões de bombas. Finquei meus pés no chão, fazendo Peter esbarrar em mim. Me virei para a porta, querendo voltar e sair de dentro daquela casa, não importa o que estivesse acontecendo do outro lado das paredes. Tudo era melhor do que entrar em um buraco como aquele de novo. Eu me sentia sufocada. Peter envolveu seus braços ao redor do meu corpo e me apertou.
_ Tudo bem, Ma Belle. - sussurrou em meu ouvido - Sei que não vai ser fácil, mas eu preciso que tente.
Anui. Me desfazendo do abraço e voltando a encarar a portilhola, que agora se encontrava aberta. Uma escada estava colada na parede, mas sumia na escuridão. Glime se aproximou de mim com minha mochila e uma espécie de bola peluda vermelha. Ela mexeu com o indicador no topo da bolinha e eu me assustei quando dois olhos vermelhos surgiram em meio a todo o pelo.
_ É um Nukuri, dos vulcões de Ternes - explicou Glime ao ver meu espanto e estendeu a mão para me entregar, mas eu recuei - São inofensivos, eu prometo. - Peter rolou os olhos impaciente e tentou pegar a bolinha da mão de Glime, mas o Nukuri flutuou sob a mão dela e se inflamou em chamas, queimando a mão de Peter.
_ Acho que ele não gostou de você. - comentei achando graça, mas o estrondo na porta fez todo o divertimento ir embora.
_ Não temos mais tempo, precisamos ir agora! - disse Nanda ajeitando a mochila dela no ombro. Nem ela, nem Peter haviam conseguido trocar de roupa ainda.
_ Os Nukuris gostam de gentileza - indagou Glime soprando na bolinha. A bola peluda pareceu sentir cócegas e as chamas se apagaram, dando oportunidade para Glime a prender em sua mão novamente - Pegue Elle, ele vai iluminar o caminho.
Estendi a mão temerosa. O Nukuri rolou alguns centímetros e retornou, com os pelos arrepiados como se houvesse levado choque. Mas então retornou e se aninhou, fazendo cócegas na palma da minha mão.
_ Acho que minhas mãos são muito frias para ele. - murmurei pra ninguém em particular. Respirei fundo e comecei a descer as escadas, mergulhando cada vez mais fundo na escuridão.
Quando eu toquei o chão, o Nukuri se acendeu em chamas novamente, mas não parecia mais irritado. A bolinha flamejante ficou ali comigo até que Peter e Nanda terminassem de descer. O barulho lá em cima havia ficado mais altos.
Boom! Boom! Boom!
Nanda desceu e Peter estava logo atrás, mas assim que seus pés tocaram o chão, a portilhola foi fechada e um último "boom" foi ouvido, acompanhado de um grito quase inumano. Era Glime.
Olá, meus floquinhos de neve!
Como está a vida na quarentena? Lendo muito?
Enfim, eu só queria dizer que: ultimamente eu venho recebendo muitos comentários e vocês não fazem ideia do quanto isso me alegra e me motiva! Vocês são a razão deste livro ainda existir e estar conquistando cada vez mais o espaço na biblioteca e nos corações de muitas pessoas aqui no Wattpad. O meu mais sincero MUITO OBRIGADA!
VOCÊS SÃO INCRÍVEIS!
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