PORTO ALEGRE

         "A raça humana fere, mata, maltrata...Sem uma real necessidade.
Por pura maldade...atos de crueldade!
Querem saber de verdade...
Acho que estão dando a vacina contra a "raiva" na raça errada!"
Raquel Free

         Júlio entra no supermercado Nova Esperança, sozinho. Deixou Amanda em casa preparando as comidas do tão famoso "Café da manhã Adubado", para o dia seguinte. Esse café da manhã é servido no restaurante deles.

         A lista de hoje, está enorme. Júlio, xinga a vida em pensamento. Na verdade, ele queria xingar a sua mulher, mas como a ama, não o faz.

         Amanda e Júlio se conheceram no restaurante. Ela trabalhava numa loja de telecomunicações, vendendo linhas e aparelhos de celulares. Foi amor à primeira vista. Ele a amou assim que a viu. Já Amanda não. Não foi por nada, mas, ela já havia sofrido com outros relacionamentos, antes mesmo de começar.

         O ser-humano pode ser muito cruel, quando quer. E essa crueldade, Amanda vem sentindo na pele a muito tempo. Desde cedo. Aos seis anos já sabia que não seria igual aos outros meninos.

          E quando foi chegando na adolescência, soube definitivamente que nunca seria igual, aos outros rapazes. Seu corpo era feminino. Seus desejos eram de mulher. Sua cabeça, também não seria diferente... de mulher.

          Júlio, ainda não contou para Amanda que conseguiu o dinheiro para cirurgia dela, embora sempre a dissesse que não precisava fazer a cirurgia, mas, ele via nos olhos da sua esposa que ela queria essa mudança. Algumas vezes, Amanda chegou a comentar com ele,
que era como se tivesse nascido no corpo errado.

          Ontem, Júlio foi numa agência de turismo e comprou duas passagens, somente de ida, para Porto Alegre, e a colocou dentro de uma caixa de presente, guardada embaixo do banco do carro. A operação de Amanda está marcada no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, na próxima semana.

          Júlio, olha para a lista em suas mãos, na verdade são duas páginas, frente e verso. O telefone dele toca.

— Júlio, falando.

— Boa tarde.

— Não reconhecendo a voz... poderia dizer quem vem de lá?

— É a voz de um pai enlutado. — Júlio, para de empurrar o carrinho de compras. Olhando para todos os lados, certifica-se que não tem ninguém o seguindo dentro do supermercado.

— Senhor Glauco, em que posso ajudá-lo?

— Eu desejaria te fazer uma pergunta... está muito ocupado? — Júlio suspira. Olha para seu relógio e responde.

— Bem, estou ocupado sim. Mas, pode perguntar.

— Eu recebi um currículo aqui — Júlio franze o cenho —, e desejaria saber se você conhece Lauro Jardim?

           Júlio sente seu coração acelerar. Ele aperta com força o aço do carrinho de compras.

— Pelo silêncio — Glauco continua —, sei que já sabe quem está na minha frente. Ele é muito bonito. Mas, um momento... o correto é dizer ele é bonito ou ela é bonita?

— O certo vai ser você não ter mexido com ela. Eu não estou...

— Cale a boca e me escute. Eu só preciso que você venha para sua casa. Temos umas perguntas para fazer, você responde e vamos embora.

— Glauco, pelo seu bem... espero que Amanda esteja bem.

— Amanda? Esse é o nome de Lauro? — Glauco tem por resposta o silêncio — Estamos todos aqui, te esperando. Não demore muito.

          Glauco, desliga seu telefone celular. Olha para Amanda que está sentada no sofá de lugar único, cercada por três trogloditas. Os outros estão vasculhando toda a casa.

          As maçãs do rosto de Amanda, estão deformadas de tanta porrada. Desde que Glauco chegou, com os seis brutamontes, eles vão se revezando entre espancamentos e procurando alguma coisa que revele os últimos planos de Rafael.

— Amanda... eu prefiro esse nome. Sabe o que significa seu nome? — Amanda, continua calada. Apenas olhando sem expressão para Glauco — O seu lindo nome significa "Aquela que deve ser amada".

         Glauco, estende seu braço e olha que horas são.

— Ele já deve está chegando. Pelo menos, acredito que ele deva está vindo voando. — Glauco abre um largo sorriso.

Um dos brutamontes que voltou de dentro dos quartos, abre um pouco a cortina da sala e diz:

— Ele acaba de jogar o carro no meio fio. — Todos os presentes, com exceção de Amanda, gargalham.

— Assim que ele entrar, vocês sabem o que fazer.

Júlio, entra exasperado porta a dentro e leva uma coronhada próximo da nuca... ele cai desmaiado. Amanda se alvoroça e tenta se levantar para socorrer o marido. Mas, os outros dois capangas de Glauco, a seguram sentada no sofá.

— Calma Lauro... calma.

— Eu sou Amanda. — É a primeira vez que Amanda fala desde a chegada deles. A sua voz reverbera com ira. Com aquela raiva contida e que está prestes a explodir — Meu nome é Amanda Souza. — O capanga da direita, esmurra a face de Amanda, tirando mais sangue da sua boca.

— Vejo que está perdendo o medo. Mas, não será por muito tempo. Eu sei trabalhar o medo. — Com um gesto com a mão direita, Glauco pede para um dos seus capangas pegarem Júlio. O que de imediato é atendido. O brutamontes que o golpeou por trás, pega-o pelo braço e o leva arrastando até os pés de Glauco.

Depois de depositá-lo diante do seu chefe, o capanga mais forte do que todos os outros, vai até a cozinha e pega um balde vazio, liga a torneira e deixa encher com água.

