O DIA SEGUINTE

"Uma vida pela outra? Existe justiça nisso? A vingança é a irmã bastarda da justiça. "
J.I.j

— A cada dia que passa você está piorando.

— Eu estou morrendo, Júlio. É isso que acontece com quem está morrendo.

— Eu sei caralho... e isso me dói. Perder meu irmão. O seu café esfriou. Amanda! Venha aqui e coloque um pouco mais de café novo para Rafael!

— E o pior é que vou morrer sozinho. Obrigado Amanda, pelo café.

— Você deseja mais bacon?

— Não Amanda, muito obrigado. O café da manhã está ótimo. Pode ir atender os outros clientes.

— Não sei se vai lhe trazer alguma felicidade, mas, quando você morrer eu estarei ao seu lado. E que cara é essa que você fez? Não vai me dizer quando ela vai chegar?

— Lógico que não. Você é apenas o cara que consegue meus contratos.

— E quem vai colocar as moedas em seus olhos, seu ingrato?

— Eu farei isso. Ao senti-la se aproximando de mim, eu fecharei meus olhos e as colocarei em minhas pálpebras.

— Seu louco fodido de uma merda... o que tem medo? Que não faça isso?

— Eu? O meu medo, é que depois de morto você me sacaneie, tirando as moedas dos meus olhos. Como vou pagar o Caronte? Por que está sorrindo?

— Rafael, eu ainda não sei como acredita nessas coisas. Cara, é muita loucura na sua cabeça.

— Cada um tem sua crença Júlio... cada um vive por um sistema de crença, mesmo que seja escolher não ter nenhuma.

— E como foi o último trabalho?

— Eu tirei a foto. Um momento... vou te mostrar!

— Porra caralho! Guarda isso! Você está maluco em colocar essa foto assim? Em cima da mesa? Vai que alguém passa e ver seu doido fodido da merda! Por que está sorrindo?

— Sua cara foi ótima. Júlio, as pessoas estão cagando e andando para gente. Mas respondendo sua pergunta... ele teve o que merecia. Amanda, mais café por favor.

— Você nunca tem dúvida? Digo, quando está matando, não pensa que pode ter um inocente bem ali, na sua frente?

— Nunca duvido. A sorte nunca mente. Eu não mato inocentes, Júlio. E você sabe muito bem disso.

— Você faz como? Joga dados? Tira no palitinho?

— Tem certeza que não deseja mais bacon frito?

— Amanda, não serei rogado. Manda mais bacon para mim. Júlio, você é um cara de sorte!

— Por que diz isso?

— Olha para Amanda... ela é linda, sabe cozinhar, é educada e atende bem.

— E por que a sorte é minha?

— Não... você acredita que a merece? Júlio, você é tão fodido da mente quanto eu!

— Amanda antes de mim não era ninguém. Amanda! Poderia trazer uma toalha para nosso amigo? Porra Rafael... as pessoas olham assustadas, cada vez que tosse. O que te custa andar com um pano... qualquer coisa, sei lá.

— Fodam-se! Estou morrendo. É sério que acredita nessa sua fala? Ela mudou sua vida.

— Cala a boca! Ela está chegando.

— Muito obrigado Amanda pela toalha.

— De nada. Eu coloquei mais bacon para fritar. E muito obrigada por achar tudo que falou para Júlio.

— Eu apenas disse a verdade. Você é demais para ele.

— Seu bosta traidor de uma figa...

— Se você não acredita na escolha pela sorte, porque importa-se em querer saber?

— Voltando para a cozinha, deixando sozinhos novamente e obrigado mais uma vez Rafael!

— Você quem manda, Amanda.

— Agora ela vai se achar o último biscoito do pacote, porra. Não sorria caralho. Não vejo graça nisso.

— Vocês se merecem, estava te zoando.

— Zoando porra nenhuma! Você está me sacaneando, seu desgraçado! E sim... não acredito nessa coisa de jogar a sorte para escolher o contrato ou não.

— Júlio, no passado as coisas eram feitas assim. Vide a história de Jonas...

— Pare! Não vou escutar essa história novamente.

— Parei. Mas no passado, quando as pessoas se encontravam numa encruzilhada da vida, elas jogavam a sorte para saberem qual caminho seguir.

— Rafael, eu sei disso também. Não esqueça que foi você quem me apresentou esse mundo de escolhas, eu só acho falho e ao mesmo tempo conveniente jogar a culpa para os dados.

— Eu não jogo dados, Júlio.

— Independente de como faça, eu acredito que usa isso para não sofrer com sua consciência. Para não se torturar achando que matou um inocente.

— Entendi. E a sua consciência? Como convive com ela? E sabe mais de uma coisa? Parecemos dois bêbados arrependidos por termos bebidos toda a cachaça... e se há uma coisa na minha alma, não é arrependimento.

— Eu sei, desculpas. Todas as vezes que falamos sobre sua morte, fico nervoso e termino puxando um assunto sem sentido.

— Verdade. Da outra vez, você me mandou procurar uma mulher e ter filhos.

— Naquele dia estava bêbado.

— Alguns dizem que a bebida nos faz dizer a verdade.

— Rafael, você é o irmão que nunca tive.

— Eu sei disso irmão.

— E não precisa me abraçar. Todas as vezes as pessoas ficam olhando para gente, como se fossemos dois baitolas.

— Porra... quanto preconceito em seu coração.

— Deixe de falar merda. Se fosse preconceituoso não estava vivendo com uma transexual. O que você vai fazer agora?

— Esperar a morte.

— Por que não liga para aquela sua namorada?

— Namorada? De quem está falando?
— Da Gizela, lógico! Quem foi sua única namorada?

— Júlio, sabe quantos anos não a vejo?

— Não sei... quantos?

— Vinte e Três anos.

— Porra! Tudo isso?

— Pois é. Tudo isso.

— É... foi uma ideia estúpida.

— Eu nem vou te responder, o que achei dessa sua ideia. Bem, meu irmão, eu já vou indo. Preciso descansar.

— E não se preocupe. Se por um acaso, não chegar aqui no restaurante para tomar café, passo na sua casa.

— Isso irmão. Obrigado.

— Eu te amo irmão.

— A poucos minutos atrás, você não queria um abraço apertadinho porque as pessoas poderiam pensar que erámos dois boiolas... agora me diz "eu te amo".

— Rafael... vai se foder.

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