Sem dificuldades, joga água na cara de Júlio, que vira-se para o chão, colocando a mão direita por trás da cabeça e sente o sangue minando do ferimento.

— Peguem ele e o coloquem no sofá. — Um outro capanga, levanta Júlio e o joga com tanta força no sofá, que quase vira juntamente com ele.

Glauco senta de frente para o rapaz, e acende um charuto.

— Eu prometo não demorar muito. — Júlio ainda tonto, passa sua mão novamente atrás da sua cabeça — E peço desculpas pelo estado do seu namorado.

— Foda-se. — Júlio, cai no chão, depois de levar um murro desferido de cima para baixo, e bate com a cara na base do centro de mesa.

— Levantem ele.

— Eu... não sei o porquê... disso. — Fala Júlio sendo erguido pelo homem que parece um guindaste.

— Meu nobre rapaz, se você cooperar comigo, eu prometo que deixo você em paz.

— Cooperar com o que? — Júlio cospe sangue.

— Seu irmão, deve ter lhe contado o plano dele.

— Por que você acha isso? Aliás, vejo que seu... desespero... é real, mas, não tenho o que fazer. Rafael, nunca foi de me confiar seus planos. — Glauco olha para o brutamontes.

Amanda fica ainda mais aflita e desesperada ao vê um capanga segurar a mão do seu esposo, enquanto o outro quebrava-lhe os dedos da mão esquerda. Ela grita e leva outro murro.

— Eu... não sei de... nada. — Júlio fala sem forças, exaurido pela dor. O capanga maior de todos, levanta a cabeça dele para trás, o arrastando pelo cabelo. Fazendo-o olhar para Glauco.

— Júlio, eu não queria nada disso. E prometo deixar você em paz. Apenas me responda o que preciso saber.

— Eu... não sei de nada. — Um outro bomba acerta-lhe a cara. Amanda grita novamente e mais alto.

— Como é essa parada de transexual? — Glauco vira-se para Amanda — É aquela parada que tem dois sexos? — Amanda fica calada.

— Eu estou falando a verdade. Ele, não me disse nada...

— Tirem a roupa dela! Eu quero vê como é o sexo dela. Ou dele... tanto faz.

Amanda, esperneia. Tenta livrar-se das mãos que a segura. Júlio, tenta partir na direção da esposa. Mas, é parado com um murro, tipo uma martelada, nas suas costas.

          "Não deixe de ser precavido." Sim, foi essa frase dita por Rafael para Júlio, e que retumba em sua cabeça.

— PAREM! POR FAVOR PAREM! — Júlio grita de joelhos — Mas, por favor... parem com isso. Eu imploro.

— Olha aí! A razão se fez brilhar!

— Mas, com uma condição. — Fala Júlio olhando para Glauco.

— Sem condição alguma. Vamos! Continuem tirando a roupa dela!

— Um momento. Um momento... se continuarem com isso... você vai morrer de todo jeito.

— Júlio! Não diga nada! Por favor... não diga nada... — Agora Amanda leva dois socos cruzados.

         "Não deixe de ser precavido"

— Eu digo... mas soltem ela.

— Não!

— Glauco... se Amanda morrer, ou acontecer mais qualquer outra coisa com ela, você não terá mais o que veio pegar. Pense bem. A vida dela, pela sua e a de seus filhos.

           Glauco, levanta-se irado e chuta Júlio no peito. Depois, agarrando o rapaz pela gola da camisa, diz:

— Não tente me enganar. No estado que ela está, não irá muito longe. — Júlio faz sim com a cabeça — Soltem ela. — Ordena Glauco.

            Amanda, depois de levantar-se, consegue passar pelos capangas e por Glauco e se abraçar com seu esposo.

— Vai amor... vai logo. — Fala Júlio desajeitado — Pega o carro e vai. A chave está embaixo do banco.

— Tirem logo essa desgraça daqui! — Fala Glauco, gesticulando com suas mãos e pedindo pressa para as atitudes dos seus homens.

            O capanga mais forte, segura-a pelo braço e a joga na rua. Amanda, levanta-se meio que ainda tombando. Com as pernas bambas. Sem equilíbrio. Ela joga o cabelo para trás e tenta limpar um pouco o sangue do seu rosto, com as costas da mão.

          Desajeitada, abre o carro de todo jeito e mete a mão embaixo do banco. Uma caixa. Ela pega. Ao puxar a caixa, a chave do carro vem junto. Segurando a chave, ela tenta acertar a ignição. Demoram pouco. As mãos tremem.

            Depois que liga o carro, Amanda percebe como a caixa de presente é linda. Tem um laço vermelho em cima. Tipo aqueles laços natalinos. E a caixa é dourada e brilhante. Amanda, abre e vê duas passagens. Duas passagens para Porto Alegre. Amanda esmurra a volante do carro, chorando.

— Tem um cofre... atrás do guarda-roupa. A senha é "porto alegre". — Glauco pede para o capanga que está mais perto da porta do quarto, entrar e verificar se o que Júlio está dizendo é verdade.

         Ouvindo um "TEM", de lá de dentro, Glauco descansa seu coração. Embora ainda estaria apreensivo. Olhando para Júlio diz:

— Bom garoto! Seu irmão vai ficar muito orgulhoso quando te ver.

— Chefe... a senha não abre o cofre! — Glauco saca sua arma e aponta na cabeça de Júlio — Qual é a senha, seu filho da puta?

— Eu não disse que o porto alegre ao invés da letra "e" no final é um três?

          Toda estrutura da casa é sugada para dentro do chão, depois que o piso foi implodido. Todos, foram soterrados em segundos. A destruição toma conta de toda área, que a casa fora construída.

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